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01 outubro 2008

TEMA DE OUTUBRO

Já esta no ar a votação que escolherá o tema para o mês de outubro.

O que falta para o Brasil, finalmente, se desenvolver?

Relação entre Ficção Científica e Divulgação Científica.

Roamntismo filosófico e movimentos anti-científicos

Até quando o Brasil será “O país do Futuro”?

A votação vai até o dia 5/10/08, clique aqui e faça a sua escolha.

03 setembro 2008

NOVO TEMA PARA SETEMBRO/OUTUBRO DE 2008



Na barra lateral do blog Roda de Ciências está a enquete para o novo tema para o próximo mês. Alguns temas propostos foram mesclados a outros que levavam, na prática, às mesmas discussões.


Entre e vote.


Crescimento populacional: causas e efeitos.

Relação entre ciência e tecnologia.

Avaliação das revistas científicas em português.

Biosfera/Energias Alternativas/Crise Mundial de Alimentos

Quais linhas de pesquisa são potencialmente perigosas em termos sociais

21 outubro 2007

MAIS DO QUE ELEMENTAR, MEU CARO WATSON

Por Rogério Silva

Lendo neste domingo o jornal “O Globo”, o artigo do Arnaldo Bloch me chamou a atenção com o título “DNA é o cacete”. O artigo em sí é pequeno e pouco informativo, mas me provocou muitas reflexões. A pesquisa apresentada por Bloch deixa claro, que a intenção do “Nobel” James Watson ao afirmar que os negros são menos inteligentes que os brancos, é racista.

É claro que a ciência tem um papel preponderante no desenvolvimento da humanidade, mas paralelamente a ela encontramos a arte, o esporte, a filosofia e outras formas de expressão e desenvolvimento do pensamento humano.

Se infelizmente não encontramos negros e/ou brasileiros entre os expoentes das ciências mundiais, felizmente os encontramos em outros setores.

Contudo, emparelhar desenvolvimento mental com cor de pele e prêmios (Nobel, Oscar ou outro qualquer), me parece uma visão míope e reducionista do que o homem pode.

Dentre os cerca de oitenta e seis nomes apresentados no artigo, estão os brasileiros: André Rebouças; Camila Pitanga; Cartola; Clementina de Jesus; Cruz e Souza; Daiane dos Santos; Djavan; Ed Motta; Elza Soares; Garrincha; Gilberto Gil; Grande Otelo; Gláucius Oliva; Hélio de laPeña; João do Rio; Joel Rufino; Joaquim Barbosa; José do Patrocínio; Lazaro Ramos; Lima Barreto; Luis Melodia; Mãe Stella de Oxossi; Machado de Assis; Martinho da Vila; Milton Gonçalves; Milton Nascimento; Mussum; M V Bill; Nei Lopes; Paulinho da Viola; Pixinguinha; Pelé; Romário; Tim Maia; Zózimo Bubul e Zumbi dos Palmares.

Se não esqueci ninguém da lista apresentada, eles são 41% das diversas áreas. E eu ainda acrescentaria Juliano Moreira um dos pioneiros da psiquiatria e da psicanálise brasileira.

Apesar de ser negro, e de família pobre, Juliano Moreira em 1886, dois anos antes da abolição oficial da escravatura, entrou na Faculdade de Medicina da Bahia, formando-se aos dezoito anos, em 1891, e se tornando professor da Faculdade, onde se referia às idéias de Freud em sua cadeira.

Já em 1900 representou o Brasil em congressos internacionais: em Paris, neste ano, foi também eleito Presidente Honorário do 4º Congresso Internacional de assistência a alienados, em Berlim; também foi congressista brasileiro em Lisboa, em 1906; Milão e Amsterdã, em 1907; Londres e Bruxelas, em 1913.

Após ter exercido a clínica psiquiátrica na Faculdade Baiana, mudou-se para o Rio de Janeiro. Durante seu trabalho na direção do Hospício Nacional dos Alienados, aqui, humanizou o tratamento e acabou com o aprisionamento dos pacientes.

A sua principal atuação foi quando defendeu a idéia de que a origem das doenças mentais se devia a fatores físicos e situacionais, como a falta de higiene e falta de acesso à educação, contrariando o pensamento racista em voga no meio acadêmico, que atribuía os problemas psicológicos do Brasil à miscigenação. Foi importante representante internacional da Psiquiatria brasileira.

O geneticista americano James Watson acabou pedindo desculpas pelas declarações racistas dadas a um jornal britânico, que despertaram uma enxurrada de críticas no mundo inteiro.

Em entrevista ao "Sunday Times", Watson, disse ser "inerentemente pessimista em relação ao futuro da África" porque "todas as nossas políticas sociais são baseadas no fato de que a inteligência deles é igual à nossa, quando todos os testes dizem que não é bem assim". Só não explicou que testes são esses.

Voltando atrás, Watson escreveu um artigo para o jornal "The Independent" dizendo ter sido mal interpretado. "Àqueles que inferiram das minhas palavras que a África enquanto continente é de alguma forma geneticamente inferior, só posso me desculpar sem reservas."

No entanto, o cientista, de 79 anos, insistiu que questionar as bases genéticas da inteligência "não é ceder ao racismo".

Questionar, pode não ser, mas afirmar...

Comentários no Blog Roda de Ciências

14 setembro 2007

EU SEI, MAS MESMO ASSIM...

Por Rogério Silva


Não sei se podemos pensar num instinto de longo prazo para a sobrevivência do grupo no caso humano, muito menos se ele costuma aflorar nas situações de crise fazendo “homens-comuns-transformados-em-heróis”, ou mesmo transformando um homem básico num anti-social.

A questão, a meu modo de ver, é que somos regidos também por um outro regime que é o regime das pulsões. Digo “também” porque também somos regidos pelo instinto do mesmo modo que cada espécime animal é.

Convém definir o conceito de pulsão para que fique claro o que pretendo dizer. De acordo com o Vocabulário de Psicanálise de J.Laplanche/J-B Pontalis, trata-se de um processo dinâmico que consiste numa pressão ou força (carga energética, fator de motricidade) que faz tender o organismo para um alvo. Segundo Freud, uma pulsão tem a sua fonte numa excitação corporal (estado de tensão); o seu alvo é suprimir o estado de tensão que reina na fonte pulsional; é no objeto ou graças a ele que a pulsão pode atingir seu alvo.

Freud diferencia instinto de pulsão, afirmando que o instinto qualifica um comportamento animal fixado por hereditariedade, característico da espécie, pré-formado no seu desenvolvimento e adaptado ao seu objeto. A pulsão é fundamentalmente uma revindicação permanente de satisfação, que diríamos com Lacan tratar-se de uma exigência constante e a todo o custo de gozo; de tal modo que o meio, o objecto da pulsão, poderá ser muito diverso. O que significa que, ao nível pulsional, o sentido último, o "sentido do sentido" é a satisfação, o gozo.

Por isso eu vejo, que para que uma sociedade seja considerada saudável é necessário que ela tenha em seu bojo as mais diferentes mentes, inclusive o anti-ecológico e o psicopata.

De que nós somos feitos se não de algumas coisas que nos agradam e outras que talvez deploramos como a loucura, a devacidão ou outra forma mesquinha de crueldade?

Quando o Freud de “Mal estar na cultura” coloca que não só estamos sujeitos às leis da natureza, como também estamos sujeitos aos males do corpo e principalmente as conseqüências das relações humanas, ele leva em consideração as leis universais: a toda ação há uma reação e a responsabilidade pelas próprias escolhas, além da hipocrisia.

Como fazer uma escolha entre o “certo” e o “errado” quando o que prevalece é o incerto?

A postagem do Mauro Sei ou não sei? Eis a questão! demonstra como aprendemos a ignorar o incerto, ou tortura-lo até que se torne “certo” ou “errado”. O que provoca uma grande incapacidade da maioria das pessoas de entender a ciência.

A toda escolha se pressupõe uma renuncia. No exemplo do Mauro se ele escolhe pelo bairrismo ele renuncia o acerto e vice versa. Ganha e perde ao mesmo tempo.

Isso se vê claramente na postagem da Silvia Clea “A quem interessa?”

Há duas ou três décadas atrás glamurisou-se o cigarro como objeto de fetiche do sucesso, da elegância, do poder, etc. até que os males do fumo viessem à tona. Pois bem, agora como a postagem mostra, surge uma nova notícia que alerta para o fato de que ex-fumantes ainda estavam em risco.

Acontece que quem lê (principalmente os fumantes) só percebe o que quer, ou seja, “que não adianta largar o cigarro que o câncer virá de qualquer jeito”. Esse tipo de matéria é, na verdade, um desserviço à sociedade, prevê a autora.

A propaganda política, a publicidade, a manipulação de notícias, os horóscopos, as cartomantes, as previsões econômicas e do fim do mundo, etc. funcionam como uma reflexão sobre as crenças e crendices.

Octave Mannoni em seu interessante artigo “Eu sei, mas mesmo assim…” (in Psicose, uma leitura psicanalítica - editora escuta - 1991) aborda o tema das crenças, tentando explicar como alguém acredita ou não em algo, como se sustenta uma crença, como a crença se relaciona com a fé.

Usando o referencial teórico de Lacan, de quem foi um dos primeiros e mais sérios discípulos, Mannoni remete o problema das crenças ao mecanismo conhecido por recusa (verleugnung), fenômeno que Freud descreve pela primeira vez ao falar de fetichismo.

A recusa é a forma como o fetichista responde à percepção da diferença anatômica sexual, a ausência do falo na mãe.

O fetichista tenta evitar as conseqüências desta percepção da ausência do falo na mãe. Ele consegue ver que não existe o falo materno e - ao mesmo tempo - manter a crença em sua existência. Consegue esta façanha através deste mecanismo específico da recusa da realidade, que provoca uma cisão no ego, dividindo-o em dois lados, um deles respeita a realidade, ou seja a inexistência do falo materno, e outro continua acreditando no falo materno. Tenta assim contornar as dores inevitáveis próprias ao processo edipiano. Constitui o fetiche, objeto que em sua fantasia representa aquele falo inexistente.

O fetichista crê na existência do falo e simultaneamente descrê no mesmo. Ele acredita e não acredita. Mannoni vincula a estrutura das crenças as mais variadas que nos levam à rejeição. O que equivale a dizer que se a recusa é patognomônica do fetichismo, ela - apresentando-se de maneira menos radical e patológica - está presente de forma muito mais abrangente e disseminada em todas as outras estruturas psíquicas.

Diz Mannoni: “(…) é preciso que a crença sobreviva ao desmentido, embora ela se torne inapreensível, e que se veja dela apenas os efeitos completamente paradoxais. Este exemplo abriria todos os tipos de caminho: a utilização de falsas notícias com objetivos de propaganda, mesmo quando devem ser desmentidas, as promessas que não podem ser cumpridas, a psicologia da mistificação e dos impostores”.

”Eu sei, mas mesmo assim…” que é como Mannoni sintetiza esta posição de manter uma crença mesmo depois de ter um conhecimento que a invalidaria, atitude própria da recusa, pode ser detectada em muitos acontecimentos de nossa psicopatologia da vida cotidiana ligada às crendices, tipo horóscopo, cartomante, previsões do fim do mundo, loterias, tarôs, duendes, etc.

”Não acredito em cartomantes, mas mesmo assim…” toda vez que agimos assim, no fundo estamos reatulizando de forma disfarçada a atitude do fetichista, o “não acredito no falo da mãe, mas acredito”. Estaria aí o especial prazer que se pode usufruir determinadas crenças, pois o que está em jogo não é propriamente o teor da crença e sim a estrutura do poder acreditar e não acreditar, o ver a realidade da castração e o recusá-la.

A publicidade joga com nossos desejos narcísicos, sexuais e agressivos. Procura alimentá-los, propondo novas identidades que realizem tais desejos, que estariam acessíveis através de objetos de consumo idealizados. Vemos então que, além disso, ela conta com outra poderosa aliada que é a recusa da realidade. Ninguém acredita inteiramente na publicidade, mas mesmo assim… realizo meu desejo de negar a castração, mantenho a existência do falo materno.

É como se o “normal” (entenda-se neurótico) se vingasse da rigidez da realidade à qual foi forçado a ingressar, mantendo um pouco a possibilidade que o fetichista tem de driblá-la.

Não dá para conviver com a incerteza imposta pela realidade, mas mesmo assim é preciso conviver, ou por crença ou por fé.

Mannoni estabelece uma diferenciação entre fé e crença (crendice). Embora sempre estejam misturadas, ambas são feitas da palavra de outrem, estariam em níveis diferentes: uma no simbólico, a outra no imaginário.

03 julho 2007

POLEMICA NAS UNIVERSIDADES

Por Rogério Silva


Talvez o César possa nos explicar melhor essa diferença entre política como ciência de política corriqueira (politicagem), ou o risco que se tem quando empreende numa aventura como desse tipo.

Antes de mais nada, vale a pena relembrar as greves das universidades federais ocorridas no governo de Fernando Henrique Cardoso que eram duradouras e de poucos resultados práticos para as universidades, mas sempre promoveram uma ameaça ao ensino público, a sua gratuidade, a sobrevivência de seus docentes e de seus discentes, além dos funcionários, é claro.

O que vejo de perigoso na quebra da autonomia são exatamente as intenções sub-reptícias contidas neste tipo de decreto do Serra, é bom não esquecer que ele é do mesmo partido do FHC que tinha como foco a privatização das universidades públicas.

Movimentos sempre significaram resistência. Mas não significam necessariamente “desobediência civil” como no texto Cicero Araujo e Álvaro de Vita (ambos da USP).

Os autores também indicaram John Rawls, um dos grandes formuladores e defensores contemporâneos de uma ordem democrático-constitucional que reconheça a possibilidade desse tipo de ação, que a define claramente: a desobediência civil é “um ato público, não violento, político porém consciencioso, contrário à lei e usualmente feito para produzir uma mudança na lei ou em políticas de governo”. Sendo pública, ela nunca é acobertada ou feita em segredo, mas ao contrário, é comparável a um discurso público ou a um modo de manifestação pública. Para ele essa é uma das razões de seu caráter essencialmente não-violento.

O que é não violento quando algum aspecto já se encontra violado? Qualquer interferência nas liberdades civis de outros tende a obscurecer a qualidade civil da desobediência.

Se rejeitamos o estabelecido como lei, como ser obediente à lei ao mesmo tempo? Rejeitar a lei só tem sentido se for no campo político.

É exatamente por isso que o cidadão que a pratica quer “estabelecer perante a maioria que o ato é politicamente consciencioso e sincero, e que visa dirigir-se ao senso de justiça do público” ele deve fazê-lo de modo não-furtivo, de peito aberto, sem temor de revelar sua identidade e de sofrer as conseqüências da própria lei.

O que legitima a desobediência civil é uma grande coragem de quem a pratica.

Com a metáfora de “quebrar o ovos para fazer omeletes” identifico atos violentos necessários em defesa a uma prática, de um enfrentamento, como por exemplo, arrombar uma porta para salvar alguém em perigo. Não se trata de “os meios justiçam os fins”, pois são atos previsíveis, mas muitas vezes intempestivos e necessários. De outra forma cairíamos num totalitarismo excludente.

Pensar que esses grupos de estudantes e funcionários, hoje tão ocupados em abusar das liberdades civis de seus críticos dentro da universidade, também fariam bem em não desprezá-las. É um risco pois o que está em jogo é proteger o “nosso” grupo contra a agressão dos “outros”, das classes dominantes ou do que for. Acima de tudo, é uma questão de nos proteger de nós mesmos.

Não se trata de colocar aqui uma lógica do pior, mas trata-se de abrir a possibilidade para uma filosofia trágica que tivesse como tarefa a revelação de uma certa ordem. Arrumar a desordem aparente, fazer aparecer relações constantes e dotadas de inteligibilidade, tornar-se senhor dos campos de atividade abertos pela descoberta dessas relações, assegurando assim à humanidade e a si mesmo a outorga de uma melhora em relação ao mal-estar vinculado à errância no ininteligível, esta é uma idéia que quero trazer com Freud. O Freud do “Mal-estar na cultura” de 1930, que apresentou como o fator de mal-estar as relações dos homens entre si e com a cultura que sempre foi marcada pela hipocrisia. Até onde vai o meu direito e o direito do alheio?

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