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24 outubro 2010

O TERCEIRO INCLUÍDO



Por Rogério Silva

O que mais me irrita no processo eleitoral hoje, é quando alguém me pergunta se eu vou votar em fulano (não cito o nome de um candidato, porque temo que esse texto venha a valer para, pelo menos, para mais cinqüenta anos) e eu respondo que não. Então a pessoa acha que vou votar no outro candidato. Não lhe passa pela cabeça que eu não quero nem um, nem o outro candidato.

Essa é a lógica do terceiro excluído conhecida como a lei do terceiro excluído (em latim resumida na expressão tertium non datur), é um princípio cujo enunciado consiste no seguinte: "ou A é x ou é y e não há terceira possibilidade".

Nessa lógica uma proposição só pode ser verdadeira se não for falsa e só pode ser falsa se não for verdadeira, porque o terceiro valor é sempre excluído.

Mas como? Não tem um terceiro candidato? É verdade não tem um terceiro candidato, mas deveria haver uma terceira opção que fosse válida. O problema é que a Lei nº 4.737, de 15 de julho de 1965 que instituiu o Código Eleitoral, não previu a alternativa de escolha de uma terceira possibilidade. A Lei é clara, somente são votos validos os computados para um e para outro candidato. Faltar, errar, votar nulo ou em branco (que voto mais inútil!); não constituem votos válidos e, portanto não alteram o resultado final. O que é uma pena!

Sistemas que vão além dessas duas distinções entre verdadeiro e falso, são conhecidos como lógicas não-aristotélicas, ou lógica de vários valores, ou então lógicas polivaluadas, ou ainda polivalentes.

Um couraçado brasileiro sedo puxado por dois rebocadores

No início do século 20, Jan Łukasiewicz investigou a extensão dos tradicionais valores verdadeiro/falso para incluir um terceiro valor, "possível".

Acredito que num país dito democrático, poder não aceitar os candidatos postos deveria ser um ato de cidadania. Se a soma dos votos inválidos ultrapassarem os cinqüenta por cento mais um dos eleitores cadastrados, isto por si só, já indica a não aceitação dos candidatos pelo eleitorado. O desinteresse é, para mim, uma prova inequívoca de que os candidatos não convencem o eleitorado e não merecem, portanto serem eleitos. Não importa o que o eleitor prefere fazer; ir à praia, ao boteco encher a cara, viajar ou simplesmente não fazer nada. Ele não quer é participar da farsa instituída. Está desinteressado. E eu prefiro pensar num desinteresse ativo, positivo e afirmativo. E portanto POSSÍVEL.

Também não me interessa pensar numa lógica do tipo: “vou votar no menos ruim”, como se o menos ruim fosse algo que valesse a pena. Para mim a lógica do pior vem de um outro registro. Com Clement Rosset eu aprendi sobre a lógica do pior é que “A filosofia torna-se assim um ato destruidor e catastrófico: o pensamento aqui em ação tem por propósito desfazer, destruir, dissolver - de maneira geral, privar o homem de tudo aquilo de que este se muni intelectualmente a título de provisão e de remédio em caso de desgraça. Tal como o navio pelo qual Antonin Artaud, no início do Teatro e seu duplo, simboliza o teatro, ele traz aos homens não a cura, mas a peste. Assim apareceram sucessivamente no horizonte da cultura ocidental pensadores como os Sofistas, como Lucrécio, Montaigne, Pascal ou Nietzsche - e outros. Pensadores terroristas e lógicos do pior: sua preocupação comum paradoxal é a de conseguir pensar e afirmar o pior. A inquietude aqui mudou de rota: o cuidado não é mais de evitar ou superar um naufrágio filosófico, mas torná-lo certo e inelutável, eliminando, uma após outra, todas as possibilidades de escapatória. Se há uma angústia no filósofo terrorista, é a de passar sob silêncio tal aspecto absurdo do sentido admitido ou tal aspecto derrisório do sério vigente, de esquecer uma circunstância agravante, enfim de apresentar do trágico um caráter incompleto e superficial. Assim considerado, o ato da filosofia é por natureza destruidor e desastroso.” Mas não se pode pensar assim na política brasileira, pelo menos. Acredito que não.

Em 2001 eu votei, pela última vez, nas eleições presidenciais, por decisão pessoal e por não ter em quem votar. Votei na esperança de mudança e no fim da corrupção (eram essas as promessas). O que aconteceu? Fui traído e fiquei sem ter em quem acreditar. Pergunto-me se o que eu tenho vivido nos últimos anos pode ser denominado de política.

Segundo a Wikipédia, política é a arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou Estados; aplicação desta arte aos negócios internos da nação (política interna) ou aos negócios externos (política externa). Nos regimes democráticos, a ciência política é a atividade dos cidadãos que se ocupam dos assuntos públicos com seu voto ou com sua militância.

Essa palavra tem origem nos tempos em que os gregos estavam organizados em cidades-estado chamadas "polis", nome do qual se derivaram palavras como "politiké" (política em geral) e "politikós" (dos cidadãos, pertencente aos cidadãos), que estenderam-se ao latim "politicus" e chegaram às línguas européias modernas através do francês "politique" que, em 1265 já era definida nesse idioma como "ciência do governo dos Estados".

“O homem é um animal político.” É? Não sei...

Por tudo isso, eu reinvidico a presença do terceiro incluído no processo eleitoral, ou seja, mudar a rota desse processo, para que haja um mecanismo de validação para quem não aceita nenhum dos candidatos em qualquer que seja o escrutínio e com as devidas conseqüências que o Código Eleitoral vier a prever.

Votar é escolher e escolher é também poder renunciar.

26 dezembro 2008

A CIRCULARIDADE DO SER – UM FRAGMENTO*

O presente texto trata de reflexões teóricas de uma experiência clínica. Os dados reveladores e identificatórios foram alterados no sentido de preservar possíveis personagens.

Mariana procurou o analista porque desejava atendimento. Dois dias antes da primeira sessão, Carlos, seu marido, ligou e pediu para vir no seu lugar. A mulher marcou, mas foi ele quem veio na primeira vez. Ela veio na sessão seguinte e continuou em análise.

Um marcou e o outro veio à sessão. Como pensar isso tecnicamente? Ficar preso nessa questão é colocar-se no lugar da psicologia do eu. Essa especificidade é esclarecida pelo estatuto atribuído por Lacan à ética da psicanálise, noção que é inseparável da "barra", da "divisão". Num certo sentido, vai permitir a distinção do "fora" e do "dentro", do social. Por conseguinte, ideológico, do que é propriamente do sujeito, o desejo que, como tal, se distingue da demanda e da necessidade. Esta separação do social relaciona-se de alguma maneira a algo como se parire, processo que alude á separação, a uma divisão no sujeito e não entre o sujeito e o social. Fala da produção de algo novo, à criação. Implica o abandono das relações do sujeito com os "serviços dos bens", isto é, o abandono de posições marcadas pela defesa de interesses, econômicos ou de qualquer outra natureza, previamente definidos socialmente. Enfim, um se parire que é quase o oposto do que a sociologia chama de processo de socialização. Este sim tem uma função que se aproxima, pelos efeitos que produz, daquela que corresponde à ideologia em Althusser: a constituição dos "sujeitos ideológicos". Neste sentido preciso, que esta ética vai servir de referência fundamental a critica ideológica, que Lacan, em diferentes momentos, dirigiu ao que, pejorativamente, considerava como "psicologia do eu". Uma perspectiva que fixava o "sujeito" ao social e, portanto, à ideologia e, neste sentido, funcional à sociedade e ao "serviço dos bens".

O importante é, pois, saber quem pagará a análise. É indiferente de onde vem o pedido. Também é indiferente de onde vem o dinheiro. Assim se faz psicanálise. Se quem vem, entra, traz uma questão, o analista está ali para receber esse discurso. Para marcar esse lugar. O que está em jogo é o desejo do analista. Receber ou não receber. Se receber, vai escutar para poder aprender. Alguém ligou e ele atendeu primeiro outro. Sempre teremos uma desculpa. Qualquer desculpa, tanto faz. Mas esse é um lugar da psicanálise. O primeiro caso mais escrito de Freud foi o caso Dora. O pai dela tinha se tratado com ele de sífilis e foi procurá-lo. A filha deixou um bilhete dizendo que ia se matar. Foi ele quem foi. É preciso ouvir o que vem e na ordem que vem. Primeiro vem um, depois vem outro.

Heráclito parte do princípio de que tudo é movimento, e que nada pode permanecer estático. "Panta rhei", sua "máxima", significa "tudo flui", "tudo se move", exceto o próprio movimento. Ele exemplifica, dizendo que não podemos entrar duas vezes no mesmo rio, porque, ao entrarmos pela segunda vez, não serão as mesmas águas que estarão lá, e já não seremos a mesma pessoa. De fato, a biologia veio a descobrir, muito mais tarde, que nossas células estão em constante renovação, e isso é uma mudança.

Ela é artesã e o marido também. O marido foi professor dela e ele tem uma oficina. Agora ela está parada; disse que não tem mais cabeça para fazer esse trabalho.

Mas vamos ao caso. Ela chega e pós um breve silêncio começa a falar:

– Oi, cheguei! Cheguei cedo. Não tem que ficar esperando um pouquinho não?

Fico em silêncio esperando para ver o que aparece.

- ... Pois é, estou aqui. ... Você está aí pra quê? Não fala nada não? Não sei o que vou falar, estou nervosa, ufa!

– Está nervosa por quê? Pergunto.

– Não sei, eu sou assim meio agitada. Eu vim um pouco mais cedo e fiquei ali falando com o guardador de carros. Muito legal ele, sabe? Fiquei conversando um tempo com ele. Ele é uma pessoa bacana. Trocamos figurinha e acabamos tomando um chope. É uma pessoa legal.

– Ele é legal. Disse para demonstrar atenção.

– Ele também me acha legal, eu sou bem relacionada. As pessoas me acham legal, me dou bem com as pessoas. Ele gostou, falei com ele, perguntei umas coisas lá, me ajudou a estacionar o carro e fomos tomar um chope. Eu falei para ele: – olha você vai me ver aqui muitas vezes, vou voltar aqui muitas vezes. ... Carlos veio aqui? Ele estava me enchendo o saco; eu marquei com você e ele estava me enchendo o saco. Aí eu disse pra ele: – vai lá você, vai se tratar um pouco. Ele veio na frente; achei que era melhor. Pois é, ele aporrinha pra chuchu; agora não me deixa fazer as coisas, não me deixa tomar uma cerveja. Quando bebo fico muito animada e ele fica me proibindo. Nós tivemos um problema que você já deve saber, com nosso filho.

- Problema? Perguntei.

– Toda aquela história, né? Olha, eu fumei muita maconha, tomei muitas drogas desde garotinha e, durante a gravidez, eu parei. As pessoas falavam que ia fazer mal e eu parei de me drogar. Mas eu tomei de tudo. E, aí, durante o parto foi tudo bem. O Carlos não parava de fumar maconha; fumava maconha o dia inteiro. E aí aquela história. Na hora em que o filho nasceu eu fiquei esperando. Bem, vão trazer o filho para mim, mas o filho some. Perguntei o que aconteceu, ele teve um problema respiratório com conseqüências e tive que fazer um tratamento. Os pezinhos, isso eu já tinha visto na ultra-sonografia, estavam virados para trás. Hoje ele já está bem, foi há um ano. Fez uma cirurgia, fisioterapia e tal e os pezinhos foram para o lugar. Mas um ano, um ano que estou nessa luta; não agüento mais, não nasci para ser mãe, não agüento mais. Um ano cuidando de criança, eu preciso da ajuda do Carlos, mas ele só fica me enchendo o saco, fuma maconha e agora eu não me deixa beber. É isso... Eu não nasci para ser mãe; de vez em quando eu quero sumir, quero fugir, quero ir embora, largar tudo isto. Largar o Carlos, largar filho, ele é pequenino. Agora que deu tudo certo...

– Agora que deu tudo certo você quer largar tudo. Pontuei.

– É, agora eu não agüento mais, estou precisando de umas férias. Estou pensando em me separar, estou pensando em sumir. Eu não agüento mais, quando nós brigamos, eu sou muito agitada. Sai na porrada, eu parto pra cima dele. Ele diz pra eu ficar calma. Fica calma nada. E a família não ajuda; muito sozinha muito sozinha hoje. Estou precisando de liberdade; de vez em quando pego o carro e vou para a estrada, bebo umas cervejas e vou parar lá no sítio da minha irmã. Aliás, desse sítio, na última vez nós fomos expulsos, eu e Carlos, nós saímos na porrada. Ele ficou com ciúmes. Eu botei um short, a parte de cima de um biquíni e saí para ir à venda. Pronto, acabou o meu dia. Ele reclamou que isso não eram modos de vestir, eu disse que não é nada disso. Disse que ele tem que me entender, que isso era besteira...

– O que é que você estava procurando? Perguntei.

– Eu fui comprar cigarro em uma venda. A gente estava indo pro sítio, eu parei o carro e fui comprar cigarro. Ele vai e acaba com o meu dia... É complicado, não? A vida tá uma complicação. Eu não sei se quero ficar mais com ele, mas não posso abandonar a criança.

- Não sabe se não quer ficar mais com quem?

– Com o Carlos. A coisa chegou a um ponto que eu não sei. A idéia era vender o nosso apartamento. Ele poderia comprar uma quitinete ou um quarto e sala para ele e eu iria morar em outro lugar, em uma casa, um sítio que eu consigo, eu acho. Minha irmã já disse que não quer ver mais a gente lá, depois do que a gente aprontou. Brigamos o tempo todo. A porrada come solta. Ela não quer mais. Eu cuido da criança, faço comida. Ele chega em casa e ainda reclama. Estou engordando, não consigo parar de comer, não sei o que faço. Mas, a vida é assim, não é?

– O que você espera de mim? Perguntei tentando um novo rumo no assunto.

– Que você possa me ajudar em bocadinho, não é? Vim até aqui.... Lá em casa está difícil. Não estou conseguindo levar essa situação sozinha, não. Quero saber o que você pode fazer. Bater um papo, trocar idéias. Já fiz umas terapias, mas não deram certo. Não gostei, não. Estou querendo ver se agora o senhor pode me ajudar.

Sempre que o paciente chega neste ponto é como se deixasse uma armadilha para o analista. O analista está ai para positivar. O que não gostou remete a uma comparação. Se o analista pergunta o que você não gostou, ele se coloca em disputa com o outro analista ausente. Então, a transferência vai ser de um tipo aonde ela não vai se dirigir a você, mas com uma diferença; o analista se coloca como o bom. O que você não gostou significa: eu vou me corrigir para você gostar.

Pensar no por que alguém nos procura, leva à pergunta o que é que essa pessoa quer de mim? O outro se quiser, se queixa ou deixa de se queixar. Deixa a pulsão ir positivamente. Quando focaliza o que não gostou, esse não é que vai conduzir. O não enquanto uma negativa, e não um não enquanto positivo. Acredito que esse não seja o melhor modo, mas é um modo de se organizar. Eu pensaria que isso de pergunta, para o inconsciente, não contribui. Eu aprendi que quando a gente se coloca e diz o que não gostou no outro, a gente diz: eu é que vou te servir. Aí a pulsão não vai poder instalar um não comigo; não só com os outro, eu sou o legal.

Não importa estabelecer com o paciente um vinculo de aceitação paciente analista. O que talvez se deva escutar é: eu procuro e não encontro; não preciso saber o que.

Com isso se estabelece um gancho libidinal: o rapaz do estacionamento, a cerveja, vai voltar. O rapaz do estacionamento pode se preparar para ver as coxas por baixo do short etc. É isso que ela está contando.

– Vou te mostrar umas fotos do meu filhinho. Aqui as fotos dele; não é bonitinho? Está bom, quando é que eu marco outra sessão?

Marcar a próxima, bem como receber no fim da sessão é importante para esse tipo de paciente que não apresenta uma certa regularidade.

– Ué? Não vou precisar esperar aqui em baixo não, pra subir? É direto? Que bom, está geladinho aqui. Fala alguma coisa aí; ... Você trabalha com criança? Estou vendo uma casinha ali. Estou vendo ali uma casinha de boneca.

– Você falou que queria morar numa casinha. Seu marido numa quitinete e você em uma casinha...

– Quanto tempo a gente ainda tem de sessão? Quanto tempo é? Você fica olhando para aquele relógio ali?

O analista fica calado esperando que as últimas coisas faladas retumbem dentro dela em busca de algum sentido.

– É, não tenho o que falar. Carlos me encheu o saco de novo; parti pra cima dele. Não queria me deixar sair e eu parti pra cima dele. ... Quero te contar uma coisa que não contei pra ninguém. To saindo com um cara, um amante, amigo de infância e é muito bom, estou gostando bastante. Fico meio grilada de encontrar com ele, mas encontrei com ele e foi muito bom! Trepar é muito bom! Não sei em que vai dar isso; é um amigo de infância, a gente se encontrou e pronto. Não é só uma trepada. É bom ficar com ele. É. Às vezes tenho essa vontade de sair por aí, não é? Outro dia, peguei o carro, pequei meu filho e fui pro sítio. De lá, liguei pro Carlos: – olha, estou aqui, tá? De vez em quando dá vontade de pegar uma estrada e ir embora. Ele perguntou se estava tudo bem, se estava tudo tranqüilo. Eu disse que sim e fiquei lá um tempo. ... Ta na hora já? Quanto tempo você trabalha? É um bom lugar lá, eu gosto de vez em quando de dar uma saída; é muito difícil.

O analista se levanta para despedida.

– Então, sexta-feira estou aí, ta?

Antes da próxima sessão marcada, estou em casa e recebo um recado do Carlos:

– Olha, Mariana foi pra Terezopolis sozinha, foi assaltada, levou umas pancadas, chegou em casa bêbada e não pode ir à sessão; depois ela liga pra você.

Isso aconteceu na sexta-feira e, aí, eu liguei para ela no sábado e marquei outra sessão. Ela normalmente é super expansiva; chegou na sessão com o corpo cheio de hematomas e eu não perguntei diretamente o que aconteceu.

– Posso sentar ali? Sentou-se no chão.

– Quem te bateu? Perguntei com preocupação.

– Peguei o carro, fui encontrar com o Márcio. Ele esta saindo com outra mulher. Descobri que ele está saindo e ele confirmou. Eu sou casada, como é que posso me importar se ele está saindo com outra mulher? Mas eu me importei, fiquei com ciúme e parti pra cima dele. Levei porrada e estou cheia de hematoma. Aí, vim chegando depois em Nova Iguaçu, parei no sinal e um moleque me assaltou. Pegou o meu dinheiro. Bebi uma garrafa inteira de vodka. Não sei o que faço; sou casada, ele arrumou outra mulher. Eu sou ciumenta. Eu parto pra cima. Aí, quando bebo, fico com problema no estômago e fico dois dias na cama. Carlos me deu banho, me deu remédio. Eu fico lá, demoro um tempão pra levantar. Quando bebo acontece isso. Eu fui assaltada e nem tenho dinheiro pra te pagar hoje; posso pagar na próxima? Te pago a que eu faltei também.

– Levaram... Eu disse.

– É, levaram o que é meu. Eu sou grandona, sou forte.

Contardo Calligaris em Clínica Diferencial das Psicoses escreve sobre o automatismo dessas pessoas que estão em um lugar e, de repente, partem para outro, não podem ficar no mesmo lugar. No caso dela, ela já vem contando que tem uma pulsão insatisfeita que diz respeito ao guardador, e por aí logo entra o amigo e logo a repetição. Por isso é que não é necessário saber do lugar; interessa tudo, menos o casal. O que está interessando aqui é que ela repete com o amigo de infância a mesma coisa que ela tem com o marido. A posição do analista é escutar como essa subjetividade se faz; se é com Carlos ou com Marcio, sei lá com quem, ela é a grandona, ela fala de si própria e se reconhece como tal. E a outra coisa é pensar que tem um critério, que é mais lacaniano, que quando o sujeito se desloca nessa velocidade, se você simbolicamente está diante de um psicótico.

Há uma preocupação dela pelo fato de ter tomado drogas. Parentes e amigos diziam para ela que se drogou muito. Quando ela teve o filho com esse problema, as pessoas começaram a acusá-la em função da quantidade de drogas. Ela também fala de uma paixão da qual não está conseguindo dar conta. A relação com marido é alguma coisa que já acabou.


*Adaptação de um caso apresentado numa sessão de Mobilização Clinica da Formação Freudiana.

25 julho 2008

OS MALES DA CORRUPÇÃO

Do reinado à república

Por Rogério Silva

A corrupção é um mal que assola esse país desde o império. Consta que, o tesoureiro-mor de D. João VI, Francisco Targini foi um caso exemplar de corrupção e impunidade nas altas esferas da administração pública da época. É isso mesmo. Durante o reinado carioca de D. João VI, tornou-se popular uma quadrinha que dizia:

"Quem furta pouco é ladrão,
quem furta muito é barão,
quem mais furta e mais esconde
passa de barão a visconde".

Seu alvo era o tesoureiro-mor do reino, Francisco Bento Maria Targini, visconde de São Lourenço. Como arrecadador de rendas da Província do Ceará, Targini veio para o Rio de Janeiro, com a corte em 1807, devido às práticas desonestas de malversação dos bens públicos.


Outra quadrinha circulava em muitos pasquins contra Targini:

"Furta Azevedo no Paço
Targini rouba no erário
e o povo aflito carrega
pesada cruz ao calvário".

Era conhecida a história que dizia respeito à compra de mantas para o Exército que Targini fizera a um fornecedor inglês. O hábil homem público teria mandado dividir cada uma das peças ao meio, revendendo-as depois ao governo brasileiro pelo dobro do preço original.

Targini também foi apontado como o homem mais corrupto da corte de D. João. Recomendava-se sua demissão. José da Silva Lisboa, o visconde de Cairu, em sua "História dos Principais Sucessos Políticos do Brasil", disse que Targini "... fazia ostentação de opulência mui superior ao ordenado do seu emprego".

Hipólito da Costa, do "Correio Brasiliense", espantava-se por que Targini, sem outros bens mais que o seu minguado salário, tivesse se tornado um homem riquíssimo, enquanto o erário se achava pobre.

A prática da corrupção foi e é utilizada, até hoje, na administração pública. Isso demonstra o quanto o povo brasileiro ainda se submete a ganância dos administradores em assalto aos bens públicos.

As eleições, como exercício de cidadania de um Estado democrático, deveriam ser o suficiente para acabar com esse processo. No entanto a corrupção avança, como uma erva daninha, contaminando também o processo eleitoral e o cidadão que vende o seu voto.

Todos nós sabemos muito bem que existem políticos corruptos que muitas vezes são pegos com a boca na botija. Mas alguns escapam porque a corrupção também os protege. O que é importante entender é que não existe o corrupto sem a figura do corruptor - aquele que procura o corrupto para propor a barganha, ou aceita deste uma vantagem em dinheiro ou favor.

O que mudou daquele tempo até hoje é que não existem mais barões nem viscondes. Mas se o povo não tomar uma atitude em favor da honestidade, a ele só restará lamentar como no tempo de Targini - enquanto rouba-se o erário, o povo aflito carrega pesada cruz ao calvário.

Publicado no Editorial do Jornal NOVOS RUMOS de Rio Preto, MG

16 julho 2008

A MORTE E A MORTE DE SIGMUND FREUD

Por Rogerio Silva

Não. Naõ é um Jorge Amado quem está escrevendo e nem se trata de Quincas Berro d´Água. É que Freud que já morreu em 1939, pode voltar a morrer. Desta vez através de sua grande criação. A psicanálise.

Quem nos conta essa possibilidade é Aldo Pereira em seu artigo publicado ontem na página 3 da Folha de São Paulo. Num belíssimo artigo. Ele brinca de William James, para dizer que a obra de Sigmund Freud contém muito de original e verdadeiro. Mas o original não é verdadeiro; e o verdadeiro não é original. O que ele pretende é mostrar que entre o falso e o verdadeiro pode estar ou não o original.

A Associação Psiquiátrica Americana excluiu de seu "Manual Diagnóstico e Estatístico de Distúrbios Mentais", todos os "complexos" e "neuroses". Essa decisão, tomada na década de 80, causou progressivo declínio na formação de psicanalistas americanos.

O pós modernismo (principalmente o Frances) tornou-se uma religião laica que teve com Jacques Lacan, Jacques Derrida e Jean Baudrillard um oráculo hermético do pessoal da "nova era". A psicanálise acabou sendo vista junto com uma cultura "alternativa" de crenças e práticas mágicas, orientalistas, esotéricas, naturalistas, ocultistas etcetera.

A proposta de Lacan em tornar aquele que procura analise num analista muda essa questão na França. Todo um processo desenvolvido por ele retira a psicanálise da esfera científica. Para Contardo Calligaris em “Cartas a um jovem terapeuta” (Elsevier, 2008, Rio de Janeiro), a psicanálise não pode ser considerada uma psicoterapia, já que ela não se propõe a uma cura e sim uma transformação

Até mesmo a medicina busca uma maneira discreta de rejeitar a psicanálise. Tal repúdio confere drama e comédia à partilha do legado intelectual de Freud. Que órfãos se credenciam como herdeiros legítimos do espólio? Qual das entidades pretensamente representativas é guardiã do credo autêntico? Questiona Aldo.

Em 19 Fevereiro 2007 eu escrevi neste blog POR UMA EXPERIENCIA RELIGIOSA com a intenção de mostrar a necessidade de um certo ateísmo por aquele que se propõe a ser analista. Nesse texto, Freud descreve uma passagem como conseqüências de uma entrevista dada a um jornalista teuto-americano G. S. Virec que o indaga sobre a sua crença na religião durante uma visita sua aos Estados Unidos.

É preciso estar desprovido de uma crença religiosa para poder perceber, no discurso daquele que procura a analise, o seu ponto de conflito. Por isso, Freud nunca se viu um profeta fundador duma religião secular. Muito menos teria ele acolhido convergência entre psicanálise e crença mística. É, portanto impensável o sincretismo que ocorre no Brasil entre psicanálise e seitas cristãs, sejam elas católicas, sejam evangélicas.

O que Aldo pretende demonstrar, é que hoje, psicanalistas filiados a alguma das muitas instituições de psicanálise se vêem concorrentes de profissionais formados por entidades como a Sociedade Psicanalítica Ortodoxa do Brasil. Após curso de dois anos, você pode sair psicanalista clínico pela SPOB. Colega, imagine, da ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (turma de 2003). Afirma Aldo.

O Instituto de Educação Superior e Pesquisas Avançadas oferece cursos "à distância" de psicanálise clínica livre. As modalidades apresentadas vão desde uma formação acadêmica de terceiro grau até o mais alto grau de pós-graduação.

Original? Pode ser... mas psicanalitico, tenho dúvidas.

Não se trata de questionar os modos utilizados por essa Instituição para a formação de seus seguidores, mas sim questionar o modo de intervenção no processo de mudança proposto por Freud. Isso sim, seria uma outra morte.

15 julho 2008

ÓRFÃOS DE FREUD

ALDO PEREIRA


A obra de Sigmund Freud contém muito de original e verdadeiro. Mas o original não é verdadeiro; e o verdadeiro não é original


A OBRA de Sigmund Freud (1856-1939) contém muito de original e verdadeiro. Mas o original não é verdadeiro; e o verdadeiro não é original. (Você dirá que tampouco essa glosa é original, já que adapta epigrama atribuído ao dicionarista, poeta e crítico inglês Samuel Johnson (1709-1784). Mas acolha como atenuante que a citação é provavelmente apócrifa: não figura em escritos nem de Johnson nem de contemporâneos seus.) Exemplo de verdadeiro, na psicanálise, é o conceito de inconsciente.

(...)

Psicanalistas evangélicos se habilitam a induzir indistintamente catarse ou exorcismo sem confundir neurose com possessão demoníaca. Um deles sugere que, para obter diagnóstico diferencial, o terapeuta encare o paciente e exclame: "Jesus!". Se incorporado, o demônio se manifestará num espasmo furioso do possesso.

Verdadeiro? Discuta-se. Original?

Não se discute.


ALDO PEREIRA , 75, é ex-editorialista e colaborador especial da Folha. aldopereira.argumento@uol.com.br


Publicado na Folha de S.Paulo em 15/07/2008 pag 3 em TENDÊNCIAS/DEBATE


02 julho 2008

SOMOS UNS TROUXAS...

Por Rogério Silva

Mesmo que sempre tenha havido corrupção na História do Brasil, mesmo que, tanto nos períodos de autoritarismo quanto nos de liberdade, a imprensa tenha deixado de denunciar os escândalos como deveria. Ou mesmo que, de governo para governo, haja o avanço da transformação da coisa pública em coisa privada. Ou ainda, haja a sofisticação da roubalheira como conseqüência natural da impunidade e do avanço da tecnologia. E, até mesmo se levando em conta a perda de valores morais por um número cada vez maior de cidadãos empenhados em “levar vantagem em tudo. Certo?”. Há uma pergunta que não quer se calar. Se uns fazem, por que os outros deixarão de fazer?

Foi com uma pergunta assim que Carlos Chagas começou a sua coluna publicada no Diário de Notícias no dia 10/06/2008 intitulado “A rebelião dos trouxas.”

Ele aponta que, de norte a sul, do leste ao oeste deste país, da elite às camadas mais humildes, aplicam-se golpes de toda espécie, maiores e menores, tanto pela esperteza quanto pela violência. Não há um setor capaz de escapar à avidez dos corruptos. Da educação à saúde, dos transportes às obras públicas, das comunicações ao comércio, da indústria e dos serviços. Do Legislativo ao Executivo e ao Judiciário, também.

Nas lides políticas e governamentais, empresariais, ou funcionais públicas parece haver uma palavra de ordem: promover e intermediar negócios escusos, corromper, assaltar, traficar, sonegar e, em maior ou menor grau, enriquecer. Tudo isso, é claro, sempre à custa dos cofres públicos e da sociedade como um todo.

“É bom tomar cuidado, porque a corrupção se institucionaliza a passos rápidos.” Adverte. Aquele que não rouba e não se envolve em maracutaias, que não aproveita a oportunidade de burlar a lei, passa a ser considerado bobo e antiquado. Será que um dia assistiremos à rebelião dos trouxas, dos que não roubam? Mas, existirão eles em número suficiente para fazer explodir as atuais estruturas?

Na tentativa de responder a essa pergunta, eu acredito que só uma eleição pode comprovar isso se pensarmos em termos de cidadania. Entende-se por cidadania (do latim, civitas,"cidade"), como a condição da pessoa natural que, como membro de um Estado, encontra-se no gozo dos direitos que lhe permitem participar da vida política.

A cidadania é o conjunto dos direitos políticos de que goza um indivíduo e que lhe permite intervir na direção dos negócios públicos do Estado, participando de modo direto ou indireto na formação do governo e na sua administração, seja ao votar (direto), seja ao concorrer a cargo público (indireto).

A nacionalidade ou a naturalidade são pressupostos da cidadania. Ser nacional ou natural é condição primordial para o exercício dos direitos políticos. Entretanto, se todo cidadão é nacional ou natural, nem todo nacional ou natural é cidadão. Os indivíduos que não estejam investidos de direitos políticos podem ser nacionais ou naturais sem serem cidadãos.

Aqueles que votam, sem os favores de tijolos, de telhas, de dinheiro, de alimentos ou de outras benesses, são cidadãos. Participar da vida pública, portanto, não constitui apenas ser votado. Institui principalmente o ser votante, o eleitor. Aquele que, quando comparece às urnas, tem o seu pensamento voltado para o coletivo, seus concidadãos. E que, após a posse, fiscaliza as ações de governo. Unidos, um a um, são capazes de transformar uma eleição num projeto do bem comum, sem que sejam considerados bobos ou antiquados. Sejamos cidadãos e não trouxas.

Publicado no Editorial do Jornal NOVOS RUMOS de Rio Preto, MG com o título: OS MALES DA CORRUPÇÃO

14 dezembro 2007

A ÉTICA EM QUESTÃO - Uva sem caroço ou psicanálise em penca

Por Rogério Silva

Se há uma ética da psicanálise, é na medida em que, de alguma maneira, a análise fornece algo que se coloca como medida de nossa ação.

J. Lacan

Entendemos a psicanálise como o lugar privilegiado de uma ética da criação e da liberdade, baseada nas matrizes neurótico/conflitivas da díade analista/analisando que se estabelece no espaço analítico.

Para Fédida, garantir a situação analítica ou reinstaurá-la corresponde para o analista à tarefa de manter essa posição de estranho intimo que é de certa forma, a condição temporal da essencial dissimetria: o analista escuta com a sua angústia.

Entende-se que, muitas vezes uma análise está longe de ser pura ou linear. Nela, vários processos ocorrem simultaneamente e, conseqüentemente, sem perceber, o psicanalista violenta o método com o próprio processo, que comporta uma diversidade de técnicas psicoterapêuticas, ao mesmo tempo sem poder, predeterminar os caminhos possíveis que surgem a partir do encontro de dois inconscientes, e sem que isso, seja considerado um erro técnico ou pontos cegos do analista, desde que esteja permeado pela ética.

O que seria então uma violência no setting analítico? Pode-se dizer que a violência, talvez seja se manter no padrão esperado ou ainda repetir chavões interpretativos de um modelo teórico fixo numa postura ortodoxa. Contudo, o que parece ser muitas vezes ato de violência, às vezes, o livre arbítrio do psicanalista que, usando sua contratransferência, teria o direito de criar com cada paciente uma teoria que melhor lhe cabe, dentro dos padrões éticos. Estes padrões perpassam também pela temporalidade na clínica como orientadora de um processo. Temporalidade que, capturada pelas urgências e velocidades da atualidade - a grande produção de lixo e a voracidade consumista - determinam uma psicanálise mais comercial e menos ética e estética.

Recentemente a Formação Freudiana do Rio de Janeiro realizou um encontro entre os membros da clínica de psicanálise e seus pares. O tema do encontro passou pela questão ética do tempo da análise e o tempo da seção na dimensão clínica.

A motivação e o convite aos debatedores foram frutos de uma inquietação dos participantes da clínica social da entidade sobre a temporalidade da análise nos dias de hoje. Esse tempo presente, cuja velocidade e a fome consumista, faz com que o indivíduo se veja na condição de um cardume de piranha a devorar, em segundos, o que lhe aparece pela frente. É preciso que o produto oferecido se apresente de forma a ser consumido, digerido ou apropriado rapidamente, sem que dele sobre qualquer resto.

A Formação Freudiana sempre se colocou aberta ao acolhimento tanto das demandas psíquicas, quanto dos pressupostos teóricos dos pensadores seguidores de Freud que alimentam a teoria e a técnica psicanalítica. Por isso absorver o excesso de forma voraz parece ser um risco que pode comprometer a psicanálise e a sua clínica.

A metáfora da uva sem caroço parece bastante apropriada como aquilo que não apresenta nenhuma possibilidade de mediação entre consumidor e consumido.

Os atendimentos feitos através planos de saúde e a legalização da profissão de psicanalista se colocam como banalizadores da prática analítica, juntamente com outros fatores midiáticos na França de hoje, como apontou um dos debatedores.

O tempo lógico proposto por Lacan parece ter perdido a dimensão do tempo de compreender, pois perceber e concluir quase se dão no mesmo instante. Por isso a proposta marquetereira da franchising torna-se imperativa de um certo modo de “fazer” analítico, que coloca em risco a ética.

É possível que as propostas dos franceses que acompanham essa temporalidade voraz se apresentem como esse modo novo, até de forma ética. Contudo, se não se pode mais oferecer uma análise de cinco dias por semana porque o paciente brasileiro não tem condições para arcar com essa despesa e já vem com a idéia de que pode ter uma seção por semana e o quanto pode pagar. O que nos resta, oferecer psicanálise em penca?