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25 maio 2009

DE QUEM É A TERRA?


"Basta que contemples de olhos abertos a viva natureza, encontrarás assunto para todo o sempre e aprenderás a ser modesto."
Karl von Frisch


Sob o titulo “A quem pertence a Terra”, Leonardo Boff escreve hoje no blog do Noblat o texto que, confesso, eu gostaria de te-lo escrito. Por que? Porque ele fala exatamente o que eu penso sobre a colocação e função do homem na Terra.
Ele diz: Apelamos até à palavra das Escrituras que nos dizem: ”entrego-vos tudo... propagai-vos pela Terra e dominai-a”(Gn 9,3.7).
Eu acredito que ele fala de um domínio onde o homem poderia desenvolver-se respeitando tudo o que já existe e o que ele poderia vir a conhecer. Contudo o homem armou-se, principalmente, de sua arrogância para a dominação e não da modestia que o cientista da epígrafe propõe. É que o homem deseja o que ele não tem e principalmente o objeto que ele não possui ou não é, mas que ele acha que o outro possui e é. Não importa quem seja o outro. Pode ser humano ou não. Isso explicaria as guerras ou a exterminação de seres diversos por conta da sua ação.
No terceiro parágrafo, essa afirmativa toma vigor, para em seguida cavalgar pelo cosmo e reduzir o homem à sua pequenez. Nessa medida, alguns homens que sobressaem pela fama, dinheiro ou poder, assumem uma arrogância para domínio de outros homens na suas relações. Freud já dizia isso quando escreveu “O mal estar na civilização”, como o terceiro, e talvez, o pior dos males ao qual o homem está sujeito.
Boff fala assim: Mudando de registro e caindo na nossa realidade cotidiana e brutal dos negócios: a quem pertence a Terra? Ela, na verdade, pertence aos que detém poder, aos que controlam os mercados, aos que vendem e compram seu chão, seus bens e serviços, água, genes, sementes, órgãos humanos, pessoas feitas também mercadorias. Estes pretendem ser os donos da Terra e dispõem dela como bem entendem.
Ridiculariza o humano que não é dono de si mesmo, nem de sua origem, nem da sua existência, menos ainda de sua morte.
A pergunta a quem a Terra pertence continua no ar. Ele conclui que a melhor resposta pertence às religiões, dizendo: Nós somos hóspedes temporários e simples cuidadores com a missão de torná-la o que um dia foi: o Jardim do Éden. Será isso possível algum dia?

Leia na integra no link acima.

01 maio 2009

RECORDAÇÕES PLENAS

“O vento varria os meses
e varria os teus sorrisos...
o vento varria tudo!

E a minha vida ficava
cada vez mais cheia
de tudo.”

Manuel Bandeira (de
Estrela da Manhã, em Antologia Poética, org. Emmanuel de Moraes, José Olympio Editora, Rio, 1986)


Numa tarde outonal de sábado, eu sou carregado em uma maca para o quarto do hospital aonde eu deveria ficar, ainda, por dois dias. Percebia nos rostos dos meus familiares que me esperavam, a apreensão e a dúvida. Até que entrou Telly Savalas e dirigiu-se a eles que ouviam as explicações e recomendações.
Carlos Nejar e Antônio Ribas
Eu ainda estava muito atordoado, mas sabia que Telly Savalas já havia morrido há uns quinze anos e que aquele era o Dr. Ribas, o neurocirurgião que operara, até instantes atrás, a minha espinha, como ele gosta de dizer.
Fiquei pensando o que leva uma pessoa a trazer lembranças de fatos, acontecimentos ou pessoas do passado. Malgrado a parecença de Dr. Ribas com Telly Savalas, não seria apenas isso, uma vez que ambos tiveram caminhos e épocas bem distintos em suas vidas.
Telly Savalas foi um ator de televisão e cinema dos Estados Unidos filho de imigrantes gregos. Antes de ser escalado como Kojak, o ator era conhecido apenas por papéis de bandido, muitos deles rodados na Itália.
Telly Savalas - Kojak
Como Kojak, em 1973, Savalas tornou-se internacionalmente conhecido, além de ganhar um Emmy pela atuação na série. Morreu em 1994, aos 70 anos, devido a complicações de um câncer de bexiga. Foi enterrado na ala George Washington do Forest Lawn Memorial Park, em Los Angeles. Em sua lápide, foi colocada uma conhecida citação de Platão: "a hora da partida chegou, e seguimos nossos caminhos: eu para morrer, e você para viver. O que é melhor, só Deus sabe fazer."
Honras feitas ao ator, o que tudo isso tem a ver com o Dr. Ribas?
Parece um tanto estranho que um conjunto de acontecimentos insistam em se fazer presentes num momento tão delicado como o de uma pós cirurgia. Fiquei a pensar nisso até que percebi que o próprio Dr. Ribas já havia me levado ao passado em uma das minhas consultas preliminares.
Ao revelar a sua predileção por poetas e autores brasileiros, o nome de Manoel Bandeira surgiu como um traço de união entre nossas vidas. Ele tem fortemente em sua vida a vibração de Manoel Bandeira e em mim, ficou um apagamento de Bandeira a partir da morte de uma irmã.
Em meados de agosto de 1968, minha irmã foi internada no hospital dos bancários, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, com metástase de câncer mamário. Eu ia visitá-la quase todos os dias. Ela ficou alojada num quarto individual. Numa dessas visitas, eu resolvi passear pela enfermaria feminina que ficava no mesmo andar. Certo dia conheci Nereida Pichon, uma argentina que falava um ponrtunhol com sotaque gaúcho. Ela aparentava ter uns setenta anos, mas talvez tivesse uns cinco anos menos. Estava em convalescência de uma cirurgia na coluna lombar. Conversava sobre tudo, mas admirava-se com autores brasileiros, principalmente do sul do Brasil. Mário Quintana e Erico Verissimo que eram os seus preferidos, mas entre os poetas, Manoel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade eram recitados diariamente.
Lembro-me de que quando eu a conheci ela falava de dores e sofrimento quando citou a celebre frase de Drummond: “A dor é inevitável e o sofrimento é opcional.”
Recitava: E como farei ginástica / Andarei de bicicleta / Montarei em burro brabo / Subirei no pau-de-sebo / Tomarei banhos de mar! / E quando estiver cansado / Deito na beira do rio / Mando chamar a mãe-d'água / Pra me contar as histórias / Que no tempo de eu menino / Rosa vinha me contar / Vou-me embora pra Pasárgada.
Esses versos eram recitados com pompa e orgulho. Seus olhos marejavam e brilhavam como jabuticaba. Todo seu rosto se iluminava. Eu sentia-me apaixonado por aquela mulher franzina e feia. Em minha juventude sentia-me capturado e fascinado por ela.
Ir ao hospital era para um mim um martírio. Tinha uma irmã definhando pelo câncer generalizado, mas visitar Neréia, como gostava de ser chamada, era sempre uma grande compensação.
Eu estava no primeiro ano do curso de ciências biológicas e aquele foi um ano conturbado, principalmente na França em maio e em agosto aqui no Brasil. Meus autores prediletos eram: Darwim; Karl Von Frisch; Storrer e Ussinger; Oswaldo Frota-Pessoa e Paula-Couto, dentre outros, todos ligados à biologia. Eu não me permitia “perder tempo” com autores da literatura. Os assuntos da política já me tomavam mais do que o tempo necessário, embora eu não fosse nenhum ativista.
No dia 13 de outubro eu fui ao hospital para tratar de um assunto bastante delicado para mim e minha família. O desembaraço para o sepultamento de minha irmã. Pela primeira vez não visitei Neréia.
No dia seguinte, fui ao cemitério São João Batista, para o velório e sepultamento de minha irmã. Somente nessa hora eu soube do falecimento e velório de Manoel Bandeira que se daria no mesmo cemitério, no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras.
Passados alguns dias fui visitar Neréia e comunicar-lhe que não voltaria mais lá. Quando ela me viu seu rosto franziu-se e as lagrimas brotaram de seus olhos. Eu abracei-a ternamente e choramos pelos nossos queridos. Eu não tive a coragem de falar-lhe da morte de minha irmã, mas ela intuiu o que acontecera e que seria a minha ultima visita e recitou-me, baixinho, ao pé do ouvido, “O último poema” de Bandeira: Assim eu quereria meu último poema / Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais / Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas / Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume / A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos / A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
Eu não sei dizer o quanto esses episódios foram marcantes para que eu não me lembrasse de ler Bandeira, mais tarde, quando dei a vez aos autores da literatura brasileira.
A psicanálise se fez muito presente neste último quartel de minha vida, onde passei a procurar explicar muitos sonhos, devaneios, ou aquilo que a razão não explica. Muitas vezes, nem mesmo para mim, encontrava explicações, muito menos para as pessoas que me procuravam.
Ulisses Tavares, em seu livro, “Quando nem Freud explica tente a poesia”, não dedicou a Bandeira nenhuma passagem, porém retira de Academia dos mortais de Bráulio Tavares o seguinte poema: A academia que eu sonho / não tem fardões nem patronos / nem brasões verde-amarelos // tem farra das oito as oito / tem coito em vez de biscoito / e um chazinho de cogumelos!
Dr. Ribas fez brotar, de tão longe, essas lembranças encobertas de minha juventude que, obviamente ressurgiram num dia tão importante para mim. Talvez e até por isso mesmo, que seus conteúdos afetivos acabaram por preencher o meu presente, como se fosse uma inspiração com chazinho de cogumelos.

27 janeiro 2009

A CURA DE SCHEPENHAUER DE IRVIN D. YALOM - O livro

Islan deixou um novo comentário sobre a sua postagem "A CURA DE SCHOPENHAUER DE IRVIN D. YALOM - O livro...":

Estou terminando o "De frente para o sol -- como superar o terror da morte" e passei a entender mais ainda o quanto somos "autobiográficos" quando não escrevemos sobre nós... é inescapável trazer parte de nós(autores)para oque oqer que se escreva... seja um comentário em um post perdido, seja numa receita de lasanha ou em um conto fantástico...
ótimo autor...

O livro mais interessante para mim não saiu no brasil ainda: "Psicologia Existencialista", mas ja existe o "Psicoterapia de Grupo - Teoria e Prática" com Molyn Leszcs da ARTMED. Em formato de compêndio.

07 julho 2008

DEUS PODE BEBER E DIRIGIR?

Por Rogério Silva

É dever moral evitar acidentes causados pelo exagero no consumo de bebida alcoólica. É dever do Estado coibir o desatino de pessoas alcoolizadas dirigirem seus veículos; cabe-lhe puni-las segundo o rigor da lei. Como, porém, se determina esse rigor para torná-lo efetivo?

Com essa pergunta Giannotti (A lei seca e a secura do Estado, no caderno mais! da Folha de S. Paulo) tenta organizar seu pensamento sobre a questão do uso da bebida e a direção de veículos. Segundo ele bastaria que o Estado se ocupasse de suas prerrogativas para acabar de vez com o problema.

Mesmo admitido que a bebida, no caso o vinho, possa trazer algum benefício à saúde como ele o faz, um Estado forte teria condição de controlar seus cidadãos minimizando o problema.

A mídia contabiliza que 30% dos acidentes são causados por pessoas que fizeram uso da bebida alcoólica. O que fica parecendo que não beber causa mais acidente. Sabemos que não é assim, pois ai está: o mal estado das estradas, culpa do Estado; o mal estado de conservação dos carros, culpa dos cidadãos e outros fatores.

A punição parece ser sempre uma forma legitima e eficaz de coibir abusos. Será? O que sempre vejo é que quando não se quer saber, nem punir cria-se uma comissão de inquérito. Vamos apurar. Apurar o quê? Nunca temos a resposta.

Se há o infrator e há a lei, a punição sempre nos parece inevitável. Mergulhamos no mar da apuração e nada acontece. Não precisamos de lei. Temos talvez, as mais bem boladas leis do mundo.

Por que então a punição não funciona? Eu poderia estar sendo simplista ao dizer que essas leis criam dificuldades e o seu subproduto é a venda de facilidades. Um dinheirinho junto com os documentos e uns tapinhas nas costas muitas vezes acabam sendo o resultado. É que o homem no seu mais que legitimo direito à hipocrisia e arrogância se acha acima de qualquer coisa.

Tem aquele que diz assim: “eu tenho carteira há mais de trinta anos, sempre bebi e sempre dirigi e nunca causei um acidente sério.” Essa frase é exemplar para explicar alguns fenômenos. Ele não considera os acidentes que aconteceram por sua causa sem que esteja envolvido nas conseqüências. Por exemplo, ele avança o sinal e o que tinha o sinal livre breca e é tocado por outro, por trás.

Tem também, o que na sua arrogância e prepotência determina que consigo nada acontecerá. O raciocínio é mais ou menos assim: “se Deus é a imagem e semelhança do homem, Ele é a sua imagem e semelhança, logo ele é Deus.” Nessa lógica, o poder de Deus é para punir e não para ser punido.

Numa coisa eu concordo com Giannotti, chegamos a uma situação exótica. Em vez de o Estado determinar uma medida da segurança, simplesmente se isenta dessa medida e pune aquele que bebe moderadamente, ciente de seus limites e de suas obrigações sociais.

Em suma, se propõe punir a maioria para evitar que desregrados causem malefícios. Na Noruega e na Suécia, a tolerância é zero, mas eles têm lá suas razões.

Aqui, esse exagero simplesmente repete o espetáculo de violência de um Estado fraco, que encena uma força desproporcional a seus recursos simplesmente para atemorizar.

O Estado é fraco porque é feito para os fracos. Os "bobos", os "otários", aqueles que pensam no seu bem estar e no bem estar da comunidade e por isso mesmo, aceitam o seu rigor.

04 junho 2008

POR UMA QUESTÃO DE DIREITO

03/06/2008 - 22h25

STF rejeita pensão para mulher que teve 9 filhos de seu amante por 37 anos

FELIPE SELIGMAN

da Folha de S.Paulo, em Brasília

Entre os mais de 100 mil recursos que tramitam no STF (Supremo Tribunal Federal), um deles chamou nesta terça-feira a atenção dos ministros da 1ª turma da Corte: a relação entre o fiscal de renda Valdemar do Amor Divino e sua amante, Joana da Paixão Luz, ambos baianos. "Com o sobrenome de ambos, estava escrito nas estrelas que eles tinham que se encontrar. É o encontro entre o Amor e a Paixão", brincou o ministro Carlos Ayres Britto.

De fato, eles se encontraram. Do amor, que durou 37 anos, nasceram nove filhos. Valdemar morreu no final dos anos 90, mas não foi Joana quem recebeu pensão.

O direito ficou para sua verdadeira esposa, Railda Conceição Santos, com quem Valdemar teve outros 11 filhos. Joana, porém, pedia a partilha dos recursos pagos mensalmente para Railda pelo Fundo Previdenciário dos Servidores Públicos da Bahia, alegando relação estável.

O recurso, cuja ação inicial foi protocolada em 2001 na Justiça da Bahia, foi negado pelos ministros da turma, por 4 votos a 1. O argumento de Britto foi vencido. Os demais ministros entenderam que Valdemar viveu relação estável com Railda e "concubinato" com Joana.

"Concubinato é compartilhar o leito e união estável é compartilhar a vida. Para a Constituição Federal, a união estável é o embrião de um casamento", afirmou o ministro Ricardo Lewandowski durante a sessão, ao justificar o seu voto.



Por Rogério Silva

Parece que o direito brasileiro resolveu assumir de vez que o Brasil é uma nação laica, como disse o Lula na época da visita do papa Bento XVI ao país.

Em menos de uma semana, o Superior Tribunal Federal votou contra ao questionamento de inconstitucionalidade da pesquisa com células-tronco embrionárias. Agora votou a favor da relação estável de Waldemar com Railda.

Não há dúvidas de que em ambos os casos o direito era líquido e certo. Contudo, também não há duvidas que em ambos os casos o direito tenha titubeado em questões divinas. É que no primeiro caso a vida in vitro estava em jogo, enquanto no segundo caso era o Amor Divino e Paixão Luz quem comandavam o espetáculo. O STF não se deixou enredar pelo amor divino, nem pela luz da paixão e a laicidade se fez mais óbvia.

Esperamos que em próximas demandas essa laicidade permaneça presente.



14 maio 2008

O SONHO DE CASSANDRA


Por Marco Aurélio Tasca

Assisti ontem ao filme O Sonho de Cassandra de Woody Allen e pensei em comentá-lo, talvez para colocar no Blog. Lá vai:

Achei o filme interessante e provocador, alias como tudo que Woody Allen faz.

Em primeiro lugar destacaria que se trata de uma tragédia, o que poderia provocar mal estar, mas que no meu modo de ver é exatamente aí que podemos nos beneficiar com a estória, pois nos tira o chão, por pensarmos que qualquer pessoa por mais normal que pareça poderia, de repente, estar no lugar dos personagens. Isso, paradoxalmente traz um grande alívio ao percebermos que não estamos passando por nada daquilo. A vida parece ficar mais palatável, as queixas cotidianas uma gota d’água num oceano. Pensei em paralelo com as tragédias gregas que tinham a finalidade de causar uma catarse, o que era muito saudável pois vazia com que as pessoas pudessem aprender a conviver com o trágico sem necessariamente terem que passar por ele, e talvez as fortalecessem para os males da vida! O filme ainda vale por outros atributos como fotografia, desempenho dos atores, etc...

Enfim, vale conferir.



Woody Allen lança "O Sonho de Cassandra"; leia entrevista da Folha de S.Paulo

Aos 72, Woody Allen lança "O Sonho de Cassandra", que estréia hoje no Brasil, reclamando de Hollywood, da velhice, da crítica e até de seus filmes... Em entrevista a Bruno Lester, da International Feature Agency, nega que seja um "intelectual": "Não me interesso por livros complicados". Allen comenta ainda o lado trágico de "Cassandra", em que Ewan McGregor e Colin Farrell vivem irmãos endividados que recebem proposta para cometer um crime.

PERGUNTA - Do que trata "O Sonho de Cassandra"?

WOODY ALLEN - É simplesmente a história de alguns jovens muito simpáticos que se envolvem numa situação trágica, em função de suas fraquezas e ambições. A intenção deles é boa. Eles foram educados com decência, mas os acontecimentos e seus próprios atos os conduzem a um final trágico.

11 maio 2008

RETÓRICA

Por Rogério Silva

Na verdade, este deveria ser apenas um comentário à postagem de Cesar Kiraly, Partidos Políticos e Sociabilidade, onde ele afirma que no Brasil a política sempre acontece de um modo conservador e os movimentos que investem contra a ordem conservadora, conseguem fazer o que não é espontâneo, fazem com que poder proteja a sua capacidade de concentração. A política no Brasil só é mobilizada contra os movimentos de invenção social. Por que os partidos políticos são formas sem conteúdo, formas necessárias, mas sem conteúdo, e por isso de conteúdo é retórico.

Quem já foi criança e se lembra das brigas entre os garotos. Lembrará também, que nem sempre era o mais forte que ganhava a briga. Logo após a primeira tapa chegava a turma do “deixa disso” que apartava a briga e o que levou a tapa era o perdedor.

Desde cedo aprendemos que a história só é contada pelos vencedores. O garoto que levava a tapa, desmoralizado se encolhe com vergonha, enquanto o outro se vangloria e muita vez aumenta a historia. Esse aumento, embora muitas vezes ingênuo, é a forma da retórica que será utilizada mais tarde, seja na vida pública quanto na vida privada.

Quando Manoel de Barros diz: "Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira", ele esta fazendo uma retórica. Uma retórica que procura fazer com que o outro se convença de que ele está correto através do seu próprio raciocínio. A invenção, não é necessariamente uma verdade, mas pode ser. Quem pode contestar?

Quando ele era criança não gostava de estudar até descobrir os livros do padre Antônio Vieira. Chegou a dizer que a frase era mais importante que a verdade, mais importante que a sua própria fé. O que importava era a estética, o alcance plástico. Foi quando ele percebeu que o poeta não tem compromisso com a verdade, mas com a verossimilhança. Um bom exemplo disso está num verso de Manoel que afirma que "a quinze metros do arco-íris o sol é cheiroso." E quem pode garantir que não é?

A retórica não visa distinguir o que é verdadeiro ou certo, mas sim fazer com que o próprio receptor da mensagem chegue sozinho à conclusão de que a idéia implícita no discurso representa o verdadeiro ou o certo.

Desse ponto de vista, eu acredito que a retórica pode servir a vários propósitos, desde que quem dá a primeira tapa possa convencer.

Acabamos de assistir o embate entre a Ministra Dilma Rousseff e o Senador José Agripino Maia. Sem dar ênfase ao conteúdo, podemos perceber como ambos lançaram mão da retórica para convencer o plenário.

Talvez possamos dizer que a Ministra tenha dado a melhor tapa, por que o conteúdo de sua fala continha aquilo que há de mais revolucionário e democrático, que foi a sua participação na vida política do Brasil, no período da ditadura. Um ruído surdo que ainda tentará se fazer ouvir por muito tempo. Esse passado histórico constituí uma mancha no processo democrático, que demonstra quão conservadora é forma de se fazer política por aqui.

Diferentemente da Ministra os partidos políticos não possuem, a meu ver, um compromisso com o discurso verdadeiramente democrático. Não possuem uma retórica única e verdadeira. Ela oscila ao sabor dos interesses partidários, não cabendo por fim uma transformação social.

Como afirma Cesar Kiraly, no Brasil os partidos ainda são formas cujo conteúdo, retórico por excelência, muito pouco mobiliza valores, e, pela admissibilidade social de que vale tudo no jogo do poder, os partidos são formas retóricas vazias. As formas de governo de esquerda são absolutamente conservadoras, em alguns aspectos.

07 abril 2008

A CURA DE SCHOPENHAUER DE IRVIN D. YALOM - O livro




Por Rogério Silva

Ao copiar os aforismos de Shopenhauer do livro de Irvin D. Yalon, sinto que de algum modo provoquei os leitores desse blog ou despertei em outros algumas curiosidades. Por isso resolvi escrever, não uma resenha, mas um breve comentário sobre o que li.

Depois de ler “Quando Nietzsche chorou”, “Mentiras no divã” e “Carrasco do amor”, todos do mesmo autor, a gente já se familiarizou e aprendeu que, este psiquiatra de 76 anos, sempre encontra um jeito de se colocar nos seus textos, fazendo com que tenha um quê de autobiográfico.

O mais incrível, é que mesmo sendo um romance, seus livros parecem ensaios sobre o tema apresentado, trazendo aspectos técnicos e teóricos de psicoterapia alem do conhecimento dos filósofos. Mais incrível ainda quando se trata de grupos de terapia.

Na década de 70 eu participei, como componente, de um grupo terapêutico, aqui no Rio de Janeiro, por cerca de três ou quatro anos, não me lembro bem. O que me lembro bem é de como alguns membros do grupo tiveram participação forte e outros que, apesar de sua participação ocasional, muitas vezes, mudavam o rumo do assunto.

Hoje em dia, eu escuto falar muito pouco de terapia de grupos por aqui, mas sei que existem muitas instituições que ainda mantém essa prática.

Como minha leitura de Shopenhauer é muito fraca, creio que aprendi muito com Yalon. Contudo, o que mais me chamou a atenção foi o jeito como ele arranjou um terapeuta e um paciente que coloca a situação como se fosse ele mesmo o terapeuta e Shopenhauer um dos participantes

"Viver é sofrer." É o modo como Arthur Schopenhauer filósofo do século XIX conhecido por suas idéias pessimistas em relação ao sentido da vida, encontrou para dizer que os relacionamentos e os desejos só levam à dor e ao tédio. A salvação para o sofrimento humano, causado pela existência, é renunciar ao mundo, tornando-se assim verdadeiramente livre.

Para a personagem Julius Hertzfeld, psiquiatra renomado e ferrenho defensor da terapia em grupo, a salvação só pode ser atingida quando se constrói relacionamentos sólidos, baseados no amor e na compreensão das diferenças e dos limites de cada um. A notícia de que tem um câncer incurável não é o bastante para lhe tirar a vontade de ajudar as pessoas a encontrarem esse caminho.

Ao fazer uma avaliação de sua longa carreira como psicoterapeuta, Julius decide procurar seu maior fracasso - um antigo paciente chamado Philip Slate, viciado em sexo e que diz que curou-se seguindo as doutrinas de Schopenhauer - e o convida a participar do seu grupo de terapia. A presença de Pam uma ex-conquista de Philip, que o odeia pela frieza com que foi descartada no passado, obriga-o a encarar seu atos e desencadeia conflitos entre os pacientes e acirradas discussões filosóficas com Julius.

“A Cura de Schopenhauer” é o relato comovente de personagens demasiadamente humanos, que no processo da terapia em grupo desnudam suas mentes e seus corações, tornando-se mais reais do que a própria realidade.

A nota destoante, no meu entender, é a onipotência da medicina que dá um prazo de validade infalível a Julius.

30 março 2008

SÃO PAULO NO DIVÃ

Por Rogério Silva

Quando abri o caderno mais! da Folha de S. Paulo de hoje e encontrei o artigo: São Paulo não pode parar - Psicanalista ataca a negligência das autoridades e sugere medidas simples para desafogar o trânsito na capital paulista de RENATO MEZAN. (para quem é assinante da Folha ou da UOL)

Eu pensei que encontraria um texto com alguns aspectos psicanalíticos ou filosóficos que pudessem refletir a questão. Na verdade o que encontrei foram sugestões e medidas práticas para resolver o transporte urbano de São Paulo. Imagino que a condição de munícipe se agigantou com a indignação mais do que outros aspectos; clínicos, teóricos e técnicos da psicanálise. Tenho a certeza, ele faria isso com brilhantismo.


Isso cutucou a minha veia carioca de poder tratar o assunto com um pouco de humor. Então eu pensei: e se puséssemos a Cidade de São Paulo no divã do analista?

O analista: - Em que eu posso ajudar?

- Estou completamente desanimada. Nada do que faço me satisfaz hoje em dia. Eu já tive dias gloriosos, era progressista, produtiva, politizada, sempre trabalhei duro e hoje me sinto abandonada, paralisada, amedrontada, violentada e o slogan que no apogeu era “S. Paulo não pode parar” já não vigora mais. Estou paralisada no trânsito, na saúde, na educação. A violência tomou conta de mim. Pelo que escuto dizer, devo ser a pior filha da nação hoje. Eu me sinto um lixo. Tenho vontade de morrer e às vezes, quando chove, eu sinto que chego perto disso.

- E aqueles que deveriam cuidar de você?

- Esses são os piores. Governadores, prefeitos, políticos de um modo geral, todos me tratam com a maior indiferença. Até mesmo os que aqui vivem. Não se importam se meus rios ficam poluídos e transbordam, se o transito fica engarrafado, caótico, se os pobres morrem à míngua, se os doentes são mal atendidos nos hospitais públicos, se as escolas ficam vazias por falta de professores. Eles querem esbanjar, gastam tudo em bobagens que não nos interessa e enchem os seus bolsos.

- Em suma, eles não cuidam de você.

- É isso mesmo. Teve uma época que eu mal podia respirar, por que abriam, por aqui, fábricas e mais fábricas e o céu vivia cinza. Pensei que eu fosse morrer, mas eles amenizaram e me deixaram respirar um pouco. Agora é o trânsito. O Sr. Já pensou na quantidade de carros que entra aqui por dia. Carros que são adquiridos, que entram definitiva ou temporariamente. Veja por exemplo o rodízio. Uma família que tem três pessoas, talvez um só carro bastasse, mas eles acham pouco e querem três. Mas como há o rodízio, cada um precisa de dois, portanto possuem seis. O pior é que geralmente usam os três de uma única vez.

O seu artigo de hoje está muito bem escrito, mostra uma indignação verdadeira e até dá sugestões.

- O que você quer dizer é que falta afeto.

- Isso mesmo, me lembro de alguns congressos de psicanálise que ocorreram por aqui em que falavam num tal de Freud que tinha escrito “O Mal-estar na Cultura”. Naquele texto ele falava de três grandes males que afetam a humanidade. O mal da natureza, que conheço bem quando chove ou fica muito tempo sem chover, por exemplo. Os males do corpo, as doenças. Acho que nesse quesito só perdemos para o nordeste, mas aqui sofremos muito. E o pior de todos. As relações humanas. Procurei na Wikipedia e encontrei a palavra hipocrisia que é o ato de fingir ter crenças, virtudes e sentimentos que a pessoa na verdade não possui. A palavra deriva do latim hypocrisis e do grego hupokrisis ambos significando representar ou fingir.

O cientista cognitivo Keith Stanovich fez uma carreira do estudo da hipocrisia. Ele a vê como surgindo da incompatibilidade de tais coisas como o interesse próprio e os desejos com crenças de ordem mais alta na moralidade e na virtude. As únicas pessoas que não são hipócritas são a minúscula e talvez não-existente minoria que é tão santa que nunca se entregam a seus instintos mais básicos e o grupo maior que nunca tenta viver segundo os princípios da moralidade ou virtude. Ele dessa forma defende que os hipócritas são na verdade a classe mais nobre das pessoas. François duc de La Rochefoucoult tinha expressado alguns séculos antes uma opinião semelhante quando declarou que "a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude."

Na época das eleições eles apresentam planos mirabolantes, prometem, prometem, mas fica tudo por isso mesmo.

Ainda havia o afeto. A relação de carinho ou cuidado que se tem com alguém íntimo ou querido. É esse estado psicológico que permite ao ser humano demonstrar os seus sentimentos e emoções a outro ser vivo, seja humano ou não.

Em psicologia, o termo afetividade é utilizado para designar a suscetibilidade que o ser humano experimenta perante determinadas alterações que acontecem no mundo exterior ou em si próprio. Tem por constituinte fundamental um processo cambiante no âmbito das vivências do sujeito, em sua qualidade de experiências agradáveis ou desagradáveis.

Por muitas vezes fui palco de muitos congressos desses, mas agora sou palco do desinteresse, do abandono e do desamparo.

Só Freud explica!

19 fevereiro 2008

O VALOR DA AMIZADE

Por Rogério Silva

Chaim e eu no lançamento de seu livro "O coração distante" em 1994

Amigo é coisa pra se guardar

Debaixo de sete chaves

Dentro do coração

Assim falava a canção

Que na América ouvi

Mas quem cantava chorou

Ao ver seu amigo partir

Canção da America de Gil de Lucena e Milton Nascimento

Qual o valor da amizade? Para compreender isso teremos que invocar os Deuses do Olimpo e perguntar qual foi a real intenção do envio da caixa com os males humanos aos pobres mortais.

Prometeu então, garantiu aos humanos que iria ao Olimpo e roubaria o Fogo Sagrado dos Deuses e os daria aos mortais para que estes adquirissem o Poder Divino e se igualassem a eles.

Em retribuição a este roubo, os Deuses irados enviaram a bela Pandora, segurando uma caixa, de presente aos humanos. Por curiosidade, abriu-se a caixa para ver o que havia sido enviado do Olimpo.

Na atualidade, esta tarefa coube a outro imortal trazer o paradoxo da amizade. Queridos amigos, odiados amigos, foi a coluna apresentada na Revista do Jornal O Globo deste domingo, assinada por Chaim Samuel Katz.*

Chaim marca a amizade como a possibilidade de diferenciação que ela oferece a si e ao outro. Ele se baseia em Freud para explicar como as mais fortes relações familiares existentes, são as que se fazem em torno da autoridade e da função paternas. O grupo familiar estabelece como cada indivíduo conhece seu lugar na estrutura de parentesco. Antes mesmo de nascer, já existem posições e escolhas determinadas, ao menos de filho. Amor e ódio ocupam lugares com figuras e objetos determinados para atingir.

Para ele o que se conhece como família se funda nas relações de aliança, filiação e consangüinidade. Funciona como uma rede. Rede essa que obrigaria os afetos e as ligações. Ela não depende do nascimento imediato e fisiológico, mas é permanente, organizando-se em torno das relações familiares. Para a psicanálise, os afetos provem destas relações, que se organizam em torno de um evento não-sensível.

Eu ainda acrescentaria que para nós humanos, de família burguesa, humilde ou asilar, não importa, já nascemos também com uma crença em Deus; uma religião; uma profissão, um sexo – que não irá corresponder necessariamente com o biológico; um time para torcer; uma circuncisão e/ou um Bar Mitzvah; uma primeira comunhão; em algumas regiões da Índia, as meninas já nascem até com marido; etc. Uma escolha ulterior muitas vezes se torna difícil, graças aos reforços como as fotos como a camisa do time, do batismo, do Bar Mitzvah, etc. O pior reforço talvez seja uma reprovação como: “não faça isso que papai do céu castiga”. Obriga uma crença feita pelo medo. Talvez essa forma de “não-escolha” também influencie na relação de amizade.

Estão na linguagem dita popular, as formas mais diferenciadas de se organizar e sentir. Os apelidos mudam, de acordo com as relações afetivas, de poder e de interesse. Formam-se novas configurações familiares, novas configurações de amizade. Enquanto os irmãos e tias familiares serão sempre os mesmos na estrutura de parentesco, por "mais que os abandonemos e recusemos.” É preciso considerar novas ordens de famílias, onde um segundo casamento impõe novos manos e tias, e os casamentos homossexuais impõem dois pais masculinos ou duas mães femininas, mas que também "exigem" uma hierarquia de relações e afetos que tende a se perpetuar.

Não se pode perder de vista que qualquer laço libidinal, por mais distanciado e respeitoso que possa ser, quer possuir e anexar o próximo, anular seu estatuto atual. Contudo, o amigo pretende se criar e transformar a si próprio. A amizade precisa suportar diferenças extremas, o inusitado que se apresenta como adversidade; e não espera que só venham formas de um único amor para unir os amigos. As amizades são feitas de um material mais duro, de diferenças e de dissenções.

* Chaim Samuel Katz é psicanalista e imortal da Academia Brasileira de Filosofia

06 fevereiro 2008

DEMOCRACIA E DESEJO DE VIOLENCIA

Por Rogério Silva

O caderno mais! da Folha de São Paulo desse domingo trás o artigo O soldado de Tocqueville onde o escritor Michel Houellebecq discute a democracia prevista pelo pensador francês, aborda a hegemonia cultural americana e faz uma defesa do futebol como antídoto ao "desejo de violência"

Deixando de lado a questão da hegemonia cultural Americana, me chamam mais a atenção as questões que tratam da democracia e do desejo de violência.

Houellebecq enaltece Auguste Comte (1798-1857), cujo pensamento teve um papel tão importante na formação do Brasil e ainda seguindo o que a idéia continha, acrescenta que na era militar, o principal meio de que uma população dispunha para aumentar seu nível de vida era invadir o território de seus vizinhos. Na era industrial, a guerra, pensa Comte, deve normalmente tornar-se econômica.

Essa mudança de enfoque deve mudar também o modo de como o homem se apropria de suas aquisições no mundo moderno.

Segundo Elias Canetti, a caça e a guerra se diferenciam pelo modo de agir do homem para obtenção de seus objetivos. Na caça ele se move em direção a um ser vivo que deseja abater, para incorporar a si como alimento. Abater é sempre a sua meta mais próxima. O alcançar e o cercar são os seus meios mais importantes. O seu alvo é um único e grande animal que deve servir de alimento para si e para o seu grupo. Na guerra, porém a finalidade é o aniquilamento do outro com o objetivo de apropriar-se do que o outro tem e por isso encontra sempre uma oposição que lhe promove perdas, humanas e materiais, durante o embate.

Quando Comte afirma que a era industrial, deve normalmente tornar-se econômica, eu entendo que ele quer demonstrar que o homem estará cada vez mais distante do homem que come o que caça, do que aquele que adquire seus bem e alimentos pelas leis de mercado. Sob esse aspecto os etólogos humanistas se ocupam melhor quando estudam o homem e seu comportamento no fenômeno da violência. Mas este é um assunto que me ocuparei numa próxima postagem.

Houellebecq acredita que se as revoluções e as guerras, como previa Comte, acabassem por desaparecer, dando lugar ao consenso liberal e as guerras ficassem limitadas ao campo econômico, seria necessário encontrar um canal de escoamento para esse desejo de violência.

Com isso ele trás o futebol como um meio de liberação de adrenalina que seja capaz transformar um combate físico num combate lúdico, principalmente nos jogos como a Copa do Mundo onde está presente a identidade nacionalista.

Contudo, suas idéias vão de encontro à sociedade descrita por Tocqueville, diferindo apenas num detalhe: a família, a última estrutura social que ele via subsistir, em meus livros está desaparecendo.

É importante observar também o papel da mídia, particularmente da televisão, doméstica e onipresente, no rompimento do isolamento familiar e conseqüentemente, na dificuldade crescente dos pais controlarem o que vai ser transmitido a seus filhos.

Para Elizabeth Roudinesco, a família tentacular contemporânea, menos endogâmica e mais arejada que a família estável no padrão do século XIX traz em seu bojo as marcas de sonhos frustrados, projetos abandonados e retomados, esperanças de felicidade das quais os filhos, se tiverem sorte, continuam a ser portadores. Pois cada filho de um casal separado é a memória viva do momento em que aquele amor fazia sentido, em que aquele par apostou na falta de um padrão que corresponda às novas composições familiares, na construção de um futuro o mais parecido possível com os ideais da família do passado. Ideal que não deixará de orientar, desde o lugar das fantasias inconscientes, os projetos de felicidade conjugal das crianças e adolescentes de hoje. Ideal que, se não for superado, pode funcionar como impedimento à legitimação da experiência viva dessas famílias misturadas, engraçadas, esquisitas, improvisadas e mantidas com afeto, esperança e desilusão, na medida do possível.

Mas o processo de atomização social de Houellebecq está a ponto de atingir seu estágio final. Ao mesmo tempo em que, como ele havia previsto, o controle higienista social é cada vez mais minucioso e coercitivo, como a proibição de fumar.

O que lhe deixa mais surpreendido em Tocqueville é que, apesar de acreditar que a democracia reduz o homem, que pode degenerar para um despotismo infantilizador, não deixa de ser partidário da democracia. Ele acredita que Tocqueville era sinceramente partidário da democracia, porque sentia a injustiça do sistema aristocrático.

Portanto, o maior inconveniente de uma democracia, para resumir Tocqueville, é a transformação de uma sociedade em um rebanho obediente, uniforme, de indivíduos não ligados entre si, unicamente ocupados com sua saúde e seu prazer. Com um controle social cada vez mais protetor, infantilizador. Em resumo, é a impossibilidade do aparecimento e do desenvolvimento de individualidades fortes.

Quando elas aparecem, se quiserem sobreviver, se quiserem acabar seus dias em outros lugares que não hospitais psiquiátricos, só têm uma única saída socialmente aceitável: lançar-se em carreira artística. Em termos artísticos, assim que tentamos agradar, que buscamos o consenso, que nos afastamos do processo simples no qual um artista é direta e pessoalmente responsável por uma obra, caímos inevitavelmente na mediocridade.

Na postagem anterior me ocupei com a questão da eugenia no Brasil que tem sido apresentada sob vários aspectos. A partir do livro de Jurandir, é citada a opção eugênica da Liga Brasileira de Higiene Mental, na década de 1930. Essa opção é explicada pelo autor como uma aproximação aos ideais nazistas da psiquiatria alemã.

Talvez eu tenha sido excessivo na postagem, mas será que não poderíamos aproximar as idéias de Houellebecq/Tocqueville das idéias contidas naquela postagem?

04 fevereiro 2008

HÁ LIBERALISMO NA PSICANÁLISE?

Por Rogério Silva

Vladimir Safatle apresenta no seu artigo deste domingo do Caderno mais! (para assinantes da Folha ou da UOL) da Folha de São Paulo: A psicanálise e o liberalismo um entendimento de que as obras de Jurandir Freire Costa querem mostrar que "a religião não é o produto de uma mente em débito com o sexo, a morte ou a alienação ideológica". Mas talvez Freud não procure só reeditar o combate entre luzes e superstição, mas insistir em que a modernidade está bloqueada devido a um modo de organização libidinal reproduzido, de modo simétrico, em estruturas institucionais como a família, a religião e o Estado.

Como se as estruturas institucionais de reprodução de nossas formas modernas de vida, longe de serem desencantadas e laicas, ainda fossem dependentes de esquemas "teológico-políticos" que encontramos, principalmente, na tradição "greco-judaico-cristã". Afinal, não é sintomático que, mesmo não sendo o produto de uma mente em débito com o sexo e a morte, as religiões cristãs não cessem de falar sobre morte e sexo, de tentar nos ensinar como normatizá-los? É o que se pergunta.

É bom lembrar como e porque a Liga Brasileira de Higiene Mental foi fundada em 1923. O termo Higiene Mental proposto, foi substituído em 1948 por Saúde Mental. Mas a idéia da Liga trazida para o Brasil por Gustavo Riedel recebeu sua incumbência de Clifford Beers, tinha como finalidade a melhoria do atendimento aos portadores de doença mental.

A questão da eugenia no Brasil tem sido apresentada sob vários aspectos, alguns criaram “mal-estar” nos meios psiquiátricos, seja pelo tom acusador, seja pela injustiça cometida, e têm sido repetidos em sucessivos trabalhos universitários. A partir do livro de Jurandir, é citada a opção eugênica da Liga Brasileira de Higiene Mental, na década de 1930. Essa opção é explicada pelo autor como uma aproximação aos ideais nazistas da psiquiatria alemã. O fato de ter sido publicado nos Arquivos de Higiene Mental a Lei eugênica alemã de 1934 dá a impressão de reforçar as idéias do autor. Num período atribulado da história brasileira: a crise econômica de 1929, a revolução de 1930; a revolta constitucionalista de 1932; a revolta comunista de 1935 e a tentativa de golpe integralista de 1938. O Brasil vivia num período de afirmações totalitárias e convivia com a ditadura Vargas que tentava se equilibrar entre as forças em luta pelo mundo.

Sem dúvida nenhuma, a eugenia perdura na atualidade, com outros nomes: aconselhamento genético, controle da natalidade, perfil de DNA e outros. O fato de ter sido utilizada pelos nazistas na sua Solução Final já é outro assunto.

Contudo, a repetição nos meios acadêmicos de críticas à Liga criou um “mal-estar” em que não é saudável se afastar de certas posições repetitivas de crítica ou posicionamento ideológico. Nota-se nos diferentes trabalhos uma certa repetição da visão de alguns pesquisadores, como Jurandir com sua História da Psiquiatria Brasileira que, em verdade, se trata de uma apreciação de determinado período de atuação da Liga Brasileira de Higiene Mental.

Gustavo Riedel, natural do Rio Grande do Sul, entrou na Escola de Medicina de Porto Alegre e no meio do curso transferiu-se para o Rio de Janeiro. Tornou-se clínico e graças ao seu prestígio foi nomeado diretor da Colônia do Engenho de Dentro que hoje é leva o seu nome. Recebeu do próprio Clifford Beers a autorização para a criação da Liga de Higiene Mental no Brasil. Sua filosofia de atuação foi grandemente influenciada pelo movimento sanitarista. Destaca-se a excursão de Belisário Penna e Arthur Neiva pelo nosso interior em 1916, que constatou as precárias condições sanitárias da nossa população. Ecoava na imprensa a famosa frase de Miguel Pereira, “O Brasil é um imenso hospital”.

A Liga era uma entidade multiprofissional, sem fins lucrativos e recebeu verbas oficiais. Uma espécie de terceiro setor (ONG). Daí se concluir que era um órgão estatal vai uma grande diferença. Citando E. Antunes. “O entusiasmo dos psiquiatras brasileiros pelos postulados nazistas alemães, avaliados por Jurandir Costa pode expressar, além de opções político-ideológico de alguns psiquiatras, o desejo de um modo similar de Estado que assumisse de forma tão arraigada as propostas eugenistas. Ou seja, uma organização estatal que estenderia a sociedade a partir de uma única matriz conceitual - a biológica -e, portanto com aspirações totalitárias”. Ainda é E. Antunes quem cita três possíveis tendências dentro do movimento de higiene mental: 1. a eugênica, representada pela Liga e, também, pela Liga Paulista de Higiene mental; 2. a antropo/sociológica - na qual, o grupo de Pernambuco e alguns higienistas baianos, têm significativa importância; 3.a psicanalítica - em que pode ser incluído o Serviço de Higiene Mental do Escolar de São Paulo”. Esta classificação salvaria do apelido nazista os primeiros psicanalistas como Julio Porto Carrero e Durval Marcondes que pertenciam ao movimento de higiene mental e a Ulysses Pernambucano, fundador da Escola Psiquiátrica do Nordeste. Nem uma coisa nem outra, nem esses eram nazistas, muito menos os demais psiquiatras. O mais contundente depoimento a respeito da questão foi feito por Arthur Ramos (Saúde do Espírito, publicação do Ministério da Saúde que em 1956 estava a na sexta edição). Todo o capítulo da chamada “higiene racial” tem de ser revisto aqui. No Brasil, especialmente, muito se clamou, pela voz de alguns teóricos estrangeiros (e alguns nacionais), que somos um “povo inferior”, provindo de “raças inferiores”, que aqui cruzaram suas “hereditariedades desarmônicas”. O negro foi a nossa perdição! - clamaram alguns e também James Watson recentemente. Devemos voltar ao ariano! Gritaram outros. Esses falsos cientistas acharam ainda que a mestiçagem era um fator de “degenerência”. Uma das causas do nosso atraso estava no mestiço desarmônico, incapaz, inferiorizado. Uma balela científica, hoje só aceita por certos pseudo-cientistas que fazem “ciência” a soldo político. Fora com esses racistas, partidários da raça pura no Brasil! O que se atribuía a um mal de raça verificou-se que era um mal de condições higiênicas deficitárias: subalimentação, pauperismo, doenças, alcoolismo... carregando no seu bojo toda a sorte de “inferioridades”... A higiene mental... A sua campanha é mais vasta e mais complexa, Porque se dirige às raízes sociais dos desajustamentos humanos “. (apud E. Antunes)”.

Além desta obra, Jurandir também publica O risco de cada um e outros ensaios de psicanálise e cultura. Estes ensaios confirmam a importância e a fecundidade das reflexões de Jurandir Freire Costa. Os textos (sobre linguagem, religião, literatura, sentido, cérebro, indagação filosófica e tantos outros assuntos, a partir, naturalmente, da psicanálise) cumprem a difícil condição de unir profundidade no pensamento e clareza na expressão. Aqui, mais uma vez Jurandir Freire se debruça sobre as grandes questões do nosso tempo à luz das questões permanentes da condição humana.

Vários dos capítulos são frutos de suas pesquisas em andamento, em torno da relação entre sujeito e transcendência. Partindo da idéia de que as hierarquias simbólicas tradicionais são regidas pela moral do sacrifício, Jurandir Freire aborda idéias como fé religiosa, dívida simbólica, criatividade, ética, desamparo, culpa e transgressão em autores como Freud, Nietzsche, Bergson e William James, pedindo apoio ao que chama de “espectros de Winnicott” para propor uma visada inovadora da constituição do sujeito humano. Como pano de fundo, o compromisso ético que permeia toda a sua obra.

Não é a toa que encontramos em uma de suas obras Sem fraude nem favor, afirmativas que nos levam a crer que tudo o que foi inventado pelo homem, fazem deste ser moral. O amor, o fogo, o casamento, a medicina, o direito, a arte erótica chinesa, os deuses e as religiões, a democracia, o crime etc. são apenas criações humanas.

Não custa lembrar o que dizia Marco Aurélio: “Logo, esquecerás tudo: logo, todos te esquecerão.”

03 julho 2007

POLEMICA NAS UNIVERSIDADES

Por Rogério Silva


Talvez o César possa nos explicar melhor essa diferença entre política como ciência de política corriqueira (politicagem), ou o risco que se tem quando empreende numa aventura como desse tipo.

Antes de mais nada, vale a pena relembrar as greves das universidades federais ocorridas no governo de Fernando Henrique Cardoso que eram duradouras e de poucos resultados práticos para as universidades, mas sempre promoveram uma ameaça ao ensino público, a sua gratuidade, a sobrevivência de seus docentes e de seus discentes, além dos funcionários, é claro.

O que vejo de perigoso na quebra da autonomia são exatamente as intenções sub-reptícias contidas neste tipo de decreto do Serra, é bom não esquecer que ele é do mesmo partido do FHC que tinha como foco a privatização das universidades públicas.

Movimentos sempre significaram resistência. Mas não significam necessariamente “desobediência civil” como no texto Cicero Araujo e Álvaro de Vita (ambos da USP).

Os autores também indicaram John Rawls, um dos grandes formuladores e defensores contemporâneos de uma ordem democrático-constitucional que reconheça a possibilidade desse tipo de ação, que a define claramente: a desobediência civil é “um ato público, não violento, político porém consciencioso, contrário à lei e usualmente feito para produzir uma mudança na lei ou em políticas de governo”. Sendo pública, ela nunca é acobertada ou feita em segredo, mas ao contrário, é comparável a um discurso público ou a um modo de manifestação pública. Para ele essa é uma das razões de seu caráter essencialmente não-violento.

O que é não violento quando algum aspecto já se encontra violado? Qualquer interferência nas liberdades civis de outros tende a obscurecer a qualidade civil da desobediência.

Se rejeitamos o estabelecido como lei, como ser obediente à lei ao mesmo tempo? Rejeitar a lei só tem sentido se for no campo político.

É exatamente por isso que o cidadão que a pratica quer “estabelecer perante a maioria que o ato é politicamente consciencioso e sincero, e que visa dirigir-se ao senso de justiça do público” ele deve fazê-lo de modo não-furtivo, de peito aberto, sem temor de revelar sua identidade e de sofrer as conseqüências da própria lei.

O que legitima a desobediência civil é uma grande coragem de quem a pratica.

Com a metáfora de “quebrar o ovos para fazer omeletes” identifico atos violentos necessários em defesa a uma prática, de um enfrentamento, como por exemplo, arrombar uma porta para salvar alguém em perigo. Não se trata de “os meios justiçam os fins”, pois são atos previsíveis, mas muitas vezes intempestivos e necessários. De outra forma cairíamos num totalitarismo excludente.

Pensar que esses grupos de estudantes e funcionários, hoje tão ocupados em abusar das liberdades civis de seus críticos dentro da universidade, também fariam bem em não desprezá-las. É um risco pois o que está em jogo é proteger o “nosso” grupo contra a agressão dos “outros”, das classes dominantes ou do que for. Acima de tudo, é uma questão de nos proteger de nós mesmos.

Não se trata de colocar aqui uma lógica do pior, mas trata-se de abrir a possibilidade para uma filosofia trágica que tivesse como tarefa a revelação de uma certa ordem. Arrumar a desordem aparente, fazer aparecer relações constantes e dotadas de inteligibilidade, tornar-se senhor dos campos de atividade abertos pela descoberta dessas relações, assegurando assim à humanidade e a si mesmo a outorga de uma melhora em relação ao mal-estar vinculado à errância no ininteligível, esta é uma idéia que quero trazer com Freud. O Freud do “Mal-estar na cultura” de 1930, que apresentou como o fator de mal-estar as relações dos homens entre si e com a cultura que sempre foi marcada pela hipocrisia. Até onde vai o meu direito e o direito do alheio?

comentários no blog Roda de Ciências

15 junho 2007

COMO NASCE UM PARADIGMA

Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula, em cujo centro puseram uma escada e, sobre ela, um cacho de bananas. Quando um macaco subia a escada para apanhar as bananas, os cientistas lançavam um jato de água fria nos que estavam no chão.

Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros enchiam-no de porradas.

Passado mais algum tempo, nenhum macaco subia mais a escada, apesar da tentação das bananas. Então, os cientistas substituíram um dos cinco macacos. A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, dela sendo rapidamente retirado pelos outros, que o encheram de porradas.

Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo não mais subia a escada. Um segundo foi substituído, e o mesmo ocorreu, tendo o primeiro substituto participado, com entusiasmo, da surra ao novato.

Um terceiro foi trocado, e repetiu-se o fato. Um quarto e, finalmente, o último dos veteranos foi substituído.

Os cientistas ficaram, então, com um grupo de cinco macacos que, mesmo nunca tendo tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse chegar às bananas.

Se fosse possível perguntar a algum deles porque batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza a resposta seria: "Não sei, as coisas sempre foram assim por aqui..."

Autor desconhecido