Roupas sujas, usadas, molhadas,
abandonadas
no canto do banheiro
amontoam dores, odores e favores.
As crianças aditam muita sujeira
de terra, doces e traquinas.
Os adultos, o suor da lida,
preocupações e insucessos.
Mulheres, desamores adormecidos
choros calados e frustrações.
Nos jovens, desencantos, hormônios,
desejos incestuosos ou luxuriantes.
Elas guardam muitos segredos, as vezes.
Paixões, equívocos e desapontamentos.
Sujas de uso, suor e poeira
que Rita colhe, recolhe e acolhe.
No tanque com água e sabão:
ensaboar, esfregar, lavar.
Na água suja
misturadas ao sabão.
Limpa
todas as dores enxaguadas.
Escorrem como lagrimas,
as mágoas e os ressentimentos.
Penduradas
à brisa leve do ar,
recebem bênçãos
compaixões e esperanças.
Os lençóis guardam ainda segredos de alcova.
Toalhas de mesa, manchas de gordura,
de café e leite permanecem.
De banho embebidas do corpo, a pureza.
Rita, de olhos acanhados e gestos tímidos,
parece conhecer todos os gemidos,
gritos, sussurros e risos,
contidos nas entranhas das almas!
03 setembro 2011
ENTRANHAS DA ALMA
05 maio 2010
AMIGO, QUE PAPO É ESSE?
O que sabemos nós sobre amizade, coleguismo e amor quando o interesse pelo sexo entra justamente para dar conta de uma carência? Parece que essa distinção nos impede de ver o que é comestível ou não. Todos são comestíveis e se comidos não há porque mudar a categoria, o que até pode acontecer. É que quando o comer confunde a cabeça do comedor e/ou do comido, este corre perigo de naufragar.
Só para lembrar o grande poeta português Fernando Pessoa “navegar é preciso, viver não é preciso”. Isso define a precisão de métodos e instrumentos para navegar, enquanto que para viver basta viver. Ainda com esse mesmo autor, no Poema do amigo aprendiz
Quero ser o teu amigo. Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias…
Às vezes sou obrigado a me render a Roberto Carlos, embora não o aprecie a miúde, e assentar o poema de Erasmo Carlos, Amada amante
(…) faz da vida um instante
ser demais para nós dois
esse amor sem preconceito
sem saber o que é direito
faz a suas próprias leis
que flutua no meu leito
que explode no meu peito
e supera o que já fez (…)
Talvez por tudo isso fique tão confuso ser amigo, colega ou amante e depois de uma relação sexual reconhecer-se como tal.
Ainda bem que somos humanos para compreender o amor como forma de aproximação entre pessoas e a sua capacidade lúdica de trocas e prazeres. Uma atividade pulsional que ultrapassa uma simples união para procriação e perpetuação da espécie.
O artigo: “A Linguagem Interminável dos Amores”, da psicanalista Olivia Bittencourt Valdivia apresenta uma indicação da relação entre o amor e a sexualidade, numa visão psicanalítica e também que "...um Freud humano e apaixonado nos deixa os mapas de sua exploração." Este em seu percurso amoroso e sensual e autorizado por uma longa experiência clínica, há muito se interrogava sobre a vida amorosa dos homens.
Em fins do século XIX tentando entender a histérica percebeu que talvez ela quisesse dizer alguma coisa com o seu corpo. Alguma coisa que não conseguia dizer com palavras. E a histérica falou do sexo, do amor, do ódio e da culpa. Freud, inaugurou o lugar da Psicanálise, que é na verdade o lugar de uma relação de amor. Nesta relação a libido refaz seus caminhos até a possibilidade de uma relação de amor com o analista, que abre esta possibilidade para a vida do analisando. Freud revolucionou a compreensão da noção de sexualidade colocando o sexual no registro do pulsional, estabelecendo a ideia de uma impossibilidade de satisfação, só encontrada através da fantasia.”
Para o filosofo, “Só sei que nada sei” não é a divisa da filosofia e muito menos um apelo à ignorância, mas uma provocação àqueles que se apresentam como sábios e detentores das verdades. Na boca de Sócrates, “só sei que nada sei” é a expressão da ironia, essa arma filosófica apontada ao ridículo dos sábios fechados em si mesmos, prepotentes, pomposos.
Ontem como hoje, são muitos esses sábios que se tomam a sério e querem que os tomemos também, mas que são incapazes de partilhar conosco os segredos desses saberes que dizem possuir.
Portanto amigo, que papo é esse?
02 agosto 2009
CONSELHO PUNE PSICÓLOGA QUE OFERECIA TERAPIA PARA CURAR GAYS E LÉSBICAS

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) decidiu nesta sexta-feira aplicar uma censura pública à psicóloga carioca Rosângela Alves Justino, que oferecia terapia para curar o homossexualidade masculina e feminina. Ela infringiu resolução do CFP, de 22 de março de 1999, na qual a entidade afirma que a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão.
A punição aplicada pelo CFP a Rosângela foi menor do que poderia ter sido. A psicóloga estava sujeita à suspensão do exercício profissional por 30 dias ou, até mesmo, à cassação do registro. Entretanto, os conselheiros decidiram, por unanimidade, que a censura pública era a medida mais adequada no caso.
27 março 2009
O DIA DA MULHER
Tinha oitenta e um anos de idade. Chamava-se dona Cândida Raposo.
[ ... ] Pois foi com dona Cândida Raposo que o desejo de prazer não passava.
Teve enfim a grande coragem de ir a um ginecologista. E perguntou-lhe envergonhada. de cabeça baixa:
- Quando é que passa?
- Passa o quê, minha senhora?
- A coisa.
- Que coisa?
- A coisa, repetiu. O desejo de prazer, disse enfim.
- Minha senhora, lamento lhe dizer que não passa nunca.
- ( ... ) E... e se eu me arranjasse sozinha? O senhor entende o que eu quero dizer?
- É, disse o médico. Pode ser um remédio.
[ ... ] Nessa mesma noite deu um jeito e solitária satisfez-se. Mudos fogos de artifícios. Depois chorou. Tinha vergonha, Daí em diante usaria o mesmo processo. Sempre triste. É a vida, senhora Raposo, é a vida. Até a benção da morte.
A morte.
Pareceu-lhe ouvir ruído de passos, Os passos de seu marido Antenor Raposo.Clarice Lispector, A Via Crucis do Corpo
Masturbação feminina de Gustav KlimtOntem, foi um dia muito especial para mim. Não sei se foi pelo seu significado, ou se foi porque eu pude refletir sobre a minha vida. A minha existência como mulher e tudo o que eu tenho feito nos campos afetivo e existencial. Sou descasada e tenho curso superior, mas procurei comparar-me com todas as marias desse mundo.
Depois que os meus filhos foram dormir entrei no banheiro. Estava sentindo muito mal. Sentia-me sozinha. Irremediavelmente sozinha. Com aquele mal estar de ontem, de anteontem, de sempre, pior até. Hoje também estou mal, mas um pouco menos.
Despi-me e deitei-me no chão, tendo na mão um celular que tem câmera fotográfica. Comecei a me fotografar. Estava muito, mas muito excitada mesmo! Depois de fotografar todo o meu corpo, fotografei a minha vagina por todos os ângulos. É como se eu quisesse guardar algo que a partir daquele momento tomaria outro sentido para mim.
Comecei a acariciá-la. Estava toda 'melada'. Então comecei a me masturbar. Colocava o dedo dentro dela e estimulava o clitóris. Meus braços são curtos e meus dedos também. Quase não a alcançava. Talvez sentada fosse mais fácil, mas eu estava deitada e não queria mudar de posição. Resolvi, então, lamber o dedo pra saber que gosto tem. É salgadinho, constatei. Uma delícia! Adorei! Achava que nunca faria isso. Mas adorei mesmo! Divino! Achei que fosse ter nojo, sei lá... Mas não tive. Talvez por isso eu não pudesse nunca pensar numa relação homossexual.
Fiquei assim por muito tempo amando essa sensação, porém sem gozar. Insisti. Resolvi lamber a ponta de um dos dedos da outra mão. Em seguida iniciei um estímulo simultâneo num dos seios - uma das minhas maiores zonas erógenas - no mamilo. Uma mão no clitóris revezando com o interior da vagina e a outra no mamilo. Que delicia!
Insisti, continuei, estava obstinada. Não pararia enquanto não conseguisse sentir o melhor dos orgasmos da minha vida. Explorei tudo o que queria, sozinha, eu comigo mesma, sem ninguém para dizer o que devia ou não fazer, ninguém para por limite a nada. Insisti. Continuei de modos diferentes.
Trocava de mãos, de vez em quando. Estava cada vez mais excitada. Sentia um rubor enlouquecedor nas faces. Minha vagina era o foco principal, explorava-a a cada milímetro e revezava com os mamilos, ora o esquerdo, ora o direito. Procurei algo no banheiro que pudesse introduzir nela, mas não achei nada.
Tornei a deitar no chão e iniciei uma nova série de estímulos. Acariciava minha barriga, as minhas coxas. Sabia, ou melhor, achava que ia conseguir. Não podia e não queria parar. Queria muito aquilo. Precisava muito. Queria muito mesmo. Resolvi, com uma das mãos, abri-la e com a outra segurar, suavemente o clitóris, como se fosse um minúsculo pênis. Fiz como vejo os homens fazerem com os seus pênis. Vagarosamente, delicadamente, suavemente, porém vigorosamente, deliciosamente, num malabarismo de corpo, evitando fazer qualquer barulho.
Não sou escandalosa, mas tinha vontade de gritar. Estava quase gozando e não podia nem gemer; e aquela sensação de prazer, aquele arrepio tomava conta de todo meu ser.
Abri os olhos ainda deitada naquele chão já com a temperatura do meu corpo, percebi o basculante do banheiro aberto, nas suas frestas e um grande prédio que se agigantava atrás do meu. Podia ver algumas janelas abertas e luzes acesas no prédio vizinho. Fechei os olhos e imaginei que tinha uma platéia me observando excitada em cada uma das janelas com luzes acesas. Não me dava conta de que as frestas deveriam ser pequenas, quando vista de fora. Nessa hora insisti, com mais vigor, acariciava os mamilos, que a essa altura já estavam intumescidos.
Gozei! Continuei fazendo. Não parei enquanto não terminei de gozar. Foi um gozo espetacular. Nunca imaginei que pudesse ser capaz de gozar sozinha. Foi incrível, fantástico, maravilhoso, divino, celestial mesmo! Eu nunca vou me esquecer... Isso foi hoje, depois do dia da mulher, às três horas da madrugada, mais ou menos.
Nesse momento eu senti muita vergonha do que fiz, mas ao mesmo tempo pude me apaziguar pois estava sozinha. Acho que fiquei ainda tentando durante muito tempo, mas não posso precisar quanto. O que sei é que, mesmo demorando muito, descobri que posso fazer isso sempre e a hora que eu quiser.
17 janeiro 2009
UMA BELA SURPRESA
Andrea estava sentada na ante-sala do Dr. Figueiredo acompanhada de sua mãe, quando foi chamada pela secretária. D. Marta pediu, com delicadeza, que a mãe de Andrea aguardasse. Alguns minutos depois, o Dr. Figueiredo veio à porta e dirigiu-se à mãe de Andrea, avisando-a que a entrevista duraria pelo menos duas horas. Andrea já estava acomodada em uma poltrona colocada a frente do seu bureau e aproveitava para olhar em toda a volta daquela sala que ela visitaria várias vezes, sem saber ainda.
Dr. Figueiredo observava-a em silêncio, admirando a sua beleza, o seu corpo, os seus seios durinhos e naturais de uma moça que estava prestes a completar a maioridade. Seus lábios carnudos chamavam-lhe a atenção. Ele sentiu-se incomodado com a excitação repentina e irresistível. Estava acostumado a enfrentar essas situações. Entrevistara centenas de moças para o escritório que dirigia. E não era conhecido como um garanhão pegador. Talvez porque tivesse um nível de exigência muito alto. Além de ser muito discreto em suas escolhas. Andrea, sem duvida alguma, encantou-o e fugia do padrão corriqueiro. Havia algo nela que se contrastava. Além do mais, o seu aspecto tímido e a companhia da mãe, naquela idade, não eram comuns nas entrevistas.
- Você está em que período? Perguntou, afrouxando a gravata que o sufocava.
- Oitavo período. Formo-me no ano que vem. Respondeu sem olhar para ele.
- Ah! Então teremos você por aqui por uns dois anos, mais ou menos. Mas me diga, por que sua mãe também veio? Perguntou interessado.
- Ela é assim mesmo, não me deixa fazer nada sozinha. Respondeu com simplicidade.
Misturar relações de trabalho com relações sexuais, não era muito o estilo dele. Contudo diante de uma situação irresistível ele acabaria cedendo. No fundo, no fundo ele também era tímido e temia que D. Marta descobrisse alguma coisa.
Enquanto conversava sobre os afazeres do estágio, convidou-a a sentar-se ao seu lado no sofá. Andrea tinha uma voz levemente rouca e fazia trejeitos com a cabeça para arrumar os cabelos que, dava um toque sensual. Entretanto mantinha a sua bolsa em seu colo, como que, para protegê-la.
Ele já completara a entrevista, mas ainda tinha pela frente a metade do tempo que prometera à sua mãe. Ela, por sua vêz, mantinha uma calma inquebrantável. Com paciência, ouvia as explanações dele que, logo depois deu por terminada a entrevista. Chamou D. Marta para formalizar o contrato. Andrea começou a trabalhar no dia seguinte.
Dr. Figueiredo não conseguia tirar Andrea de sua cabeça. Uma semana depois, mandou chamá-la ao seu gabinete. Acomodou-a no sofá. Ela sentou-se colocando a bolsa no seu colo. O cenário era praticamente o mesmo da primeira entrevista. Ele começou perguntando se ela estava gostando do estágio e outras coisas triviais. Ela sempre respondia com uma delicadeza que, não lhe dava a menor chance partir para investidas mais atrevidas. Demonstrava uma indiferença nesse aspecto. Isso o deixava desconsertado.
Durante os dois meses seguintes, repetia-se a cena sem sucesso nenhum para ele. Então, resolveu convidá-la para almoçar. Ela delicadamente descartou o convite com uma desculpa infalível. Ele já estava muito nervoso com aquela inusitada situação. Pediu à D. Marta que dissesse a ela que ele tinha um relatório importante e precisava dela até depois do expediente.
Ela entrou no gabinete com o mesmo ar provocativo e faceiro que o encantou e o seduziu. Quando entrou, ele ostensivamente trancou a porta por dentro, colocando a chave no seu bolso. Partiu para uma investida que não gostaria de usar. Confessou a sua paixão e o seu desejo por ela. Enquanto falava, tirava o paletó, a gravata e desabotoava a camisa. Ela sentada no sofá, aceitava quase passivamente a sua ofensiva. Apenas abriu a blusa, deixando expostas algumas partes dos seios lindos e pontiagudos de excitação. Beijaram-se apaixonadamente. Confessaram juras de amor. Enquanto ele beijava-a tocava em todos os lugares possíveis. Ela correspondia deixando-se tocar em quase todo o corpo. No entanto mantinha a bolsa em seu colo com firmeza. Com a outra mão correspondia aos afagos.
Sentindo que a sua investida já fora longe demais para aquele momento, o Dr. Figueiredo deu-se por satisfeito e correu para o seu banheiro privativo. Masturbou-se gozando quase que instantaneamente.
Quando retornou à sala, Andrea já estava recomposta. Pegou a chave da porta em seu bolso e saiu, dando-lhe dois beijinhos no rosto. Um de cada lado. Ele repetiu essas investidas algumas vezes durante seis meses. Já estava visivelmente nervoso por não conseguir concluir o seu intento.
Numa bela manhã ensolarada, ela ligou diretamente para o seu gabinete. Comunicou que estava se demitindo naquele instante. Perguntou se ele aceitaria ir, com ela, a um motel. Ele prontamente aceitou, pois viu aí a possibilidade de realizar o seu desejo.
Quando chegaram ao motel abraçaram-se e beijaram-se longamente. Ela pegou-lhe pela mão e dirigiu-se à cama, dizendo que deixaria que ele fizesse qualquer coisa. Acrescentou, porem, que tinha uma surpresa para ele. Pediu que ele se despisse no banheiro, pois tinha vergonha de ficar nua na sua frente. Quando ele retornou encontrou-a de bruços. Coberta apenas pelo fino lençol. Ele entendeu que aquela seria a surpresa e penetrou-a por trás, gozando seguidas vezes.
Exausto, deitou-se de barriga para cima e pediu que ela se aproximasse. Ela veio mansamente beijando-o apaixonada. Pela primeira vez ficaram frente a frente. Ele num único golpe, virou-a e deitou-se sobre ela. Sentiu uma coisa estranha encostando-se ao seu pênis e afastou-se assustado. Olhou para ela e para aquilo, num misto de horror, indignação e surpresa.
- Essa é a surpresa! Ela falou, baixinho.
Ele sentou-se. Não sabia se ria ou se chorava. Não sabia se sentia ódio ou amor. Se fugia ou se ficava. Inúmeros pensamentos vieram à sua cabeça, sem que nenhum se fixasse. Ficou assim, bestificado, por algum tempo, até que ela perguntou, com a voz trêmula:
- Você me ama?
- Claro! O amor é cego, porra! Respondeu quase gritando.
07 janeiro 2009
EU/VOCÊ - UMA QUIMERA
fosse você e no corpo sentisse,
o que sentia quando amor fazia.
a dor que perdurava, horas e dia.
quisera você/homem acordasse.
sentisse o que senti e a dor ficasse.
trocássemos de lugar então.
você amaria o sexo e eu a paixão.
se eu/você acordasse.
se um do outro tivesse ciência.
e o dolorido corpo vibrasse.
de repente viria o pranto.
e imploraria clemência.
por ter amado tanto.
Comente aqui
26 dezembro 2008
A CIRCULARIDADE DO SER – UM FRAGMENTO*
O presente texto trata de reflexões teóricas de uma experiência clínica. Os dados reveladores e identificatórios foram alterados no sentido de preservar possíveis personagens.
Mariana procurou o analista porque desejava atendimento. Dois dias antes da primeira sessão, Carlos, seu marido, ligou e pediu para vir no seu lugar. A mulher marcou, mas foi ele quem veio na primeira vez. Ela veio na sessão seguinte e continuou em análise.
Um marcou e o outro veio à sessão. Como pensar isso tecnicamente? Ficar preso nessa questão é colocar-se no lugar da psicologia do eu. Essa especificidade é esclarecida pelo estatuto atribuído por Lacan à ética da psicanálise, noção que é inseparável da "barra", da "divisão". Num certo sentido, vai permitir a distinção do "fora" e do "dentro", do social. Por conseguinte, ideológico, do que é propriamente do sujeito, o desejo que, como tal, se distingue da demanda e da necessidade. Esta separação do social relaciona-se de alguma maneira a algo como se parire, processo que alude á separação, a uma divisão no sujeito e não entre o sujeito e o social. Fala da produção de algo novo, à criação. Implica o abandono das relações do sujeito com os "serviços dos bens", isto é, o abandono de posições marcadas pela defesa de interesses, econômicos ou de qualquer outra natureza, previamente definidos socialmente. Enfim, um se parire que é quase o oposto do que a sociologia chama de processo de socialização. Este sim tem uma função que se aproxima, pelos efeitos que produz, daquela que corresponde à ideologia em Althusser: a constituição dos "sujeitos ideológicos". Neste sentido preciso, que esta ética vai servir de referência fundamental a critica ideológica, que Lacan, em diferentes momentos, dirigiu ao que, pejorativamente, considerava como "psicologia do eu". Uma perspectiva que fixava o "sujeito" ao social e, portanto, à ideologia e, neste sentido, funcional à sociedade e ao "serviço dos bens".
O importante é, pois, saber quem pagará a análise. É indiferente de onde vem o pedido. Também é indiferente de onde vem o dinheiro. Assim se faz psicanálise. Se quem vem, entra, traz uma questão, o analista está ali para receber esse discurso. Para marcar esse lugar. O que está em jogo é o desejo do analista. Receber ou não receber. Se receber, vai escutar para poder aprender. Alguém ligou e ele atendeu primeiro outro. Sempre teremos uma desculpa. Qualquer desculpa, tanto faz. Mas esse é um lugar da psicanálise. O primeiro caso mais escrito de Freud foi o caso Dora. O pai dela tinha se tratado com ele de sífilis e foi procurá-lo. A filha deixou um bilhete dizendo que ia se matar. Foi ele quem foi. É preciso ouvir o que vem e na ordem que vem. Primeiro vem um, depois vem outro.
Heráclito parte do princípio de que tudo é movimento, e que nada pode permanecer estático. "Panta rhei", sua "máxima", significa "tudo flui", "tudo se move", exceto o próprio movimento. Ele exemplifica, dizendo que não podemos entrar duas vezes no mesmo rio, porque, ao entrarmos pela segunda vez, não serão as mesmas águas que estarão lá, e já não seremos a mesma pessoa. De fato, a biologia veio a descobrir, muito mais tarde, que nossas células estão em constante renovação, e isso é uma mudança.
Ela é artesã e o marido também. O marido foi professor dela e ele tem uma oficina. Agora ela está parada; disse que não tem mais cabeça para fazer esse trabalho.
Mas vamos ao caso. Ela chega e pós um breve silêncio começa a falar:
– Oi, cheguei! Cheguei cedo. Não tem que ficar esperando um pouquinho não?
Fico em silêncio esperando para ver o que aparece.
- ... Pois é, estou aqui. ... Você está aí pra quê? Não fala nada não? Não sei o que vou falar, estou nervosa, ufa!
– Está nervosa por quê? Pergunto.
– Não sei, eu sou assim meio agitada. Eu vim um pouco mais cedo e fiquei ali falando com o guardador de carros. Muito legal ele, sabe? Fiquei conversando um tempo com ele. Ele é uma pessoa bacana. Trocamos figurinha e acabamos tomando um chope. É uma pessoa legal.
– Ele é legal. Disse para demonstrar atenção.
– Ele também me acha legal, eu sou bem relacionada. As pessoas me acham legal, me dou bem com as pessoas. Ele gostou, falei com ele, perguntei umas coisas lá, me ajudou a estacionar o carro e fomos tomar um chope. Eu falei para ele: – olha você vai me ver aqui muitas vezes, vou voltar aqui muitas vezes. ... Carlos veio aqui? Ele estava me enchendo o saco; eu marquei com você e ele estava me enchendo o saco. Aí eu disse pra ele: – vai lá você, vai se tratar um pouco. Ele veio na frente; achei que era melhor. Pois é, ele aporrinha pra chuchu; agora não me deixa fazer as coisas, não me deixa tomar uma cerveja. Quando bebo fico muito animada e ele fica me proibindo. Nós tivemos um problema que você já deve saber, com nosso filho.
- Problema? Perguntei.
– Toda aquela história, né? Olha, eu fumei muita maconha, tomei muitas drogas desde garotinha e, durante a gravidez, eu parei. As pessoas falavam que ia fazer mal e eu parei de me drogar. Mas eu tomei de tudo. E, aí, durante o parto foi tudo bem. O Carlos não parava de fumar maconha; fumava maconha o dia inteiro. E aí aquela história. Na hora em que o filho nasceu eu fiquei esperando. Bem, vão trazer o filho para mim, mas o filho some. Perguntei o que aconteceu, ele teve um problema respiratório com conseqüências e tive que fazer um tratamento. Os pezinhos, isso eu já tinha visto na ultra-sonografia, estavam virados para trás. Hoje ele já está bem, foi há um ano. Fez uma cirurgia, fisioterapia e tal e os pezinhos foram para o lugar. Mas um ano, um ano que estou nessa luta; não agüento mais, não nasci para ser mãe, não agüento mais. Um ano cuidando de criança, eu preciso da ajuda do Carlos, mas ele só fica me enchendo o saco, fuma maconha e agora eu não me deixa beber. É isso... Eu não nasci para ser mãe; de vez em quando eu quero sumir, quero fugir, quero ir embora, largar tudo isto. Largar o Carlos, largar filho, ele é pequenino. Agora que deu tudo certo...
– Agora que deu tudo certo você quer largar tudo. Pontuei.
– É, agora eu não agüento mais, estou precisando de umas férias. Estou pensando em me separar, estou pensando em sumir. Eu não agüento mais, quando nós brigamos, eu sou muito agitada. Sai na porrada, eu parto pra cima dele. Ele diz pra eu ficar calma. Fica calma nada. E a família não ajuda; muito sozinha muito sozinha hoje. Estou precisando de liberdade; de vez em quando pego o carro e vou para a estrada, bebo umas cervejas e vou parar lá no sítio da minha irmã. Aliás, desse sítio, na última vez nós fomos expulsos, eu e Carlos, nós saímos na porrada. Ele ficou com ciúmes. Eu botei um short, a parte de cima de um biquíni e saí para ir à venda. Pronto, acabou o meu dia. Ele reclamou que isso não eram modos de vestir, eu disse que não é nada disso. Disse que ele tem que me entender, que isso era besteira...
– O que é que você estava procurando? Perguntei.
– Eu fui comprar cigarro em uma venda. A gente estava indo pro sítio, eu parei o carro e fui comprar cigarro. Ele vai e acaba com o meu dia... É complicado, não? A vida tá uma complicação. Eu não sei se quero ficar mais com ele, mas não posso abandonar a criança.
- Não sabe se não quer ficar mais com quem?
– Com o Carlos. A coisa chegou a um ponto que eu não sei. A idéia era vender o nosso apartamento. Ele poderia comprar uma quitinete ou um quarto e sala para ele e eu iria morar em outro lugar, em uma casa, um sítio que eu consigo, eu acho. Minha irmã já disse que não quer ver mais a gente lá, depois do que a gente aprontou. Brigamos o tempo todo. A porrada come solta. Ela não quer mais. Eu cuido da criança, faço comida. Ele chega em casa e ainda reclama. Estou engordando, não consigo parar de comer, não sei o que faço. Mas, a vida é assim, não é?
– O que você espera de mim? Perguntei tentando um novo rumo no assunto.
– Que você possa me ajudar em bocadinho, não é? Vim até aqui.... Lá em casa está difícil. Não estou conseguindo levar essa situação sozinha, não. Quero saber o que você pode fazer. Bater um papo, trocar idéias. Já fiz umas terapias, mas não deram certo. Não gostei, não. Estou querendo ver se agora o senhor pode me ajudar.
Sempre que o paciente chega neste ponto é como se deixasse uma armadilha para o analista. O analista está ai para positivar. O que não gostou remete a uma comparação. Se o analista pergunta o que você não gostou, ele se coloca em disputa com o outro analista ausente. Então, a transferência vai ser de um tipo aonde ela não vai se dirigir a você, mas com uma diferença; o analista se coloca como o bom. O que você não gostou significa: eu vou me corrigir para você gostar.
Pensar no por que alguém nos procura, leva à pergunta o que é que essa pessoa quer de mim? O outro se quiser, se queixa ou deixa de se queixar. Deixa a pulsão ir positivamente. Quando focaliza o que não gostou, esse não é que vai conduzir. O não enquanto uma negativa, e não um não enquanto positivo. Acredito que esse não seja o melhor modo, mas é um modo de se organizar. Eu pensaria que isso de pergunta, para o inconsciente, não contribui. Eu aprendi que quando a gente se coloca e diz o que não gostou no outro, a gente diz: eu é que vou te servir. Aí a pulsão não vai poder instalar um não comigo; não só com os outro, eu sou o legal.
Não importa estabelecer com o paciente um vinculo de aceitação paciente analista. O que talvez se deva escutar é: eu procuro e não encontro; não preciso saber o que.
Com isso se estabelece um gancho libidinal: o rapaz do estacionamento, a cerveja, vai voltar. O rapaz do estacionamento pode se preparar para ver as coxas por baixo do short etc. É isso que ela está contando.
– Vou te mostrar umas fotos do meu filhinho. Aqui as fotos dele; não é bonitinho? Está bom, quando é que eu marco outra sessão?
Marcar a próxima, bem como receber no fim da sessão é importante para esse tipo de paciente que não apresenta uma certa regularidade.
– Ué? Não vou precisar esperar aqui em baixo não, pra subir? É direto? Que bom, está geladinho aqui. Fala alguma coisa aí; ... Você trabalha com criança? Estou vendo uma casinha ali. Estou vendo ali uma casinha de boneca.
– Você falou que queria morar numa casinha. Seu marido numa quitinete e você em uma casinha...
– Quanto tempo a gente ainda tem de sessão? Quanto tempo é? Você fica olhando para aquele relógio ali?
O analista fica calado esperando que as últimas coisas faladas retumbem dentro dela em busca de algum sentido.
– É, não tenho o que falar. Carlos me encheu o saco de novo; parti pra cima dele. Não queria me deixar sair e eu parti pra cima dele. ... Quero te contar uma coisa que não contei pra ninguém. To saindo com um cara, um amante, amigo de infância e é muito bom, estou gostando bastante. Fico meio grilada de encontrar com ele, mas encontrei com ele e foi muito bom! Trepar é muito bom! Não sei em que vai dar isso; é um amigo de infância, a gente se encontrou e pronto. Não é só uma trepada. É bom ficar com ele. É. Às vezes tenho essa vontade de sair por aí, não é? Outro dia, peguei o carro, pequei meu filho e fui pro sítio. De lá, liguei pro Carlos: – olha, estou aqui, tá? De vez em quando dá vontade de pegar uma estrada e ir embora. Ele perguntou se estava tudo bem, se estava tudo tranqüilo. Eu disse que sim e fiquei lá um tempo. ... Ta na hora já? Quanto tempo você trabalha? É um bom lugar lá, eu gosto de vez em quando de dar uma saída; é muito difícil.
O analista se levanta para despedida.
– Então, sexta-feira estou aí, ta?
Antes da próxima sessão marcada, estou em casa e recebo um recado do Carlos:
– Olha, Mariana foi pra Terezopolis sozinha, foi assaltada, levou umas pancadas, chegou em casa bêbada e não pode ir à sessão; depois ela liga pra você.
Isso aconteceu na sexta-feira e, aí, eu liguei para ela no sábado e marquei outra sessão. Ela normalmente é super expansiva; chegou na sessão com o corpo cheio de hematomas e eu não perguntei diretamente o que aconteceu.
– Posso sentar ali? Sentou-se no chão.
– Quem te bateu? Perguntei com preocupação.
– Peguei o carro, fui encontrar com o Márcio. Ele esta saindo com outra mulher. Descobri que ele está saindo e ele confirmou. Eu sou casada, como é que posso me importar se ele está saindo com outra mulher? Mas eu me importei, fiquei com ciúme e parti pra cima dele. Levei porrada e estou cheia de hematoma. Aí, vim chegando depois em Nova Iguaçu, parei no sinal e um moleque me assaltou. Pegou o meu dinheiro. Bebi uma garrafa inteira de vodka. Não sei o que faço; sou casada, ele arrumou outra mulher. Eu sou ciumenta. Eu parto pra cima. Aí, quando bebo, fico com problema no estômago e fico dois dias na cama. Carlos me deu banho, me deu remédio. Eu fico lá, demoro um tempão pra levantar. Quando bebo acontece isso. Eu fui assaltada e nem tenho dinheiro pra te pagar hoje; posso pagar na próxima? Te pago a que eu faltei também.
– Levaram... Eu disse.
– É, levaram o que é meu. Eu sou grandona, sou forte.
Contardo Calligaris em Clínica Diferencial das Psicoses escreve sobre o automatismo dessas pessoas que estão em um lugar e, de repente, partem para outro, não podem ficar no mesmo lugar. No caso dela, ela já vem contando que tem uma pulsão insatisfeita que diz respeito ao guardador, e por aí logo entra o amigo e logo a repetição. Por isso é que não é necessário saber do lugar; interessa tudo, menos o casal. O que está interessando aqui é que ela repete com o amigo de infância a mesma coisa que ela tem com o marido. A posição do analista é escutar como essa subjetividade se faz; se é com Carlos ou com Marcio, sei lá com quem, ela é a grandona, ela fala de si própria e se reconhece como tal. E a outra coisa é pensar que tem um critério, que é mais lacaniano, que quando o sujeito se desloca nessa velocidade, se você simbolicamente está diante de um psicótico.
Há uma preocupação dela pelo fato de ter tomado drogas. Parentes e amigos diziam para ela que se drogou muito. Quando ela teve o filho com esse problema, as pessoas começaram a acusá-la em função da quantidade de drogas. Ela também fala de uma paixão da qual não está conseguindo dar conta. A relação com marido é alguma coisa que já acabou.
*Adaptação de um caso apresentado numa sessão de Mobilização Clinica da Formação Freudiana.
13 dezembro 2008
DEPOIS DA CHUVA
Por Rogério Silva
Doutor, o que eu quero falar hoje é alguma coisa que, para mim, tornou-se um martírio que me consome e me oprime diariamente. Ainda não sei direito quais os sentimentos que me tomam. Só sei que são múltiplos. Prazer, vergonha, desejo, autoflagelação, dor, medo, volúpia, sei lá! Talvez ao relatar eu encontre os motivos dessa angústia.
Na noite daquele sábado chovia tanto que resolvi me meter na única lan house aberta do Catete. Eu tinha um propósito para estar ali naquela hora. Queria encontrar com Lino. Eu me sentia perdidamente apaixonada por ele. Não o encontrei na rede. Aproveitei para ficar em dia com meu e-mail. Estava tão absorta nessa tarefa que nem percebi quando Jony entrou. Primeiro, por que ainda não o conhecia e segundo, por que estava tão entretida no que fazia para perceber qualquer aproximação.
Ele sentou-se atrás de mim, numa mesa mais distante. E fez-se notar, para mim, pelos toques insistentes do seu celular. Parecia que falava com uma menina. Ela não queria aceitar alguma sugestão da mãe. Foi o que deu para perceber. Num estilo paternal, ele lhe dava bronca em voz baixa, mas não o suficiente para que as outras pessoas que estavam na lan não ouvissem, parecia estar bastante irritado com ela. O seu celular ainda tocou outras vezes. A cada instante que tocava eu o olhava instantaneamente. Havia nele alguma coisa que me atraia. Não sei se por que não encontrei Lino, mas o fato é que não resistia àquela atração. Fiquei observando-o, com admiração e interesse. Olhei para a tela do seu computador e percebi que estava no MSN. Instintivamente, dei um impulso na minha cadeira, com rodinhas, para trás, até parar ao seu lado. Nossas máquinas estavam posicionadas, uma contrária a outra. Toquei em seu braço e sorrindo, perguntei baixinho se ele gostaria de me adicionar ao seu MSN? Ele, que estava com fones de ouvido não entendeu. Retirou o fone do ouvido e seriamente pediu que repetisse. Sorri sensualmente para ele, e repeti o convite. Ele respondeu que sim, então eu ditei para ele o meu endereço. Ele me disse o seu nome, João Paulo Medeiros. Mas no seu MSN era Jony. Laura. Apresentei-me e continuamos um de costas para o outro, em comunicação.
Sempre muito respeitosamente ele me perguntou algumas coisas pessoais e me contou outras tantas suas. Depois queria saber o que eu fazia, se era casada, se tinha filhos e coisas desse tipo. E ainda quis saber onde eu morava. Falei que sou descasada, tenho uma filha quase na universidade e moro numa cidade do sul do estado.
- E onde você fica quando vem aqui? Ele perguntou. Entendi perfeitamente que ele se referia à cidade, mas num tom de gracejo respondi:
- Numa lan house! A resposta veio quase que instantaneamente. Rimos muito desse tipo de brincadeirinha. Foi muito divertido e serviu para nos deixar mais à vontade!
Como eu já pretendia ir embora, sinalizei que já iria sair e ele me ofereceu uma carona até a casa de mamãe onde disse que estava hospedada. Ficava perto, há algumas quadras dali. Não seria necessária uma carona, mas que se ainda chovesse eu aceitaria. Ele insistiu, dizendo que seria um prazer de qualquer maneira. Agradeci e perguntei a que horas ele iria embora. Respondeu que estava ali só passando tempo e que poderia sair na hora que eu quisesse. Imediatamente desliguei o meu computador e fui até a recepção fechar a minha conta. Ele fechou a dele também e saiu na minha frente. Esperou-me na porta. Ainda chovia e a carona tornou-se inevitável.
Parou o seu carro no portão da casa de minha mãe. Uma casa antiga, de porte médio como uma das poucas que ainda sobrevivem no bairro. A casa possui uma varanda na frente e garagem. Os cachorros que já me conhecem, chegaram silenciosos. Não havia ninguém. Coisa que ele reparou, pois as luzes estavam quase todas apagadas. Perguntou pelos habitantes da casa. Minha mãe havia viajado e minhas irmãs estavam com seus namorados em algum lugar da cidade. Elas moravam ali sozinhas com meu irmão que esta quase sempre fora em viagem. Eu não quis dizer que minhas irmãs ainda eram jovens e bonitas para não despertar curiosidades e ser preterida por elas, como sempre acontece.
Inconvenientemente ele se convidou para entrar. Para tomar um café ou uma água, quando ficou certo de que não tinha ninguém na casa. Minha mãe não gostaria que se trouxessem pessoas estranhas quando ela não estivesse. Disse-lhe num tom que não deixava a menor oportunidade para retrucar e acrescentei.
- E além do mais, a casa tem câmeras espalhadas por todo canto e alarme de segurança que toca em outro lugar secreto com vigilantes armados. Ele sentiu-se intimidado e não insistiu. Resolveu ir embora dali mesmo e perguntou se poderia me dar um beijo de despedida. Disse que sim aproximando o rosto de sua boca. Virei-me e dei a outra face para um beijo formal, entre duas pessoas que acabavam de se conhecer. Aproveitando a aproximação, ele me disse ao pé do ouvido.
- Adorei o seu cheiro! Entendi que falara perfume e, disse que não uso perfume.
- O perfume de que falo é o seu próprio cheiro. É muito excitante! Acrescentou com ar de superioridade e conhecimento. Ofereceu-me o numero do seu celular, pedindo que ligasse quando estivesse de volta a cidade para sairmos. Nessa hora quis saber de meus gostos, se bebia e se fumava. Como lhe respondi negativamente perguntou se era por causa de alguma questão religiosa, o que prontamente descartei. Ele se animou e numa nova tentativa de conquista, começou a me galantear dizendo que eu ainda era muito nova para ter uma filha na universidade. Perguntei então quantos anos ele me dava. Ele respondeu imediatamente, sem pensar, trinta e cinco. Eu me senti linda! Ele me disse que tinha trinta e oito anos, mas desconfiei. Achei-o mais velho que a idade que eu tenho. Mas ele era muito bonito, forte, simpático e inteligente. Aproveitou para falar mais de si. É professor de história, tem mestrado em relações internacionais e aparenta erudição. De sua vida íntima acrescentou ter apenas uma filha, de sete anos, mas que valia por duas. Nunca foi casado e não tem nenhum relacionamento fixo há quatro anos. Pensei: “Oba! Disponível! Na minha medida!” Pensei, mas não disse.
Certo de já ter captado a minha confiança, ligou o carro e convidou-me para sair. Aceitei, não imediatamente, por uma questão de charme. Ele saiu sem dizer, ou perguntar, aonde iria e falou num tom suave e com um leve sorriso nos lábios.
- Estou adorando essa fantasia! Eu perguntei imediatamente, sem pensar:
- Qual?
- Estou amando ter sido escolhido por você para ser o seu homem hoje. Para fazer amor contigo. Respondeu aparentando felicidade. Parecia uma criança prestes a ganhar o brinquedo predileto. Ao mesmo tempo em que falava coisas carinhosas que me deixavam excitada, disse também um monte de palavras chulas num misto de doçura e agressividade. Fiquei muito assustada e perguntei por que estava falando aquelas coisas.
- Fiquei muito excitado com essa idéia de ter você. Adoro mulheres sedutoras e de atitude. Concluiu com suavidade, mas olhando-me nos olhos de um modo muito incisivo. - Quero levá-la a minha casa. É um lugar pequeno, modesto, onde eu tenho meus livros, meus discos e recebo as pessoas que gosto. Disse isso já manobrando para parar em frente ao prédio.
- É aqui. Disse isso desligando a chave do carro e voltando-se para a minha direção, sem me dar a chance de retrucar.
Olhei para fora do carro, ainda chovia, estávamos na subida de uma ladeira, era um prédio pequeno, realmente modesto, antigo, cinza e pouco iluminado. A rua também. A portaria estava escura num sinal de que não havia porteiro. Comecei a ficar com medo. E disse isso a ele. Meu corpo começou a tremer de medo. Medo mesmo. Medo de estupro, de morte. Não sabia se estava diante de um psicopata. Imediatamente acudiu-me a idéia, várias cenas do livro o Psicótico de Leonard Simon, como num filminho em que essas cenas passaram em segundos. Seria ele como o Artur Moss do livro? Pensei.
Como quem está na chuva é para se molhar mesmo, pensei procurando em mim alguma coisa que me desse força para enfrentar o que estava por vir. O horror me tomava e ao mesmo tempo lambia-me o íntimo uma excitação. Era tão grande que eu sentia o suor correr em meu rosto, apesar do frio. Minha calcinha parecia encharcada, mas tão encharcada que instintivamente fechei mais as pernas numa tentativa de esconder a calça molhada. O escuro do carro me protegia, mas ele não tirava seus olhos dos meus. Com um cigarro no canto da boca deu um risinho sinistro. Mas antes de acendê-lo, perguntou se eu me importaria que acendesse. Nessa hora senti uma possibilidade de dominar um pouco a situação e pedi que não acendesse. Imediatamente ele guardou o cigarro, dizendo, sem graça, que sempre que estava com alguém perguntava, por educação. Parecia um cafajeste cavalheiro. Se existe essa combinação, eu estava diante de um legitimo espécime. Eu não conseguia acreditar no que estava vendo. Com muito medo, resolvi entrar em seu joguinho! Jony me pedia que eu não tivesse medo! Tentava me acalmar, mas ao mesmo tempo tinha uma cara de dar pavor. Dizia que eu iria gostar. De forma dura e incisiva começou um discurso que eu ainda não havia consentido.
- Eu sou um puto e adoro putas. Disse de um jeito que não me senti ofendida. Senti que houve em mim uma transformação. Comecei a gostar do que estava acontecendo. Já adentrávamos o apartamento quando ele exercitou o máximo da intimidade. Parecia que já nos conhecíamos há muito tempo e aquele era apenas mais um encontro.
- Vou enterrar o meu pau durinho dentro dessa bocetinha. Vou meter fundo. Depois no cu. Falou num tom de conhecimento de causa. - Quero lambê-la toda. Começando pela boca e ir descendo, pelos peitinhos, enfiar a língua no seu umbigo e descer mais, até atingir quase o seu útero enquanto você chupa o meu pau. Descrevia tudo o que estava para acontecer como se já tivesse sido ensaiado antes, ou se tivesse transmitindo um acontecimento. Aquilo me dava um misto de excitação e medo. Tirou o seu casaco bege e a camiseta preta, deixando a mostra o seu peito nu e musculoso. Filmava-me com os seus olhos. Sua boca parecia a de um lobo faminto diante da sua presa. Não me fiz de rogada, tirei minhas calças. Ele me pegou com vigor e arrancou-me a blusa. Com vigor, porém com suavidade, se é que isso é possível. Avisei, com cara de puta, que não queria sentir dor e pedi que usasse camisinha. Ele aquiesceu e me disse que só sentiria dor se eu quisesse. Caso contrário, sentiria apenas prazer. Muito prazer! Falava sempre olhando nos meus olhos. Ou melhor, dentro dos meus olhos. Nesse ponto eu me sentia completamente invadida pela sua imagem, pelo seu cheiro, pela sua voz, pelo seu corpo. A sua língua rebolava com a minha em minha boca. Já o via inteiramente embora estivesse de olhos fechado. Intimidava-me, mas não demonstrei mais medo. Sentou-me sobre a cama e beijou-me ardentemente, enquanto desabotoava meu sutiã, demonstrando muita intimidade com o fecho. Acariciou-me, beijou-me, lambeu-me toda: dos pés à cabeça. Gozei facilmente. Parou e falou algumas coisas das quais não me lembro, pois estava extasiada naquele momento. Eu já estava quase sem sentidos. Perguntou-me outras coisas que se tornaram ininteligíveis também pelo mesmo motivo. A única coisa que entendi foi quando ele disse:
- É um crime deixar uma fêmea como você, no cio e sozinha!
Ele se sentia na obrigação que fazer alguma coisa. Aquilo que estava fazendo! Dava-me muito prazer! E queria saber se eu já estava satisfeita ou se queria mais. Respondia que queria mais. Queria muito, mas quase não conseguia mais falar. Nesse momento mandou que eu me ajoelhasse na beirada da cama. Que ficasse de quatro. Eu obedecia com muito desejo. Veio por de trás, pôs a mão esquerda nas minhas costas e com a outra me agarrou os cabelos, na altura da nuca. Enfiou o seu pau na minha vagina e descrevia antecipadamente passo a passo cada nova investida. Agora eu vou fazer isso, você vai adorar. Ou então, agora vou pegar você assim e você vai ao céu! Fazia perguntas como: sua puta, você gosta disso ou daquilo? E fazia sempre o que eu queria, com muita força. Tinha uma pegada forte! Eu me sentia entregue. Irresistivelmente entregue!
Quando eu pensava que ele já estava satisfeito, começava tudo de novo. Penetrou-me por trás com suavidade, segurando meus cabelos, fazendo com que virasse a cabeça na direção do espelho, sempre falando coisas no meu ouvido. Era um espelho pequeno, mas ficava na minha frente mesmo, era só levantar a cabeça. A mão, que antes estava nas minhas costas, desceu e entrou com dois dedos juntos em meu ânus. Pela primeira vez senti uma dupla penetração. Até o tempo parecia estar sob o seu comando. Repetimos todas as coisas sempre como se fosse à primeira vez até que adormecemos exaustos. Não sei quem dormiu primeiro. Só sei que quando eu acordei, já estava claro com o sol atingindo quase o meio do quarto. Coisas dessa cidade, nos dias primaveris! O cheiro de sexo exalava da cama, das roupas e até o ar parecia cúmplice daqueles momentos. Continuei deitada por algum tempo procurando saber que sentimentos eu levava daquela experiência. Reparei que Jony já se levantara e chamei-o por duas vezes:
- Jony. Jonyii! Sem obter nenhuma resposta. Tentei levantar-me. Estava nua. Envolvi-me no lençol e sentia a pélvis, as pernas e o ânus docemente doloridos. Meio cambaleante dirigi-me à sala onde encontrei a mesa de café pronta. Uma xícara usada e outra limpa para mim, que logo me pus a utilizá-la. Jarros com rosas e flores do campo ornavam a sala e eu não via neles nenhum cartão pendurado. Não dei muita importância a esse fato. De repente eu vi um envelope entre o bule de leite e o açucareiro. Pequei o envelope que dizia em letras grandes: ‘meu amor’. Estava semi-aberto e pude perceber que continha várias notas de R$ 50,00, que não contei, e um bilhete que abri sem pensar, deixando as notas do jeito em que estavam.
O bilhete era dirigido a mim, embora não tivesse nenhum nome: - Minha querida, hoje foi, sem dúvida nenhuma, o dia mais importante da minha vida e gostaria que você soubesse que fez parte dele. Tudo o que aconteceu entre nós foi divino e pareceu-me uma dádiva. Um presente do céu. Tudo o que fiz com você, teve para mim, o sabor de primeira vez. Não sei se poderei repetir essa experiência com você. Mas eu sei perfeitamente como você se sente, pois já me senti no seu lugar. Já me senti sendo penetrado por um homem forte, me dando amor, carinho me fazendo ir às nuvens em gozos múltiplos e sem poder fazer com ele o mesmo que ele fazia comigo. Graças a você eu aprendi. Agora eu sei que posso satisfazê-lo como ele sempre me satisfez. Hoje Fred estará retornando de New York, de um seminário de artes que participou e eu estarei pronto para recepcioná-lo como ele merece e sempre desejou. Essas flores eu comprei para ele com muito carinho. São lindas, não são?
Não fique magoada comigo, -eu lia isso com as lágrimas escorrendo em meu rosto e uma profunda dor no peito como se estivesse sendo apunhalada- mas eu não iria conseguir falar disso, pessoalmente, com você. Esse dinheirinho é apenas um presente para que você possa comprar o que quiser e lembrar-se sempre de mim.
Não creio que voltaremos a nos encontrar, mas espero que tenha boas recordações minhas e seja muito, muito feliz.
O seu Jony.
Aquela carta abateu-me como uma bomba atômica. Deixei escapar num esgar, um grito lancinante, tão forte que percebi a movimentação da vizinhança curiosa com o que ouviu. Durante alguns instantes eu fiquei parada olhando aquele envelope, o dinheiro, o bilhete e as flores tentando entender a conexão disso tudo com o que vivi durante aquela noite de chuva. O sol já adentrava a sala mostrando a irreversibilidade do tempo. Seria impossível voltar atrás e desfazer tudo o que aconteceu. Meu corpo doía agora de outro modo. Minha pélvis, minha vagina, meu ânus, a minha boca, estavam secos. Uma secura de carinho, de amor, de sensualidade ou sei lá do quê! Eu queria fugir dali. Sumir como que por encanto, mas não podia. Levantei, minhas pernas não obedeciam, sentei novamente. Peguei o bilhete, reli, refleti e conclui. Afinal de contas, eu encontrei naquele lugar o que procurava com urgência. Sexo. Apenas isso. Um sexo selvagem sem amor e que eu gostei. Mas ali, definitivamente, não havia lugar para o amor. Lino estava tão longe dali e do pensamento. Instintivamente dobrei o bilhete como estava antes e coloquei-o de volta no envelope. Pensei em largá-lo daquele jeito, mas não resisti à tentação e peguei-o novamente rasgando em dois separando “meu” de “amor” com o bilhete e o dinheiro juntos. Deixei as duas partes na mesa, uma em cima da outra. Catei, num dos jarros, a rosa mais bonita que encontrei e quebrei o seu talo em dois, despetalando-a todinha em seguida e coloquei tudo sobre o envelope partido. Acabei de me arrumar e saí. Não sem antes olhar para trás e ainda na soleira da porta dizer, mesmo sem ter quem ouvisse: - Mas tem coisas que só uma mulher sabe fazer!
10 novembro 2008
MEDICINA OU PSICANÁLISE? UMA SUTIL DIFERENÇA
Quando eu recebi, por e-mail, esse texto percebi, na hora, que tratava-se de um texto que eu deveria dividir com os leitores do blog. Lembrei-me de Pierre Fédida, quando fala que o analista deve escutar com a angústia. Quer dizer, o analista contratransferencialmente escutará as questões colocadas pelo paciente ouvindo também a sua própria angústia.
Miguel Srougi, faz isso com segurança e leveza de dar muita inveja em muitos psicanalistas. Em momento algum ele abandona os conhecimentos teóricos e práticos da medicina. Contudo cria para cada paciente uma técnica para escutar e tratar o sofrimento psíquico além do sofrimento do corpo.
O texto é muito extenso e por isso deixarei que o leitor se delicie e se encante como eu.
Rogério Silva
Miguel Srougi: Sutil diferença
O urologista, que cuida da saúde do “PIB” brasileiro, fala sobre os principais temores masculinos, como problemas na próstata, disfunções sexuais e decadência física
Não tem nem o que questionar: quando se fala em urologia, e principalmente em saúde masculina, o primeiro nome da agenda e da confiança dos principais políticos, empresários e brasileiros em geral é o do médico Miguel Srougi. Considerado o número 1 do Brasil em cirurgias de câncer de próstata ( já realizou 2.900), atende em seu consultório gente como o presidente Lula, José Alencar, José Serra, Geraldo Alckmin, Joseph Safra, Lázaro Brandão, Abílio Diniz e Antônio Ermírio de Moraes, entre outros pesos pesados.
Professor titular de urologia da Faculdade de Medicina da USP, pós-graduado pela Harvard Medical School, em Boston, nos Estados Unidos, 35 anos de carreira, uma dezena de livros publicados e outra centena de artigos espalhados mundo afora, Srougi tem a simplicidade daqueles que muito sabem, pouco ostentam e continuam lutando. Ele se dedica integralmente ao que faz – trabalha todos os dias, das 7 da manhã às 10 da noite –, abriu mão da vida pessoal – é casado, pai de dois filhos – e não tem receio de dizer que se envolve demais com seus pacientes. “Sofro muito e esse sofrimento é um dos fatores de sucesso da minha carreira, porque acabo me entregando mais aos doentes.” Embora viva intensamente entre os limites das dores da perda e alegrias dos resgates da vida, Srougi, aos 60 anos, se abastece lecionando na Faculdade de Medicina, “uma de minhas razões existenciais”.
No ano passado inaugurou um moderno centro de ensino e pesquisa para seus alunos, garimpando verbas junto aos seus pacientes poderosos. A sala ganhou o nome de Vicky Safra, mulher de Joseph Safra – em homenagem ao banqueiro que doou a maior parte dos recursos. Nesta entrevista, o maior especialista em câncer de próstata do país afirma que “todo homem nasce programado para ter a doença” e que, se viver até os 100 anos, inevitavelmente vai contraí-la. Fala ainda sobre medos, fantasmas masculinos, impotência, novos tratamentos e seus sonhos pessoais. E conta por que trocou o Hospital Sírio-Libanês pelo Oswaldo Cruz depois de 30 anos. A seguir, os principais trechos.
ASSOMBROS MASCULINOS
Os homens têm uma certa sensação de invulnerabilidade – isso faz parte da cabeça deles. Passam boa parte da sua vida livre de todos os incômodos que a mulher tem, fazendo com que relaxem mais com a sua saúde. Com o passar dos anos, começam a perceber a sua vulnerabilidade e passam a dar um pouco mais de valor aos cuidados médicos. O que mais os atemoriza hoje? Problemas com a próstrata, disfunções sexuais e a decadência física, que mexe muito com a cabeça das mulheres, mas também com a deles. As mulheres pautam muito a vida em função da beleza e os homens, da força, da virilidade, da capacidade de agir, raciocinar. E na hora em que surgem falhas nessas áreas, ele percebe que, talvez, não seja aquele ser imortal que achava que fosse.
ENVELHECIMENTO
Há dois profundos temores hoje nos homens: o primeiro é o crescimento benigno da próstata, um fenômeno que ocorre em praticamente todos; ela aumenta de tamanho depois dos 40 anos e, dessa forma, o canal da uretra fica ocluído. Isso faz com que o homem comece a urinar sucessivas vezes, a não ficar em uma reunião prolongada, tem de levantar à noite, prejudica o sono, acorda mal, pode ter descontroles de urina. O crescimento benigno é quase inexorável: todos os homens vão ter em maior ou menor grau – felizmente, apenas um terço, 30%, tem sintomas mais significativos que exigem apoio médico. Nesses casos, há medicações que desobstruem parcialmente a uretra e fazem o indivíduo urinar e viver melhor; apenas de 4% a 5% dos homens têm de fazer uma cirurgia para desobstruir a uretra por causa desse crescimento benigno. Essa é uma cirurgia que se faz com segurança e sem os inconvenientes de uma cirurgia maior nos casos de câncer. Ela remove apenas o fator obstrutivo, o homem passa a viver melhor e sem nenhuma seqüela. Esse crescimento não tem causa conhecida, surge por um desequilíbrio hormonal no homem maduro, ou seja, as células da próstata passam a se proliferar em decorrência dos hormônios. Não tem como prevenir. Existem algumas medidas, mas nenhuma consistente.
OBESOS E FUMANTES
Existe a idéia de que o obeso e os fumantes teriam menos crescimento benigno da próstata. O que é interessante é que a próstata seria o único lugar no organismo que eles deixam de ter todas as desvantagens, mas a realidade é meio dura: recentemente se apurou que eles são menos operados da próstata, mas não porque ela não cresce, mas pelo receio dos médicos de operá-los porque complicam mais e também porque muitas vezes não vivem o suficiente para ser operados – morrem antes. É uma realidade perversa.
REALIDADE NUA E CRUA
O câncer na próstata adquire maior relevância porque tem uma grande prevalência: 18% dos homens – um em cada seis – manifestarão a doença. E também porque o tumor, que ocorre com muita freqüência dentro da próstata, eliminado com sucesso em 80%, 90% dos homens. Se esse tumor não é identificado no momento certo e se expande, saindo para fora da próstata, as chances de cura caem para 30%. É um tumor muito comum e se for detectado a tempo, tem como resgatar esse paciente. Dos 18%, somente 3% morrem – a medicina consegue curar 15% dos homens, ou seja, a maioria.
Mas vale dizer que todo homem nasce programado para ter câncer de próstata. Ou seja, nós temos, nas nossas células, genes que as estimulam a virar cancerosas e eles ficam bloqueados durante a nossa existência. Quando o indivíduo envelhece, esses mecanismos de bloqueio deixam de exercer o seu papel e o câncer começa a se manifestar. Com isso vai aumentando a freqüência da doença e todo homem que chegar aos 100 anos vai ter câncer de próstata.
SEM FANTASIA
O exame de toque – um dos meios de se detectar a doença – gera na cabeça dos homens fantasias negativas e receios, mas, na verdade, ele tem muito medo da dor. Tanto é que os que fazem pela primeira vez, no ano seguinte perdem o medo. Leva três ou quatro segundos e não dói. Então, um dos fatores de resistência é eliminado. Existe um segundo sentimento, que é muito forte: expressar, exteriorizar uma fraqueza se a doença for descoberta. O homem tem pavor disso porque, de acordo com todas as idéias evolucionistas, só vão sobreviver aqueles que forem fortes. É comum você descobrir um câncer no indivíduo, e ele entrar em pânico, não pela doença, mas porque as pessoas vão descobri-la. Porque o câncer é muito relacionado com morte, decadência física, perda da independência, dependência dos outros. O homem não aceita essa idéia. Ele prefere fechar os olhos e enfiar a cabeça debaixo da terra a enfrentar, mostrando para o mundo e às pessoas que ele é um ser mais fraco. Isso vai afetar a imagem dele, acha que vai perder poder sobre outras pessoas, porque ninguém obedece a um fraco, alguém que vai morrer. Isso vai contra a idéia que temos de ser mais fortes para sobreviver.
A PERFORMANCE DO ROBÔ
Estamos fazendo cirurgias com robô, que permite uma visão muito mais precisa do campo cirúrgico, elimina os tremores da mão do cirurgião, permite incisões pequenas, uma operação muito mais perfeita porque os movimentos dele são muito suaves.
Isso é muito novo no Brasil. Fiz o primeiro caso há dois meses, no Sírio-Libanês. E agora, o Albert Einstein tem e o Oswaldo Cruz está adquirindo.
Nos Estados Unidos se faz cirurgia robótica em larga escala. Lá, o robô ganha em performance do cirurgião médio, mas ele ainda perde do habilitado. Tenho mais de 2.900 pacientes operados de câncer de próstata pessoalmente. Eu sou o terceiro cirurgião do mundo nesse quesito – só perco para dois americanos e eles estão parando de trabalhar. Apesar de ter essa grande experiência, quando comecei a operar, 35% ficavam com incontinência urinária grave. Agora são só 3%. Impotentes, todos também ficavam. Hoje, se o homem tem menos de 55 anos, a incidência é de 20% – antes era 100%. Há também enxertos de nervos, porque a impotência se deve à remoção de dois nervos que passam perto da próstata. E nós estamos fazendo esse enxerto quando somos obrigados a retirá-los nos casos em que o tumor fica grudado. Entre os pacientes que fizeram os enxertos, metade voltou a ter ereções com o tempo.
IMPOTÊNCIA, O QUE FAZER?
Esses novos remédios para tratar a disfunção sexual contornam 1/3 da impotência, tanto após a cirurgia quanto depois da radioterapia. Se os comprimidos não atuarem, existem injeções. Há ainda próteses penianas que são muito desenvolvidas e produzem uma ereção que quase não tem nenhuma diferença em relação à normal. Isso permite que o homem reassuma a vida sexual plenamente e que as mulheres tenham muita satisfação. Os homens ficam extremamente felizes – são hastes colocadas dentro do pênis. Não fica marca, nem cicatriz. Nos Estados Unidos, entrevistaram as mulheres sobre os homens que tinham prótese e as respostas foram positivas. Ela funciona muito bem.
ENTRE A VIDA E A MORTE
Minha vida é complexa porque eu ando um caminho muito estreito que, de um lado tem a morte e, de outro, a vida. E as minhas ações podem, com uma certa freqüência, resgatar alguém para a vida. Trilhar esse caminho é muito difícil porque, quando você se identifica com o paciente, compreende o sofrimento humano, isso cria um estado de impotência que lhe faz sofrer. Mas, por outro lado, traz momentos de alegria incontida, principalmente quando você resgata um ser para a vida, que não tem nada parecido.
ESCUTANDO MAIS, OUVINDO MENOS
Se eu listar uma série de qualidades, como, por exemplo, humildade, conhecimento técnico, dedicação ao doente, presença, coerência, sentido humanístico, desprendimento material e comunicação e perguntar qual é melhor, só tem uma resposta: comunicação. Todas as outras são importantes. O médico precisa ser humano, ter desprendimento material. A relação médico-doente não é tipo supermercado, que você dá e recebe, é algo muito superior. Ele precisa ter conhecimento técnico, precisa estar presente, gerar esperança, mas ele tem de se comunicar. É comunicação superior, não apenas saber falar. É tão significativo que explica por que há médicos brilhantes aqui no Hospital das Clínicas que conhecem tudo, e não conseguem atender a um doente porque falam bobagem na hora de se expressar. São inibidos, tímidos, não sabem dar para o doente o substrato humanístico. Ele lista 450 tabelas de números e cálculos e não sabe o que se passa pelo seu coração. Isso explica também porque tem tanto charlatão por aí – médicos mal-intencionados e não-médicos – que consegue atender a muitos pacientes. Eles têm a comunicação.
Comunicação envolve inicialmente gerar empatia no doente. É errado cumprimentar um doente e falar “como vai?”. Você deve cumprimentar alguém que está com uma doença grave e falar “eu lamento que você esteja nessa situação, imagino o que está sentindo”.
Saber escutar, que é diferente de ouvir. A hora que você passa a escutar, entende quais as apreensões que ele tem, elimina um pouco do sentimento de culpa, entende por que está lhe procurando e conquista a confiança.
É preciso ser coerente e falar com realismo. É ilusão achar que se engana as pessoas. Falar numa dimensão maior significa gerar esperança, estimular a espiritualidade, porque um dos maiores medos é morrer e não saber o que vai acontecer depois; explicar o que vai ser a evolução dele. Também assegurar presença – ele não será abandonado.
O PAPEL DAS MULHERES
Os homens são resistentes: eles relutam muito em ir ao médico fazer um exame de próstata e só vão quando a mulher os empurra: dois terços dos pacientes no consultório de Miguel Srougi são trazidos por elas. “Ligam para marcar a consulta, os acompanham. A gente não vê mulheres jovens trazendo homens jovens para fazer exames. A gente vê mulheres maduras. Claro que o jovem não está na faixa de risco. Mas existe um outro significado da importância da mulher. Primeiro, que ela é pragmática e incentiva o marido.”
Mas, por que ela quer isso?
“Porque quem ficou vivendo bem 30 anos e conseguiu superar todos os embates da vida conjugal é um casal que o tempo consolidou. E aí a mulher tem um sentido de preservação da família muito mais forte que o do homem. Passadas as tempestades e oscilações do relacionamento, ela não quer que o marido morra. É real. Toda vez que tenho um paciente e ofereço dois tratamentos: um que aumente a existência dele, mas vai, por exemplo, causar alguma deficiência na área sexual. E ofereço um outro tratamento, que cura menos, mas preserva melhor a parte sexual, o homem balança na decisão. A mulher nunca hesita. Ela prefere aquele que aumenta a existência, mesmo correndo o risco de comprometer a vida sexual dele e do casal. Poucas vezes vi uma mulher aconselhar um tratamento que dê menos chance de vida e aumente a possibilidade de ele ficar potente. Dá para contar nos dedos. Ela quer o companheiro, quer preservar aquela pirâmide que foi construída, que é rica.”
GERANDO ESPERANÇAS
O ser humano precisa ter alguma esperança, nem que sejam vislumbres. Os médicos americanos acham que são fantásticos e verdadeiros quando dizem que não tem jeito o seu caso, mas isso é não conhecer a natureza humana. É preciso mostrar que ele tem alguma chance, sim.
SOFRIMENTOS E PRIVILÉGIOS
Eu me envolvo muito com meus pacientes. Sofro muito. E esse sofrimento é um dos fatores do sucesso da minha carreira, de 35 anos. Nesse sofrimento eu acabo me entregando mais aos doentes. Isso é ruim, porque não tenho vida pessoal, minha vida familiar é feita nos intervalos.
Felizmente, os momentos bons prevalecem sobre os ruins. É por isso que eu sobrevivo. Um doente que coloca a cabeça no meu ombro e agradece por ter feito algo por ele, ou deixa correr uma lágrima na minha frente, me faz deletar, superar aqueles momentos em que me senti totalmente impotente. Uma das coisas importantes é o médico saber e demonstrar que a medicina não é infalível e ele não se sentir onipotente.
O urologista tem um privilégio. O oncologista mexe com câncer avançado, já no fim do caminho – eu lido com o inicial. Eu consigo salvar muita gente. É um privilégio para mim.
MEDO DA SEPARAÇÃO
Nós não queremos morrer. Primeiro, pela incerteza do porvir. Segundo, porque a morte implica extinção e o ser humano não aceita a aniquilação. A nossa cabeça nasceu para ser imortal. A morte está relacionada com dor, sofrimento, à decadência física, à desfiguração, à perda do papel social, desamparo da família, perdas dos prazeres materiais, da independência. Mas a causa verdadeira é o nosso horror de nos separar das pessoas que amamos. Bem material não deixa ninguém feliz. Há tanta gente rica se suicidando, tomando droga para sair da realidade. Os médicos não compreendem isso. Se as pessoas têm medo de se afastar das pessoas do seu entorno, você precisa tratar o entorno também. Não é o médico que apóia o doente nas fases difíceis – é a família. Eles reagem raivosamente contra a família, querem afastá-la do processo, sem perceber que um doente só vai ter paz, tendo a morte pela frente ou não, se a família estiver ao lado.
VIVENDO NOS LIMITES
Eu sou católico, não praticante, acredito em alguma coisa depois da vida e isso me dá muita paz. Eu continuo numa luta incessante. Vivo nos limites. Nos limites do sofrimento, porque estou do lado das pessoas que sofrem. Nos limites das minhas energias, porque começo a trabalhar às 7 da manhã e vou até as 10 da noite. Trabalho na Faculdade de Medicina. Tenho várias razões existenciais, uma delas é a faculdade. Aqui é a única forma de deixar marcas e mostrar que a minha passagem pela Terra não foi em vão. Aqui você planta as coisas. Cada aluno que receber esses conhecimentos, vai multiplicar o feito. Em vez de ajudar 20 pessoas que ajudo num mês, para cada aluno que eu fizer isso, serão 40, 60, 80, 320... Se eu saísse da faculdade, não iria agüentar essa carga toda de emoções, sentimentos, morte e vida. Aqui a gente conhece o que é o ser humano. Lá fora as pessoas estão todas maquiadas.
REABASTECENDO ENERGIAS
Eu simplesmente acabei com a minha vida pessoal, os meus grandes amigos mal vejo. O meu melhor amigo médico, o oncologista Sergio Simon, não encontro há quase três anos. Sábado à noite vou para uma casa de campo que tenho e fico 24 horas ouvindo música, fazendo minhas leituras, pesquisas, um pouco no computador. E controlo muito bem a alimentação, o sono e a atividade física para poder agüentar. Faço ginástica de quatro a cinco vezes por semana, tenho uma alimentação equilibrada e durmo bem. Deixo de sair com os amigos para dormir. Não gosto de dormir, mas preciso me recompor.
A SAÍDA DO SÍRIO-LIBANÊS
Os verdadeiros templos na Terra são os hospitais – não as igrejas. Nas igrejas tem muito ouro, riqueza. Aqui não, você conhece o sofrimento, o valor da existência humana. Os orgulhosos e os soberbos ficam humildes, ricos e pobres são iguais; os ruins, os autoritários e os maldosos se tornam condescendentes: eles ficam despidos, tiram a máscara; é aqui que você conhece o que é viver, que resgata para a vida, não em uma igreja qualquer que o sujeito entra lá, reza dez minutos e sai. Ele pode até sarar, cicatrizar a sua alma. Mas aqui nós curamos a alma e o corpo. Esse é o verdadeiro templo, onde o ouro é a vida. Você entende o impacto que a desigualdade social tem sobre o ser humano, a pobreza, a falta de instrução causa doenças. Depois de 30 anos no Sírio-Libanês eu mudei para o Oswaldo Cruz. Achar que eu vou ter novas salas, três enfermeiras a mais, é brutalizar o que passou pela minha cabeça. Mudei porque não estava vendo esse lugar como um templo. Eu vivo intensamente, por isso tenho esses sentimentos.
NAS ASAS DA LIBERDADE
Você só é livre quando tem boa saúde. Ninguém fala isso.
Dar saúde para uma pessoa é um pré-requisito para ela ser livre. Nesse templo, que é o hospital, nós tornamos as pessoas livres.
UM POUCO DE FILOSOFIA
A melhor forma de se transmitir as virtudes é pelo exemplo, pela coerência. Certa vez perguntaram para Sócrates como a virtude poderia ser transmitida – se pelas palavras ou conquistada pela prática. Ele não soube responder. Então, Aristóteles, depois de uns anos, respondeu: “A virtude só pode ser transmitida pela prática e por meio do exemplo”. Aqui, eu posso tentar ser o exemplo. Mudando o cotidiano das pessoas, transformando a sociedade e construindo um novo mundo.
CINCO MEDIDAS PREVENTIVAS
Segundo Miguel Srougi, a prevenção ao câncer de próstata é feita de forma um pouco precária, porque não existem soluções para impedi-lo. Na prática, há o licopeno, que é o pigmento que dá cor ao tomate, à melancia e à goiaba vermelha. “Talvez diminua em 30% a chance, mas esse dado é controvertido, por causa disso a gente incentiva os homens a comerem muito tomate, só que deve ser ingerido pós-fervura, ou seja, precisa ser molho de tomate. Não pode ser seco ou cru.”
A vitamina E também reduz teoricamente os riscos em 30%, 40%. Mas, se for ingerida em grandes quantidades, produz problemas cardiovasculares. Na verdade, se o homem quiser se proteger, deve tomar uma cápsula de vitamina E por dia. Acima disso, não é recomendável.
O terceiro elemento é o celenium, um mineral que existe na natureza e é importante para manter a estabilidade das células, impedindo que elas se degenerem, que é encontrado em grande quantidade na castanha-do-Pará. “Qualquer homem pode ingerir em cápsulas, mas se ele comer duas castanhas por dia, recebe uma certa proteção”, diz o especialista.
Uma quarta medida é comer peixe, três porções por semana – rico em ômega 3 e tem uma ação anticancerígena provável. E, uma quinta, tomar sol. “O homem que toma muito sol sintetiza na pele vitamina D, que tem forte ação anticancerígena. É por isso que os homens da Califórnia desenvolvem muito menos a doença do que os de Boston”, afirma Srougi.
PACIENTES ILUSTRES
Trato todos os meus pacientes de forma igual. Se começo a tratar os mais importantes de um jeito diferente, eles dão mais trabalho. Se tratar igual, não. Até se sentem melhor com isso.
PODER vs TRANSFORMAÇÃO
O poder é a única forma de passar pela existência deixando marcas. Só com ele você consegue fazer isso. E nenhum de nós terá vivido de forma digna se não deixá-las. A minha definição de felicidade é estarmos alegres com o que somos, o que representa um continuum de bem-estar físico, mental e afetivo. É fantástica essa definição. E a gente só é feliz se estivermos circundados por pessoas felizes. E o poder nos dá um pouco dessa felicidade. Mas o grande problema é você dá-lo ao ser humano, que é altamente imperfeito – ele tem defeitos incompreensíveis para qualquer espécie – aí vira uma arma de destruição. Mas, quando se dá poder às pessoas de bem, ele se torna algo transformador.