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30 novembro 2010

A CRISE NO RIO E O PASTICHE MIDIÁTICO

QUINTA-FEIRA, 25 DE NOVEMBRO DE 2010
A crise no Rio e o pastiche midiático

Luiz Eduardo Soares

Sempre mantive com jornalistas uma relação de respeito e cooperação. Em alguns casos, o contato profissional evoluiu para amizade. Quando as divergências são muitas e profundas, procuro compreender e buscar bases de um consenso mínimo, para que o diálogo não se inviabilize. Faço-o por ética –supondo que ninguém seja dono da verdade, muito menos eu--, na esperança de que o mesmo procedimento seja adotado pelo interlocutor. Além disso, me esforço por atender aos que me procuram, porque sei que atuam sob pressão, exaustivamente, premidos pelo tempo e por pautas urgentes. A pressa se intensifica nas crises, por motivos óbvios. Costumo dizer que só nós, da segurança pública (em meu caso, quando ocupava posições na área da gestão pública da segurança), os médicos e o pessoal da Defesa Civil, trabalhamos tanto –ou sob tanta pressão-- quanto os jornalistas.

Digo isso para explicar por que, na crise atual, tenho recusado convites para falar e colaborar com a mídia:

(1) Recebi muitos telefonemas, recados e mensagens. As chamadas são contínuas, a tal ponto que não me restou alternativa a desligar o celular. Ao todo, nesses dias, foram mais de cem pedidos de entrevistas ou declarações. Nem que eu contasse com uma equipe de secretários, teria como responder a todos e muito menos como atendê-los. Por isso, aproveito a oportunidade para desculpar-me. Creiam, não se trata de descortesia ou desapreço pelos repórteres, produtores ou entrevistadores que me procuraram.

(2) Além disso, não tenho informações de bastidor que mereçam divulgação. Por outro lado, não faria sentido jogar pelo ralo a credibilidade que construí ao longo da vida. E isso poderia acontecer se eu aceitasse aparecer na TV, no rádio ou nos jornais, glosando os discursos oficiais que estão sendo difundidos, declamando platitudes, reproduzindo o senso comum pleno de preconceitos, ou divagando em torno de especulações. A situação é muito grave e não admite leviandades. Portanto, só faria sentido falar se fosse para contribuir de modo eficaz para o entendimento mais amplo e profundo da realidade que vivemos. Como fazê-lo em alguns parcos minutos, entrecortados por intervenções de locutores e debatedores? Como fazê-lo no contexto em que todo pensamento analítico é editado, truncado, espremido –em uma palavra, banido--, para que reinem, incontrastáveis, a exaltação passional das emergências, as imagens espetaculares, os dramas individuais e a retórica paradoxalmente triunfalista do discurso oficial?

(3) Por fim, não posso mais compactuar com o ciclo sempre repetido na mídia: atenção à segurança nas crises agudas e nenhum investimento reflexivo e informativo realmente denso e consistente, na entressafra, isto é, nos intervalos entre as crises. Na crise, as perguntas recorrentes são: (a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a explosão de violência? (b) O que a polícia deveria fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas? (c) Por que o governo não chama o Exército? (d) A imagem internacional do Rio foi maculada? (e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?

Ao longo dos últimos 25 anos, pelo menos, me tornei “as aspas” que ajudaram a legitimar inúmeras reportagens. No tópico, “especialistas”, lá estava eu, tentando, com alguns colegas, furar o bloqueio à afirmação de uma perspectiva um pouquinho menos trivial e imediatista. Muitas dessas reportagens, por sua excelente qualidade, prescindiriam de minhas aspas –nesses casos, reduzi-me a recurso ocioso, mera formalidade das regras jornalísticas. Outras, nem com todas as aspas do mundo se sustentariam. Pois bem, acho que já fui ou proporcionei aspas o suficiente. Esse código jornalístico, com as exceções de praxe, não funciona, quando o tema tratado é complexo, pouco conhecido e, por sua natureza, rebelde ao modelo de explicação corrente. Modelo que não nasceu na mídia, mas que orienta as visões aí predominantes. Particularmente, não gostaria de continuar a ser cúmplice involuntário de sua contínua reprodução.

Eis por que as perguntas mencionadas são expressivas do pobre modelo explicativo corrente e por que devem ser consideradas obstáculos ao conhecimento e réplicas de hábitos mentais refratários às mudanças inadiáveis. Respondo sem a elegância que a presença de um entrevistador exigiria. Serei, por assim dizer, curto e grosso, aproveitando-me do expediente discursivo aqui adotado, em que sou eu mesmo o formulador das questões a desconstruir. Eis as respostas, na sequência das perguntas, que repito para facilitar a leitura:

(a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a violência e resolver o desafio da insegurança?

Nada que se possa fazer já, imediatamente, resolverá a insegurança. Quando se está na crise, usam-se os instrumentos disponíveis e os procedimentos conhecidos para conter os sintomas e salvar o paciente. Se desejamos, de fato, resolver algum problema grave, não é possível continuar a tratar o paciente apenas quando ele já está na UTI, tomado por uma enfermidade letal, apresentando um quadro agudo. Nessa hora, parte-se para medidas extremas, de desespero, mobilizando-se o canivete e o açougueiro, sem anestesia e assepsia. Nessa hora, o cardiologista abre o tórax do moribundo na maca, no corredor. Não há como construir um novo hospital, decente, eficiente, nem para formar especialistas, nem para prevenir epidemias, nem para adotar procedimentos que evitem o agravamento da patologia. Por isso, o primeiro passo para evitar que a situação se repita é trocar a pergunta. O foco capaz de ajudar a mudar a realidade é aquele apontado por outra pergunta: o que fazer para aperfeiçoar a segurança pública, no Rio e no Brasil, evitando a violência de todos os dias, assim como sua intensificação, expressa nas sucessivas crises?

Se o entrevistador imaginário interpelar o respondente, afirmando que a sociedade exige uma resposta imediata, precisa de uma ação emergencial e não aceita nenhuma abordagem que não produza efeitos práticos imediatos, a melhor resposta seria: caro amigo, sua atitude representa, exatamente, a postura que tem impedido avanços consistentes na segurança pública. Se a sociedade, a mídia e os governos continuarem se recusando a pensar e abordar o problema em profundidade e extensão, como um fenômeno multidimensional a requerer enfrentamento sistêmico, ou seja, se prosseguirmos nos recusando, enquanto Nação, a tratar do problema na perspectiva do médio e do longo prazos, nos condenaremos às crises, cada vez mais dramáticas, para as quais não há soluções mágicas.

A melhor resposta à emergência é começar a se movimentar na direção da reconstrução das condições geradoras da situação emergencial. Quanto ao imediato, não há espaço para nada senão o disponível, acessível, conhecido, que se aplica com maior ou menor destreza, reduzindo-se danos e prolongando-se a vida em risco.

A pergunta é obtusa e obscurantista, cúmplice da ignorância e da apatia.

(b) O que as polícias fluminenses deveriam fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas?

Em primeiro lugar, deveriam parar de traficar e de associar-se aos traficantes, nos “arregos” celebrados por suas bandas podres, à luz do dia, diante de todos. Deveriam parar de negociar armas com traficantes, o que as bandas podres fazem, sistematicamente. Deveriam também parar de reproduzir o pior do tráfico, dominando, sob a forma de máfias ou milícias, territórios e populações pela força das armas, visando rendimentos criminosos obtidos por meios cruéis.

Ou seja, a polaridade referida na pergunta (polícias versus tráfico) esconde o verdadeiro problema: não existe a polaridade. Construí-la –isto é, separar bandido e polícia; distinguir crime e polícia-- teria de ser a meta mais importante e urgente de qualquer política de segurança digna desse nome. Não há nenhuma modalidade importante de ação criminal no Rio de que segmentos policiais corruptos estejam ausentes. E só por isso que ainda existe tráfico armado, assim como as milícias.

Não digo isso para ofender os policiais ou as instituições. Não generalizo. Pelo contrário, sei que há dezenas de milhares de policiais honrados e honestos, que arriscam, estóica e heroicamente, suas vidas por salários indignos. Considero-os as primeiras vítimas da degradação institucional em curso, porque os envergonha, os humilha, os ameaça e acua o convívio inevitável com milhares de colegas corrompidos, envolvidos na criminalidade, sócios ou mesmo empreendedores do crime.

Não nos iludamos: o tráfico, no modelo que se firmou no Rio, é uma realidade em franco declínio e tende a se eclipsar, derrotado por sua irracionalidade econômica e sua incompatibilidade com as dinâmicas políticas e sociais predominantes, em nosso horizonte histórico. Incapaz, inclusive, de competir com as milícias, cuja competência está na disposição de não se prender, exclusivamente, a um único nicho de mercado, comercializando apenas drogas –mas as incluindo em sua carteira de negócios, quando conveniente. O modelo do tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado, anti-econômico: custa muito caro manter um exército, recrutar neófitos, armá-los (nada disso é necessário às milícias, posto que seus membros são policiais), mantê-los unidos e disciplinados, enfrentando revezes de todo tipo e ataques por todos os lados, vendo-se forçados a dividir ganhos com a banda podre da polícia (que atua nas milícias) e, eventualmente, com os líderes e aliados da facção. É excessivamente custoso impor-se sobre um território e uma população, sobretudo na medida que os jovens mais vulneráveis ao recrutamento comecem a vislumbrar e encontrar alternativas. Não só o velho modelo é caro, como pode ser substituído com vantagens por outro muito mais rentável e menos arriscado, adotado nos países democráticos mais avançados: a venda por delivery ou em dinâmica varejista nômade, clandestina, discreta, desarmada e pacífica. Em outras palavras, é melhor, mais fácil e lucrativo praticar o negócio das drogas ilícitas como se fosse contrabando ou pirataria do que fazer a guerra. Convenhamos, também é muito menos danoso para a sociedade, por óbvio.

(c) O Exército deveria participar?

Fazendo o trabalho policial, não, pois não existe para isso, não é treinado para isso, nem está equipado para isso. Mas deve, sim, participar. A começar cumprindo sua função de controlar os fluxos das armas no país. Isso resolveria o maior dos problemas: as armas ilegais passando, tranquilamente, de mão em mão, com as benções, a mediação e o estímulo da banda podre das polícias.

E não só o Exército. Também a Marinha, formando uma Guarda Costeira com foco no controle de armas transportadas como cargas clandestinas ou despejadas na baía e nos portos. Assim como a Aeronáutica, identificando e destruindo pistas de pouso clandestinas, controlando o espaço aéreo e apoiando a PF na fiscalização das cargas nos aeroportos.

(d) A imagem internacional do Rio foi maculada?

Claro. Mais uma vez.

(e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?

Sem dúvida. Somos ótimos em eventos. Nesses momentos, aparece dinheiro, surge o “espírito cooperativo”, ações racionais e planejadas impõem-se. Nosso calcanhar de Aquiles é a rotina. Copa e Olimpíadas serão um sucesso. O problema é o dia a dia.

Palavras Finais

Traficantes se rebelam e a cidade vai à lona. Encena-se um drama sangrento, mas ultrapassado. O canto de cisne do tráfico era esperado. Haverá outros momentos análogos, no futuro, mas a tendência declinante é inarredável. E não porque existem as UPPs, mas porque correspondem a um modelo insustentável, economicamente, assim como social e politicamente. As UPPs, vale dizer mais uma vez, são um ótimo programa, que reedita com mais apoio político e fôlego administrativo o programa “Mutirões pela Paz”, que implantei com uma equipe em 1999, e que acabou soterrado pela política com “p” minúsculo, quando fui exonerado, em 2000, ainda que tenha sido ressuscitado, graças à liderança e à competência raras do ten.cel. Carballo Blanco, com o título GPAE, como reação à derrocada que se seguiu à minha saída do governo. A despeito de suas virtudes, valorizadas pela presença de Ricardo Henriques na secretaria estadual de assistência social --um dos melhores gestores do país--, elas não terão futuro se as polícias não forem profundamente transformadas. Afinal, para tornarem-se política pública terão de incluir duas qualidades indispensáveis: escala e sustentatibilidade, ou seja, terão de ser assumidas, na esfera da segurança, pela PM. Contudo, entregar as UPPs à condução da PM seria condená-las à liquidação, dada a degradação institucional já referida.

O tráfico que ora perde poder e capacidade de reprodução só se impôs, no Rio, no modelo territorializado e sedentário em que se estabeleceu, porque sempre contou com a sociedade da polícia, vale reiterar. Quando o tráfico de drogas no modelo territorializado atinge seu ponto histórico de inflexão e começa, gradualmente, a bater em retirada, seus sócios –as bandas podres das polícias-- prosseguem fortes, firmes, empreendedores, politicamente ambiciosos, economicamente vorazes, prontos a fixar as bandeiras milicianas de sua hegemonia.

Discutindo a crise, a mídia reproduz o mito da polaridade polícia versus tráfico, perdendo o foco, ignorando o decisivo: como, quem, em que termos e por que meios se fará a reforma radical das polícias, no Rio, para que estas deixem de ser incubadoras de milícias, máfias, tráfico de armas e drogas, crime violento, brutalidade, corrupção? Como se refundarão as instituições policiais para que os bons profissionais sejam, afinal, valorizados e qualificados? Como serão transformadas as polícias, para que deixem de ser reativas, ingovernáveis, ineficientes na prevenção e na investigação?

As polícias são instituições absolutamente fundamentais para o Estado democrático de direito. Cumpre-lhes garantir, na prática, os direitos e as liberdades estipulados na Constituição. Sobretudo, cumpre-lhes proteger a vida e a estabilidade das expectativas positivas relativamente à sociabilidade cooperativa e à vigência da legalidade e da justiça. A despeito de sua importância, essas instituições não foram alcançadas em profundidade pelo processo de transição democrática, nem se modernizaram, adaptando-se às exigências da complexa sociedade brasileira contemporânea. O modelo policial foi herdado da ditadura. Ele servia à defesa do Estado autoritário e era funcional ao contexto marcado pelo arbítrio. Não serve à defesa da cidadania. A estrutura organizacional de ambas as polícias impede a gestão racional e a integração, tornando o controle impraticável e a avaliação, seguida por um monitoramento corretivo, inviável. Ineptas para identificar erros, as polícias condenam-se a repeti-los. Elas são rígidas onde teriam de ser plásticas, flexíveis e descentralizadas; e são frouxas e anárquicas, onde deveriam ser rigorosas. Cada uma delas, a PM e a Polícia Civil, são duas instituições: oficiais e não-oficiais; delegados e não-delegados.

E nesse quadro, a PEC-300 é varrida do mapa no Congresso pelos governadores, que pagam aos policiais salários insuficientes, empurrando-os ao segundo emprego na segurança privada informal e ilegal.
Uma das fontes da degradação institucional das polícias é o que denomino "gato orçamentário", esse casamento perverso entre o Estado e a ilegalidade: para evitar o colapso do orçamento público na área de segurança, as autoridades toleram o bico dos policiais em segurança privada. Ao fazê-lo, deixam de fiscalizar dinâmicas benignas (em termos, pois sempre há graves problemas daí decorrentes), nas quais policiais honestos apenas buscam sobreviver dignamente, apesar da ilegalidade de seu segundo emprego, mas também dinâmicas malignas: aquelas em que policiais corruptos provocam a insegurança para vender segurança; unem-se como pistoleiros a soldo em grupos de extermínio; e, no limite, organizam-se como máfias ou milícias, dominando pelo terror populações e territórios. Ou se resolve esse gargalo (pagando o suficiente e fiscalizando a segurança privada /banindo a informal e ilegal; ou legalizando e disciplinando, e fiscalizando o bico), ou não faz sentido buscar aprimorar as polícias.
O Jornal Nacional, nesta quinta, 25 de novembro, definiu o caos no Rio de Janeiro, salpicado de cenas de guerra e morte, pânico e desespero, como um dia histórico de vitória: o dia em que as polícias ocuparam a Vila Cruzeiro. Ou eu sofri um súbito apagão mental e me tornei um idiota contumaz e incorrigível ou os editores do JN sentiram-se autorizados a tratar milhões de telespectadores como contumazes e incorrigíveis idiotas.

Ou se começa a falar sério e levar a sério a tragédia da insegurança pública no Brasil, ou será pelo menos mais digno furtar-se a fazer coro à farsa.

21 novembro 2010

HORTO FLORESTAL




Orgulhosíssima do meu marido... Leiam txt dele abaixo sobre o Horto Florestal e, por favor, divulguem para todas as redes/listas sociais e mídias alternativas que puderem. O Globo não pode ficar com o monopólio da informação pautando os outros meios. Temos que criar/conectar canais de comunicação entre os que pensam com ideário diferente nas questões de nossa cidade/ polis, país, vida...

Abs
Laura.

Amigos,

Escrevi o texto a seguir com revisão da Laura em resposta ao artigo ignóbil publicado naquele tablóide local. Não havendo objeções, gostaria de publicar no site da Amahor e divulgar em minha rede.

Grande abraço,

- Julio




Solução conciliada para o Horto esbarra no preconceito e na ignorância

A matéria "Que belo horto para plantar favela", publicada no Globo (19 de novembro de 2010) e assinada por Marcos Sá Corrêa, pretende desmontar o texto "Solução conciliada para o Horto" (O Globo, 16 de novembro de 2010) do deputado federal Edson Santos. Edson Santos apresenta conciso e eficiente resumo e proposta conciliatória para uma questão fundiária urbana que vem ganhando na mídia nativa desproporcional interesse, visto que se trata da regularização de aproximadamente 600 moradias no entorno do parque Jardim Botânico, em área historicamente conhecida como Horto Florestal.

Edson Santos
Marcos Sá despeja sobre o leitor uma série de ataques ao deputado e à comunidade centenária do Horto Florestal, embasados em obscura carga preconceituosa. A pretensão do autor, no entanto, se esvai logo no início de seu equivocado e desconexo texto. Ao afirmar já na primeira frase que o deputado é "veterano de lutas contra o patrimônio público no Rio de Janeiro", exige do leitor um salto digno de um recordista olímpico para transpor o abismo entre o "achismo", travestido de "opinião", e a dialética.

Não se espera do autor qualquer apreço à informação e muito menos o embasamento necessário para produção de uma opinião, como o conhecimento mínimo sobre a localidade e sua história, que remonta aos tempos coloniais. Marcos Sá discorre que "moradores" e "Horto Florestal" constituem um oximoro, presume-se por que o nome "Florestal" impingiria à região uma prerrogativa de uso que inviabilizaria a moradia, mesmo que histórica. Sendo assim, fico a procurar o "jardim" de "Jardim Botânico" em meio à poluída e caótica extensão de um bairro mal cuidado.

Marcos Sá Corrêa
A partir daí, o texto envereda perigosamente para o reducionismo de uma questão complexa, palpites jurídicos sem conhecimento algum de causa e, pior, com a externalização do preconceito da imprensa nativa, cada vez mais desnudado. Sem pudor ou constrangimento, Marcos Sá reduz moradores a "invasores" e "espertos" que "procriam", como gado. Replica triste argumento de Carlos Prates da RBS, filiada à Globo, no qual "denuncia" a multiplicação dos carros para os "miseráveis" que hoje se sentem no direito de serem cidadãos. Ignora relatos de moradores com mais de 80 anos que nasceram na localidade, cujos avós já trabalhavam e moravam ali, remontando a uma ancestralidade e pertença histórica de mais de 120 anos.

Tal ignomínia vem subsidiando um movimento pela nova higienização social do Rio de Janeiro, pautada por ideário obscurantista que visa desconstruir os avanços institucionais alcançados desde a redemocratização. Esta nova higienização se da com ações arbitrárias e opacas de despejo em diversos pontos da cidade, que se aceleram na mesma medida da aproximação dos "grandes" eventos de 2014 e 2016. Exemplo contundente foi a demolição sumária pela prefeitura de centenas de casas a toque de caixa na Ladeira dos Tabajaras, ação posteriormente impedida por liminar que corretamente interpretou os preceitos constitucionais do direito à moradia digna. No episódio, a prefeitura deixou como legado um verdadeiro cenário de desolação, onde os "sobreviventes" e as crianças miseráveis compartilham espaço com entulho, cacos, ratos e outras pestes, criando uma situação de calamidade pública que o Globo não se dignou a denunciar.

A cobiça da especulação imobiliária se sobrepõe à própria história do Rio de Janeiro, da qual é peça integrante a comunidade do Horto Florestal. O poder do capital, no entanto, tem pouca afeição à preservação. Mais lucrativa é a proliferação de shoppings e prédios que se assemelham a banheiros públicos, revestidos de pastilhas e com arquitetura de gosto duvidoso e muito, muito blindex. Talvez seja esta a imagem que Marcos Sá vislumbre ser desejada por turistas que se multiplicarão nos próximos anos - uma cidade "limpa" de seus pobres com espaços artificiais e uma história enterrada bem no fundo do preconceito latente e agora externo do "feliz e cordial" povo carioca, para não se dizer o contrário. Esta é a verdadeira cidade partida onde diálogo, paz e a resolução democrática de conflitos são subjugados pela arbitrariedade, preconceito e pelo ódio como o proferido por Marcos Sá.

Retornando à sua diatribe, o autor pretende associar a vitória de Edson Santos no pleito para a Câmara ao apoio das "invasões". "Elege-se em parte com o apoio delas", afirma, ignorando o fato de que mais de cinquenta mil cidadãos votaram no deputado. A este ponto, o leitor, fatigado com malabarismos, rende-se à verdade: trata-se de um texto panfletário, mais adequado a uma conversa de botequim do que impresso em papel. Não é de se surpreender que o Globo vai muito "aquém" do papel de um jornal, não cobrindo sequer o custo de sua reciclagem.

Mas a coroação do texto vem em seu último parágrafo onde o autor veste o manto de "especialista" em botânica, misturando as funções e destinações do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico e do arboreto, equivocadamente classificado como "laboratório a céu aberto". Sua confusão pode ser perdoada como a ignorância de um leigo sobre o rigor exigido da pesquisa científica, onde não se pode misturar um ambiente de visitação destinado ao mostruário de respeitável acervo botânico com pesquisa botânica de base. O laboratório a que se refere, na verdade, é o conjunto de biomas que se estendem pelo território nacional em diversidade cujo instituto, isto sim, se propõe a estudar e catalogar.

Quanto ao arboreto, aos poucos transfigurado em um parque temático, já tendo há muito ultrapassado sua capacidade de suporte a visitantes, perde progressivamente a sua fauna e flora pelo descaso de uma administração mais propensa a derrubar árvores do que encontrar soluções "botânicas" para salvaguardar suas estruturas. Um passeio dentro do arboreto ao largo do Rio dos Macacos revela um cenário assustador onde dezenas de árvores foram derrubadas, muitas das quais recentemente. Mais a diante, próximo à Escola Julia Kubitschek, cuja história a administração do parque tenta aniquilar, encontra-se agora um canteiro de obras com montes de cimento e areia, usados para nivelar as vias do parque numa potente e perigosa mistura, assentada através de máquinas ruidosas que expelem densa fumaça tóxica. Isto sem falar no total desrespeito e no risco à saúde das crianças que estudam ao lado deste canteiro perverso. Já próximo ao SERPRO, o Jardim Botânico ergue uma enorme construção que devastou mais de dois mil metros quadrados de mata secundária. Estes são apenas alguns exemplos do espírito preservacionista e botânico da administração do parque. Por sua vez, a comunidade do Horto sempre serviu como zona de amortecimento entre a floresta e o asfalto, e agora, entre a floresta e o parque expansionista e invasor.

O real perigo que enfrentamos com a aproximação dos eventos é a desvirtuação por ditos especialistas instantâneos dos reais problemas da cidade quanto a questões como moradia, respeito aos cidadãos e preservação ambiental. Resta ao leitor constatar o verdadeiro oximoro, ao que Marcos Sá Corrêa subscreve-se "jornalista".

Julio Feferman
Biólogo

17 julho 2009

PSICOLOGA DIZ "CURAR" GAY E VAI A JULGAMENTO EM CONSELHO

Psicóloga que diz "curar" gay vai a julgamento em conselho

Conselho Federal de Psicologia decide no dia 31 se cassa licença de Rozângela Alves Justino

Resolução veta tratar questão como doença e recrimina indicação de tratamento; se o registro for perdido, será a 1ª condenação do tipo no país

VINÍCIUS QUEIROZ GALVÃO

ENVIADO ESPECIAL AO RIO

O Conselho Federal de Psicologia julga, no fim deste mês, a cassação do registro profissional de Rozângela Alves Justino por oferecer terapia para que gays e lésbicas deixem a homossexualidade. Se perder a licença, será a primeira condenação desse tipo no Brasil.

Resolução do próprio conselho proíbe há dez anos os psicólogos de lidarem a homossexualidade como doença e recrimina a indicação de qualquer tipo de "tratamento" ou "cura".

Rozângela, que afirma ter "atendido e curado centenas" de pacientes gays em 21 anos, diz ver a homossexualidade como "doença" e que algumas pessoas têm atração pelo mesmo sexo "porque foram abusadas na infância e na adolescência e sentiram prazer nisso".

Numa consulta em que a reportagem, incógnita, se passava por paciente, Rozângela, que se diz evangélica, recomenda orientação religiosa na igreja.

"Tenho minha experiência religiosa que eu não nego. Tudo que faço fora do consultório é permeado pelo religioso. Sinto-me direcionada por Deus para ajudar as pessoas que estão homossexuais", afirma.

A cassação de Rozângela, que atende no centro do Rio, foi pedida por associações gays e endossado por 71 psicólogos de diferentes conselhos regionais.

Segundo Rozângela, que já foi condenada a censura pública no conselho regional do Rio no final de 2007, "o movimento pró-homossexualismo tem feito alianças com conselhos de psicologia e quer implantar a ditadura gay no país".

"É por isso que o conselho de psicologia, numa aliança, porque tem muito ativista gay dentro do conselho de psicologia, criou uma resolução para perseguir profissionais", afirma.

No Rio, Rozângela participa do Movimento Pela Sexualidade Sadia, conhecido como Moses, ligado a igrejas evangélicas.

A almoxarife Cláudia Machado, 34, diz que recebeu de Rozângela a apostila "Saindo da homossexualidade para a heterossexualidade", que prega meios para a mudança de orientação sexual. "Hoje vivo a minha homossexualidade tranquila, essa história de cura não existe, o que houve foi um condicionamento. Reprimi meus desejos. Não sentia prazer", diz.

Já a pedagoga Fernanda, que pede para não ter o sobrenome divulgado, diz ter sido lésbica por dez anos e que, depois da terapia que faz com Rozângela há quatro anos, passou a ter relações heterossexuais. "Realmente há possibilidade de sair da homossexualidade. É um processo longo. De lá para cá busco a feminilidade."

"A ciência já mostrou que não existe tratamento para fazer com que alguém deixe de ter desejo homossexual nem heterossexual. Quando se promete algo assim, é enganoso", diz o terapeuta sexual Ronaldo Pamplona, da Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana.

Segundo ele, a Sociedade Americana de Psiquiatria retirou a homossexualidade do diagnóstico de doenças em 1974, seguida, uma década depois, pela Organização Mundial da Saúde.

"Se absolvê-la, o Conselho Federal de Psicologia vai referendar a tese de que é possível "curar" gays", diz Toni Reis, presidente da ABGLT, a associação brasileira de homossexuais.

"Isso traz prejuízo aos gays e contribui para fortalecer o estigma", afirma Cláudio Nascimento, superintendente da Secretaria de Direitos Humanos do Rio e do grupo Arco-Íris.

"Vejo [o pedido de cassação] como uma injustiça", diz Rozângela, que, se cassada, pensa em recorrer à Justiça comum.

De um lado, cem entidades gays de todo o país vão levar um manifesto e manifestantes no dia do julgamento de cassação de registro de Rozângela, no próximo dia 31, em Brasília. Do outro, ela diz que vai reunir alguns ex-gays e psicólogos amordaçados para protestar contra a censura que diz sofrer.

Folha de S. Paulo de 14/07/2009

02 novembro 2008

FREUD EXPLICA RESPONDE: PROFISSÃO PSICANALISTA2

Patricia Lima pergunta

Rogério,

Leio sempre seu blog pois acho que possui sempre coisas interessantes a respeito de Freud e outros assuntos.

Só outro dia percebi que você é biólogo e psicanalista e por isso resolvi te escrever.

Também sou bióloga, apesar de nunca ter trabalhado nessa área. Acabei, por interesse e outras especializações, trabalhando na área de recursos humanos, mas já tem algum tempo que tenho vontade de fazer psicanálise, para depois trabalhar em psicanálise clínica.

Tenho como estudar psicanálise sem ter feito psicologia? De que forma você fez?

Aguardo seu retorno

Obrigada

Freud Explica responde:

Cara Patricia

Sempre que me vejo diante dessas questões, a primeira coisa que faço é indicar a leitura de ”A Questão da analise leiga” escrito por Freud em 1926. A finalidade dessa indicação desmistificar a psicanálise como parte da medicina ou da psicologia. Eu vejo a psicanálise muito mais devedora de ensinamentos da filosofia do que dessas disciplinas. Também vejo a psicanálise devedora de outros ramos do conhecimento e principalmente da biologia.

Além de ser eu mesmo um biólogo de formação, tenho vários colegas que também se interessaram o hoje militam na psicanálise, mas para não ser redundante indico a leitura do post FREUD EXPLICA RESPONDE: PROFISSÃO PSICANALISTA que foi publicado aqui mesmo em 10 de agosto passado atendendo ao apelo de outro colega biólogo.

No mais, eu quero parabenizá-la pela escolha desejando sucesso neste árduo percurso.

16 julho 2008

A MORTE E A MORTE DE SIGMUND FREUD

Por Rogerio Silva

Não. Naõ é um Jorge Amado quem está escrevendo e nem se trata de Quincas Berro d´Água. É que Freud que já morreu em 1939, pode voltar a morrer. Desta vez através de sua grande criação. A psicanálise.

Quem nos conta essa possibilidade é Aldo Pereira em seu artigo publicado ontem na página 3 da Folha de São Paulo. Num belíssimo artigo. Ele brinca de William James, para dizer que a obra de Sigmund Freud contém muito de original e verdadeiro. Mas o original não é verdadeiro; e o verdadeiro não é original. O que ele pretende é mostrar que entre o falso e o verdadeiro pode estar ou não o original.

A Associação Psiquiátrica Americana excluiu de seu "Manual Diagnóstico e Estatístico de Distúrbios Mentais", todos os "complexos" e "neuroses". Essa decisão, tomada na década de 80, causou progressivo declínio na formação de psicanalistas americanos.

O pós modernismo (principalmente o Frances) tornou-se uma religião laica que teve com Jacques Lacan, Jacques Derrida e Jean Baudrillard um oráculo hermético do pessoal da "nova era". A psicanálise acabou sendo vista junto com uma cultura "alternativa" de crenças e práticas mágicas, orientalistas, esotéricas, naturalistas, ocultistas etcetera.

A proposta de Lacan em tornar aquele que procura analise num analista muda essa questão na França. Todo um processo desenvolvido por ele retira a psicanálise da esfera científica. Para Contardo Calligaris em “Cartas a um jovem terapeuta” (Elsevier, 2008, Rio de Janeiro), a psicanálise não pode ser considerada uma psicoterapia, já que ela não se propõe a uma cura e sim uma transformação

Até mesmo a medicina busca uma maneira discreta de rejeitar a psicanálise. Tal repúdio confere drama e comédia à partilha do legado intelectual de Freud. Que órfãos se credenciam como herdeiros legítimos do espólio? Qual das entidades pretensamente representativas é guardiã do credo autêntico? Questiona Aldo.

Em 19 Fevereiro 2007 eu escrevi neste blog POR UMA EXPERIENCIA RELIGIOSA com a intenção de mostrar a necessidade de um certo ateísmo por aquele que se propõe a ser analista. Nesse texto, Freud descreve uma passagem como conseqüências de uma entrevista dada a um jornalista teuto-americano G. S. Virec que o indaga sobre a sua crença na religião durante uma visita sua aos Estados Unidos.

É preciso estar desprovido de uma crença religiosa para poder perceber, no discurso daquele que procura a analise, o seu ponto de conflito. Por isso, Freud nunca se viu um profeta fundador duma religião secular. Muito menos teria ele acolhido convergência entre psicanálise e crença mística. É, portanto impensável o sincretismo que ocorre no Brasil entre psicanálise e seitas cristãs, sejam elas católicas, sejam evangélicas.

O que Aldo pretende demonstrar, é que hoje, psicanalistas filiados a alguma das muitas instituições de psicanálise se vêem concorrentes de profissionais formados por entidades como a Sociedade Psicanalítica Ortodoxa do Brasil. Após curso de dois anos, você pode sair psicanalista clínico pela SPOB. Colega, imagine, da ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (turma de 2003). Afirma Aldo.

O Instituto de Educação Superior e Pesquisas Avançadas oferece cursos "à distância" de psicanálise clínica livre. As modalidades apresentadas vão desde uma formação acadêmica de terceiro grau até o mais alto grau de pós-graduação.

Original? Pode ser... mas psicanalitico, tenho dúvidas.

Não se trata de questionar os modos utilizados por essa Instituição para a formação de seus seguidores, mas sim questionar o modo de intervenção no processo de mudança proposto por Freud. Isso sim, seria uma outra morte.

14 dezembro 2007

A ÉTICA EM QUESTÃO - Uva sem caroço ou psicanálise em penca

Por Rogério Silva

Se há uma ética da psicanálise, é na medida em que, de alguma maneira, a análise fornece algo que se coloca como medida de nossa ação.

J. Lacan

Entendemos a psicanálise como o lugar privilegiado de uma ética da criação e da liberdade, baseada nas matrizes neurótico/conflitivas da díade analista/analisando que se estabelece no espaço analítico.

Para Fédida, garantir a situação analítica ou reinstaurá-la corresponde para o analista à tarefa de manter essa posição de estranho intimo que é de certa forma, a condição temporal da essencial dissimetria: o analista escuta com a sua angústia.

Entende-se que, muitas vezes uma análise está longe de ser pura ou linear. Nela, vários processos ocorrem simultaneamente e, conseqüentemente, sem perceber, o psicanalista violenta o método com o próprio processo, que comporta uma diversidade de técnicas psicoterapêuticas, ao mesmo tempo sem poder, predeterminar os caminhos possíveis que surgem a partir do encontro de dois inconscientes, e sem que isso, seja considerado um erro técnico ou pontos cegos do analista, desde que esteja permeado pela ética.

O que seria então uma violência no setting analítico? Pode-se dizer que a violência, talvez seja se manter no padrão esperado ou ainda repetir chavões interpretativos de um modelo teórico fixo numa postura ortodoxa. Contudo, o que parece ser muitas vezes ato de violência, às vezes, o livre arbítrio do psicanalista que, usando sua contratransferência, teria o direito de criar com cada paciente uma teoria que melhor lhe cabe, dentro dos padrões éticos. Estes padrões perpassam também pela temporalidade na clínica como orientadora de um processo. Temporalidade que, capturada pelas urgências e velocidades da atualidade - a grande produção de lixo e a voracidade consumista - determinam uma psicanálise mais comercial e menos ética e estética.

Recentemente a Formação Freudiana do Rio de Janeiro realizou um encontro entre os membros da clínica de psicanálise e seus pares. O tema do encontro passou pela questão ética do tempo da análise e o tempo da seção na dimensão clínica.

A motivação e o convite aos debatedores foram frutos de uma inquietação dos participantes da clínica social da entidade sobre a temporalidade da análise nos dias de hoje. Esse tempo presente, cuja velocidade e a fome consumista, faz com que o indivíduo se veja na condição de um cardume de piranha a devorar, em segundos, o que lhe aparece pela frente. É preciso que o produto oferecido se apresente de forma a ser consumido, digerido ou apropriado rapidamente, sem que dele sobre qualquer resto.

A Formação Freudiana sempre se colocou aberta ao acolhimento tanto das demandas psíquicas, quanto dos pressupostos teóricos dos pensadores seguidores de Freud que alimentam a teoria e a técnica psicanalítica. Por isso absorver o excesso de forma voraz parece ser um risco que pode comprometer a psicanálise e a sua clínica.

A metáfora da uva sem caroço parece bastante apropriada como aquilo que não apresenta nenhuma possibilidade de mediação entre consumidor e consumido.

Os atendimentos feitos através planos de saúde e a legalização da profissão de psicanalista se colocam como banalizadores da prática analítica, juntamente com outros fatores midiáticos na França de hoje, como apontou um dos debatedores.

O tempo lógico proposto por Lacan parece ter perdido a dimensão do tempo de compreender, pois perceber e concluir quase se dão no mesmo instante. Por isso a proposta marquetereira da franchising torna-se imperativa de um certo modo de “fazer” analítico, que coloca em risco a ética.

É possível que as propostas dos franceses que acompanham essa temporalidade voraz se apresentem como esse modo novo, até de forma ética. Contudo, se não se pode mais oferecer uma análise de cinco dias por semana porque o paciente brasileiro não tem condições para arcar com essa despesa e já vem com a idéia de que pode ter uma seção por semana e o quanto pode pagar. O que nos resta, oferecer psicanálise em penca?

01 dezembro 2007

O SEGUNDO HOLOCAUSTO

12/12/2005

O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, voltou a aparecer em cena. Eu já tinha saudades de Mahmoud: seriais killers são paixões desde a infância. Há uns meses, o nosso Mahmoud declarou que Israel deveria ser riscado do mapa. A comunidade internacional ficou "espantada" e "chocada". Agora, Mahmoud voltou ao ataque: primeiro, para levantar dúvidas sobre a existência do Holocausto; e, depois, para propor a recolocação dos judeus do Oriente Médio na Alemanha e na Áustria.

E a comunidade internacional? Precisamente: continua "espantada" e "chocada". Cuidado, gente: não é saudável tanto "espanto" e tanto "choque". E, além disso, não é necessário. As palavras de Mahmoud Ahmadinejad estão em perfeita sintonia com a retórica anti-semita que, diariamente, o mundo árabe vai produzindo para consumo interno e externo.

Não é preciso visitar um país árabe, como eu já visitei, para perceber o fato. Basta consultar um sítio na internet (MEMRI - The Middle East Media Research Institute) para ler, em inglês, o que os jornais e as televisões árabes dizem em árabe. De acordo com a sensibilidade literária local, os judeus são, normalmente, seres "vingativos", "sujos", "parasitas" e agentes de "corrupção", "contaminação" e "morte". Um exemplo? A 17 de março de 1997, na Comissão para os Direitos Humanos das Nações Unidas, Nabil Ramlawi acusou as autoridades israelitas de infectarem 300 crianças palestinas com o vírus do HIV durante os anos da primeira intifada. A comunidade internacional, presumo, estava a dormir e a roncar: o "espanto" e o "choque" ainda não tinham começado. Ou, então, achou “normal” acusações de genocídio.

E, de fato, “normal” são: com espantosa regularidade, jornais egípcios ou jordanos acusam as autoridades israelitas de produzirem doces com o objetivo de matar crianças e corromper sexualmente as mulheres. Fertilizantes usados na fruta também acabam por esterilizar os homens árabes, que comem uma laranja ou uma banana na maior das inocências másculas. E, em matéria conspirativa, o 11 de setembro forneceu amplo material. De acordo com a imprensa árabe, no dia em que as Torres foram atacadas, 4000 judeus não foram trabalhar. Gripe súbita? Preguiça matinal? Nada disso. Eles foram antecipadamente avisados pela Mossad, os serviços secretos israelitas, para que não comparecessem nas Torres. O próprio Ariel Sharon, aliás, também foi avisado para não viajar para Nova York no dia 11 de setembro. No dia 11 de setembro, os serviços secretos israelitas iriam telecomandar dois aviões (vazios) para que eles iniciassem o definitivo confronto entre o Ocidente e o mundo árabe. E etc., e etc., e etc.

Pergunta: de onde veio esta loucura? A pergunta está mal formulada. O anti-semitismo árabe não é produto de uma doença mental. É, coisa pior, uma herança, uma pesada herança, uma grotesca herança do nosso próprio anti-semitismo ocidental. Não é possível estabelecer no tempo as origens intelectuais do anti-semitismo moderno. Mas existe um documento --obviamente, forjado-- que teve um papel arras! ador neste processo. Falo, como é evidente, dos "Protocolos dos Sábios do Sião", que as autoridades czaristas fabricaram na Rússia em finais do século 19 para "provar" que os judeus estavam dispostos a conquistar o mundo.

Foi um "best-seller" na época, permitiu incontáveis brutalidades no império russo e rapidamente viajou para o Ocidente --sobretudo para a Alemanha-- onde floresceu com vigor. E não apenas na Alemanha: se as boas ideias viajam com o vento, as más ideias viajam com a luz. Ainda na década de 1930, pelas mãos de Muhammad Amin al-Husseini (o mufti de Jerusalém, uma espécie de governador local), os "Protocolos" foram recebidos com entusiasmo assassino. O mufti de Jerusalém tinha ligações privilegiadas com o Terceiro Reich, sobretudo com Himmler, e fez da eliminação judaica no Oriente Médio um programa político. O ódio, que o Ocidente produziu, criava finalmente o moderno anti-semitismo árabe. Que continua vivo e bem vivo.

Hoje, quando vocês entram numa das livrarias locais, em Teerã ou no Cairo, é possível comprar os "Protocolos", levados a sério como historiografia séria. No Egito, uma novela baseada nos "Protocolos" foi adaptada à tv, com um elenco de 400 atores e orçamento digno de Hollywood: as donas de casa choraram com emoção perante a história pérfida de como os judeus pérfidos sempre desejaram subjugar o mundo. E livros como "Mein Kampf", o libelo ignaro de Hitler que é uma emanação dos "Protocolos" e que justificou as limpezas rácicas posteriores a 1933, é um sucesso de vendas mesmo em países mais ocidentalizados, como a Turquia. Escuso de dizer que vocês não encontram "A Lista de Schindler" nas locadoras árabes. O filme de Spielberg é perigosíssimo para a cultura indígena e, precisamente por isso, banido pelas autoridades oficiais. O Holocausto, o primeiro Holocausto, nunca existiu.

Mas o segundo talvez exista. A expressão não é minha. A ideia de um "segundo Holocausto" foi sugerida por Ron Rosenbaum no "The New York Observer", em abril de 2002. Para Rosenbaum, o anti-semitismo árabe atual ganha contornos muito próximos com a Alemanha nazista na década de 1930 e, cedo ou tarde, acabará por proporcionar novos espectáculos de horror. Só que, escreve Ronsebaum, desta vez haverá uma "vantagem" para os criminosos: ao contrário do que sucedeu na Segunda Guerra Mundial, em que uma poderosa máquina administrativa e bélica teve de "concentrar" os judeus da Europa em campos para o efeito, desta vez os judeus do mundo, ou uma parte significativa deles, já se encontram "concentrados": no Estado de Israel, obviamente --e o termo "concentrar" ganha aqui contornos sinistros.

Sinistros e reais: o Irã não descansará enquanto não tiver uma arma nuclear nas mãos. E, ao contrário do que se pensa, cometer o impensável não é uma questão cinematográfica: o desejo de exterminar Israel tem sido recorrente desde 1948, ano da fundação. Aliás, tem sido recorrente muito antes da formação do Estado judaico.

Karl Marx, plagiando Hegel, escreveu um dia que a história se repete: primeiro, como tragédia; depois, como farsa. Marx estava certo sobre o acessório, errado sobre o essencial. A história se repete, sim: primeiro como tragédia; mas depois, como tragédia ainda maior.

João Pereira Coutinho, 29, é colunista do jornal português "Expresso". Reuniu seus artigos no livro "Vida Independente: 1998-2003". Escreve quinzenalmente, às segundas-feiras, para a Folha Online.

(Foto de Ricardo Meirelles)

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