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10 junho 2012

ENTREVISTA COM ZIGMUNT BAUMAN



Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke


RESUMO

Nesta entrevista, o sociólogo Zygmunt Bauman reflete sobre vários aspectos da "sociologia humanística" que pratica e também sobre momentos memoráveis de sua trajetória, desde a Polônia comunista até a Inglaterra neo-liberal de Tony Blair.

Palavras-chave: Modernidade; Pós-modernidade; Filosofia; Sociologia; Socialismo.

ABSTRACT

In this interview, sociologist Zygmunt Bauman reflects on several aspects of the "humanistic sociology" he practices and also about unforgettable moments of this trajectory from communist Poland to Tony Blair's neo-liberal England.

Keywords: Modernity; Pos-modernity; Philosophy; Sociology; Socialism.





Um renomado periódico espanhol referiu-se recentemente a Zygmunt Bauman como um dos poucos sociólogos contemporâneos "nos quais ainda se encontram idéias". Opinião semelhante é freqüentemente exposta por críticos de várias partes do mundo quando refletem sobre o pensamento desse intelectual polonês radicado na Inglaterra desde 1971 e empenhado há meio século em "traduzir o mundo em textos", como diz um deles. Indiferente às fronteiras disciplinares, Bauman é um dos líderes da chamada "sociologia humanística", ao lado de Peter Berger, Thomas Luckmann e John O'Neill, entre outros. De um lado, não se encontram em suas obras abstrações ou análises e levantamentos estatísticos; de outro, são ali aproveitadas quaisquer idéias e abordagens que possam ajudá-lo na tarefa de compreender a complexidade e a diversidade da vida humana. Essa é uma das razões pelas quais Bauman tem muito a dizer para uma gama de leitores muito maior do que normalmente se espera de um trabalho de sociologia mais convencional, o que condiz com suas próprias ambições de atingir um público composto de pessoas comuns "esforçando-se para ser humanas" num mundo mais e mais desumano. Como ele gosta de insistir, seu objetivo é mostrar a seus leitores que o mundo pode ser diferente e melhor do que é.

Autor prolífico e de renome internacional, pode-se dizer que sua fama e prolixidade aumentaram significativamente após a aposentadoria, em 1990: 16 de seus 25 livros foram publicados após essa data e cinco obras dedicadas ao estudo de seu pensamento foram escritas nos últimos anos.

Descrito certa vez como "profeta da pós-modernidade" (com o que não concorda), por suas reflexões sobre as condições do mundo da "modernidade líquida", os temas abordados por Bauman tendem a ser amplos, variados e especialmente focalizados na vida cotidiana de homens e mulheres comuns. Holocausto, globalização, sociedade de consumo, amor, comunidade, individualidade são algumas das questões de que trata, sempre salientando a dimensão ética e humanitária que deve nortear tudo o que diz respeito à condição humana. Preocupado com a sina dos oprimidos, Bauman é uma das vozes a permanentemente questionar a ação dos governos neoliberais que promovem e estimulam as chamadas forças do mercado, ao mesmo tempo em que abdicam da responsabilidade de promover a justiça social. "Hoje em dia", lamenta ele, "os maiores obstáculos para a justiça social não são as intenções... invasivas do Estado, mas sua crescente impotência, ajudada e apoiada todos os dias pelo credo que oficialmente adota: o de que 'não há alternativa'". É nesse quadro que se pode entender sua afirmação de que "esse nosso mundo" precisa do socialismo como nunca antes. Mas o socialismo de que Bauman fala, como insiste em esclarecer, não se opõe "a nenhum modelo de sociedade, sob a condição de que essa sociedade teste permanentemente sua habilidade de corrigir as injustiças e de aliviar os sofrimentos que ela própria causou". É nesse sentido que ele define o socialismo como "uma faca afiada prensada contra as flagrantes injustiças da sociedade".

Nascido na Posnânia em 1925, Bauman escapou dos horrores do holocausto que aguardavam os judeus poloneses na Segunda Guerra Mundial ao fugir com sua família para a Rússia, em 1939. De lá voltou após a guerra, quando se filiou ao partido comunista, estudou na Universidade de Varsóvia e conheceu Janina, com quem está casado há 55 anos e com quem teve três filhas: Anna (matemática), Lydia (pintora) e Irena (arquiteta).

Confiantes e animados pelo sonho de criar uma sociedade mais justa e igualitária, Zygmunt e Janina ali construíram suas carreiras (ele como professor da Universidade de Varsóvia e ela como editora de roteiros cinematográficos) e criaram sua família, até que uma nova onda de anti-semitismo e repressão esmagou seus sonhos e os forçou ao exílio. Após três anos em Israel, o convite para o cargo de chefe do departamento de sociologia na Universidade de Leeds trouxe Bauman e sua esposa à Inglaterra, onde permanecem até hoje.

Gentil, modesto e reservado, Zygmunt Bauman aceitou prontamente ser entrevistado para o público do Brasil, país que pouco conhece e onde esteve uma única vez há vários anos, para um congresso de sociologia no Rio de Janeiro. Pelas notícias que ouve do país, o que o impressiona é a desumanidade de cidades como São Paulo, por exemplo, uma cidade que, como diz, com sua abundância de muros ao redor de residências, prédios, parques etc., mostra "o lado mais brutal e inescrupuloso das tendências segregadoras e exclusivistas" das cidades metropolitanas. O fato de os brasileiros despenderem "4,5 bilhões de dólares por ano em segurança privada" só acresce a desumanidade de um quadro que considera sintomático da realidade mundial.

Bauman recebeu-me em Leeds, na confortável casa onde mora desde que ali chegou, há mais de trinta anos. "Naquela época achei a cidade horrível, imunda", disse-me Janina, comentando a mudança dos últimos tempos, que transformou Leeds de um sujo centro industrial em uma cidade bonita, verdejante e cheia de vida.

Extremamente hospitaleiro (algo muito próprio dos europeus do Leste, como dizem), Bauman entremeou reflexões sobre sua obra e sua vida com idas à cozinha para servir chá quente e com oferecimentos insistentes de caprichados canapés de salmão e outros petiscos cuidadosamente dispostos na pequena mesa de sua biblioteca.

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10 junho 2011

POR DENTRO DO CÉREBRO - Entrevista com Paulo Niemeyer Filho, neurocirurgião

O neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho conta os avanços nos tratamentos de doenças como o mal de Parkinson e como evitar aneurisma e perda de memória.
E projeta, ainda, o futuro próximo, quando boa parte do sistema neurológico estará sob controle do homem.
Chegar à casa do neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho, no alto da Gávea, no Rio de Janeiro, é uma emoção. A começar pela vista deslumbrante da cidade, passando pelos macacos que passeiam pelos galhos até avistar as orquídeas que caem em pencas das árvores, colorindo todo o jardim.
Ou seja: a competência desse médico, com 33 anos de profissão, que dedica sua vida à medicina com a paixão de um garoto, pode ser contada em flores. E são muitas.
Filho do lendário neurocirurgião Paulo Niemeyer, pioneiro da microneurocirurgia no Brasil, e sobrinho do arquiteto Oscar Niemeyer, Paulo escolheu a medicina ainda adolescente.
Aos 17 anos, entrou na Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Quinze dias depois de formado, com 23 anos, mudou-se para a Inglaterra, onde foi estudar neurologia na Universidade de Londres.
De volta ao Brasil, fez doutorado na Escola Paulista de Medicina. Ao todo, sua formação levou 20 anos de empenho absoluto.
Mas a recompensa foi à altura. Apaixonado por seu ofício, Paulo chefia hoje os serviços de neurocirurgia da Santa Casa do Rio de Janeiro e da Clínica São Vicente, onde atende e opera de segunda a sábado, quando não há uma emergência no domingo, e ainda encontra tempo para dar aulas no curso de pós-graduação em neurocirurgia na PUC-Rio.
Por suas mãos já passaram o músico Herbert Vianna - de quem cuidou em 2001, depois do acidente de ultraleve em Mangaratiba, litoral do Rio -, o ator e diretor Paulo José, a atriz Malu Mader e, mais recentemente, o diretor de televisão Estevão Ciavatta - marido da atriz Regina Casé que, depois de um tombo do cavalo, recupera-se plenamente -, além de centenas de outros pacientes, muitos deles representados pelas belas flores que enchem de vida o seu jardim.


Revista PODER: Seu pai também era neurocirurgião. Ele o influenciou?

PAULO NIEMEYER: Certamente. Acho que queria ser igual a ele, que era o meu ídolo.

PODER: Seu pai trabalhou até os 90 anos. A idade não é um complicador para um neurocirurgião? Ela não tira a destreza das mãos, numa área em que isso é crucial?

PN: A neurocirurgia é muito mais estratégia do que habilidade manual. Cada caso tem um planejamento específico e isso já é a metade do resultado. Você tem de ser um estrategista..

PODER: O que é essa inovação tecnológica que as pessoas estão chamando de marcapasso do cérebro?

PN: Tem uma área nova na neurocirurgia chamada neuromodulação, o que popularmente se chama de marcapasso, mas que nós chamamos de estimulação cerebral profunda. O estimulador fica embaixo da pele e são colocados eletrodos no cérebro, para estimular ou inibir o funcionamento de alguma área. Isso começou a ser utilizado para os pacientes de Parkinson. Quando a pessoa tem um tremor que não controla, você bota um eletrodo no ponto que o está provocando, inibe essa área e o tremor pára. Esse procedimento está sendo ampliado para outras doenças. Daqui a um ou dois anos, distúrbios alimentares como obesidade mórbida e anorexia nervosa vão ser tratados com um estimulador cerebral.Porque não são doenças do estômago, e sim da cabeça.

PODER: O que se conhece do cérebro humano?

PN: Hoje você tem os exames de ressonância magnética, em que consegue ver a ativação das áreas cerebrais, e cada vez mais o cérebro vem sendo desvendado.

Ainda há muito o que descobrir, mas com essas técnicas de estimulação você vai entendendo cada vez mais o funcionamento dessas áreas. O que ainda é um mistério é o psiquismo, que é muito mais complexo. Por que um clone jamais será igual ao original?

Geneticamente será a mesma coisa, mas o comportamento depende muito da influência do meio e de outras causas que a gente nunca vai desvendar totalmente.

PODER: Existe uma discussão entre psicanalistas e psiquiatras, na qual os primeiros apostam na melhora por meio da investigação da subjetividade, e os últimos acreditam que boa parte dos problemas psíquicos se resolve com remédios.. Qual é sua opinião?

PN: Há casos de depressão que são causados por tumores cerebrais: você opera e o doente fica bem. Há casos de depressão que são causados por deficiência química: você repõe a química que está faltando e a pessoa fica bem. Numa época em que se fazia psicocirurgia existiam doentes que ficavam trancados num quarto escuro e quando faziam a cirurgia se livravam da depressão e nunca mais tomavam remédio. E há os casos que são puramente psíquicos,emocionais, que não têm nenhuma indicação de tomar remédio.

PODER: Já existe alguma evolução na neurologia por causa das células-tronco?

PN: Muito pouco. O que acontece com as células-tronco é que você não sabe ainda como controlar. Por exemplo: o paciente tem um déficit motor, uma paralisia, então você injeta lá uma célula-tronco, mas não consegue ter certeza de que ela vai se transformar numa célula que faz o movimento. Ela pode se transformar em outra coisa, você não tem o controle, ainda.

PODER: Existe alguma coisa que se possa fazer para o cérebro funcionar melhor?

PN: Você tem de tratar do espírito. Precisa estar feliz, de bem com a vida, fazer exercício. Se está deprimido, com a autoestima baixa, a primeira coisa que acontece é a memória ir embora; 90% das queixas de falta de memória são por depressão, desencanto, desestímulo. Para o cérebro funcionar melhor, você tem de ter motivação. Acordar de manhã e ter desejo de fazer alguma coisa, ter prazer no que está fazendo e ter a autoestima no ponto.

PODER: Cabeça tem a ver com alma?

PN: Eu acho que a alma está na cabeça. Quando um doente está com morte cerebral, você tem a impressão de que ele já está sem alma... Isso não dá para explicar, o coração está batendo, mas ele não está mais vivo.

POODER: O que se pode fazer para se prevenir de doenças neurológicas?

PN: Todo adulto deve incluir no check-up uma investigação cerebral. Vou dar um exemplo: os aneurismas cerebrais têm uma mortalidade de 50% quando rompem, não importa o tratamento. Dos 50% que não morrem, 30% vão ter uma sequela grave: ficar sem falar ou ter uma paralisia. Só 20% ficam bem. Agora, se você encontra o aneurisma num checkup, antes dele sangrar, tem o risco do tratamento, que é de 2%, 3%. É uma doença muito grave, que pode ser prevenida com um check-up.

PODER: Você acha que a vida moderna atrapalha?

PN: Não, eu acho a vida moderna uma maravilha. A vida na Idade Média era um horror. As pessoas morriam de doenças que hoje são banais de ser tratadas. O sofrimento era muito maior. As pessoas morriam em casa com dor. Hoje existem remédios fortíssimos, ninguém mais tem dor.

PODER: Existe algum inimigo do bom funcionamento do cérebro?

PN: O exagero. Na bebida, nas drogas, na comida. O cérebro tem de ser bem tratado como o corpo. Uma coisa depende da outra. É muito difícil um cérebro muito bem num corpo muito maltratado, e vice-versa.

PODER: Qual a evolução que você imagina para a neurocirurgia?

PN: Até agora a gente trata das deformidades que a doença causa, mas acho que vamos entrar numa fase de reparação do funcionamento cerebral, cirurgia genética, que serão cirurgias com introdução de cateter, colocação de partículas de nanotecnologia, em que você vai entrar na célula, com partículas que carregam dentro delas um remédio que vai matar aquela célula doente. Daqui a 50 anos ninguém mais vai precisar abrir a cabeça.

PODER: Você acha que nós somos a última geração que vai envelhecer?

PN: Acho que vamos morrer igual, mas vamos envelhecer menos. As pessoas irão bem até morrer. É isso que a gente espera. Ninguém quer a decadência da velhice. Se você puder ir bem de saúde, de aspecto, até o dia da morte, será uma maravilha, não é?

PODER: Você não vê contraindicações na manipulação dos processos naturais da vida?

PN: O que é perigoso nesse progresso todo é que, assim como vai criar novas soluções, ele também trará novos problemas. Com a genética, por exemplo, você vai fazer um exame de sangue e o resultado vai dizer que você tem 70% de chance de ter um câncer de mama. Mas 70% não querem dizer que você vai ter, até porque aquilo é uma tendência. Desenvolver depende do meio em que você vive, se fuma, de muitos outros fatores que interferem. Isso vai criar um certo pânico. E, além do mais, pode criar problemas, como a companhia de seguros exigir um exame genético para saber as suas tendências. Nós vamos ter problemas daqui para frente que serão éticos, morais, comportamentais, relacionados a esse conhecimento que vem por aí, e eu acho que vai ser um período muito rico de debates.

PODER: Você acredita que na hora em que as pessoas puderem decidir geneticamente a sua hereditariedade e todo mundo tiver filhos fortes e lindos, os valores da sociedade vão se inverter e, em vez do belo, as qualidades serão se a pessoa é inteligente, se é culta, o que pensa?

PN: Mas aí você vai poder escolher isso também. Esse vai ser o problema: todo mundo vai ser inteligente. Isso vai tirar um pouco do romantismo e da graça da vida. Pelo menos diante do que a gente está acostumado. Acho que a vida vai ficar um pouco dura demais, sob certos aspectos. Mas, por outro lado, vai trazer curas e conforto.

PODER: Hoje a gente lida com o tempo de uma forma completamente diferente. Você acha que isso muda o funcionamento cerebral das pessoas?

PN: O cérebro vai se adaptando aos estímulos que recebe, e às necessidades. Você vê pais reclamando que os filhos não saem da internet, mas eles têm de fazer isso porque o cérebro hoje vai funcionar nessa rapidez. Ele tem de entrar nesse clique, porque senão vai ficar para trás. Isso faz parte do mundo em que a gente vive e o cérebro vai correndo atrás, se adaptando.

PODER: Já aconteceu de você recomendar um procedimento e a pessoa não querer fazer?

PN: A gente recomenda, mas nunca pode forçar. Uma coisa é a ciência, e outra é a medicina. A pessoa, para se sentir viva, tem de ter um mínimo de qualidade. Estar vivo não é só estar respirando. A vida é um conjunto. Há doentes que preferem abreviar a vida em função de ter uma qualidade melhor. De que adianta ficar ali, só para dizer que está vivo, se o sujeito perde todas as suas referências, suas riquezas emocionais, psíquicas. É muito difícil, a gente tem de respeitar muito.

PODER: Como é o seu dia a dia?

PN: Eu opero de segunda a sábado de manhã, e de tarde atendo no consultório. Na Santa Casa, que é o meu xodó, nós temos 50 leitos, só para pessoas pobres. Eu opero lá duas vezes por semana. E, nos outros dias, na Clínica São Vicente. O que a gente mais opera são os aneurismas cerebrais e os tumores. Então, é adrenalina todo dia. Sem ela a gente desanima e o cérebro funciona mal. (risos)

PODER: Você é workaholic?

PN: Não é que eu trabalhe muito, a minha vida é aquilo. Quando viajo, fico entediado. Depois de alguns dias, quero voltar. Você perde a sua referência, está acostumado com aquela pressão, aquele elástico esticado.

PODER: Como você lida com a impotência quando não consegue salvar um paciente?

PN: É evidente que depois de alguns anos, a gente aprende a se defender. Mas perder um doente faz mal a um cirurgião. Se acontece, eu paro com o grupo para discutir o que se passou, o que poderia ter sido melhor, onde foi a dificuldade. Não é uma coisa pela qual a gente passe batido. Se o cirurgião acha banal perder um paciente é porque alguma coisa não está bem com ele mesmo.

PODER: Como você lida com as famílias dos seus pacientes?

PN: Essa relação é muito importante. As famílias vão dar tranquilidade e confiança para fazer o que deve ser feito. Não basta o doente confiar no médico. O médico também tem de confiar no doente. E na família. Se é uma família que cria caso, que é brigada entre si, dividida, o cirurgião já não tem a mesma segurança de fazer o que deve ser feito. Muitas vezes o doente não tem como opinar, está anestesiado e no meio de uma cirurgia você encontra uma situação inesperada e tem de decidir por ele. Se tem certeza de que ele está fechado com você, a decisão é fácil. Mas se o doente é uma pessoa em quem você não confia, você fica inseguro de tomar certas decisões. É uma relação bilateral, como num casamento. Um doente que você opera é uma relação para o resto da vida.

Poder: Você acredita em Deus?

PN: Geralmente depois de dez horas de cirurgia, aquele estresse, aquela adrenalina toda, quando você acaba de operar, vai até a família e diz: "Ele está salvo". Aí, a família olha pra você e diz: "Graças a Deus!". Então, a gente acredita que não fomos apenas nós.

PODER: Como você relaxa?

PN: Estudando. A coisa que mais gosto de fazer é ler. Sábado e domingo, depois do almoço, gosto de sentar e ler, ficar sozinho em silêncio absoluto.

PODER: E o que gosta de ler?

PN: Sobre medicina ou história. Agora estou lendo um livro antigo, chamado Bandeirantes e Pioneiros, do Vianna Moog, no qual ele compara a colonização dos Estados Unidos com a do Brasil. E discute por que os Estados Unidos, com 100 anos a menos que o Brasil, tiveram um enriquecimento e um progresso tão rápidos.

Por que um país se desenvolveu em progressão geométrica e o outro em progressão aritmética.

10 novembro 2008

MEDICINA OU PSICANÁLISE? UMA SUTIL DIFERENÇA


Quando eu recebi, por e-mail, esse texto percebi, na hora, que tratava-se de um texto que eu deveria dividir com os leitores do blog. Lembrei-me de Pierre Fédida, quando fala que o analista deve escutar com a angústia. Quer dizer, o analista contratransferencialmente escutará as questões colocadas pelo paciente ouvindo também a sua própria angústia.

Miguel Srougi, faz isso com segurança e leveza de dar muita inveja em muitos psicanalistas. Em momento algum ele abandona os conhecimentos teóricos e práticos da medicina. Contudo cria para cada paciente uma técnica para escutar e tratar o sofrimento psíquico além do sofrimento do corpo.

O texto é muito extenso e por isso deixarei que o leitor se delicie e se encante como eu.

Rogério Silva

Miguel Srougi: Sutil diferença

O urologista, que cuida da saúde do “PIB” brasileiro, fala sobre os principais temores masculinos, como problemas na próstata, disfunções sexuais e decadência física

Não tem nem o que questionar: quando se fala em urologia, e principalmente em saúde masculina, o primeiro nome da agenda e da confiança dos principais políticos, empresários e brasileiros em geral é o do médico Miguel Srougi. Considerado o número 1 do Brasil em cirurgias de câncer de próstata ( já realizou 2.900), atende em seu consultório gente como o presidente Lula, José Alencar, José Serra, Geraldo Alckmin, Joseph Safra, Lázaro Brandão, Abílio Diniz e Antônio Ermírio de Moraes, entre outros pesos pesados.

Professor titular de urologia da Faculdade de Medicina da USP, pós-graduado pela Harvard Medical School, em Boston, nos Estados Unidos, 35 anos de carreira, uma dezena de livros publicados e outra centena de artigos espalhados mundo afora, Srougi tem a simplicidade daqueles que muito sabem, pouco ostentam e continuam lutando. Ele se dedica integralmente ao que faz – trabalha todos os dias, das 7 da manhã às 10 da noite –, abriu mão da vida pessoal – é casado, pai de dois filhos – e não tem receio de dizer que se envolve demais com seus pacientes. “Sofro muito e esse sofrimento é um dos fatores de sucesso da minha carreira, porque acabo me entregando mais aos doentes.” Embora viva intensamente entre os limites das dores da perda e alegrias dos resgates da vida, Srougi, aos 60 anos, se abastece lecionando na Faculdade de Medicina, “uma de minhas razões existenciais”.

No ano passado inaugurou um moderno centro de ensino e pesquisa para seus alunos, garimpando verbas junto aos seus pacientes poderosos. A sala ganhou o nome de Vicky Safra, mulher de Joseph Safra – em homenagem ao banqueiro que doou a maior parte dos recursos. Nesta entrevista, o maior especialista em câncer de próstata do país afirma que “todo homem nasce programado para ter a doença” e que, se viver até os 100 anos, inevitavelmente vai contraí-la. Fala ainda sobre medos, fantasmas masculinos, impotência, novos tratamentos e seus sonhos pessoais. E conta por que trocou o Hospital Sírio-Libanês pelo Oswaldo Cruz depois de 30 anos. A seguir, os principais trechos.

ASSOMBROS MASCULINOS

Os homens têm uma certa sensação de invulnerabilidade – isso faz parte da cabeça deles. Passam boa parte da sua vida livre de todos os incômodos que a mulher tem, fazendo com que relaxem mais com a sua saúde. Com o passar dos anos, começam a perceber a sua vulnerabilidade e passam a dar um pouco mais de valor aos cuidados médicos. O que mais os atemoriza hoje? Problemas com a próstrata, disfunções sexuais e a decadência física, que mexe muito com a cabeça das mulheres, mas também com a deles. As mulheres pautam muito a vida em função da beleza e os homens, da força, da virilidade, da capacidade de agir, raciocinar. E na hora em que surgem falhas nessas áreas, ele percebe que, talvez, não seja aquele ser imortal que achava que fosse.

ENVELHECIMENTO

Há dois profundos temores hoje nos homens: o primeiro é o crescimento benigno da próstata, um fenômeno que ocorre em praticamente todos; ela aumenta de tamanho depois dos 40 anos e, dessa forma, o canal da uretra fica ocluído. Isso faz com que o homem comece a urinar sucessivas vezes, a não ficar em uma reunião prolongada, tem de levantar à noite, prejudica o sono, acorda mal, pode ter descontroles de urina. O crescimento benigno é quase inexorável: todos os homens vão ter em maior ou menor grau – felizmente, apenas um terço, 30%, tem sintomas mais significativos que exigem apoio médico. Nesses casos, há medicações que desobstruem parcialmente a uretra e fazem o indivíduo urinar e viver melhor; apenas de 4% a 5% dos homens têm de fazer uma cirurgia para desobstruir a uretra por causa desse crescimento benigno. Essa é uma cirurgia que se faz com segurança e sem os inconvenientes de uma cirurgia maior nos casos de câncer. Ela remove apenas o fator obstrutivo, o homem passa a viver melhor e sem nenhuma seqüela. Esse crescimento não tem causa conhecida, surge por um desequilíbrio hormonal no homem maduro, ou seja, as células da próstata passam a se proliferar em decorrência dos hormônios. Não tem como prevenir. Existem algumas medidas, mas nenhuma consistente.

OBESOS E FUMANTES

Existe a idéia de que o obeso e os fumantes teriam menos crescimento benigno da próstata. O que é interessante é que a próstata seria o único lugar no organismo que eles deixam de ter todas as desvantagens, mas a realidade é meio dura: recentemente se apurou que eles são menos operados da próstata, mas não porque ela não cresce, mas pelo receio dos médicos de operá-los porque complicam mais e também porque muitas vezes não vivem o suficiente para ser operados – morrem antes. É uma realidade perversa.

REALIDADE NUA E CRUA

O câncer na próstata adquire maior relevância porque tem uma grande prevalência: 18% dos homens – um em cada seis – manifestarão a doença. E também porque o tumor, que ocorre com muita freqüência dentro da próstata, eliminado com sucesso em 80%, 90% dos homens. Se esse tumor não é identificado no momento certo e se expande, saindo para fora da próstata, as chances de cura caem para 30%. É um tumor muito comum e se for detectado a tempo, tem como resgatar esse paciente. Dos 18%, somente 3% morrem – a medicina consegue curar 15% dos homens, ou seja, a maioria.

Mas vale dizer que todo homem nasce programado para ter câncer de próstata. Ou seja, nós temos, nas nossas células, genes que as estimulam a virar cancerosas e eles ficam bloqueados durante a nossa existência. Quando o indivíduo envelhece, esses mecanismos de bloqueio deixam de exercer o seu papel e o câncer começa a se manifestar. Com isso vai aumentando a freqüência da doença e todo homem que chegar aos 100 anos vai ter câncer de próstata.

SEM FANTASIA

O exame de toque – um dos meios de se detectar a doença – gera na cabeça dos homens fantasias negativas e receios, mas, na verdade, ele tem muito medo da dor. Tanto é que os que fazem pela primeira vez, no ano seguinte perdem o medo. Leva três ou quatro segundos e não dói. Então, um dos fatores de resistência é eliminado. Existe um segundo sentimento, que é muito forte: expressar, exteriorizar uma fraqueza se a doença for descoberta. O homem tem pavor disso porque, de acordo com todas as idéias evolucionistas, só vão sobreviver aqueles que forem fortes. É comum você descobrir um câncer no indivíduo, e ele entrar em pânico, não pela doença, mas porque as pessoas vão descobri-la. Porque o câncer é muito relacionado com morte, decadência física, perda da independência, dependência dos outros. O homem não aceita essa idéia. Ele prefere fechar os olhos e enfiar a cabeça debaixo da terra a enfrentar, mostrando para o mundo e às pessoas que ele é um ser mais fraco. Isso vai afetar a imagem dele, acha que vai perder poder sobre outras pessoas, porque ninguém obedece a um fraco, alguém que vai morrer. Isso vai contra a idéia que temos de ser mais fortes para sobreviver.

A PERFORMANCE DO ROBÔ

Estamos fazendo cirurgias com robô, que permite uma visão muito mais precisa do campo cirúrgico, elimina os tremores da mão do cirurgião, permite incisões pequenas, uma operação muito mais perfeita porque os movimentos dele são muito suaves.

Isso é muito novo no Brasil. Fiz o primeiro caso há dois meses, no Sírio-Libanês. E agora, o Albert Einstein tem e o Oswaldo Cruz está adquirindo.

Nos Estados Unidos se faz cirurgia robótica em larga escala. Lá, o robô ganha em performance do cirurgião médio, mas ele ainda perde do habilitado. Tenho mais de 2.900 pacientes operados de câncer de próstata pessoalmente. Eu sou o terceiro cirurgião do mundo nesse quesito – só perco para dois americanos e eles estão parando de trabalhar. Apesar de ter essa grande experiência, quando comecei a operar, 35% ficavam com incontinência urinária grave. Agora são só 3%. Impotentes, todos também ficavam. Hoje, se o homem tem menos de 55 anos, a incidência é de 20% – antes era 100%. Há também enxertos de nervos, porque a impotência se deve à remoção de dois nervos que passam perto da próstata. E nós estamos fazendo esse enxerto quando somos obrigados a retirá-los nos casos em que o tumor fica grudado. Entre os pacientes que fizeram os enxertos, metade voltou a ter ereções com o tempo.

IMPOTÊNCIA, O QUE FAZER?

Esses novos remédios para tratar a disfunção sexual contornam 1/3 da impotência, tanto após a cirurgia quanto depois da radioterapia. Se os comprimidos não atuarem, existem injeções. Há ainda próteses penianas que são muito desenvolvidas e produzem uma ereção que quase não tem nenhuma diferença em relação à normal. Isso permite que o homem reassuma a vida sexual plenamente e que as mulheres tenham muita satisfação. Os homens ficam extremamente felizes – são hastes colocadas dentro do pênis. Não fica marca, nem cicatriz. Nos Estados Unidos, entrevistaram as mulheres sobre os homens que tinham prótese e as respostas foram positivas. Ela funciona muito bem.

ENTRE A VIDA E A MORTE

Minha vida é complexa porque eu ando um caminho muito estreito que, de um lado tem a morte e, de outro, a vida. E as minhas ações podem, com uma certa freqüência, resgatar alguém para a vida. Trilhar esse caminho é muito difícil porque, quando você se identifica com o paciente, compreende o sofrimento humano, isso cria um estado de impotência que lhe faz sofrer. Mas, por outro lado, traz momentos de alegria incontida, principalmente quando você resgata um ser para a vida, que não tem nada parecido.

ESCUTANDO MAIS, OUVINDO MENOS

Se eu listar uma série de qualidades, como, por exemplo, humildade, conhecimento técnico, dedicação ao doente, presença, coerência, sentido humanístico, desprendimento material e comunicação e perguntar qual é melhor, só tem uma resposta: comunicação. Todas as outras são importantes. O médico precisa ser humano, ter desprendimento material. A relação médico-doente não é tipo supermercado, que você dá e recebe, é algo muito superior. Ele precisa ter conhecimento técnico, precisa estar presente, gerar esperança, mas ele tem de se comunicar. É comunicação superior, não apenas saber falar. É tão significativo que explica por que há médicos brilhantes aqui no Hospital das Clínicas que conhecem tudo, e não conseguem atender a um doente porque falam bobagem na hora de se expressar. São inibidos, tímidos, não sabem dar para o doente o substrato humanístico. Ele lista 450 tabelas de números e cálculos e não sabe o que se passa pelo seu coração. Isso explica também porque tem tanto charlatão por aí – médicos mal-intencionados e não-médicos – que consegue atender a muitos pacientes. Eles têm a comunicação.

Comunicação envolve inicialmente gerar empatia no doente. É errado cumprimentar um doente e falar “como vai?”. Você deve cumprimentar alguém que está com uma doença grave e falar “eu lamento que você esteja nessa situação, imagino o que está sentindo”.

Saber escutar, que é diferente de ouvir. A hora que você passa a escutar, entende quais as apreensões que ele tem, elimina um pouco do sentimento de culpa, entende por que está lhe procurando e conquista a confiança.

É preciso ser coerente e falar com realismo. É ilusão achar que se engana as pessoas. Falar numa dimensão maior significa gerar esperança, estimular a espiritualidade, porque um dos maiores medos é morrer e não saber o que vai acontecer depois; explicar o que vai ser a evolução dele. Também assegurar presença – ele não será abandonado.

O PAPEL DAS MULHERES

Os homens são resistentes: eles relutam muito em ir ao médico fazer um exame de próstata e só vão quando a mulher os empurra: dois terços dos pacientes no consultório de Miguel Srougi são trazidos por elas. “Ligam para marcar a consulta, os acompanham. A gente não vê mulheres jovens trazendo homens jovens para fazer exames. A gente vê mulheres maduras. Claro que o jovem não está na faixa de risco. Mas existe um outro significado da importância da mulher. Primeiro, que ela é pragmática e incentiva o marido.”

Mas, por que ela quer isso?

“Porque quem ficou vivendo bem 30 anos e conseguiu superar todos os embates da vida conjugal é um casal que o tempo consolidou. E aí a mulher tem um sentido de preservação da família muito mais forte que o do homem. Passadas as tempestades e oscilações do relacionamento, ela não quer que o marido morra. É real. Toda vez que tenho um paciente e ofereço dois tratamentos: um que aumente a existência dele, mas vai, por exemplo, causar alguma deficiência na área sexual. E ofereço um outro tratamento, que cura menos, mas preserva melhor a parte sexual, o homem balança na decisão. A mulher nunca hesita. Ela prefere aquele que aumenta a existência, mesmo correndo o risco de comprometer a vida sexual dele e do casal. Poucas vezes vi uma mulher aconselhar um tratamento que dê menos chance de vida e aumente a possibilidade de ele ficar potente. Dá para contar nos dedos. Ela quer o companheiro, quer preservar aquela pirâmide que foi construída, que é rica.”

GERANDO ESPERANÇAS

O ser humano precisa ter alguma esperança, nem que sejam vislumbres. Os médicos americanos acham que são fantásticos e verdadeiros quando dizem que não tem jeito o seu caso, mas isso é não conhecer a natureza humana. É preciso mostrar que ele tem alguma chance, sim.

SOFRIMENTOS E PRIVILÉGIOS

Eu me envolvo muito com meus pacientes. Sofro muito. E esse sofrimento é um dos fatores do sucesso da minha carreira, de 35 anos. Nesse sofrimento eu acabo me entregando mais aos doentes. Isso é ruim, porque não tenho vida pessoal, minha vida familiar é feita nos intervalos.

Felizmente, os momentos bons prevalecem sobre os ruins. É por isso que eu sobrevivo. Um doente que coloca a cabeça no meu ombro e agradece por ter feito algo por ele, ou deixa correr uma lágrima na minha frente, me faz deletar, superar aqueles momentos em que me senti totalmente impotente. Uma das coisas importantes é o médico saber e demonstrar que a medicina não é infalível e ele não se sentir onipotente.

O urologista tem um privilégio. O oncologista mexe com câncer avançado, já no fim do caminho – eu lido com o inicial. Eu consigo salvar muita gente. É um privilégio para mim.

MEDO DA SEPARAÇÃO

Nós não queremos morrer. Primeiro, pela incerteza do porvir. Segundo, porque a morte implica extinção e o ser humano não aceita a aniquilação. A nossa cabeça nasceu para ser imortal. A morte está relacionada com dor, sofrimento, à decadência física, à desfiguração, à perda do papel social, desamparo da família, perdas dos prazeres materiais, da independência. Mas a causa verdadeira é o nosso horror de nos separar das pessoas que amamos. Bem material não deixa ninguém feliz. Há tanta gente rica se suicidando, tomando droga para sair da realidade. Os médicos não compreendem isso. Se as pessoas têm medo de se afastar das pessoas do seu entorno, você precisa tratar o entorno também. Não é o médico que apóia o doente nas fases difíceis – é a família. Eles reagem raivosamente contra a família, querem afastá-la do processo, sem perceber que um doente só vai ter paz, tendo a morte pela frente ou não, se a família estiver ao lado.

VIVENDO NOS LIMITES

Eu sou católico, não praticante, acredito em alguma coisa depois da vida e isso me dá muita paz. Eu continuo numa luta incessante. Vivo nos limites. Nos limites do sofrimento, porque estou do lado das pessoas que sofrem. Nos limites das minhas energias, porque começo a trabalhar às 7 da manhã e vou até as 10 da noite. Trabalho na Faculdade de Medicina. Tenho várias razões existenciais, uma delas é a faculdade. Aqui é a única forma de deixar marcas e mostrar que a minha passagem pela Terra não foi em vão. Aqui você planta as coisas. Cada aluno que receber esses conhecimentos, vai multiplicar o feito. Em vez de ajudar 20 pessoas que ajudo num mês, para cada aluno que eu fizer isso, serão 40, 60, 80, 320... Se eu saísse da faculdade, não iria agüentar essa carga toda de emoções, sentimentos, morte e vida. Aqui a gente conhece o que é o ser humano. Lá fora as pessoas estão todas maquiadas.

REABASTECENDO ENERGIAS

Eu simplesmente acabei com a minha vida pessoal, os meus grandes amigos mal vejo. O meu melhor amigo médico, o oncologista Sergio Simon, não encontro há quase três anos. Sábado à noite vou para uma casa de campo que tenho e fico 24 horas ouvindo música, fazendo minhas leituras, pesquisas, um pouco no computador. E controlo muito bem a alimentação, o sono e a atividade física para poder agüentar. Faço ginástica de quatro a cinco vezes por semana, tenho uma alimentação equilibrada e durmo bem. Deixo de sair com os amigos para dormir. Não gosto de dormir, mas preciso me recompor.

A SAÍDA DO SÍRIO-LIBANÊS

Os verdadeiros templos na Terra são os hospitais – não as igrejas. Nas igrejas tem muito ouro, riqueza. Aqui não, você conhece o sofrimento, o valor da existência humana. Os orgulhosos e os soberbos ficam humildes, ricos e pobres são iguais; os ruins, os autoritários e os maldosos se tornam condescendentes: eles ficam despidos, tiram a máscara; é aqui que você conhece o que é viver, que resgata para a vida, não em uma igreja qualquer que o sujeito entra lá, reza dez minutos e sai. Ele pode até sarar, cicatrizar a sua alma. Mas aqui nós curamos a alma e o corpo. Esse é o verdadeiro templo, onde o ouro é a vida. Você entende o impacto que a desigualdade social tem sobre o ser humano, a pobreza, a falta de instrução causa doenças. Depois de 30 anos no Sírio-Libanês eu mudei para o Oswaldo Cruz. Achar que eu vou ter novas salas, três enfermeiras a mais, é brutalizar o que passou pela minha cabeça. Mudei porque não estava vendo esse lugar como um templo. Eu vivo intensamente, por isso tenho esses sentimentos.

NAS ASAS DA LIBERDADE

Você só é livre quando tem boa saúde. Ninguém fala isso.

Dar saúde para uma pessoa é um pré-requisito para ela ser livre. Nesse templo, que é o hospital, nós tornamos as pessoas livres.

UM POUCO DE FILOSOFIA

A melhor forma de se transmitir as virtudes é pelo exemplo, pela coerência. Certa vez perguntaram para Sócrates como a virtude poderia ser transmitida – se pelas palavras ou conquistada pela prática. Ele não soube responder. Então, Aristóteles, depois de uns anos, respondeu: “A virtude só pode ser transmitida pela prática e por meio do exemplo”. Aqui, eu posso tentar ser o exemplo. Mudando o cotidiano das pessoas, transformando a sociedade e construindo um novo mundo.

CINCO MEDIDAS PREVENTIVAS

Segundo Miguel Srougi, a prevenção ao câncer de próstata é feita de forma um pouco precária, porque não existem soluções para impedi-lo. Na prática, há o licopeno, que é o pigmento que dá cor ao tomate, à melancia e à goiaba vermelha. “Talvez diminua em 30% a chance, mas esse dado é controvertido, por causa disso a gente incentiva os homens a comerem muito tomate, só que deve ser ingerido pós-fervura, ou seja, precisa ser molho de tomate. Não pode ser seco ou cru.”

A vitamina E também reduz teoricamente os riscos em 30%, 40%. Mas, se for ingerida em grandes quantidades, produz problemas cardiovasculares. Na verdade, se o homem quiser se proteger, deve tomar uma cápsula de vitamina E por dia. Acima disso, não é recomendável.

O terceiro elemento é o celenium, um mineral que existe na natureza e é importante para manter a estabilidade das células, impedindo que elas se degenerem, que é encontrado em grande quantidade na castanha-do-Pará. “Qualquer homem pode ingerir em cápsulas, mas se ele comer duas castanhas por dia, recebe uma certa proteção”, diz o especialista.

Uma quarta medida é comer peixe, três porções por semana – rico em ômega 3 e tem uma ação anticancerígena provável. E, uma quinta, tomar sol. “O homem que toma muito sol sintetiza na pele vitamina D, que tem forte ação anticancerígena. É por isso que os homens da Califórnia desenvolvem muito menos a doença do que os de Boston”, afirma Srougi.

PACIENTES ILUSTRES

Trato todos os meus pacientes de forma igual. Se começo a tratar os mais importantes de um jeito diferente, eles dão mais trabalho. Se tratar igual, não. Até se sentem melhor com isso.

PODER vs TRANSFORMAÇÃO

O poder é a única forma de passar pela existência deixando marcas. Só com ele você consegue fazer isso. E nenhum de nós terá vivido de forma digna se não deixá-las. A minha definição de felicidade é estarmos alegres com o que somos, o que representa um continuum de bem-estar físico, mental e afetivo. É fantástica essa definição. E a gente só é feliz se estivermos circundados por pessoas felizes. E o poder nos dá um pouco dessa felicidade. Mas o grande problema é você dá-lo ao ser humano, que é altamente imperfeito – ele tem defeitos incompreensíveis para qualquer espécie – aí vira uma arma de destruição. Mas, quando se dá poder às pessoas de bem, ele se torna algo transformador.

15 agosto 2008

FREUD EXPLICA ENTREVISTA ANGELA BEZERRA VILLELA

Para Angela, ser entrevistada é uma experiência, no mínimo, singular e estranha. Mas aceitou o desafio.

Ao fazer uma síntese de seu percurso profissional, se deu conta de que sua relação com o trabalho sempre ultrapassou os limites de um universo fechado em si mesmo. Extensões com o campo social sempre foram estabelecidas. Assim foi desde os 17 anos, como professora primária, especializada em alfabetização, trabalhando com comunidades carentes em escolas de difícil acesso. Participou da criação dos primeiros Cieps e teve a oportunidade de presenciar a inacreditável mudança trazida pelo pensamento revolucionário de Darcy Ribeiro. Nada pode ser mais representativo dessa mudança, segundo ela, do que a lembrança proustiana do cheiro de dobradinha vencida que, diariamente, invadia as salas de aula, sendo substituído pelo cheiro de arroz, feijão, carne, legumes e frutas. Acompanhou a expansão psíquica daquelas crianças, proporcionada pelo atendimento às suas necessidades básicas e por atividades suplementares. Imagina que se um projeto político consistente como esse tivesse tido continuidade, não estaríamos presenciando a tragédia que vemos hoje. “Saudades do Darcy e de seu entusiasmo”, lamenta.

O contato direto com as questões sociais permanece no trabalho que realiza, como psicanalista, no Hospital Universitário Gafrée Guinle. Começou como voluntária numa Ong, na época em que a Aids estava saindo dos guetos e se expandindo no universo feminino. Atendia pacientes grávidas num momento em que a doença ainda não tinha todo esse aparato científico. Atualmente, continua atendendo grupos e coordenando uma rede que busca ajuda vinda de diversos lugares. São amigos que dão cestas básicas, mesadas, remédios e capacitação profissional. Tiveram, agora, a adesão de um grupo de engenheiros que, voluntariamente, visitam as moradias e as transformam em lugares menos precários.

Considera esse o seu exercício de cidadania, o seu fazer-político nesse caldo de misérias em que vivemos. Paralelo a isso, acontece a Coordenação da Clínica Social da Freudiana, que vem de encontro a essa mesma perspectiva.

Sua graduação em Psicologia se deu pela UNESA, num tempo de guinada existencial. O desejo de percorrer novos caminhos e de se aprofundar intelectualmente levou-a a mudança de rumos.

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Freud explica: Por que a Psicanálise?

Angela Maria Bezerra Villela: Na universidade, me vi diante de um amplo espectro de vertentes teóricas, onde achava até divertida a defesa acirrada que os professores faziam de suas correntes, como se fossem partidos políticos. Às vezes, achava que se perdiam como pensadores em potencial, por estarem tão comprometidos em sustentar suas certezas e interesses teóricos. Acho que pela minha própria experiência de análise, fui capturada de imediato pelo espírito subversivo e pela capacidade de expansão psíquica que via na psicanálise. Ao mergulhar nos textos freudianos, percebi o amplo espaço simbólico de cultura que se abria para mim, através da convivência com outras áreas de saber, como a filosofia, a história, a antropologia, etc.. O começo da prática clínica e os instrumentos de escuta para o sofrimento e a dor que a mim se apresentavam, foram solidificando minha escolha. A entrada na Formação Freudiana e as aulas de Chaim Katz só fizeram reforçar o que já estava inscrito.

Freud explica: É visível o seu interesse pela clínica. Existe alguma preferência por uma clinica diferenciada, jovens ou adultos, por exemplo?

Angela: Não há preferência ou escolha por uma clínica diferenciada, isso não existe para mim. Clínica é lugar de acolhimento da dor e sendo assim, não se trata de escolher uma faixa etária ou outra. Acolho demandas das mais diversas ordens e é assim que gosto de trabalhar.

Freud explica: Parece que os jovens se adaptam melhor que os idosos, por exemplo, à velocidade e a urgência dos tempos modernos. Como isso aparece no seu consultório?

Angela: Essa relação que os jovens e os idosos trazem para a análise, quanto à urgência e a velocidade, não é muito diferente sob um determinado aspecto a angústia e o consumo do tempo. Tenho um paciente idoso que diz que “o inexorável encurtamento do tempo, faz com que ele queira aproveitar ao máximo o restinho que lhe cabe”. A mesma fala vem de um outro homem de mais de 60 anos, que já teve um câncer de próstata e que traz uma ansiedade imensa diante das inúmeras coisas que quer fazer. A proximidade com a morte traz uma urgência de outra ordem e poder falar sobre isso é o que faz com que muitos idosos procurem a análise. Numa outra perspectiva, uma mulher na faixa dos 50 anos, traz o avesso disso. Viveu de forma destrutiva e achava que ia morrer cedo. Foi surpreendida pela vida e hoje, por não ter “sobrevivência na adrenalina”, como ela mesma diz, interroga a analista sobre como vai preencher esse “tempo insosso”. O discurso deprimido é acompanhado pela escuta analítica, que tenta instaurar outras temporalidades, outras aberturas possíveis, diante do fechamento e das restrições trazidas.

Quanto aos jovens, a angústia que se estabelece em relação ao tempo, também diz respeito a um excesso. Diante de tantas demandas e informações, eles se vêem obrigados “a consumir o tempo”, como se não pudessem perdê-lo de forma alguma. Há um imperativo categórico de curtição e isso gera muita angústia. Além disso, as próprias transformações sociais e culturais estabeleceram entre essa nova geração e o trabalho uma relação diferente, pois é preciso ganhar muito dinheiro desde cedo. As drogas e outras modalidades de anestesia se fazem presentes para diminuir a ansiedade que advém desse esforço. Também as demandas em relação ao corpo produzem sintomas, como a anorexia e a bulimia, meras tentativas de “correr atrás” das cruéis exigências contemporâneas. Sem falar nas relações amorosas, que há muito entraram nesse esquema devorador do tempo. Haja compulsão. Hoje é tudo rápido e fugaz.

Freud explica: Eu li num artigo seu recente, uma afirmativa de Hannah Arendt: “O homem perdeu a fé em si mesmo como parceiro de seu pensamento.” Parece ser uma afirmação profética que aponta para um distanciamento entre as instituições públicas e o homem comum conduzindo-o para o horror e a alienação. Como você coloca essa questão?

Angela: A fala de Hannah Arendt, na realidade, entra a reboque de todas as questões acima mencionadas. Quem resgata a potência dessa grande pensadora e sua análise dos fenômenos sociais é Julia Kristeva, ao apontar o perigo que “a desolação vindoura das massas amorfas” produz e que só encontra antídoto no vigor do pensamento. Escrevi esse artigo movida pelo espanto que toda essa apatia diante da violência me causa, além do imobilismo intelectual do qual fala Arendt e que se parece muito com o que aconteceu durante o regime totalitário por ela experimentado. Na minha opinião, são raros os autores cujo pensamento esteja tão próximo da nossa realidade política atual como Hannah Arendt, que dizia que o horror e a barbárie trazidos pelo totalitarismo escapavam ao entendimento humano e atingiam o irreal. E não é isso que estamos vivendo com os fatos contemporâneos? Segundo Kristeva, “o mal radical por ela apontado reduz os homens a uma superfluidade e criam uma história política que prefigura o aniquilamento escandaloso da vida, pondo em risco a mais humana de todas as atividades o pensamento.” Sob o ponto de vista psicanalítico, o que ela denuncia é a perda da interioridade, da capacidade de reflexão, que levam o homem a agir e a mudar o destino dos acontecimentos, através “da fé em si mesmo como parceiro de seus pensamentos.” Não há mudança política possível se não houver a constituição de uma nova mentalidade para longe dessa superfluidade.

Freud explica: Como a psicanálise se coloca na cena atual? E os psicanalistas, o que têm a dizer sobre aquilo que escapa do cenário midiático, que obscuro, inominável e obsceno?

Angela: Nesse sentido, não se sustentam os argumentos de que a psicanálise não tem contribuições a dar diante da velocidade dos fatos contemporâneos. É exatamente o contrário. É em contraposição a esse consumo do tempo que priva o sujeito de um pensar mais profundo, que sua atualidade é revalidada, já que ela possui instrumentos clínicos e teóricos de constituição dessa interioridade que se esvazia diante dos apelos da exterioridade. Penso, apenas, que essa potência precisa ter mais visibilidade.

Derrida dizia que “a psicanálise tem que ser levada a campos onde ela até agora não se fez presente. . . Freud nos ajudou a pôr em questão um grande número de coisas referentes à lei, ao direito, à religião, à autoridade patriarcal, etc. e através dele se pode relançar a questão da responsabilidade e da autonomia, sobre um fundo inesgotável e invencível de uma heteronomia.” Ou seja, entre a singularidade irredutível de seu espaço particular e as crises trazidas pelo contexto sócio- cultural, a psicanálise terá que encontrar um lugar diferente no espaço público.

Quanto ao obscuro, inominável e obsceno, sabemos que é na especificidade do campo analítico que se pode criar um lugar para aquilo que não cabe em lugar nenhum.

Freud explica: Contardo Calligaris faz uma diferenciação entre psicanálise e psicoterapia. Para ele a psicoterapia estaria comprometida com a cura, a busca da normalidade, enquanto a psicanálise não se interessa por essa busca, já que quer promover uma mudança. Como você vê essa questão?

Angela: Na primeira, a idéia de cura inclui um objetivo, um lugar aonde se deve chegar, o que por si só já restringe, ao passo que na vertente psicanalítica não podemos estar presos a lugar nenhum. Sequer ao tempo e à duração do tratamento. O indivíduo que se apresenta na clínica, hoje, é o homem apressado que quer uma solução rápida para seus conflitos. O lema “nada a longo prazo” é apontado por Sennett como uma lei contemporânea. Relações, trabalho, projetos, tudo requer uma curta duração. E em análise, não há como se poupar caminho, há que se pagar o preço. . Em “Estudos sobre a Histeria”, Freud já dizia: “Tive que pegar mais de um caminho para encontrar alívio para o doente. . .”

Em o “Homem dos Lobos”, ele dá prosseguimento a essa questão da cura, através da idéia de que a precipitação do término de um processo não leva em consideração os restos. Como acabar com eles? O que é a cura na perspectiva psicanalítica?

A psicanálise caminha na contra-mão dessa urgência, pois o que temos ao longo de um processo são errâncias, incertezas, intensidades à deriva e o que se busca ali está longe de ser “uma normalidade”. O analista lida com partes incomunicáveis e com forças hostis inconscientes. Assim sendo, ele não sabe quando, nem de onde virá o movimento que desconstruirá um sintoma. Não existem garantias de parte a parte, o que torna o processo analítico uma aventura e isso para mim é que é fascinante

Freud explica: Como a psicanálise pode promover mudanças levando-se em consideração que o que produz mal-estar na cultura é da ordem do pulsional?

Angela: Com a anunciação da pulsão de morte, a psicanálise percorre um caminho oposto ao da normatização. Não se trata de enquadrar e apaziguar e sim de integrar forças que operam longe do equilíbrio. A teoria pulsional demonstra que a genialidade maior de Freud consiste, exatamente, na criação de novos paradigmas para se pensar a questão do humano. Ele nos levou a um redimensionamento teórico e clínico.

Acolher as pulsões e criar condições e possibilidades para que elas sejam introjetadas, é se deslocar desse ideal de cura para um trabalho, ou seja, a produção de uma singularidade pulsional. A compulsão à repetição coloca o sujeito num tipo de funcionamento restritivo e o sofrimento psíquico é grande. Mudar esse regime de forças, mexer nesse jogo cruel que a pulsão de morte estabelece, é fazer com que a pessoa que procura análise mude seu modo de existência. Essa é a diferença, a marca. Essa a mudança que se pode produzir.

Freud explica: Considerando a velocidade dos tempos modernos e suas virtualidades, o blog Freud Explica contribui para a disseminação da psicanálise

Certamente que o blog Freud Explica contribui, na medida em que está inserido nessa evolução tecnológica dos processos de midiatização que engendram modos diferentes de comunicação. Como disse uma pesquisadora, “computadores são as novas arenas para a experiência social e política e seus produtos propiciam novas formas de interação, diálogo e conversa.”

Nesses tempos de desterritorialização, o blog funciona como hospitalidade ampliada de toda essa pluralidade contemporânea, ao mesmo tempo em que ajuda a criar uma proximidade e uma coexistência maior de comunidades com interesses afins. Tanto como veículo utilitário de informação ou como espaço virtual de troca de conhecimentos, para nós, psicanalistas, o blog entra como um dispositivo a mais de transmissão, contato e partilha de saber.

Freud explica: E como o cinema aparece nesse cenário? Seria uma mera coincidência terem nascido quase juntas, na mesma época?

Angela: Prefiro a palavra encontro à coincidência.

Buñuel dizia que “o cinema, como o sonho, por seu próprio mecanismo, nos abre uma pequena janela sobre o prolongamento da realidade. Minha aspiração como espectador de cinema, é descobrir, através de um filme, qualquer coisa que não se pode ver na realidade objetiva”.

A citação acima, que serviu de abertura do projeto que desenvolvi com meu querido amigo Luis Felipe de Faria para a Formação Freudiana, sintetiza a proximidade com a psicanálise que tanto quisemos explorar.

Como os filmes de Buñuel, a psicanálise lida com os sonhos, com as coisas tiradas do inconsciente, da memória. “Meus filmes são apenas tão misteriosos e absurdos como a própria vida”, dizia ele e seus personagens sempre se caracterizaram por revelar a verdade do inconsciente, aquilo que está fora de todas as fronteiras de significação.

Buñuel trabalhava com o nonsense e talvez, por isso, seja um dos cineastas que melhor ilustram e respondem a questão colocada.

Freud explica: Eu gostaria de ter participado mais ativamente desse grupo, porque sempre que eu pesquiso sobre cinema acabo desembocando na psicanálise. São poucos os gêneros de filmes que não trazem algo da psicanálise.

Angela: Concordo. Foi um projeto cheio de boas intenções, que tinha como objetivo explorar essa convergência, além de agregar, reunir e debater impressões, num esquema mais informal e descontraído na FF. Uma espécie de “Sociedade dos Amigos da Psicanálise e do Cinema”

22 junho 2008

FREUD EXPLICA ENTREVISTA VIRGINIA PORTAS

Por Rogério Silva

Inquieta e persistente, Virginia Portas construiu um percurso definido pela psicanálise. Passou por questões cujo desenvolvimento cultural e intelectual eram premissas básicas. Inicialmente definiu-se pela comunicação devido ao elenco de professores extraordinários e a atividade cultural ativa do setor, na década de 70. Formou-se em Comunicação Social pela PUC - RJ, em 1974. Na época ficou em dúvida entre psicologia e comunicação. O encontro com a psicanálise veio mais tarde. M.D Magno foi seu professor de epistemologia, e foi com ele que ela começou a estudar psicanálise. Em dois anos estudando Freud e Lacan, ficou capturada definitivamente pelo universo psicanalítico.


Na época, porém o curso de comunicação social era polivalente, ou seja, não exigia especialização. O seu diploma lhe habilita ao jornalismo, relações públicas e propaganda e marketing. Sua inclinação para o jornalismo era evidente. Fez estágio no jornal O GLOBO, onde foi absorvida para a editoria de educação – mais tranqüila, assim como a editoria de economia. “Ambas ficavam num jirau em cima da “geral”, onde o jornal fervilhava realmente.”

Pianista e musicista desde os 16 anos pelo Conservatório Brasileiro de Musica, juntamente com a formação acadêmica foi trabalhar no rádio como revisora de programas de música “erudita” da Rádio MEC/ FM. Posteriormente, como produtora executiva assinou e apresentou seus próprios programas musicais. Estes programas, ela produzia com liberdade quase total. Entrevistava artistas e gravava concertos com a equipe técnica da casa.

Foi na Formação Freudiana que conheci Virginia, quando iniciávamos nossa trajetória. Desde o inicio o seu desempenho psicanalítico, se desdobrou tanto teórica, quanto institucional e clinicamente.

O blog Freud Explica teve o privilégio de publicar, em maio de 2006, Reflexões sobre a questão: "Os desafios às novas formas do modo do ser psicanalítico contemporâneo" de sua autoria. Prazer que se repete agora ao iniciar essa série de entrevistas.

Freud Explica: Qual a sua formação acadêmica e como você decidiu pela psicanálise?

Virginia Portas: Na verdade o que me fez definir por comunicação, e não psicologia foi o elenco de professores extraordinários e a atividade cultural muito ativa do setor na década de 70. Comunicação era a menina dos olhos da PUC/RJ. Como M. D. Magno foi meu professor de epistemologia e... não importa, mas na verdade tínhamos aulas de psicanálise com ele. Foram dois anos – 4 períodos estudando Freud e Lacan - de convívio com este universo que me capturou definitivamente.

Na época o curso de comunicação social era polivalente, ou seja, não exigia especialização. O selo do meu diploma me habilita ao jornalismo, relações públicas e propaganda/marketing. Como minha inclinação para o jornalismo era evidente fiz meu estágio no jornal, O GLOBO, onde fui absorvida para a editoria de educação – mais tranqüila, assim como a editoria de economia. Ambas ficavam num jirau em cima da “geral”, onde o jornal fervilhava realmente.

Mas, como “comunicóloga da PUC” - como me chamavam carinhosamente os mais experientes - era poupada das correrias e urgências da redação antes do fechamento das matérias do dia. O que era ótimo porque catava milho nas antigas e precárias máquinas de escrever antigas.

Essa foi a minha formação acadêmica.

A segunda é a de pianista e musicista formada aos 16 anos pelo Conservatório Brasileiro de Musica, portanto, alguns anos antes de entrar para a faculdade. As duas formações me levaram a trabalhar na rádio como revisora de programas de música “erudita” da Rádio MEC/ FM e, posteriormente, como produtora executiva, assinei e apresentei meus próprios programas musicais. Nesses programas, que produzia com liberdade quase total, entrevistava artistas e gravava concertos com a equipe técnica da casa.

Aqui se dá novamente meu reencontro indireto com a psicanálise iniciado na faculdade. Minhas entrevistas tendiam para um clima mais intimista. Penso que a intimidade estabelecida com os artistas que entrevistava, e que os conduzia para além da musica e da carreira profissional, reacendeu em mim o desejo de buscar uma formação psicanalítica. Posso dizer que foi um trabalho inovador, nesse sentido, no qual sentia um enorme prazer em viabilizá-lo.Talvez seja importante lembrar que na década de 80, início de 90, que foi o período em que trabalhei na Rádio MEC, não era nada habitual entrevistas na FM, sempre voltada, quase que exclusivamente à programas sobre música, apresentados com toda a pompa que a “música erudita” exigia naquela época.

Ainda trabalhando na rádio MEC iniciei minha formação no IBRAPSI (Instituto Brasileiro de Psicanálise, Grupos e Instituições). Já estava no terceiro ano quando li um anúncio no jornal informando que a Formação Freudiana iniciaria suas atividades em 1993. Apresentei um trabalho, fui entrevistada e aceita como membro adjunto.

Desde então - lá se vão 15 anos! - participo ativamente das atividades institucionais da FF (Formação Freudiana). Tenho orgulho de ter sido a primeira pessoa a me titularizar na FF e a primeira a assumir a coordenação geral substituindo o fundador convocante da instituição, Chaim S. Katz. Mas antes disso fui coordenadora de eventos e coordenadora de ensino, substituindo Daniel Kupermann. A ênfase aqui, para além de uma vaidade evidente, é considerar o respeito e envolvimento mútuo que mantenho com a instituição e com meus colegas de jornada psicanalítica.

Freud Explica: Ao longo de sua formação analítica você deparou com vários autores diretamente ligados à psicanálise e a filosofia. Bourdier, Canetti, Walter Benjamin, Santner aparecem dentre outros. Quais ou autores que mais lhe chamaram a atenção?

Virginia: Desde criança sempre fui muito curiosa e uma leitora de livros compulsiva. Como faz parte da forma como nos encontramos na FF, uma convocação permanente à curiosidade e à leitura de múltiplos autores, incluindo os acima citados, juntou a fome com a vontade de comer. Sem esquecer que, para o bem ou para o mal, Chaim Katz é uma referência de pensador sólido, instigante, inquieto e nada dogmático. Penso que esta marca ele imprimiu à Formação Freudiana, que faz com que seus membros filiados busquem expansão teórica através da singularidade dos encontros que possam estabelecer com esta multiplicidade de autores. A base comum é sempre Freud e o pensamento psicanalítico teórico e a escuta clínica psicanalítica. Quanto às releituras freudianas cada um que encontre a sua.

Freud Explica: O que na teoria ferencziana mais lhe fascina?

Virginia: Pois é. A importância de Ferenczi na história do movimento psicanalítico é inquestionável, ainda que, do meu ponto de vista, não tenha atingido o reconhecimento que sua interlocução com Freud e seus achados teórico/clínico mereçam. Uma prova é a dificuldade de se adquirir os exemplares da sua obra. Acho-o um autor absolutamente contemporâneo. O volume IV das suas obras completas é tão impressionante pela abrangência e compreensão clínicas que surpreende pela atualidade das questões formuladas por ele. Mas o que mais me fascina em Ferenczi é a coragem com que ele se expõe se implica e vai além: “quando falta uma explicação não é proibido experimentar outra”, diz ele, mas absolutamente e rigorosamente dentro dos aportes psicanalíticos. É um pensador teórico rigoroso.

Na verdade, seu conceito de introjeção - no qual o sujeito se constitui junto com seu objeto de investimento, numa mesma laçada – abre a clínica para as idéias de potencialidade, virtualidade e possibilidade de criação estética. Ninguém sai imune a um encontro clínico: nem analista, nem analisando. Nesse sentido, a contratransferência, se admitida como instrumento de trabalho, como contra-força necessária, implica também em considerar e estabelecer outras responsabilidades já que a economia libidinal do analista também está em questão no processo clínico.

Freud Explica: O que é mais importante na clinica da psicanálise?

Virginia: Da parte do analista é estar em condições de estabelecer os seus limites e possibilidades. Ter isso claro para si e para quem lhe confia parte da sua vida. Isso é o ponto de partida fundamental. Quem procura análise, de uma maneira geral, é quem sofre por não saber equilibrar, administrar seu capital afetivo e pulsional, por isso conselhos servem tão pouco. Gosto da metáfora do jogo de xadrez de Freud: entramos no jogo e sabemos das regras, mas as jogadas têm que ser jogadas para ver no que dá.

Freud Explica: Como você vê a visibilidade na psicanálise hoje?

Virginia: Como diria Milan Kundera - não sei bem onde, mas certamente seguindo Freud - o homem começa perguntando de onde vim, para onde vou e o que posso. Essas perguntas nos perseguirão permanentemente. O que ele diz - e o que acho mais interessante - é que mesmo sem essas respostas, sempre poderemos ter formas novas e fascinantes de perguntar. Neste nosso mundo agitado acredito sinceramente que a clínica psicanalítica oferece estas pausas para que possamos nos encontrar com essas nossas perguntas fundamentais, permanentemente. Ou seja, é um lugar privilegiado para isso. Como a vida vive a despeito de nós e tem uma dinâmica que não dominamos e, freqüentemente nos exclui, lidar com isso é sempre um aprendizado, mas acredito que a psicanálise tem instrumentos para acompanhar esta dinâmica. Ou seja, mudam as coordenadas e ela também modifica suas formas de abordagem. Nesse sentido a psicanálise é transdisciplinar e virtualmente atual.

Freud Explica: A psicanálise deve ser regulamentada como profissão?

Virginia: É uma questão complicada, mas que tendo a responder que não. Uma formação psicanalítica passa pelo processo individual de análise, por uma supervisão da contratransferência deste analista em questão e do estudo teórico regular. Sem nenhuma dessas três vertentes não se concebe que alguém possa atender psicanaliticamente outro alguém. Por outro lado, para além do sujeito se reconhecer analista, ele tem que ser reconhecido pelos seus pares e por uma instituição que reconheça quem reconhece. Essas são as únicas direções. Sinceramente? Não sei como regulamentar um processo desta natureza, mas quer saber? Não faz questão para mim.

Freud Explica: Parece que você tem uma espécie de “guru” para cada aspecto da psicanálise como, por exemplo: teoria, Ferenczi; clínica, Fédida; filosofia, Deleuze; ética e psicose, Chaim. Gostaria que você dissesse se é assim mesmo.

Virginia: Acho que sou muito rebelde para ter guru. Aliás, por tudo que disse acima não acredito em guru. Psicanalista deve ter mestres e bons encontros que abram caminhos para novas reflexões e novas possibilidades. Nem Freud era guru de si mesmo.

Freud Explica: Como você vê atuação de um blog como esse na psicanálise?

Virginia: É um ponto de encontro interessante!

Acho uma oportunidade relevante para trocas, e saber o que nossos colegas pensam sobre temas atuais que permeiam o nosso cotidiano. No teu blog específico o que me encanta é o teu encantamento com ele. Como te conheço há anos permito-me este comentário pessoal.

Freud Explica: Quem leu o seu artigo aqui mencionado, teve a oportunidade de deparar com o que você chama de “as novas formas do modo do ser psicanalítico”. Como você avalia esse modo de ser da psicanálise diante da velocidade do mundo atual e a utilização de medicamentos com eficácia rápida?

Virginia: Pois é. Num artigo que escrevi para a revista Pulsional faço uma tentativa de sustentar teoricamente um pensamento para estas questões. Penso que, um bom encontro entre a grandeza da virtualidade da Psicanálise e a modéstia do psicanalista, paradoxalmente, podem fazer diferença, na direção das sutilezas e pequenos detalhes clínicos: e acompanhá-los sem fórmulas mágicas e com o mínimo de preconceitos.

Freud nos seus últimos escritos alerta para a possibilidade da existência de algo no registro do corpo pulsional que não se inscreve como sujeito. Com isso ele quase que destitui a idéia de sujeito, nos instigando a pensar em devir e recriação, por conta de uma desarmonia constitutiva de um corpo pulsional vivo em eterno confronto consigo, com o outro e com o mundo.

Ora, se há uma insubordinação constitutiva, de um aquém - sujeito - para além, esta mitologia freudiana indica que, antes de um sujeito poder se constituir como tal, algo indomável e imprevisível permanece atuante, não se submetendo à "incondicionalidade" previsível dos processos de subjetivação.

Psicanaliticamente, ainda que consideremos um sujeito do inconsciente constituído pelas leis da cultura/civilização, existe algo atuante no homem que não se harmoniza com elas, o que vai colocá-lo em permanente movimento e desassossego, já que esse algo não se encontra no registro do sujeito do inconsciente, mas no registro das pulsões.

Veja a complexidade se aceitarmos como verdade que existe algo no psiquismo que resiste radicalmente à completa absorção do sujeito pela civilização/cultura: esse algo estranho, ficando à parte desse diálogo,vai se configurar como o proto-representante da radicalidade e irracionalidade do ser humano, que tanto pode conduzi-lo aos limites da loucura, do desatino e da paixão, como também, paradoxalmente, pode conduzi-lo às fronteiras da arte, da criação e da singularidade, onde se destaca das regularidades das massas para se afirmar na radicalidade da diferença da sua singularidade

Trazendo esse argumento para a clínica, escutar esses engendramentos é fundamental e a modéstia do psicanalista a que me referi estaria em minimamente oferecer possibilidade de pequenos desvios que potencialize e não que regularize. Penso que assim a clínica psicanalítica escapa de soluções totalizantes para A Violência, As drogas, A hiperatividade e...Ou seja, não existem fórmulas mágicas, temos que acompanhar errâncias ...

Olha só, falei em modéstia, mas posso estar sendo arrogante...

Posso terminar com uma citação? Estava até agora evitando cair nesta tentação, mas adoro esta de Maurice Blanchot: “Se é preciso caminhar e errar, será porque, excluídos da verdade, estamos condenados à exclusão que impede toda a morada?

Esta errância não significa mais uma nova relação com o ‘verdadeiro’?

Não seria também por que este movimento nômade (onde se inscreve a idéia da divisão e separação) se afirma não como a eterna privação de uma estada, mas como uma maneira autêntica de residir, de uma residência que não nos prende à determinação de um lugar, nem à fixação face a uma realidade desde sempre instruída, certa, permanente?” (M. Blanchot)*

*Maurice Blanchot, L´expérience-limite, in L´entretien enfini.