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18 abril 2008

SIMPLESMENTE



Envelhecer não quero.
Impedir não posso.
Amanhã, tenho rugas,
Enxergo menos, amanhã.
Claudico
Caminho com mais vagar.
Canso mais. Amanhã...
Os sonhos, por onde andam?

Por onde anda a juventude glamorosa?
As conquistas, os amores, as aventuras...
Passeios, lugares inusitados.
Sol, praia, cores, luzes, sons...
Vinil de Stardust com Nat King Cole,
Fotos Kodak, fichas de ônibus e de telefone,
Cachorro quente Geneal...
Encontros na esquina depois das dez,
Os chopinhos depois do namoro.
Temos tempo...

Meus desejos...
As conquistas, os amores, as aventuras e desventuras...
Passeios, lugares repetidos.
Praia com sombrinha.Luzes poucas. Sons nem tanto...
Cd de Chico Buarque, Cotidiano,
Fotos digital. Cartão de passe livre. Celular. Internet.,
Sanduíche natural e muitos remédios.
Nas quintas, às cinco. Pro chazinho
Com torradinhas. Muito bom!
Ainda temos tempo?

Meus desejos...?
Noutras esquinas...
Mais perto do fim!
Mais longe do desejo!
Quero de volta o viço,
Quero de volta a potência,
De volta, a visão. A audição.
Ainda tenho o amor,
Ainda tenho o carinho,
A paixão e a compaixão.

Não tenho muitas tantas ilusões,
Nem medo da morte.
Como Guilgamesh,
Dois terços imortais, um terço mortal.
Já vivi dois terços.
Meu corpo desvalido,
Meu desejo jovem.
Tenho a dor como companheira,
Simplesmente, envelheci.

13 novembro 2007

GUARDIÕES DO TEMPO

Por Déa Januzzi

A inglesa Judy Robbe, de 66 anos, mora em Belo Horizonte há 40 e trouxe para o Brasil a idéia de um testamento que começa a circular na Europa e nos Estados Unidos. O living will (desejo de viver) expressa como ela quer envelhecer e ser tratada quando não estiver mais lúcida, se isso acontecer no futuro. O documento é assinado por dois médicos e um tutor da família, indicado por ela. Abaixo, o testamento de Judy.

Chegar, hoje, aos 90, 100 anos já é uma realidade. Embora não exista uma receita mágica, os avanços da medicina sinalizam para uma longevidade saudável. O mais importante, porém, é ter um estilo de vida que inclui não fumar, não beber, se alimentar bem e praticar exercícios físicos. Mais ainda: encarar a vida com alegria e bom humor, sem deixar de lado o sexo, que ganha outros tons, já que o desejo nunca envelhece.

Basta lembrar os exemplos da humorista Dercy Gonçalves, de Dona Canô, mãe de Caetano e Maria Betânia, e do arquiteto Oscar Niemeyer, que chegam, em 2007, aos 100 anos, em plenitude. É possível envelhecer bem com lucidez, autonomia, qualidade e em plena forma física e mental. O caderno Bem Viver Especial sobre o envelhecimento mostra como dar uma ajuda à genética com projetos de vida, prevenção e uma rede de amigos para compartilhar experiências e idéias. Nunca é tarde para começar, sonhar, aprender e planejar.

Em Uberaba, no Triângulo Mineiro, 36 pessoas com mais de 55 anos já desfrutam de um paraíso – a Comunidade Sustentável Harambê é um lugar para envelhecer, segundo os ideais e costumes de toda uma geração. Um país que envelhece a cada dia tem que prestar atenção aos números: são hoje 14,6 milhões de pessoas com mais de 60 anos, que representam 8,6% da população brasileira. Eles não podem continuar invisíveis, sem usufruir de bens e serviços acessíveis, pois ainda é difícil e caro ficar velho no Brasil. Uma residência para idosos, por exemplo, pode custar de R$ 1,5 mil a R$ 2,5 mil por mês, sem contar o plano de saúde e medicamentos.

A família também não está preparada para o envelhecimento de um pai ou mãe, quando mostram os primeiros sinais de dependência. É por isso que datas como o Dia Mundial da Doença de Alzheimer, em 21 deste mês, e o Dia do Idoso (26), não foram criadas apenas para lembrar de uma parcela da população, mas, principalmente, para alertar sobre o inevitável: cada um envelhece como viveu!

• Declaro que quero envelhecer com saúde física e lucidez mental

• Declaro que quero ser independente, com ajuda mínima para fazer aquilo que não consigo

• Declaro que quero viver ao lado do meu marido, enquanto for possível

• Declaro que quero envelhecer com meus filhos e netos me visitando, porque gostam de estar comigo

• Declaro que quero ficar na minha própria casa em Belo Horizonte enquanto estiver lúcida e autônoma para realizar as tarefas do dia-a-dia

• Declaro que, se perder a independência, irei para uma residência de idosos escolhida por mim

• Declaro que quero viver com recursos mínimos para as minhas necessidades

• Declaro que quero ficar rodeada pelos meus livros, lembranças e animais de estimação

• Declaro que quero ficar com meu computador para que possa comunicar-me com parentes e amigos ao redor do mundo

• Declaro que quero viver sentindo-me útil à sociedade

• Declaro que meus desejos devem ser respeitados se eu não conseguir mais me expressar ou tomar decisões quanto ao meu tratamento

• Declaro que não quero medidas heróicas para prolongar minha morte, quando as chances de vida já não existirem.

Cópia do site Saúde Plena sem fins lucrativos


26 novembro 2006

A BELEZA MADURA

Por Rogério Silva

“A vovozinha chaga ao quarto da netinha e a encontra deitada nua e pergunta. – O que é isso minha netinha? Ela responde: - é a camisola do amor vovó. A vovó observa bem e mais tarde é a vez do vovô encontrar a vovozinha deitada nua e pergunta: - o que é isso minha velhinha? Imediatamente ela responde: é a camisola do amor. Ele observa e diz: - você bem podia dar uma passadinha nela”.

É claro que estamos tratando de seres humanos, porque se fosse chimpanzé dispensaria a passadinha, pelo menos é o que nos conta um grupo de primatólogos dos EUA que demonstrou pela primeira vez que os machos dessa espécie, a mais próxima da humana, têm preferência pelas fêmeas mais velhas. Se puder escolher entre várias fêmeas no cio, um chimpanzé (Pan troglodytes) tenderá a desprezar as jovens que nunca deram à luz em favor de "coroas" que já foram testadas e aprovadas como mães. Mais ainda: quanto mais velha a macaca, mais "sex appeal" ela parece ganhar. Beleza madura (para assinantes da Folha ou da UOL) publicado na Folha de S.Paulo de hoje.

Os primatólogos apresentam pelo menos duas causas que justificam tal comportamento. Uma é que ao atingir idade avançada em pleno vigor reprodutivo (chimpanzés não têm menopausa) seja um sinal de que a fêmea tem bons genes. Uma outra hipótese -a favorita dos pesquisadores, que ainda carece de confirmação - é que as fêmeas mais velhas sejam mais fecundas por terem status mais elevado no bando e melhor acesso à comida.

Em todo o caso é preciso levar em conta que o padrão de beleza atribuído é o dos humanos. Nós humanos, via de regra, invertemos os padrões animais onde os machos são os mais enfeitados conferindo-lhes beleza. Entre nós, as fêmeas cuidam mais desse aspecto, além de apresentar uma fertilidade definida e uma disponibilidade sexual indefinida, a mulher não tem cio.

Quando se trata de instinto as diferenças não param por aí, pois na espécie humana o esquema de comportamento herdado que pouco varia de um individuo para outro no esquema animal, ganha novos contornos, a pulsão é um deles.

No Vocabulário de Psicanálise, J.Laplanche e J-B Pontalis, definem a pulsão como um processo dinâmico que consiste numa pressão ou força que faz tender o organismo para uma alvo. Segundo Freud, uma pulsão tem a sua fonte numa excitação corporal que chamou de estado de tensão: o seu alvo é suprimir esse estado de tensão que reina na fonte pulsional, é no objeto ou graças a ele que a pulsão pode atingir seu alvo. A pulsão se distingue em duas classes: as pulsões sexuais e de autopreservação.

A concepção freudiana da pulsão conduz a uma explosão da noção clássica de instinto, e isto em duas direções opostas. Por um lado o conceito de “pulsão parcial” sublinha a idéia de que de que a pulsão sexual existe inicialmente em seu estado “polimorfo” e visa principalmente a supressão da tensão ao nível da fonte corporal, de que ela se liga na história do indivíduo a representantes que especificam o objeto e o modo de satisfação: a pressão interna de inicio indeterminada sofrerá um destino que a assinala com traços altamente individualizados. Mas, por outro lado, Freud, longe de postular por detrás de cada tipo de atividade uma força biológica correspondente (ao que são facilmente levados os teóricos do instinto), faz entrar o conjunto das manifestações pulsionais numa grande oposição fundamental.

Conforme foi apresentado no Post de Susan Guggenheim A beleza após 60 anos, além de aparentarem ser jovens as pessoas devem ser magras, com corpos bem torneados. As mulheres devem ter seios mais fartos e braços e pernas mais musculosos do deveriam ter a alguns anos atrás. Os homens não podem ter uma barriga proeminente e apesar de magros devem exibir músculos. Sabemos que para se ter este exato modelo de perfeição estética precisamos utilizar artifícios especiais como aulas de ginástica, musculação e tudo mais que possa contribuir para termos um aspecto que esteja de acordo com o que é vendido como beleza e boa aparência.

Os primatólogos concluem que a seleção natural moldou as preferências dos machos de forma muito diferente em chimpanzés e humanos, onde os chimpanzés podem não achar a pele enrugada e os mamilos alongados de suas fêmeas tão atraentes quanto os homens acham os lábios cheios e a pele suave das mulheres jovens, mas eles claramente não reagem de forma negativa a esses sinais, portanto não precisam dar uma passadinha na “camisola do amor”.

21 novembro 2006

A BELEZA APÓS OS 60 ANOS

Por Susan Guggenheim

Certa vez perguntaram à atriz francesa Jeanne Moreau porque ela, que já fora belíssima e sexy não fazia, como as outras atrizes, uma plástica para retirar as rugas de seu rosto. Na ocasião, ela deu uma resposta que serve de alerta para todos aqueles que passam dos 50 anos. Disse a atriz: “As rugas do meu rosto me custaram muitos anos de vida e sofrimentos para consegui-las. Não vou agora retirá-las”.

A percepção que temos de nós mesmos é construída ao longo dos anos e ser belo e jovem passou a ser uma imposição da sociedade moderna, que através da mídia impõe padrões e dita como deve ser a nossa imagem para sermos aceitos e amados.

Além de aparentarem serem jovens as pessoas devem ser magras, com corpos bem torneados. As mulheres devem ter seios mais fartos e braços e pernas mais musculosos do deveriam ter a alguns anos atrás. Os homens não podem ter uma barriga proeminente e apesar de magros devem exibir músculos. Sabemos que para se ter este exato modelo de perfeição estética precisamos utilizar artifícios especiais como aulas de ginástica, musculação e tudo mais que possa contribuir para termos um aspecto que esteja de acordo com o que é vendido como beleza e boa aparência.

Algumas pessoas tiveram a sorte de terem este aspecto físico ideal naturalmente. Mas eles também se atormentam. Precisam conservar a todo o custo o que a natureza lhes deu, sob pena de serem rejeitados no futuro por alguns quilos a mais e de serem acusados de negligentes ou autodestrutivos.

A vida para muitos se tornou uma obsessão pelo consumo de produtos que prometem tudo aquilo que a própria sociedade engendrou como necessário: cosméticos, aparelhos de exercícios, dietas especiais e todos os tipos de produtos milagrosos.

No entanto, com o envelhecimento a nossa aparência se transforma: o corpo muda, o rosto ganha rugas, os cabelos embranquecem.

Aquele que tem hoje mais de 60 anos sente-se obrigado a pintar os cabelos, fazer ginástica, usar roupas que o deixem com um aspecto mais jovem. Muitos recorrem às cirurgias plásticas de todo tipo para interromper a ação do tempo. É certamente uma luta que se sabe perdida. Com o passar dos anos, o envelhecimento será visível e a negação deste fato pode trazer sofrimento para aqueles que diferentemente da atriz Jeanne Moreau não aceitam as rugas como carregadas de sentido e parte da experiência de vida. Elas não estão lá apenas para denunciar a idade cronológica. Elas representam a nossa experiência de vida, os nossos feitos, as alegrias e as tristezas que sentimos. Retirá-las poderá nos trazer a ilusão da juventude, mas ao mesmo tempo, apagará as marcas de uma existência da qual muitos se orgulham e não desejam esquecer.

Por que deveria eu esperar um tratamento especial? A velhice, com suas agruras, chega para todos. Eu não me rebelo contra a ordem universal. Afinal, mais de setenta anos. Tive o bastante para comer. Apreciei muitas coisas - a companhia de minha mulher, meus filhos, o pôr-do-sol. Observei as plantas crescerem na primavera. De vez em quando tive uma mão amiga para apertar. Vez ou outra encontrei um ser humano que quase me compreendeu. Que mais posso querer?

Sigmund Freud


Susan Guggenheim é psicóloga e psicanalista da Formação Freudiana no Rio de Janeiro