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26 dezembro 2008

A CIRCULARIDADE DO SER – UM FRAGMENTO*

O presente texto trata de reflexões teóricas de uma experiência clínica. Os dados reveladores e identificatórios foram alterados no sentido de preservar possíveis personagens.

Mariana procurou o analista porque desejava atendimento. Dois dias antes da primeira sessão, Carlos, seu marido, ligou e pediu para vir no seu lugar. A mulher marcou, mas foi ele quem veio na primeira vez. Ela veio na sessão seguinte e continuou em análise.

Um marcou e o outro veio à sessão. Como pensar isso tecnicamente? Ficar preso nessa questão é colocar-se no lugar da psicologia do eu. Essa especificidade é esclarecida pelo estatuto atribuído por Lacan à ética da psicanálise, noção que é inseparável da "barra", da "divisão". Num certo sentido, vai permitir a distinção do "fora" e do "dentro", do social. Por conseguinte, ideológico, do que é propriamente do sujeito, o desejo que, como tal, se distingue da demanda e da necessidade. Esta separação do social relaciona-se de alguma maneira a algo como se parire, processo que alude á separação, a uma divisão no sujeito e não entre o sujeito e o social. Fala da produção de algo novo, à criação. Implica o abandono das relações do sujeito com os "serviços dos bens", isto é, o abandono de posições marcadas pela defesa de interesses, econômicos ou de qualquer outra natureza, previamente definidos socialmente. Enfim, um se parire que é quase o oposto do que a sociologia chama de processo de socialização. Este sim tem uma função que se aproxima, pelos efeitos que produz, daquela que corresponde à ideologia em Althusser: a constituição dos "sujeitos ideológicos". Neste sentido preciso, que esta ética vai servir de referência fundamental a critica ideológica, que Lacan, em diferentes momentos, dirigiu ao que, pejorativamente, considerava como "psicologia do eu". Uma perspectiva que fixava o "sujeito" ao social e, portanto, à ideologia e, neste sentido, funcional à sociedade e ao "serviço dos bens".

O importante é, pois, saber quem pagará a análise. É indiferente de onde vem o pedido. Também é indiferente de onde vem o dinheiro. Assim se faz psicanálise. Se quem vem, entra, traz uma questão, o analista está ali para receber esse discurso. Para marcar esse lugar. O que está em jogo é o desejo do analista. Receber ou não receber. Se receber, vai escutar para poder aprender. Alguém ligou e ele atendeu primeiro outro. Sempre teremos uma desculpa. Qualquer desculpa, tanto faz. Mas esse é um lugar da psicanálise. O primeiro caso mais escrito de Freud foi o caso Dora. O pai dela tinha se tratado com ele de sífilis e foi procurá-lo. A filha deixou um bilhete dizendo que ia se matar. Foi ele quem foi. É preciso ouvir o que vem e na ordem que vem. Primeiro vem um, depois vem outro.

Heráclito parte do princípio de que tudo é movimento, e que nada pode permanecer estático. "Panta rhei", sua "máxima", significa "tudo flui", "tudo se move", exceto o próprio movimento. Ele exemplifica, dizendo que não podemos entrar duas vezes no mesmo rio, porque, ao entrarmos pela segunda vez, não serão as mesmas águas que estarão lá, e já não seremos a mesma pessoa. De fato, a biologia veio a descobrir, muito mais tarde, que nossas células estão em constante renovação, e isso é uma mudança.

Ela é artesã e o marido também. O marido foi professor dela e ele tem uma oficina. Agora ela está parada; disse que não tem mais cabeça para fazer esse trabalho.

Mas vamos ao caso. Ela chega e pós um breve silêncio começa a falar:

– Oi, cheguei! Cheguei cedo. Não tem que ficar esperando um pouquinho não?

Fico em silêncio esperando para ver o que aparece.

- ... Pois é, estou aqui. ... Você está aí pra quê? Não fala nada não? Não sei o que vou falar, estou nervosa, ufa!

– Está nervosa por quê? Pergunto.

– Não sei, eu sou assim meio agitada. Eu vim um pouco mais cedo e fiquei ali falando com o guardador de carros. Muito legal ele, sabe? Fiquei conversando um tempo com ele. Ele é uma pessoa bacana. Trocamos figurinha e acabamos tomando um chope. É uma pessoa legal.

– Ele é legal. Disse para demonstrar atenção.

– Ele também me acha legal, eu sou bem relacionada. As pessoas me acham legal, me dou bem com as pessoas. Ele gostou, falei com ele, perguntei umas coisas lá, me ajudou a estacionar o carro e fomos tomar um chope. Eu falei para ele: – olha você vai me ver aqui muitas vezes, vou voltar aqui muitas vezes. ... Carlos veio aqui? Ele estava me enchendo o saco; eu marquei com você e ele estava me enchendo o saco. Aí eu disse pra ele: – vai lá você, vai se tratar um pouco. Ele veio na frente; achei que era melhor. Pois é, ele aporrinha pra chuchu; agora não me deixa fazer as coisas, não me deixa tomar uma cerveja. Quando bebo fico muito animada e ele fica me proibindo. Nós tivemos um problema que você já deve saber, com nosso filho.

- Problema? Perguntei.

– Toda aquela história, né? Olha, eu fumei muita maconha, tomei muitas drogas desde garotinha e, durante a gravidez, eu parei. As pessoas falavam que ia fazer mal e eu parei de me drogar. Mas eu tomei de tudo. E, aí, durante o parto foi tudo bem. O Carlos não parava de fumar maconha; fumava maconha o dia inteiro. E aí aquela história. Na hora em que o filho nasceu eu fiquei esperando. Bem, vão trazer o filho para mim, mas o filho some. Perguntei o que aconteceu, ele teve um problema respiratório com conseqüências e tive que fazer um tratamento. Os pezinhos, isso eu já tinha visto na ultra-sonografia, estavam virados para trás. Hoje ele já está bem, foi há um ano. Fez uma cirurgia, fisioterapia e tal e os pezinhos foram para o lugar. Mas um ano, um ano que estou nessa luta; não agüento mais, não nasci para ser mãe, não agüento mais. Um ano cuidando de criança, eu preciso da ajuda do Carlos, mas ele só fica me enchendo o saco, fuma maconha e agora eu não me deixa beber. É isso... Eu não nasci para ser mãe; de vez em quando eu quero sumir, quero fugir, quero ir embora, largar tudo isto. Largar o Carlos, largar filho, ele é pequenino. Agora que deu tudo certo...

– Agora que deu tudo certo você quer largar tudo. Pontuei.

– É, agora eu não agüento mais, estou precisando de umas férias. Estou pensando em me separar, estou pensando em sumir. Eu não agüento mais, quando nós brigamos, eu sou muito agitada. Sai na porrada, eu parto pra cima dele. Ele diz pra eu ficar calma. Fica calma nada. E a família não ajuda; muito sozinha muito sozinha hoje. Estou precisando de liberdade; de vez em quando pego o carro e vou para a estrada, bebo umas cervejas e vou parar lá no sítio da minha irmã. Aliás, desse sítio, na última vez nós fomos expulsos, eu e Carlos, nós saímos na porrada. Ele ficou com ciúmes. Eu botei um short, a parte de cima de um biquíni e saí para ir à venda. Pronto, acabou o meu dia. Ele reclamou que isso não eram modos de vestir, eu disse que não é nada disso. Disse que ele tem que me entender, que isso era besteira...

– O que é que você estava procurando? Perguntei.

– Eu fui comprar cigarro em uma venda. A gente estava indo pro sítio, eu parei o carro e fui comprar cigarro. Ele vai e acaba com o meu dia... É complicado, não? A vida tá uma complicação. Eu não sei se quero ficar mais com ele, mas não posso abandonar a criança.

- Não sabe se não quer ficar mais com quem?

– Com o Carlos. A coisa chegou a um ponto que eu não sei. A idéia era vender o nosso apartamento. Ele poderia comprar uma quitinete ou um quarto e sala para ele e eu iria morar em outro lugar, em uma casa, um sítio que eu consigo, eu acho. Minha irmã já disse que não quer ver mais a gente lá, depois do que a gente aprontou. Brigamos o tempo todo. A porrada come solta. Ela não quer mais. Eu cuido da criança, faço comida. Ele chega em casa e ainda reclama. Estou engordando, não consigo parar de comer, não sei o que faço. Mas, a vida é assim, não é?

– O que você espera de mim? Perguntei tentando um novo rumo no assunto.

– Que você possa me ajudar em bocadinho, não é? Vim até aqui.... Lá em casa está difícil. Não estou conseguindo levar essa situação sozinha, não. Quero saber o que você pode fazer. Bater um papo, trocar idéias. Já fiz umas terapias, mas não deram certo. Não gostei, não. Estou querendo ver se agora o senhor pode me ajudar.

Sempre que o paciente chega neste ponto é como se deixasse uma armadilha para o analista. O analista está ai para positivar. O que não gostou remete a uma comparação. Se o analista pergunta o que você não gostou, ele se coloca em disputa com o outro analista ausente. Então, a transferência vai ser de um tipo aonde ela não vai se dirigir a você, mas com uma diferença; o analista se coloca como o bom. O que você não gostou significa: eu vou me corrigir para você gostar.

Pensar no por que alguém nos procura, leva à pergunta o que é que essa pessoa quer de mim? O outro se quiser, se queixa ou deixa de se queixar. Deixa a pulsão ir positivamente. Quando focaliza o que não gostou, esse não é que vai conduzir. O não enquanto uma negativa, e não um não enquanto positivo. Acredito que esse não seja o melhor modo, mas é um modo de se organizar. Eu pensaria que isso de pergunta, para o inconsciente, não contribui. Eu aprendi que quando a gente se coloca e diz o que não gostou no outro, a gente diz: eu é que vou te servir. Aí a pulsão não vai poder instalar um não comigo; não só com os outro, eu sou o legal.

Não importa estabelecer com o paciente um vinculo de aceitação paciente analista. O que talvez se deva escutar é: eu procuro e não encontro; não preciso saber o que.

Com isso se estabelece um gancho libidinal: o rapaz do estacionamento, a cerveja, vai voltar. O rapaz do estacionamento pode se preparar para ver as coxas por baixo do short etc. É isso que ela está contando.

– Vou te mostrar umas fotos do meu filhinho. Aqui as fotos dele; não é bonitinho? Está bom, quando é que eu marco outra sessão?

Marcar a próxima, bem como receber no fim da sessão é importante para esse tipo de paciente que não apresenta uma certa regularidade.

– Ué? Não vou precisar esperar aqui em baixo não, pra subir? É direto? Que bom, está geladinho aqui. Fala alguma coisa aí; ... Você trabalha com criança? Estou vendo uma casinha ali. Estou vendo ali uma casinha de boneca.

– Você falou que queria morar numa casinha. Seu marido numa quitinete e você em uma casinha...

– Quanto tempo a gente ainda tem de sessão? Quanto tempo é? Você fica olhando para aquele relógio ali?

O analista fica calado esperando que as últimas coisas faladas retumbem dentro dela em busca de algum sentido.

– É, não tenho o que falar. Carlos me encheu o saco de novo; parti pra cima dele. Não queria me deixar sair e eu parti pra cima dele. ... Quero te contar uma coisa que não contei pra ninguém. To saindo com um cara, um amante, amigo de infância e é muito bom, estou gostando bastante. Fico meio grilada de encontrar com ele, mas encontrei com ele e foi muito bom! Trepar é muito bom! Não sei em que vai dar isso; é um amigo de infância, a gente se encontrou e pronto. Não é só uma trepada. É bom ficar com ele. É. Às vezes tenho essa vontade de sair por aí, não é? Outro dia, peguei o carro, pequei meu filho e fui pro sítio. De lá, liguei pro Carlos: – olha, estou aqui, tá? De vez em quando dá vontade de pegar uma estrada e ir embora. Ele perguntou se estava tudo bem, se estava tudo tranqüilo. Eu disse que sim e fiquei lá um tempo. ... Ta na hora já? Quanto tempo você trabalha? É um bom lugar lá, eu gosto de vez em quando de dar uma saída; é muito difícil.

O analista se levanta para despedida.

– Então, sexta-feira estou aí, ta?

Antes da próxima sessão marcada, estou em casa e recebo um recado do Carlos:

– Olha, Mariana foi pra Terezopolis sozinha, foi assaltada, levou umas pancadas, chegou em casa bêbada e não pode ir à sessão; depois ela liga pra você.

Isso aconteceu na sexta-feira e, aí, eu liguei para ela no sábado e marquei outra sessão. Ela normalmente é super expansiva; chegou na sessão com o corpo cheio de hematomas e eu não perguntei diretamente o que aconteceu.

– Posso sentar ali? Sentou-se no chão.

– Quem te bateu? Perguntei com preocupação.

– Peguei o carro, fui encontrar com o Márcio. Ele esta saindo com outra mulher. Descobri que ele está saindo e ele confirmou. Eu sou casada, como é que posso me importar se ele está saindo com outra mulher? Mas eu me importei, fiquei com ciúme e parti pra cima dele. Levei porrada e estou cheia de hematoma. Aí, vim chegando depois em Nova Iguaçu, parei no sinal e um moleque me assaltou. Pegou o meu dinheiro. Bebi uma garrafa inteira de vodka. Não sei o que faço; sou casada, ele arrumou outra mulher. Eu sou ciumenta. Eu parto pra cima. Aí, quando bebo, fico com problema no estômago e fico dois dias na cama. Carlos me deu banho, me deu remédio. Eu fico lá, demoro um tempão pra levantar. Quando bebo acontece isso. Eu fui assaltada e nem tenho dinheiro pra te pagar hoje; posso pagar na próxima? Te pago a que eu faltei também.

– Levaram... Eu disse.

– É, levaram o que é meu. Eu sou grandona, sou forte.

Contardo Calligaris em Clínica Diferencial das Psicoses escreve sobre o automatismo dessas pessoas que estão em um lugar e, de repente, partem para outro, não podem ficar no mesmo lugar. No caso dela, ela já vem contando que tem uma pulsão insatisfeita que diz respeito ao guardador, e por aí logo entra o amigo e logo a repetição. Por isso é que não é necessário saber do lugar; interessa tudo, menos o casal. O que está interessando aqui é que ela repete com o amigo de infância a mesma coisa que ela tem com o marido. A posição do analista é escutar como essa subjetividade se faz; se é com Carlos ou com Marcio, sei lá com quem, ela é a grandona, ela fala de si própria e se reconhece como tal. E a outra coisa é pensar que tem um critério, que é mais lacaniano, que quando o sujeito se desloca nessa velocidade, se você simbolicamente está diante de um psicótico.

Há uma preocupação dela pelo fato de ter tomado drogas. Parentes e amigos diziam para ela que se drogou muito. Quando ela teve o filho com esse problema, as pessoas começaram a acusá-la em função da quantidade de drogas. Ela também fala de uma paixão da qual não está conseguindo dar conta. A relação com marido é alguma coisa que já acabou.


*Adaptação de um caso apresentado numa sessão de Mobilização Clinica da Formação Freudiana.

13 dezembro 2008

DEPOIS DA CHUVA

Por Rogério Silva


Doutor, o que eu quero falar hoje é alguma coisa que, para mim, tornou-se um martírio que me consome e me oprime diariamente. Ainda não sei direito quais os sentimentos que me tomam. Só sei que são múltiplos. Prazer, vergonha, desejo, autoflagelação, dor, medo, volúpia, sei lá! Talvez ao relatar eu encontre os motivos dessa angústia.

Na noite daquele sábado chovia tanto que resolvi me meter na única lan house aberta do Catete. Eu tinha um propósito para estar ali naquela hora. Queria encontrar com Lino. Eu me sentia perdidamente apaixonada por ele. Não o encontrei na rede. Aproveitei para ficar em dia com meu e-mail. Estava tão absorta nessa tarefa que nem percebi quando Jony entrou. Primeiro, por que ainda não o conhecia e segundo, por que estava tão entretida no que fazia para perceber qualquer aproximação.

Ele sentou-se atrás de mim, numa mesa mais distante. E fez-se notar, para mim, pelos toques insistentes do seu celular. Parecia que falava com uma menina. Ela não queria aceitar alguma sugestão da mãe. Foi o que deu para perceber. Num estilo paternal, ele lhe dava bronca em voz baixa, mas não o suficiente para que as outras pessoas que estavam na lan não ouvissem, parecia estar bastante irritado com ela. O seu celular ainda tocou outras vezes. A cada instante que tocava eu o olhava instantaneamente. Havia nele alguma coisa que me atraia. Não sei se por que não encontrei Lino, mas o fato é que não resistia àquela atração. Fiquei observando-o, com admiração e interesse. Olhei para a tela do seu computador e percebi que estava no MSN. Instintivamente, dei um impulso na minha cadeira, com rodinhas, para trás, até parar ao seu lado. Nossas máquinas estavam posicionadas, uma contrária a outra. Toquei em seu braço e sorrindo, perguntei baixinho se ele gostaria de me adicionar ao seu MSN? Ele, que estava com fones de ouvido não entendeu. Retirou o fone do ouvido e seriamente pediu que repetisse. Sorri sensualmente para ele, e repeti o convite. Ele respondeu que sim, então eu ditei para ele o meu endereço. Ele me disse o seu nome, João Paulo Medeiros. Mas no seu MSN era Jony. Laura. Apresentei-me e continuamos um de costas para o outro, em comunicação.

Sempre muito respeitosamente ele me perguntou algumas coisas pessoais e me contou outras tantas suas. Depois queria saber o que eu fazia, se era casada, se tinha filhos e coisas desse tipo. E ainda quis saber onde eu morava. Falei que sou descasada, tenho uma filha quase na universidade e moro numa cidade do sul do estado.

- E onde você fica quando vem aqui? Ele perguntou. Entendi perfeitamente que ele se referia à cidade, mas num tom de gracejo respondi:

- Numa lan house! A resposta veio quase que instantaneamente. Rimos muito desse tipo de brincadeirinha. Foi muito divertido e serviu para nos deixar mais à vontade!

Como eu já pretendia ir embora, sinalizei que já iria sair e ele me ofereceu uma carona até a casa de mamãe onde disse que estava hospedada. Ficava perto, há algumas quadras dali. Não seria necessária uma carona, mas que se ainda chovesse eu aceitaria. Ele insistiu, dizendo que seria um prazer de qualquer maneira. Agradeci e perguntei a que horas ele iria embora. Respondeu que estava ali só passando tempo e que poderia sair na hora que eu quisesse. Imediatamente desliguei o meu computador e fui até a recepção fechar a minha conta. Ele fechou a dele também e saiu na minha frente. Esperou-me na porta. Ainda chovia e a carona tornou-se inevitável.

Parou o seu carro no portão da casa de minha mãe. Uma casa antiga, de porte médio como uma das poucas que ainda sobrevivem no bairro. A casa possui uma varanda na frente e garagem. Os cachorros que já me conhecem, chegaram silenciosos. Não havia ninguém. Coisa que ele reparou, pois as luzes estavam quase todas apagadas. Perguntou pelos habitantes da casa. Minha mãe havia viajado e minhas irmãs estavam com seus namorados em algum lugar da cidade. Elas moravam ali sozinhas com meu irmão que esta quase sempre fora em viagem. Eu não quis dizer que minhas irmãs ainda eram jovens e bonitas para não despertar curiosidades e ser preterida por elas, como sempre acontece.

Inconvenientemente ele se convidou para entrar. Para tomar um café ou uma água, quando ficou certo de que não tinha ninguém na casa. Minha mãe não gostaria que se trouxessem pessoas estranhas quando ela não estivesse. Disse-lhe num tom que não deixava a menor oportunidade para retrucar e acrescentei.

- E além do mais, a casa tem câmeras espalhadas por todo canto e alarme de segurança que toca em outro lugar secreto com vigilantes armados. Ele sentiu-se intimidado e não insistiu. Resolveu ir embora dali mesmo e perguntou se poderia me dar um beijo de despedida. Disse que sim aproximando o rosto de sua boca. Virei-me e dei a outra face para um beijo formal, entre duas pessoas que acabavam de se conhecer. Aproveitando a aproximação, ele me disse ao pé do ouvido.

- Adorei o seu cheiro! Entendi que falara perfume e, disse que não uso perfume.

- O perfume de que falo é o seu próprio cheiro. É muito excitante! Acrescentou com ar de superioridade e conhecimento. Ofereceu-me o numero do seu celular, pedindo que ligasse quando estivesse de volta a cidade para sairmos. Nessa hora quis saber de meus gostos, se bebia e se fumava. Como lhe respondi negativamente perguntou se era por causa de alguma questão religiosa, o que prontamente descartei. Ele se animou e numa nova tentativa de conquista, começou a me galantear dizendo que eu ainda era muito nova para ter uma filha na universidade. Perguntei então quantos anos ele me dava. Ele respondeu imediatamente, sem pensar, trinta e cinco. Eu me senti linda! Ele me disse que tinha trinta e oito anos, mas desconfiei. Achei-o mais velho que a idade que eu tenho. Mas ele era muito bonito, forte, simpático e inteligente. Aproveitou para falar mais de si. É professor de história, tem mestrado em relações internacionais e aparenta erudição. De sua vida íntima acrescentou ter apenas uma filha, de sete anos, mas que valia por duas. Nunca foi casado e não tem nenhum relacionamento fixo há quatro anos. Pensei: “Oba! Disponível! Na minha medida!” Pensei, mas não disse.

Certo de já ter captado a minha confiança, ligou o carro e convidou-me para sair. Aceitei, não imediatamente, por uma questão de charme. Ele saiu sem dizer, ou perguntar, aonde iria e falou num tom suave e com um leve sorriso nos lábios.

- Estou adorando essa fantasia! Eu perguntei imediatamente, sem pensar:

- Qual?

- Estou amando ter sido escolhido por você para ser o seu homem hoje. Para fazer amor contigo. Respondeu aparentando felicidade. Parecia uma criança prestes a ganhar o brinquedo predileto. Ao mesmo tempo em que falava coisas carinhosas que me deixavam excitada, disse também um monte de palavras chulas num misto de doçura e agressividade. Fiquei muito assustada e perguntei por que estava falando aquelas coisas.

- Fiquei muito excitado com essa idéia de ter você. Adoro mulheres sedutoras e de atitude. Concluiu com suavidade, mas olhando-me nos olhos de um modo muito incisivo. - Quero levá-la a minha casa. É um lugar pequeno, modesto, onde eu tenho meus livros, meus discos e recebo as pessoas que gosto. Disse isso já manobrando para parar em frente ao prédio.

- É aqui. Disse isso desligando a chave do carro e voltando-se para a minha direção, sem me dar a chance de retrucar.

Olhei para fora do carro, ainda chovia, estávamos na subida de uma ladeira, era um prédio pequeno, realmente modesto, antigo, cinza e pouco iluminado. A rua também. A portaria estava escura num sinal de que não havia porteiro. Comecei a ficar com medo. E disse isso a ele. Meu corpo começou a tremer de medo. Medo mesmo. Medo de estupro, de morte. Não sabia se estava diante de um psicopata. Imediatamente acudiu-me a idéia, várias cenas do livro o Psicótico de Leonard Simon, como num filminho em que essas cenas passaram em segundos. Seria ele como o Artur Moss do livro? Pensei.

Como quem está na chuva é para se molhar mesmo, pensei procurando em mim alguma coisa que me desse força para enfrentar o que estava por vir. O horror me tomava e ao mesmo tempo lambia-me o íntimo uma excitação. Era tão grande que eu sentia o suor correr em meu rosto, apesar do frio. Minha calcinha parecia encharcada, mas tão encharcada que instintivamente fechei mais as pernas numa tentativa de esconder a calça molhada. O escuro do carro me protegia, mas ele não tirava seus olhos dos meus. Com um cigarro no canto da boca deu um risinho sinistro. Mas antes de acendê-lo, perguntou se eu me importaria que acendesse. Nessa hora senti uma possibilidade de dominar um pouco a situação e pedi que não acendesse. Imediatamente ele guardou o cigarro, dizendo, sem graça, que sempre que estava com alguém perguntava, por educação. Parecia um cafajeste cavalheiro. Se existe essa combinação, eu estava diante de um legitimo espécime. Eu não conseguia acreditar no que estava vendo. Com muito medo, resolvi entrar em seu joguinho! Jony me pedia que eu não tivesse medo! Tentava me acalmar, mas ao mesmo tempo tinha uma cara de dar pavor. Dizia que eu iria gostar. De forma dura e incisiva começou um discurso que eu ainda não havia consentido.

- Eu sou um puto e adoro putas. Disse de um jeito que não me senti ofendida. Senti que houve em mim uma transformação. Comecei a gostar do que estava acontecendo. Já adentrávamos o apartamento quando ele exercitou o máximo da intimidade. Parecia que já nos conhecíamos há muito tempo e aquele era apenas mais um encontro.

- Vou enterrar o meu pau durinho dentro dessa bocetinha. Vou meter fundo. Depois no cu. Falou num tom de conhecimento de causa. - Quero lambê-la toda. Começando pela boca e ir descendo, pelos peitinhos, enfiar a língua no seu umbigo e descer mais, até atingir quase o seu útero enquanto você chupa o meu pau. Descrevia tudo o que estava para acontecer como se já tivesse sido ensaiado antes, ou se tivesse transmitindo um acontecimento. Aquilo me dava um misto de excitação e medo. Tirou o seu casaco bege e a camiseta preta, deixando a mostra o seu peito nu e musculoso. Filmava-me com os seus olhos. Sua boca parecia a de um lobo faminto diante da sua presa. Não me fiz de rogada, tirei minhas calças. Ele me pegou com vigor e arrancou-me a blusa. Com vigor, porém com suavidade, se é que isso é possível. Avisei, com cara de puta, que não queria sentir dor e pedi que usasse camisinha. Ele aquiesceu e me disse que só sentiria dor se eu quisesse. Caso contrário, sentiria apenas prazer. Muito prazer! Falava sempre olhando nos meus olhos. Ou melhor, dentro dos meus olhos. Nesse ponto eu me sentia completamente invadida pela sua imagem, pelo seu cheiro, pela sua voz, pelo seu corpo. A sua língua rebolava com a minha em minha boca. Já o via inteiramente embora estivesse de olhos fechado. Intimidava-me, mas não demonstrei mais medo. Sentou-me sobre a cama e beijou-me ardentemente, enquanto desabotoava meu sutiã, demonstrando muita intimidade com o fecho. Acariciou-me, beijou-me, lambeu-me toda: dos pés à cabeça. Gozei facilmente. Parou e falou algumas coisas das quais não me lembro, pois estava extasiada naquele momento. Eu já estava quase sem sentidos. Perguntou-me outras coisas que se tornaram ininteligíveis também pelo mesmo motivo. A única coisa que entendi foi quando ele disse:

- É um crime deixar uma fêmea como você, no cio e sozinha!

Ele se sentia na obrigação que fazer alguma coisa. Aquilo que estava fazendo! Dava-me muito prazer! E queria saber se eu já estava satisfeita ou se queria mais. Respondia que queria mais. Queria muito, mas quase não conseguia mais falar. Nesse momento mandou que eu me ajoelhasse na beirada da cama. Que ficasse de quatro. Eu obedecia com muito desejo. Veio por de trás, pôs a mão esquerda nas minhas costas e com a outra me agarrou os cabelos, na altura da nuca. Enfiou o seu pau na minha vagina e descrevia antecipadamente passo a passo cada nova investida. Agora eu vou fazer isso, você vai adorar. Ou então, agora vou pegar você assim e você vai ao céu! Fazia perguntas como: sua puta, você gosta disso ou daquilo? E fazia sempre o que eu queria, com muita força. Tinha uma pegada forte! Eu me sentia entregue. Irresistivelmente entregue!

Quando eu pensava que ele já estava satisfeito, começava tudo de novo. Penetrou-me por trás com suavidade, segurando meus cabelos, fazendo com que virasse a cabeça na direção do espelho, sempre falando coisas no meu ouvido. Era um espelho pequeno, mas ficava na minha frente mesmo, era só levantar a cabeça. A mão, que antes estava nas minhas costas, desceu e entrou com dois dedos juntos em meu ânus. Pela primeira vez senti uma dupla penetração. Até o tempo parecia estar sob o seu comando. Repetimos todas as coisas sempre como se fosse à primeira vez até que adormecemos exaustos. Não sei quem dormiu primeiro. Só sei que quando eu acordei, já estava claro com o sol atingindo quase o meio do quarto. Coisas dessa cidade, nos dias primaveris! O cheiro de sexo exalava da cama, das roupas e até o ar parecia cúmplice daqueles momentos. Continuei deitada por algum tempo procurando saber que sentimentos eu levava daquela experiência. Reparei que Jony já se levantara e chamei-o por duas vezes:

- Jony. Jonyii! Sem obter nenhuma resposta. Tentei levantar-me. Estava nua. Envolvi-me no lençol e sentia a pélvis, as pernas e o ânus docemente doloridos. Meio cambaleante dirigi-me à sala onde encontrei a mesa de café pronta. Uma xícara usada e outra limpa para mim, que logo me pus a utilizá-la. Jarros com rosas e flores do campo ornavam a sala e eu não via neles nenhum cartão pendurado. Não dei muita importância a esse fato. De repente eu vi um envelope entre o bule de leite e o açucareiro. Pequei o envelope que dizia em letras grandes: ‘meu amor’. Estava semi-aberto e pude perceber que continha várias notas de R$ 50,00, que não contei, e um bilhete que abri sem pensar, deixando as notas do jeito em que estavam.

O bilhete era dirigido a mim, embora não tivesse nenhum nome: - Minha querida, hoje foi, sem dúvida nenhuma, o dia mais importante da minha vida e gostaria que você soubesse que fez parte dele. Tudo o que aconteceu entre nós foi divino e pareceu-me uma dádiva. Um presente do céu. Tudo o que fiz com você, teve para mim, o sabor de primeira vez. Não sei se poderei repetir essa experiência com você. Mas eu sei perfeitamente como você se sente, pois já me senti no seu lugar. Já me senti sendo penetrado por um homem forte, me dando amor, carinho me fazendo ir às nuvens em gozos múltiplos e sem poder fazer com ele o mesmo que ele fazia comigo. Graças a você eu aprendi. Agora eu sei que posso satisfazê-lo como ele sempre me satisfez. Hoje Fred estará retornando de New York, de um seminário de artes que participou e eu estarei pronto para recepcioná-lo como ele merece e sempre desejou. Essas flores eu comprei para ele com muito carinho. São lindas, não são?

Não fique magoada comigo, -eu lia isso com as lágrimas escorrendo em meu rosto e uma profunda dor no peito como se estivesse sendo apunhalada- mas eu não iria conseguir falar disso, pessoalmente, com você. Esse dinheirinho é apenas um presente para que você possa comprar o que quiser e lembrar-se sempre de mim.

Não creio que voltaremos a nos encontrar, mas espero que tenha boas recordações minhas e seja muito, muito feliz.

O seu Jony.

Aquela carta abateu-me como uma bomba atômica. Deixei escapar num esgar, um grito lancinante, tão forte que percebi a movimentação da vizinhança curiosa com o que ouviu. Durante alguns instantes eu fiquei parada olhando aquele envelope, o dinheiro, o bilhete e as flores tentando entender a conexão disso tudo com o que vivi durante aquela noite de chuva. O sol já adentrava a sala mostrando a irreversibilidade do tempo. Seria impossível voltar atrás e desfazer tudo o que aconteceu. Meu corpo doía agora de outro modo. Minha pélvis, minha vagina, meu ânus, a minha boca, estavam secos. Uma secura de carinho, de amor, de sensualidade ou sei lá do quê! Eu queria fugir dali. Sumir como que por encanto, mas não podia. Levantei, minhas pernas não obedeciam, sentei novamente. Peguei o bilhete, reli, refleti e conclui. Afinal de contas, eu encontrei naquele lugar o que procurava com urgência. Sexo. Apenas isso. Um sexo selvagem sem amor e que eu gostei. Mas ali, definitivamente, não havia lugar para o amor. Lino estava tão longe dali e do pensamento. Instintivamente dobrei o bilhete como estava antes e coloquei-o de volta no envelope. Pensei em largá-lo daquele jeito, mas não resisti à tentação e peguei-o novamente rasgando em dois separando “meu” de “amor” com o bilhete e o dinheiro juntos. Deixei as duas partes na mesa, uma em cima da outra. Catei, num dos jarros, a rosa mais bonita que encontrei e quebrei o seu talo em dois, despetalando-a todinha em seguida e coloquei tudo sobre o envelope partido. Acabei de me arrumar e saí. Não sem antes olhar para trás e ainda na soleira da porta dizer, mesmo sem ter quem ouvisse: - Mas tem coisas que só uma mulher sabe fazer!

29 setembro 2008

REFLETINDO SOBRE A FRAGILIDADE HUMANA

Por Rogério Silva

Quando cheguei ao bar encontrei Alfredo sozinho, sentado à mesa do canto oposto ao que sempre costumava sentar. Somente as pontas de cigarro amassadas no cinzeiro, o maço quase vazio, a caixa de fósforos meio arrebentada e o copo de pinga pela metade lhe faziam companhia naquela noite chuvosa.

Eu sabia que o copo pela metade já anunciava os muitos outros que ele tinha o hábito de tomar de uma talagada só. Quase vazio era apenas o sinal de que oito ou nove haviam sido virados antes. O olhar para o nada já contava parte da amargura que sentia.

Hesitei perturbá-lo, invadir o seu torpor seria uma descortesia para com quem muitas vezes dividi as horas em alegres gargalhadas. Mas deixá-lo só, daquele jeito, também seria uma grande maldade. Parecia precisar de um ombro amigo. Coisa que ele sempre fez quando encontrava alguém abatido.

Olhava-o com candura. Quando automaticamente ele levantou os olhos direto em minha direção. O sorriso sempre presente, nessa hora não apareceu. Em seus olhos um brilho úmido se fez notar. Parecia-me que o ouviria comentar, como Voltaire leva o ingênuo protagonista Cândido a debater consigo mesmo o preceito de que estamos no "melhor dos mundos possíveis". Ele sempre repetia esse mote.

Certamente nessa hora ele não faria isso, pois não era para ele o melhor dos mundos possíveis, pensei. Pelo menos, não naquele momento.

Aproximei-me e ele apenas fez um sinal com a cabeça para que me sentasse. As lágrimas escorriam encharcando a sua blusa num tom azul escuro. Segurei sua mão trêmula úmida e fria com as minhas duas mãos e não lhe dirigi nenhuma palavra. Queria que com o meu calor sentisse a presença do amigo de tantas goladas e farpas humorísticas.

Pediu mais um copo e a cada pequeno gole começou o seu rosário.

- Lembra da Gisely? Começou a falar com a voz embargada.

- A do curso de segurança do trabalho que você dava. Faz muito tempo que não ouço você falar dela. Ela era casada e vocês tiveram um caso, não foi isso?

- É isso mesmo. Foi mais que um caso, meu amigo! Foi mais que um caso! O marido dela era major do exercito e foi transferido para o Acre. Ficaram lá por uns dez anos e voltaram no ano passado.

- Sim, lembro-me bem dela, mas o que houve com ela? Aconteceu alguma coisa grave?

- Por mero acaso eu a vi. Eu mal acabei de entrar na Saraiva encontrei-a folheando um livro. Está um pouco mais velha e com alguns quilinhos a mais. Mesmo quase de costas eu pude perceber o seu jeito maroto de olhar as coisas do mundo. Me aproximei sorrateiramente por trás e tapei-lhe os olhos sob os óculos. Ela falou o meu nome na mesma hora, virou-se e nos beijamos apaixonadamente como se tivéssemos marcado aquele encontro. Dali fomos para a cafeteria da livraria e falamos de nós, sobre esse tempo em que estivemos afastados. Falamos dos acontecimentos, dos filhos, dos projetos pessoais e dos desejos. Contei-lhe o acidente que me deixou impotente e a minha mulher hemiplégica e ela me contou que separara do marido recentemente. Há quatro meses.

- Puxa vida! Aquele acidente foi um verdadeiro desastre! Do carro não sobrou nada, mas vocês ficaram bem machucados. Eu não sabia que você tinha ficado impotente. Mariana eu sei, ficou completamente dependente. Não pode mais trabalhar e até pra comer você tem dar comida na boca. Complementei.

- Pois é! Gisely disse que pensou muito em mim durante todos esses anos. Jorge é um bom militar até no casamento. Cumpre direitinho seu dever, mas não é um bom companheiro quando se trata de afeto. Hoje é coronel reformado. Não lhe dá muita atenção, não conversa e nem lhe proporciona mais sexo. Já se sente muito velho para isso. E olha que só tem sessenta e dois anos! Falava demonstrando um grande pesar. - Ela na flor da idade com quase cinqüenta e ele broxa de afeto e de tudo. Você precisava até ver o tesão que ela ainda é. E sozinha. Coitada! Estão separados, mas ele quer voltar a todo custo. E ainda tem os filhos que volta e meia pressionam. Um já é adulto, tem vida própria, mas a menina ainda é adolescente e depende de cuidado da mãe nessa hora.

- Sim, mas não é isso que está te deixando tão mal! Ponderei.

- Você tem razão, não é isso não. A questão é que ela se sente pouco atraente. Passou a freqüentar as salas de bate papo da internet e tem se frustrado constantemente com companhias que se apresentam falsamente. Afora isso as nossas relações se estreitaram e nossos sentimentos ressurgiram de uma forma tão intensa que e já nem sei o que fazer. Meus sentimentos estão totalmente revirados.

- Como assim? Ela quer casar com você? Perguntei com espanto.

- Aí é que está o problema. Nós nos amamos de verdade. Eu sinto isso. Mas eu não estou disponível. Tem a Mariana com quem a minha relação não é apenas de compaixão. Ainda existe muito afeto. Já não é como antes, é verdade, mas nos amamos. Gisely parece compreender isso e até aceitar. Contudo, na prática, me quer nos momentos mais inoportunos. Imagina se eu posso dizer pra Mariana: “meu bem, eu vou ali comprar cigarros" e voltar dez horas mais tarde como se nada houvesse acontecido!

- Entendo! Você é um cara muito sensível e muito humano também! Ponderei.

- Ela ficou tão chateada comigo que, em represália, eu acho, aceitou sair com um dos caras que ela conheceu na internet. Ele contou uma historinha que ela resolveu conferir e foi pro motel com ele. Estrepou-se e acabou chateada consigo mesma. E eu fiquei muito magoado com ela. Você sabe que eu não sou moralista. Não foi o fato de ela transar com alguém. Estou numa situação que não posso lhe dar o sexo que sempre tivemos no passado. O amor que lhe dispenso é limitado embora seja sincero e verdadeiro. Mas sair com o primeiro que aparece...? Concluiu com os olhos empapuçados.

Nesse momento eu pude compreender melhor como um sentimento verdadeiro machuca as pessoas. Ele a amava de verdade. Ela também o amava. No passado foram amantes incondicionais. Sem cobranças e sem promessas. Simplesmente se amaram. Por isso mesmo se separam sem despedidas. E de repente se reencontram em situações completamente diversas. Ela, livre leve e solta querendo amar que é o que ela sabe fazer e faz bem. Ele encontra nela a companhia que tanto lhe deu felicidade no passado, mas agora não se sente em condições de acompanhá-la. Preso por amor e por compaixão. Despedaçado na sua condição masculina e com a cabeça mais lúcida do que nunca. Vive um grande pesadelo.

Ver Alfredo naquele estado me fez refletir sobre a fragilidade humana. Somos tudo e nada ao mesmo tempo. Essa ambivalência me balança toda a vez que encontro alguém numa encruzilhada como essa. A minha ajuda ao Alfredo, nesse momento, se resume a ouvi-lo e acompanhá-lo, pois não me surge nenhum apanágio, intelectual ou filosófico, que possa servir de alento às suas questões. Fiquei ali um bom par de tempos a escutá-lo.

O desejo de ajudar o amigo pode levar o terapeuta mais experiente a acreditar que seria possível emprestar a sua escuta ao menor conflito que possa aparecer e fazer dessa escuta um trabalho terapêutico, mesmo quando não somos procurados para isso. Respeitar a individualidade é uma regra tão fundamental quanto à da escuta. Por isso propus que nos encontrássemos em meu consultório, pelo menos uma vez, para que eu pudesse indicar-lhe um colega para análise se assim ele desejasse. Ele prometeu ir.

16 maio 2008

O CASO DA CANETA DOURADA

Por Rogério Silva

A cena se repetia toda a vez que Márcio ia ao Shopping. Entrava na Quadrilátero, um misto de livraria, papelaria e café. Passeava entre as alas de livros folheando um ou outro, até achar um que lhe interessasse. Pegava o livro. Ia até a sessão de papelaria. Pegava duas ou três canetas que tivessem tampa. Colocava-as no bolso da camisa e se dirigia ao café.

Já acomodado, pedia um refrigerante ou um capuchino e passava os olhos no livro. Para ter certeza de que iria lê-lo. Ele lia a orelha, corria o índice e o prefácio e a apresentação e a introdução. Só então decidia comprar. Ele gostava muito de ler. Lia tudo o que podia. Principalmente literatura nacional, música e filosofia. Mas a ida ao café tinha outra finalidade. Lá ele pegava alguns pedaços de papel. Experimentava as canetas, uma a uma. Sentia um fascínio em retirar e colocar a tampa várias vezes. Depois as colocava no bolso novamente, pagava apenas o livro e ia embora.


Jonas, seu pai, um dia abriu a sua gaveta e percebeu a enorme quantidade de canetas novinhas e perguntou-lhe o que significava aquilo. Ele simplesmente respondeu que gostava das canetas. Jonas pareceu aceitar a desculpa. Ficou ressabiado. Percebeu que, cada vez mais, aumentava a quantidade de canetas.

Certo dia, ao entrar no quarto de Márcio, Jonas pegou-o distraído em frente ao computador, com uma caneta na mão. O rapaz enfiava e retirava a caneta da tampa. Vez por outra passava o bico da caneta na tampa l-e-n-t-a-m-e-n-t-e. Depois enfiava e retirava a caneta freneticamente. Largava uma, pegava outra. Repetia novamente. Depois outra, e outra, e outra.

Jonas ficou chocado com aquela cena. Não compreendia o que acontecia com o seu filho. Achava tudo aquilo muito estranho. Pensou que o filho estivesse enlouquecendo. Conversou com alguns amigos que o aconselharam a levar a um psiquiatra. Ele achava que essa interferência poderia despertar uma animosidade com o filho e rejeitou-a de principio. Alguém até lhe indicou o Dr. Moisés Bick que além de médico também era psicanalista.

Aproveitando uma ocasião em que o rapaz adoeceu com febre e dor de cabeça, procurou o Dr. Moisés. Telefonou para ele e pediu que o atendesse e explicou o quadro febril, foi informado de que ele não era clínico geral. Jonas, então, falou sobre os estranhos episódios com as canetas que o fazia procurá-lo. Dr. Moisés se interessou e marcou um horário no ambulatório do hospital. Atendeu ao pedido do pai, para não levantar implicações.

No final da consulta Moisés, como preferia ser chamado, pegou propositalmente uma caneta do tipo apropriado, porém com acabamento fino em ouro baixo e preencheu a terapêutica antifebril, enquanto observava. Márcio estava de olhar fixo na caneta. Acabou de escrever e deixou-a na sua frente. Enquanto conversava ele pegou a caneta e fascinado começou o seu ritual.

Moisés, depois de observá-lo, marcou outra consulta para três dias depois, no mesmo lugar. Não queria misturar o quadro clínico com outras questões ainda. Márcio não foi e ele sentiu que poderia perder a ocasião de tratar aquele quadro que já se anunciava muito interessante, mas preferiu aguardar.

Algum tempo depois Márcio apareceu com uma infecção intestinal. Jonas aproveitou a oportunidade para marcar outra consulta com Moisés. Novo atendimento e todo o ritual se repetiu. Desta vez ele aproveitou e marcou uma próxima sessão no seu consultório de psicoterapia, alegando que estava de mudança de consultório. No final da sessão pediu a Márcio que levasse a caneta para casa e trazê-la quando viesse à consulta.

No horário marcado compareceu trouxe a caneta. Agradeceu muito ter sido ajudado por aquelas duas vezes e acrescentou que estava gostando de ir ali naquele dia, embora não soubesse bem o por quê. Moisés não lhe acrescentou nada. Apostava no vinculo libidinal que aquela caneta pudesse proporcionar. Ainda assim preferiu tratar apenas das questões relativas ao seu bem-estar físico e marcar nova sessão.

Na sessão seguinte Márcio chegou ligeiramente atrasado. Trouxe não só aquela caneta como um pequeno presente para Moisés que, surpreso e sem saber o que dizer, abriu-o. Era uma caneta muito bonita com tampa em ouro branco num estojo muito alinhado. Moisés disse:

- Obrigado. Colocou-a na mesinha ao lado e ficou olhando para Márcio que começou a falar.

- Quando eu vinha para cá, vi uma menina no ônibus que me lembrou de Letícia, minha prima, quando tinha onze anos. Nós temos a mesma idade. Era como se fosse ela. Incrível! Aquele corpinho de menina moça, já apontava os peitinhos e o jeito muito sapeca. Também me veio à lembrança de Lucas, outro primo nosso mais velho que nós sete anos. Um dia eu os peguei fazendo sexo anal num quartinho abandonado que tinha no quintal da casa da minha tia. Eu ainda era muito inocente e aquela cena da penetração nunca me saiu da cabeça. Eu já estava aqui em frente. De repente atravessei e quando percebi já havia comprado essa caneta. Fiz bem?

Moisés não respondeu a essa pergunta e disse.

- Pelo que você está contando me parece que esse gesto tem algo a ver com a lembrança do ônibus. Como você vê isso?

- Eu não sei dizer... Uma lembrança antiga... Um presente. O que gostaria era de saber se você gostou? Insistiu, sem conseguir fazer nenhuma associação.

- Eu gostei, respondeu Moisés. Mas não sei se você se dá conta. Hoje nós estamos inaugurando uma etapa que, acredito, é muito nova pra você. Você me entende?

- Acho que sim, meu pai vem conversando muito comigo sobre o que você faz e me incentivou muito vir aqui.

- Ah, é...! E o que ele fala? Perguntou Moisés, meio embaraçado com a surpresa.

- Ele me contou que você é médico e que também faz análise e ainda falou que ele está muito preocupado comigo. Por causa dessa minha mania com as canetas. Respondeu com tranqüilidade. Ele acha que estou ficando maluco.

- E o que você acha?

- Eu acho que é uma bobagem dele. Pra que se preocupar? Isso é coisa de pai. De um modo geral eu me sinto bem. Mas tem uma coisa que ele não sabe. Tem vezes que me distraio tanto com as canetas que fico muito excitado. Acabo molhando as calças e ao mesmo tempo sinto contrações prazerosas no meu ânus. Quando isso acontece em casa eu não me importo tanto, dou um jeito. Ninguém percebe. Mas quando estou com outras pessoas, amigos, colegas... Sinto muita vergonha... Tento me esconder... Sabe como é? Você pode me ajudar? Concluiu.

Com esse pedido explicito, Moisés aproveitou o símbolo da caneta como o seu objeto de fetiche e também de transferência. Trabalhou essa questão. No final da sessão, pediu que ele ficasse com a caneta e só a devolvesse quando ele se sentisse tão firme, que não precisaria mais dela e iniciou um atendimento duas vezes por semana, que perdurou sete anos e meio. O tempo foi passando e a caneta foi perdendo o sentido, até sumir completamente. Ao mesmo tempo, outras coisas foram surgindo e igualmente foram trabalhadas. Márcio não lhe devolveu aquela caneta e nem Moisés a cobrou, pois entendeu que durante todo aquele percurso ela já havia vindo tantas vezes simbolicamente, que perdeu o vínculo libinal.

21 abril 2008

A FILA ANDA

Por Rogério Silva


Chovia muito. Seu chapéu de feltro e a parca eram insuficientes para aquela chuva. Ele nunca gostou muito de usar guarda-chuva e o jeito era ficar de marquise em marquise, ou entrar em algum lugar e esperar um pouco. No outono carioca a chuva não demora muito, mas o vento frio batia no rosto e gelava. Na porta do Ernesto, famoso bar da Lapa, não teve outra saída se não entrar. A casa estava cheia, com poucos lugares vagos, mas aquela mesa lhe chamou a atenção. Havia algo de familiar no rosto daquela moça. Não o reconheceu de saída. Enquanto se encaminhava para a mesa, fascinado por aquele olhar, pensava quão desagradável seria perguntar: - Não te conheço de algum lugar? E receber como resposta: - Engraçadinho!... Ou outra coisa constrangedora.

Seus olhos já haviam se encontrado e um sorriso iluminava o rosto dela. Mas quem era? Ele pensava desesperadamente. Atraído por aquele olhar, atreveu-se. Puxou a cadeira e perguntou: - Posso?...

– Carlos, há quanto tempo! - Exclamou com sorriso de felicidade.

- Desculpe, mas... Já se sentando.

- Natalia, ou melhor, Natalie. Não se lembra mais de mim? Disse mostrando desapontamento.

É claro que ele se lembrava, mas mais de dez anos já se passaram. Ela usava longos cabelos negros, quase na cintura. Agora eram curtos com mechas douradas e havia alguma coisa nova naquele rosto que mudava muito o visual.

- Estou tomando chope, quer? Garçom! Mais um aqui. Acabei de chegar de Nanci. Fiz mestrado e doutorado em Paris. Fiquei casada com Pierre, um colega do mestrado, durante seis anos, tive uma filha, descasei e voltei para o Brasil com Natalie que tem quatro aninhos. Chegamos à semana passada.

- Puxa, essa chuva, de repente..., bendita chuva, senti muita saudade. Disse, sem deixar de demonstrar a felicidade com o encontro.

- Eu sei, eu sei. Fui muito má com você. Saí daqui muito repentinamente. Meus pais não queriam que eu fosse. Briguei com eles e saí meio fugida. Não me comuniquei com ninguém.

Ela contou o empenho que despendeu, as brigas com os pais, os malabarismos para tirar passaporte, comprar passagem, trocar dólares, etc. Ficaram em silêncio, por uns instantes, se olhando nos olhos. O sorriso desapareceu, dando lugar a uma profunda tristeza e os seus olhos umedeceram. Eles sentiram uma sinergia muito grande. Todos os sentimentos antigos pareciam brotar em ambos. De repente, ela perguntou:

- E você, me conta o que tem feito? - Chamou o garçom e pediu mais dois!

- Também casei. Tenho dois filhos, Pedro e Alexandra. Cláudia da aula na universidade. Vivemos bem. Financeiramente não temos o que queixar, mas profissionalmente... Tardiamente descobri que não dou para a vida acadêmica e me aventurei em negócios. Também não é lá o meu forte. Comprei uma lanchonete. Não deu certo. Fiz sociedade numa ótica, quase quebrei. Hoje dou aula no curso secundário, ganho pouco e não me sinto feliz.

- Eu sei. Essas eram as nossas brigas, lembra? Eu sempre dizia... Ainda bem que sempre fomos só bons amigos. Eu pensava grande para você, mas você era muito conformado. Só que tinha uma inquietação, uma vontade muito grande de ajudar os outros. Só não sabia andar sozinho e isso me irritava muito.

- Minha mulher sempre me diz isso. Milton Schneider, meu analista, também. Temos trabalhado muito nesse sentido.

- O que sempre me incomodou em você, é que você é muito lento. Eu sei que é o seu ritmo, mas as oportunidades passam. A fila anda. Sabe? Eu cheguei até a pensar em me casar com você. Talvez eu não tivesse saído do Brasil. Continuou com os olhos voltados para o chão. Mas...

Aquele encontro chegou a um nível de intimidade que o perturbou. Havia poucos instantes ele mal a reconhecera e agora eram íntimos. Tocavam-se com as mãos. Como pode, depois de mais de dez anos? Doze, para ser exato. Ele se sentia nu diante dela e ela muito protegida para ele. Ela continuou. Parecia que estava ali para cumprir uma missão e não iria embora enquanto não tivesse terminado.

- Em Nanci eu tive um analista que me fazia lembrar muito de você o tempo todo. Jean Bertrand era um homem calmo, paciente, inteligente e de uma cultura vastíssima, mas tinha um modo de se mover que me lembrava você. Fisicamente era diferente, mas quando eu fechava os olhos. Incrível! Era você. Até o tom de voz.

- Mas por que Natalie? -perguntou numa tentativa de sair daquela situação que apertava o seu coração. Ele estava num terreno familiar, mas insólito demais. E depois Natalie era como ele a chamava na convivência da faculdade.

Ela deu um sorriso maroto e falou:

- Fui eu quem escolheu o nome. Sabia? Acho que era saudade. Seus olhos marejaram novamente, e ela continuou: - Pierre também gostou. O que ele não sabia é que você me chamava de Natalie.

- Pierre era um bom companheiro, continuou, mas tinha um grave defeito. Quando bebia tornava-se violento e me agredia com palavras. Isso me machucava muito. Nunca havia me batido, até que numa festa de aniversário de Natalie, depois que as visitas saíram ele estava tão bêbado que, numa briga, ele me arremessou uma jarra de vidro que se espatifou no meu rosto fazendo uma ferida horrenda. Fiquei hospitalizada durante muito tempo. Natalie ficou sendo cuidada por amigos. Pierre passou a ficar gentil comigo, mas nunca mais quis saber dele. O conserto do meu rosto ficou muito caro. Foram quatro plásticas. Quase um ano longe da universidade. Muito tempo longe da minha filha e muito dinheiro gasto. Meus pais mandavam dinheiro daqui do Brasil.

Após esse relato, o tempo passou entrecortado entre frases curtas e muitos minutos de silêncio. Carlos suava muito e usava o lenço para enxugar o rosto e os olhos. Milton perguntou:

- Por onde anda o seu pensamento agora?

- A fila anda! Respondeu com a voz quase inaudível e ar de desânimo, e continuou: - O encontro com Natalie e tudo o que ela me contou. O meu casamento... A minha profissão... Aqui...

-Você se da conta de que esta sessão está muito parecida com as últimas sessões? Mesmo com dados novos? Perguntou Milton.

- Como assim? Faz mais de dez anos que não via Natalie. Uma turbulência de sentimentos vindos à tona. Disse com ar de espanto.

- A fila anda. Pense nisto. Até a próxima quarta, disse Milton levantando-se e estendendo a mão para o cumprimento final.


Foto: Humphey Bogart em Casablanca

10 março 2008

MAIS FORTE DO QUE DEUS

Por Rogério Silva

Logo que Jorge entrou, eu vi que o seu olhar tinha algo de estranhamente familiar, embora fosse a primeira vez que eu via aquele rosto. Ele olhava para mim enquanto eu procurava reconhecer aquele olhar. Ficamos assim olhando um para o outro por mais alguns minutos, até que eu lhe perguntei por que me procurou. Contou-me alguns fatos recentes sem grande relevância. Disse, ao final, que algo de grave estava para acontecer. Combinamos um encontro semanal e ele terminou com uma frase que, rapidamente, escapou da minha memória. Isso perturbou-me durante algumas sessões. Um dia ele a repetiu enfaticamente:

- Lembra-se quando eu lhe falei que para me ajudar alguém teria que ser mais forte do que Deus?

É claro que eu me lembrava que algo o fazia fraco, mas o “mais forte do que Deus” foi suprimido da minha mente, e agora estava impresso como uma tatuagem na minha memória. A impregnação era tão forte que acreditei que seria o bastante para observar o seu relato e acompanhá-lo, acolhendo a sua angústia e a sua transferência.

Jorge era jovem e tinha instrução mediana. Era funcionário de um banco de grande porte e ressentia do modo como sua chefe o tratava. Cumpria suas obrigações com esmero e vez por outra era repreendido por uma negligência que não causava nenhum prejuízo. Sobre a sua infância, relatou dois episódios onde a sua vida esteve em risco. Uma quando teve meningite e embora medicado a febre não cedia e ele fora desenganado. A outra foi quando aos treze anos ele teve uma disenteria, tendo como conseqüência desidratação e outros males. Nas duas vezes, foram as preces de sua mãe que o salvaram(?). Seu pai nunca aparecia em seu relato, a não ser para dizer que quando morreu de câncer ele tinha seis anos. Ele era casado com Inês, com quem tinha uma filha de quatro anos. Inês era professora e tinha uma carga de trabalho reduzida para poder cuidar da filha. O orçamento familiar era modesto, mas o suficiente para as despesas domésticas.

Tudo correria bem, não fossem as constantes cobranças de Inês em relação ao sexo. Ele não a atendia. Acreditava que fazer sexo uma vez por semana ou duas por mês era normal. Eles não queriam mais filhos. Ela queria mais sexo. E não bastasse isso, ainda havia Cristina, uma colega de trabalho, que se tornara confidente dele e ultimamente vinha sempre com insinuações sexuais, que ele, evidentemente, as reprimia.

Afora a vida profissional Jorge exercia uma obrigação voluntária que ele entendia ser a coisa mais importante da sua vida. Era ministro de Deus na paróquia do bairro. Como ele mesmo dizia, era a pessoa mais importante na igreja depois do padre. Acreditava que isso era um dom especial que recebera do qual não poderia abrir mão. Cabia a ele fazer as pregações nas missas, as preparações para o batismo, para o casamento, para o encontro com jovens e outras tarefas de cunho dogmático. Para o cumprimento dessas tarefas voluntariosas ele fez um juramento a Deus que reputa como a coisa de maior valor em sua vida. Transmitir a fé importa numa fé incondicional e a sua conduta tem de seguir à risca a sua doutrina.

Algumas vezes sentia-se excitado diante de uma mulher bonita, ou mesmo quando pensava em Cristina. Acordava a noite intumescido ou lambuzado por uma ejaculação espontânea, o que deixava sua mulher profundamente irritada e cada vez mais queixosa.

A sua busca por ajuda veio exatamente no momento em que Inês o ameaçou com a separação. Jorge, como ministro de Deus, não poderia romper um sacramento indissolúvel. Como ela também era muito religiosa, ele acreditava que ela jamais se separaria dele.

Essa beatitude dele me irritava e era nesse momento que eu buscava em minha análise a origem da minha descrença em Deus. A minha primeira comunhão foi desastrosa, pois na confissão eu omiti, propositalmente, alguns pecados e posteriormente, quando contei ao padre este fato, ele minimizou como um fato sem importância. A comunhão é uma brincadeira, pensei. Outra ocorrência foi um livrinho que ganhávamos na primeira comunhão que contava o episódio de um menino de oito anos que tinha o hábito de ir dormir sem fazer as orações noturnas e, por isso, um belo dia, amanheceu morto. Isso foi um tormento em minha vida, até que entendi que esse presságio não me atingiria. Daí para frente os estudos de ciências, da biologia e da evolução darwinista concretizaram a minha descrença, juntamente com a psicanálise.

Foto: Igreja de N. S. do Perpétuo Socorro no Grajaú, Rio de Janeiro, onde fiz a minha primeira comunhão em 1952.

Eu ainda não havia examinado a contratransferência. Ainda não havia feito uma ligação direta entre a minha análise e a analise de Jorge, até o dia em que ele chegou arrasado, visivelmente em frangalhos e chorava copiosamente. Depois de alguns lenços para as lágrimas, ele perguntou:

- E agora, o que será de mim? Minha mulher foi embora com minha filha..., levou tudo o que pode..., pediu para que eu não a procurasse mais... e eu, agora como fico?

Eu senti que a informação, apesar de pungente, era muito pobre para uma intervenção qualquer naquele momento. Perder mulher e filha poderia ser muito doloroso para qualquer pessoa, mas talvez não para Jorge, não parecia que era disso que ele chorava e eu precisava ter cautela e me mostrar presente, então arrisquei:

- E...?

Jorge chorava mais desesperadamente ainda, e em soluços revelou:

- Como eu vou poder continuar como ministro de Deus, se se rompeu o sagrado sacramento do casamento indissolúvel? Eu tenho adiado as palestras e os cursos de noivos, mas até quando? Eu tenho pedido muito a Deus, todos esses dias, para me levar quando eu estiver dormindo, mas não tem jeito, eu acordo no dia seguinte. Se eu não fosse tão... tão covarde, eu mesmo deveria acabar com tudo isso, mas eu não tenho forças contra Deus.

Neste momento havia um pedido muito claro. Ajude-me a viver ou ajude-me a morrer. A minha contratransferência ficou bem nítida. Eu também acordava infalivelmente no dia seguinte em minha fantasia de morte. O olhar que me era familiar no nosso primeiro encontro era o meu próprio olhar de temor a Deus impresso nas fotografias da minha primeira comunhão. Agora sim eu entendia porque Jorge dizia, no início, que alguém para ajudá-lo teria de ser mais forte do que Deus e porque eu esquecera esta frase.

A ajuda que ele obtinha da igreja era de tal modo insuficiente e fraca. Os padres simplesmente lhe diziam que mesmo que estivessem separados, de fato e de direito, o sacramento permaneceria e ele continuaria em paz com Deus. Mas isso não era o suficiente.

Sua tristeza o acompanhava e nas sessões seguintes ia dando lugar, cada vez mais, ao alcoolismo e a desesperança. O emprego ficou ameaçado por faltas e descuidos. Já não falava mais do seu ministeriado na igreja. Eu mesmo me sentia angustiado e desanimado, já não avançávamos na terapia e ao final do sétimo mês ele me pagou com um cheque, como sempre o fizera. Só que desta vez o cheque era sem fundos. Quando fui buscar o cheque pensei tratar-se de algum engano, mas logo senti certo sorriso maroto no canto da boca. Um sorriso que me dizia:

Bem-vindo ao mundo dos pecadores.

Na sessão seguinte simplesmente lhe entreguei o cheque sem dizer uma só palavra e ele se desculpou com mil justificativas, prometendo ressarcir o prejuízo e a única coisa mais interessante que revelou naquele dia foi que teve um caso com Cristina e que provavelmente cederia de vez ao seu assédio.

Como ele faltou as duas sessões seguintes, resolvi telefonar e ele atendeu acenando que não voltaria mais a análise. Tentei dissuadi-lo. Tentei fazer com que viesse discutir isso no consultório. Ele reafirmou a desistência e prometeu pagar o cheque, acrescido das sessões que faltara. Coisa que nunca fez.

Nunca mais eu tive noticias de Jorge e na tive e nem tenho a menor idéia se realmente eu o ajudei de algum modo. Creio mesmo que ele esperava que eu o fortalecesse ou fizesse dele alguém tão forte que pudesse enfrentar e ganhar de Deus. Mas isso estava muito além das minhas possibilidades.

Para Nietzsche só tem o direito de se morrer, quem teve o direito de se viver. Não se trata de ganhar de Deus, mas sim de ser senhor da sua própria morada. Ter o cuidado de si. Viver para Deus é o mesmo que viver para o outro ou para a demanda do outro. E o que a psicanálise pode quando vive-se ou morre-se para a demanda do outro? O que fazer com “deixe a vida me levar”, de Zeca Pagodinho?

(Neste fragmento os nomes e alguns fatos foram trocados por uma questão de ética)

12 julho 2007

COMIDA É COISA DE BICHO


– A coisa vem quando eu acordo, e não é todo dia não, eu estou tomando uns calmantes, a ginecologista me deu uns remédios pra melhorar a coisa. A coisa aparece quando eu acordo, aí começa a me dar, sabe um troço dentro de mim, eu começo a me sentir mal, a me sentir com muito medo, a me sacudir inteira. Eu tenho pavor e acho que vou me atirar pela janela. Não sei nem como é que eu chamo isso, eu chamo a coisa; não sei como chamar isso. É a coisa que me dá; meus filhos ficam horrorizados, eles têm muito medo quando eu tenho a coisa. Eu não consigo controlar, só dá de manhã, quando eu acordo. De noite não dá, de noite eu fico satisfeita dentro de meu quarto, com ninguém me incomodando, então não tem problema. Mas de manhã, se eu bobear, a coisa vem.


– É eu tenho que ficar o tempo todo atenta; fico acordada, fico controlando pra ver se a coisa não vem, porque se a coisa vier eu tenho medo. Eu não tenho medo de ficar em casa quieta, sozinha no meu quarto. De noite eu fico acordada no meu quarto, vendo televisão e comendo. Tá vendo como estou gorda; é por isso que não tenho vontade de ir a lugar nenhum.


– A coisa está dentro de mim. Comer é coisa de bicho; eu pareço um bicho comendo. E gorda desse jeito, o que é que vou fazer na rua? Eu não tenho dinheiro, porque o sócio do meu ex-marido me roubou. Agora estou pobre, não tenho quem me sustente, não tenho nada. Para meus filhos faço o que posso; o pai os ajuda, mas eu, de dinheiro mesmo, não tenho nada. E gorda desse jeito, eu tenho vergonha de sair na rua; as pessoas ficam olhando pra mim e vendo que eu sou um bicho – comida é coisa de bicho. Mas eu até que me dou bem com as pessoas; eu gosto de ver as pessoas, de estar com as pessoas. O problema é chegar a me encontrar com as pessoas. Eu só não me dou bem com a minha mãe; minha mãe é uma coisa. Eu me dava bem com meu pai, mas com minha mãe eu não me dou bem não. Também, ela nunca olhou pra mim; ela só olhava pra ela, só cuidava dela. É uma sedutora, uma vaidosa; até hoje ela é assim. Ela só olhava pra mim pra me chamar de sapa gorda, fora isso, nem sabia que eu existia. Eu quero mudar, sabe doutora, acho que é um desperdício estar assim, eu acho que a vida é boa. Mas, quando estou achando que a vida é boa, me dá a coisa, e eu tenho medo da coisa. Meus filhos me tratam com pena; meu filho tem vergonha de mim, porque eu sou gorda. Ele não suporta gordura. Eu tenho pena de meu filho... Meu filho faz um grupo de música; é a hora que eu mais gosto, mas eles não ensaiam lá em casa, porque ele tem vergonha de mim. Eu gosto de música, eu cantava quando era mais nova e ainda canto, mas canta pouco. Eu gostava muito de cantar; cantar é a única coisa boa. Eu queria ter um bar; meu sonho era ter um bar que ficasse na penumbra, que ficasse assim meio escurinho, e eu ia chamar o bar de “Aqui eu canto” e ali eu ia cantar e eu acho que ia ser feliz.


– Eu não tenho vontade de nada. Vir aqui é muito difícil, porque eu tenho que sair de casa. Mas aí, quando estou me arrumando e sei que vou vir aqui, eu fico mais satisfeita. Ontem, quase me deu a coisa; deu-me um medo... Eu acordei muito mal, achando que a coisa vinha. Aí fiquei o dia inteiro no meu quarto e não fiz nada. Sei lá, vai que eu faço alguma coisa e a coisa vem? Mas hoje acordei bem; eu vinha pra cá e aí acordei bem. Qualquer dia desses acho que venho andando. Eu acho a vida bonita, acho a rua bonita. Vejo aquelas pessoas andando; elas parecem tão felizes, parece que elas podem andar. Eu não tenho nem vontade, mas quero vir até aqui andando. Eu moro próximo e pode ser que eu consiga andar até aqui; eu tinha muita vontade de poder andar, como as pessoas andam – é bonito ver as pessoas andarem.

23 março 2007

FRAGMENTO

... Não sei nem como cheguei até aqui. Estou tonta. Tonta porque estou tomando uns remédios... Vou tentar falar, nem sei como eu começo. É o seguinte, em maio eu dei um flagrante no meu marido, vi que ele tinha outra mulher. Eu estou casada com ele há vinte e tantos anos e já desconfiava, mas nunca me importei muito com isso. Mas quando eu dei esse flagrante, comecei a me sentir muito mal, vi que não dava prá confiar nele. Eu já tinha desconfiado dele em outras situações, mas ia levando porque ele nunca deixava de me procurar. Eu nunca gostei de sexo, com ele não, e nem com ninguém. Mas ele parou de me procurar há uns seis meses. Aí eu pensei que aí tinha coisa, fui atrás e consegui descobrir. Li as notas do cartão de crédito, depois apertei e ele acabou confessando. Aí meu mundo caiu. Porque enquanto desconfiava, mas fingia que não sabia, eu levava a minha vida numa boa, tudo bem. A minha vida sempre foi em função dos outros. É verdade que quando meu filho nasceu eu tive um problema... Quando meu filho nasceu eu quis matar ele. Eu superei isso com muito carinho, mas era um pensamento que não saia da minha cabeça. Mas aí eu redobrava os cuidados e fui superando. Não falei disso prá ninguém. Ninguém sabia disso, só a minha médica e agora você. Estou zonza... É que eu tenho um amigo de família que é psiquiatra e então ele me medicou, me deu dois ou três remédios. Quando eu dei o flagrante e falei que ia me separar, eu passei mal e tive que ser hospitalizada, minha pressão foi a vinte. Aí ele ficou todo preocupado, me pediu perdão e a gente acabou não se separando. Eu não estou agüentando mais, não estou agüentando viver, estou achando muito pesado, muito difícil... A minha vida toda foi assim, não sei se vale mais a pena, por isso eu vim aqui. Eu acabei de cuidar, durante cinco anos, de uma irmã que tinha câncer de mama, ela veio morar na minha casa. Ela acabou morrendo, e aí você sabe o que aconteceu comigo? Apareceu um caroço no meu seio. Eu fui pro hospital, fiz alguns exames e na hora de me operar eu assinei um papel. Quando eu acordei o médico disse que tinha me tirado um seio. Engraçado que isso não me abalou muito não. Eu recebi essa notícia com certa tranqüilidade, não me afetou. E você sabe que depois ele descobriu que eu não tinha câncer. Não tinha. Estou tão cansada, “não sei se tenho vontade de continuar”.

Eu não tenho mais confiança no meu marido, mas agora descobri que estou apaixonada por ele. Não sei se apaixonada é a palavra, estou obcecada por ele. Aí depois de tudo, ele diz que me ama me pede perdão, mas eu não tenho mais confiança nele. E depois, sabe, eu passei a minha vida toda servindo aos outros. Eu moro com um monte de gente, mas eu me sinto super sozinha, eu sinto a maior solidão. Eu moro com meu marido, com esse filho que quando nasceu deu aquele problema, com o filho de criação que meu marido fez eu pegar prá criar, com a minha mãe e com uma tia, que meu marido também trouxe prá casa. Só que ele traz prá casa e quem toma conta sou eu. Ele vai lá prá farmácia, o que acontece lá na farmácia eu não sei porque ele não me deixa chegar perto. Eu já pedi prá trabalhar com ele na farmácia mas ele não deixa. Essa mulher que ele teve acho que era do hospital. Eu pedi prá ele não trabalhar mais no hospital. Ele ganha pouco lá, só que ele diz que dá prestígio. Ele tirou um mês de licença depois que eu tive essa crise, mas semana que vem ele volta para o hospital e aí eu não sei como vai ser. E aí, como é que vai ser? Não sei bem se isso aqui vai me ajudar, mas eu vim...

Sabe, eu acho as vezes que não vai ter jeito não, ele é um irresponsável, a gente poderia estar vivendo muito bem, mas estamos devendo um absurdo, a gente vive contando dinheiro. O irmão dele que é sócio da farmácia vive muito bem, acabou de construir uma casa. Então eu agora estou controlando todas as despesas. Outro dia nós fomos à casa do pai dele, ele foi à farmácia e voltou cheio de remédios para dar lá no hospital, tinha uma lista, tudo para as mulheres, de graça. Aí eu fiquei uma fera, porque nós não somos ricos e ele não é Papai Noel. Agora, o que é que essas mulheres estão dando de troco prá ele? Aí saiu a maior briga, porque eu comecei a perguntar o que as mulheres estão dando prá ele. Eu disse que não confio mais nele, mas depois nós fizemos as pazes.

Ah, se eu me separar dele, não tem problema, eu vou até ser empregada doméstica, eu saio de casa, deixo ele lá, com todo mundo, podem tomar conta de tudo - a conversa agora mudou - já combinei com ele, se a gente se separar, ele é que vai sair de casa, e eu vou querer uma pensão, e não é pouquinha não, viu, eu vou querer seis mil reais!...