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08 fevereiro 2011

FELICIDADE

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada:
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa, que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

Felicidade de Vicente de Carvalho



Por Rogério Silva

Alguém me pediu para definir o que é felicidade. Respirei fundo, porque é preciso fôlego para uma tarefa tão árdua. É que a felicidade é sempre tomada de forma apressada como se fosse algo que estivesse num escaninho. Precisou, vai lá e busca. Ela está lá, sempre pronta e segura. Pode ser usada por qualquer um. Não tem contra indicação. Use e abuse.

Ao que parece é assim que a psiquiatria trata essa questão. Recebi por e-mail um texto de Richard A. Friedman, publicado no The New York Times. No artigo: “Autoconhecimento pode não trazer felicidade” ele sugere um pouco disso. Ao afirmar que, para muitos terapeutas, o autoconhecimento é um apanágio necessário para uma vida feliz, uma vez que a introspecção pode libertá-lo de suas manias psicológicas e promover o bem-estar.

Ele apresentou, dentre outro, um caso em que um sujeito “que tinha tudo para ser feliz”, era rico, mas fez da sua vida uma realização do desejo do pai, até que resolveu mudar o foco do desejo, militando no campo das artes que não o fazia rico, mas aí então encontrou A felicidade.

No final do texto Friedman se diz ser muito bom em tratar a tristeza clínica com remédios e terapia, mas admite que trazer felicidade é algo além. Talvez a felicidade seja um pouco como a auto estima. Acredita que tanto felicidade quanto auto estima requerem esforço. Pois, é impossível obter uma infusão de qualquer uma delas com um terapeuta.

Viva a psiquiatria! Que bom que existe uma farmacopéia...!

Há um texto, que volta e meia me reporto a ele, Alegria e felicidade na psicanálise de Emmanuel Carneiro Leão que proferiu uma aula inaugural na Formação Freudiana, ainda no século passado, em março de 1999.

Nesse texto Emmanuel enfatiza a necessidade do homem em diferenciar-se, num projeto, um vir a ser. Algo que a meu ver, implica num autoconhecimento. Para ele: “É esse escamotear-se, esse esconder-se do obscuro, do profundo, na superficialidade e na clareza, que marca sempre de novo os esforços, as investigações, as discussões do conhecimento. Do conhecimento humano, do que é que é o seu esforço e seu empenho por ser feliz e alegrar-se.”

“Envelheci na miséria e no opróbrio, não tendo mais que a metade do traseiro, e sempre a lembrar-me de que era filha de um papa; cem vezes quis matar-me, mas ainda amava a vida. Essa ridícula fraqueza é talvez um dos nossos pendores mais funestos: pois haverá coisa mais tola do que carregar continuamente um fardo que sempre se quer lançar por terra? Ter horror à própria existência e apegar-se a ela. Acariciar, enfim, a serpente que nos devora, até que nos haja engolido o coração?” É assim que a filha de um papa tomada como escrava relata o seu infortúnio em Candido ou o otimismo de Voltaire.

A morte é talvez a pior tragédia que um ser humano pode suportar, porque ela fala do imponderável, do irreparável e do indizível. Todos nós sabemos que nascemos e morremos, mas que somente as nossas idéias podem permanecer, já que o corpo desaparece.

Falar da morte, não é necessariamente falar da tristeza, embora esses atributos sejam, quase sempre, encontrados juntos. Ela deixa no lugar da vida, a perda e o vazio. A perda muitas vezes está ligada a tristeza que seria tomada como o negativo em uma determinada vivência, o que muitas vezes pode ser entendido como o desamparo a que todos os humanos estão sujeitados, desde sempre.

Além disso, muitas vezes nós sentimos uma tristeza, sem nos dar conta da origem do que nos faz triste. A alegria tomada aqui como simétrica da tristeza seria apenas o seu oposto. Contudo, no nosso dia a dia, deparamos com situações onde a interpretação do cotidiano nos leva a uma pluralidade de afetos que produz alegrias e tristezas ao mesmo tempo.

Essa ambivalência pode ser entendida como resultado do estado de ânimo. Em última instância, refere-se a aquilo que atravessa o nosso corpo.

Contrariamente a esse estado de ânimo, que tem por característica a passividade, ser ou estar feliz, implica numa atividade do sujeito. A felicidade, para ser atingida depende de um encontro, que pode ser entendido como a nossa capacidade de "alegrar-se". Alegrar-se, toda via, deriva do sofrimento que nos diferencia na posta da vida. Sofrimento que, tomado como positividade na experiência do humano, pode ser transformado em felicidade.

Aceitar o desamparo como fatalidade tem como conseqüência diminuir a busca da felicidade de viver, porque o desamparo é uma experiência que não deixa vigorar nada que tenha a possibilidade de dar satisfação e por isso mesmo, impede o processo de diferenciação. Entende-se aqui por processo de diferenciação a capacidade de alegrar-se.

No trabalho de análise, o analista não tem, a priori, nenhuma solução para o sofrimento. O que está recalcado e por isso mesmo irreconhecido, se expressa como sintoma e acha lugar para uma tolerância quanto ao estado da enfermidade. Mas, com Freud aprendemos que se esta nova atitude em relação à doença intensifica os conflitos e põe em evidência os sintomas que até então haviam permanecidos vagos, poderíamos facilmente consolar o paciente mostrando-lhe tratar-se apenas de agravamentos necessários, porém temporários. Todavia é preciso ter paciência para ouvir aquilo que se repete, se repete, se repete... e esperar que num tempo outro se faça a diferenciação capaz de produzir uma possibilidade de ser feliz.

30 dezembro 2007

ALEGRIA E FELICIDADE NA PSICANÁLISE

Por Emanuel Carneiro leão

Chaim Katz: A anti-felicidade, o desamparo e mal estar ontológicos dominam a psicanálise carioca; e o tema do fórum da Formação Freudiana do Rio de Janeiro este ano é alegria e felicidade na Psicanálise. Será isto possível? É, e achei que para abrir nosso "ano" hoje (04/03/1999), ninguém melhor do que Carneiro Leão, meu professor; ele falará o tempo que achar necessário, depois quem quiser perguntar, faça-o, livremente. Tomei a liberdade de gravar, porque nos ajudará a organizar um outro tipo de programa, desde a fala do Emmanuel. Quem Emmanuel é quem sabe sabe, quem não sabe ainda não merece. Então, não vou apresentá-lo.


Emmanuel Carneiro Leão: Boa noite meus amigos. Comovido com as palavras do Chaim, que é meu amigo desde que eu cheguei aqui no Rio pela primeira vez. Por isso é que tem essas palavras tão carregadas, tão de história, tão de uma amizade antiga, carioca, inaugural.

Bom, que essa temática é muito importante da história do pensamento ocidental, ela tem um peso de organização fundamental, mas por isso, como são as questões fundamentais e essenciais, são questões de desafio e não de solução. Quer dizer, não são respostas a essa pergunta e a esse questionamento que levaram o comportamento social e individual do Ocidente a caminhar para frente, a adiantar-se, a progredir, mas são justamente os obstáculos e a dificuldade, a provocação e o desafio dessas questões fundamentais que o fazem. Esta é minha modesta contribuição e colaboração aqui, nessa aula inaugural para a qual eu fui convidado, e pelo que agradeço de todo coração. Vai se restringir a abrir algumas dimensões de interrogação, a aprofundar o desafio e a provocação que nos trazem essas duas palavras articuladas por um e: felicidade e alegria, como questionamento filosófico. Anotei aqui algumas dimensões, alguns desdobramentos da questão e a primeira, digamos, experiência com que nos deparamos com essa questão da felicidade e da alegria é de que, sendo fundamentais as contribuições que essas duas palavras nos trazem, elas estão sempre sujeitas a serem tratadas com grande ligeireza. Significa o risco de um relacionamento apressado, ligeiro, e um açodamento superficial é muito grande quando se trata de felicidade e de alegria.

Por isso, se perguntarmos quais são as respostas que ao longo da evolução das biografias ocidentais e das histórias de comunidades ocidentais vêm sendo dadas à pergunta: o que é que é a felicidade, o que é que é-alegria?, observaremos que essa resposta tem sido de uma espantosa superficialidade nesse século. Por que? Porque questões fundamentais se acompanham desse risco de superficialidade, isto é, de serem tratadas de uma maneira ligeira, açodada. É porque na superfície do comportamento ou da cultura, na superfície é que se disputam os interesses, e é na superfície também que se exercem as dominações. Mas, questões fundamentais não são apenas superficiais, elas não somente desencadeiam os interesses e as provocações de dominação, pois tem também uma outra dimensão, uma dimensão de profundidade. A felicidade e a alegria não são feitas apenas do interesse de dominação. São também construídas e edificadas com a sua provocação, pela criatividade e inventividade do comporta­mento individual e coletivo, social dos homens.

Por isso, a superficialidade com que se costuma lidar com as questões referentes à felicidade e à alegria é espantosa e é justamente por isso que é espantosa essa superficialidade. Isto é, tanto a superficialidade quanto o espanto, constituem apanágio não apenas da felicidade e da alegria, como da condição humana e compõem o modo de realizar-se das comunidades humanas. Isto é, toda comunidade humana, todo comportamento humano é trabalhado, é atravessado pela tensão entre superficialidade e espanto. Este espanto provém das entranhas das realizações humanas. De ambos, da superficialidade e do espanto, participam todas as questões fundamentais, todo desafio de provocação e de diferenciação, as questões que se referem e dizem respeito ao humano, à condição humana, à singularidade humana de todos nós, dos homens. Assim, não é possível se obter um pouco de transparência, um pouco de encaminhamento ou de dificuldade, de obscuridade, senão tomando tanto a felicidade quanto a alegria pela profundidade de tudo que é desafio e provocação humana.

Persistir em enfrentar os desafios da condição humana é procurar saber o que é o humano no homem, em nós mesmos, nos outros, no esse outro, no esses outros; esses outros são os nossos outros, são os outros de nós mesmos e os outros dos outros. É esta, portanto e sempre, enquanto se persistir em enfrentar esse desafio, quando se supõe simplesmente que não existe outro, só existe o si mesmo, nada existe além do que sabe a transparência, a clareza da consciência a respeito do outro, enquanto se ficar preso a essa condição de "nós já sabermos o que é que é ser humano", pelo fato de sermos, nós mesmos, seres humanos e pertencermos a humanidade, a verdadeira questão e o desafio fundamental da felicidade e da alegria ficarão sempre para trás, às costas de qualquer empenho ou esforço de relacionamento. É esse escamotear-se, esse esconder-se do obscuro, do profundo, na superficialidade e na clareza, que marca sempre de novo os esforços, as investigações, as discussões do conhecimento. Do conhecimento humano, do que é que é o seu esforço e seu empenho por ser feliz e alegrar-se.

Ao contrário do conhecimento, impõe-se, portanto uma radicalização do relacionamento, pois, o conhecimento visa o que? Visa sair do obscuro para o claro, visa reduzir as dimensões de obstáculo, de provocação, de desafio para as dimensões do conhecido, do já trabalhado, do já absorvido. E esta atitude ou este propósito, esse esforço, têm o seu lugar e a sua razão de ser, mas não esgotam a condição humana. Não chegam, portanto a preencher, não chegam a satisfazer o cabedal de exigência das realizações em que todos nos sentimos empenhados.

Por isso, ao contrário dessa atitude se impõe uma radicalização do relacionamento com o esforço de buscar a felicidade e de alegrar-se.

Essa radicalização poderemos encaminhá-la, acompanhá-la ou senti-la através de uma pergunta simples: como é possível que haja este feito, o fato absoluto da felicidade? Como é possível haver alegria? Como se chega a ser trabalhado a ser impulsionado a ser atravessado e o sentimento de alegrar-se? Alegrar-se com que? Alegrar-se para que?

Alegrar-se de que? Talvez seja este um dos caminhos de se radicalizar, de se aprofundar o relacionamento com os fenômenos de felicidade e de realização humana na alegria. Este fenômeno de radicalização talvez seja capaz de ajustar-se à seguinte provocação: por que um ser natural, o homem se vê sempre de novo levado por si mesmo a estar num outro ser, a estar numa natureza, transformando-a em busca de felicidade e de alegria? Se se considera essa colocação abstratamente, abrem-se três possibilidades do homem estar na natu­reza buscando ser feliz, buscando alegrar-se com este estar com sua natureza.

A primeira possibilidade aconteceria em abstrato e dar-se-ia, se a natureza em que o homem esta oferecesse a ele apenas facilidades. Neste caso, o ser do homem e o ser da natureza coincidiriam perfeitamente, ou quase plenamente. Não haveria, assim, indiferença entre um e o outro, entre o si mesmo e o outro de si mesmo. O homem se esgotaria com ser a natureza e nada mais. Não haveria, portanto, a provocação, o desafio, o empenho de alegrar-se e de ser feliz, de buscar a felicidade. Tudo seria natureza. É o que acontece na nossa experiência, ou o que nós achamos que acontece em nossa experiência com os chamados seres naturais, com os fenômenos naturais. Isto significa que um ser natural, digamos uma pedra, não se realiza na diversidade, na diferenciação, nem pela diferenciação. E por isso ela não pode se distinguir por nenhuma diferença de sua própria natureza. Daí, não se colocar dentro da nossa experiência a questão da felicidade da pedra, a questão do alegrar-se da pedra. Não quero com isso dizer que se tenha a possibilidade de excluir da pedra esta condição de alegrar-se, pois qualquer que seja o esforço e o empenho de nos aproximarmos da pedra, é sempre nos aproximarmos do outro de nós mesmos. Portanto, no alinhamento uniforme e unívoco do homem com a sua natureza, o homem não poderia ter necessidade, seus desejos não se diferenciariam de sua satisfação. E por isso mesmo não poderia haver a experiência de desejo que nós temos, a partir da qual brotam o esforço e a busca da felicidade, o empenho e a realização da alegria. Para haver desejo é, pois, indispensável algum nível de insatisfação. O homem não poderia ser homem se não lhe faltasse descontentamento. Significa que o homem é um ser essencialmente descontente. Ele é um ser insatisfeito, não se satisfaz nem com o que ele é e não tem, nem com o que ele tem e não é. É sempre marcado não por esse trabalho, não de no desejo, não da insatisfação entre ele e a natureza, ele e a sua natureza, ele e a natureza outra dos outros, a natureza da natureza, a natureza criativa ou a natureza criada. Sem oferecerem resistência um ao outro, homem e natureza não se distinguiriam entre si. Não se daria nem mesmo a possibilidade de alguma desigualdade, pelo simples fato de não haver dois, mas um só. Alegria é sempre uma experiência do plural, esse plural não precisa ser sempre e necessariamente individual. Mas está sempre atravessado por uma cisão entre o si mesmo e o outro, entre a necessidade e a sua satisfação, o seu objeto de satisfação, o que é capaz de conservar e aumentar por transformação, por diferenciação, a insatisfação da necessidade, da demanda de necessidade. Estar na natureza equivaleria, nessa primeira hipótese, é uma hipótese abstrata, equivaleria a estar dentro de si mesmo.

Mas essa não é a única hipótese que se pode inventar abstratamente.

Pode-se fazer uma hipótese contrária a essa. A segunda possibilidade abstrata seria o inverso dessa primeira. A natureza não ofereceria ao homem senão dificuldades intransponíveis entre obstáculos que não poderiam ser vencidos, ultrapassados, nem ser transformados; nem transformado fora de si, nem transformados dentro de si. O ser do homem e o ser da natureza não seriam somente diversos e diferentes, mas seriam trabalhados por um antagonismo excludente. Também neste caso não poderia haver felicidade nem alegria. O homem não poderia estar na sua natureza nem na natureza do outro, nem por um instante. Pois todo e qualquer esforço de persistência seria um esforço fadado sempre a fracassar, antes mesmo de buscar qualquer empenho de realização.

Por isso, uma terceira possibilidade, também abstrata, embora se apresente como sendo concreta. Concreta porque nasce com a própria realização do empenho, da busca, do desejo de ser feliz ou da experiência de alegrar-se com a busca da felicidade. Alegrar-se com a busca da felicidade significa não ser totalmente, inteiramente feliz. Isso faz parte da felicidade, faz parte da experiência da alegria, assim como a insatisfação é constitutiva do processo de elaboração do desejo.

Ao estar na natureza, o homem se descobre inserido numa rede híbrida, emaranhada tanto de facilidades quanto de dificuldades. Toda a sua realização resulta de uma conquista desses dois poderes. O fenômeno, o processo mais radical de todos que conferem realidade à busca da felicidade e dão um perfil de realização à vida humana, é esta ambigüidade radical de se estar imerso num mundo de facilidades e de dificuldades. E que, por isso mesmo, é trabalhado pela dinâmica criadora da diferenciação, da busca das diferenças. E por que? Porque se o homem não dispusesse de facilidades, não seria possível viver e, em conseqüência, sobreviver. São as facilidades da natureza que lhe proporcionam o desafio de existir na busca da felicidade. De alegrar-se com essa busca, de alegrar-se com o impacto que lhe atravessa todas as entranhas, de buscar aquilo que não se tem, mas que se dispõe do empenho e da força de diferenciar-se, para poder se fazer a experiência de não se ter. Mas como esta proporção inclui sempre dificuldades, a possibilidade de sobreviver e de existir inclui sempre, a cada instante, a ameaça e o perigo do fracasso. Pois a alegria é o relacionamento com o perigo do fracasso em termos de criação, em termos de transformar o fracasso em realização. Agora se pode então perceber, dentro dessa perspectiva, porque a vida humana não é um estar inerte, passivo, mas um desafio de conquistar constantemente a sua sobrevivência, numa relação, numa busca incessante de felicidade, acompanhada pela alegria da transformação.

Assim, toda felicidade é sobrenatural, no sentido de estar além do que é dado como natureza, como natureza acabada, pronta, entregue. Significa que o sobrenatural para a realização da busca de felicidade humana é a diferenciação, a entrega de uma provocação criativa de diferenciação.

Portanto, o sobrenatural tem o sentido de estar além e acima do já pronto e acabado da natureza.

Esta experiência se faz fora da história ocidental, que é a nossa história, história em que fazemos a nossa experiência, mesmo a experiência da diferenciação, do encontro com os diferentes. Heráclito já lhe tinha dado uma extensão de totalidade quando ele fala da luta da diferenciação. Pois é esta luta que nos habilita a buscarmos o controle e o domínio, não apenas do que nós somos e temos, mas também daquilo que constitui o limite de nosso esforço de ter alguma coisa ou de ser alguma coisa, ou de buscar a realização de algum empenho. O exemplo dado aqui é o da pedra, que o seu modo de ser é o integrante da paisagem. Esse modo de ser integrante da paisagem lhe é dado pronto e acabado. Significa, em nossa experiência, que a pedra não tem de conquistar nem a paisagem, nem um lugar na paisagem, nem de diferenciar-se dessa paisagem e desse lugar. A pedra não conquista a sua condição de pedra na refrega de conflitos e de tensões, de empenhos com a transformação do fracasso, através da alegria. Para o homem, é que ser e combater se identificam.

Assim, o homem tendo que lutar com as dificuldades para transcender a natureza, o que define e caracteriza sua diferenciação ou sua diferença com o não humano é a busca da felicidade. É ter o ofício de criar a cada instante o próprio relacionamento. Ao homem, portanto, só é conferi da a possibilidade de ter a realidade de sua pró­pria alegria, de sua própria felicidade. A felicidade se conquista no combate das diferenças, pela diferenciação de suas experiências de alegria. O homem tem de ganhar a vida, como está escrito no livro do Gênesis, com o suor de seu rosto em todos os níveis de sua realização e não apenas no nível econômico do pão de cada dia, mas, sobretudo no regime da diferenciação e da diversidade de seus empenhos e de suas lutas, de seus conflitos de felicidade.

Então, é com o suor do rosto que o homem se torna feliz e se alegra com esse suor. E tudo isto porque o modo de ser do homem não coincide perfeitamente com o modo de ser de suas naturezas. É que o homem é feito de uma condição híbrida: em parte afinado, em parte desafinado com sua própria natureza. É ao mesmo tempo um ser natural e trabalhado por um empenho e um esforço de transcender, de ultrapassar, de não contentar-se com a sua natureza.

Aristóteles tem uma palavra que diz o seguinte: que o homem está numa fronteira entre duas coisas diferentes que se conflitam, que se combatem, que se embatem uma na outra. Ele diz que o homem é o fronteiriço real, um fronteiriço da realidade, que vive na interseção de natureza e sobrenatureza, que transforma tanto o natural quanto o sobrenatural numa terceira dimensão, dimensão esta que se torna a sua alegria, sua primeira diversão. Significa que o que há de espiritual no homem, o que há de mental no homem é sempre a sua natureza, mas é a sua natureza dotada e trabalhada por uma dinâmica de diferenciação, de transformação, de ir cada vez mais abrindo novas acolhidas para novas diferenças. O que ele tem de natural não se realiza por si mesmo. A natureza lhe é uma questão tão fundamental quanto o espírito, porque o espírito nada mais é do que a natureza movida por uma dinâmica de diferenciação. Por isso, o homem sente sua natureza como um desafio de transformação, numa realização típica e especificamente trabalhada por uma busca de felicidade. Por sua vez, a so­brenatureza, ele não a recebe pronta e realizada, mas como possibilidade de realização, como uma tarefa a ser criada e ser cumprida. O homem é sempre, em todas as dimensões e níveis, seu empenho de ser, ele é sempre um empenho, ou como numa palavra que no início do século se usava muito, um projeto, uma busca, um empenho, um projeto de diferenciação. E somente como projeto que ele vive e sente, assume e aceita as condições de sua experiência, os percalços e as peripécias de sua realização. A cada instante, portanto, nesse empenho é o que o homem sente o que ele chama de vida, no afã de cumprir esse projeto de diferenciação, de transformação. Tudo o que faz ou deixa de fazer, tudo o que é ou deixa de ser, acha-se sempre a serviço e se dá sempre em função desse projeto de diferenciação.

Mas não se deve confundir projeto com programa. Por que? Porque programa é uma combinação de possibilidades já decididas e realizadas, já prontas, já dadas, já operantes, já disponíveis. Projeto é uma aventura de criar possibilidades, de criar a diferença que se é na aceitação desse hibridismo das dificuldades e das facilidades. Se nós - estamos aqui reunidos, é porque aceitamos, de um modo ou de outro, que todo empenho que se fizer nos faz chegar a ser pessoal e comunitariamente, esse projeto de diferenciação que cada um sente e as­sume no que é ser, na sua maneira, dentro de seus limites, suas vivências e seus obstáculos.

Assim, na felicidade, o homem é uma realização que não tem realidade nem natural, nem sobrenatural, nem corporal, nem espiritual. Trata-se sempre de um esforço por realizar e buscar uma diferenciação. Ninguém nunca é tudo o que tem por isso todos aspiram e se empenham por conquistar o que lhes é dado ter, lhes é dado ser, lhes é dado ser e ter na diferença, na diferença com o outro, na diferença consigo mesmo, É essa a condição de toda e qualquer busca de felici­dade que, como se diz na passagem do salmo, que alegra o coração do homem, uma realização única e sem repetição na totalidade do real e no universo das realizações.

Por esse empenho de busca de felicidade, o homem se faz mais estranho para si mesmo, para os outros. Uma realização cuja realidade não está no que já é, mas no que ainda não é. Uma realização que consiste em nunca ser tudo que sua capacidade de diferenciação lhe confere. O conjunto, os modos de ser que se reduzem ao que cada um já é cuja possibilidade de diferenciar-se coincide com a atualidade de um empenho de uma condição já dada, é o que chamamos de natureza.

Neste sentido, a busca de felicidade se distingue da natureza que visa assumir a pretensão de ser, ao mesmo tempo, identidade com a natureza na diferença, na diferenciação da natureza. Cada época, cada povo, cada indivíduo molda e modula de modo diferente a pretensão de felicidade.

Significa a pretensão de projetar a sua diferenciação e realizar um projeto de vida, que é como se fosse uma palavra que só é dita uma vez e nunca mais se repete. Agora talvez isto se compreenda, mas com certa obscuridade, pois a obscuridade não é uma deficiência, mas promessa de diferenciação. As suposições e os pressupostos desse fenômeno radical que são a busca da felicidade e o alegrar-se com essa busca, por não ser totalmente presenteado, como um dom recebido feliz, a felicidade. A felicidade como um dom uma degradação, é, portanto a tristeza da realização humana.

Existir consiste em realizar o projeto do que somos e não somos, dentro de determinada integração do processo diferenciador de nossas possibilidades, que não nos são dadas, mas que devem ser conquistadas. Por isto, não se pode escolher de antemão a felicidade em que estamos empenhados de alcançar, de buscar. É que nós já nos encontramos, desde sempre, dentro de um esforço, de um movimento, dentro de um processo que perfazem a ordem de nossa dife­renciação. Este processo, esta ordem, não é apenas a paisagem que nos cerca, mas também a nossa própria história, o nosso próprio corpo, nossa própria condição, nossa própria mentalidade.

Mas tudo isso, eu não tenho como coisas dadas, eu só os tenho como trama de diferenciação.

O projeto que aciona essa conquista de felicidade impõe seu perfil a tudo que recebemos e encontramos em nossa experiência, em nossos percursos. Assim, a natureza não é senão o conjunto de todas as nossas condições de produzir possibilidades ou descobrir limites que conferem ao nosso projeto de diferenciação, não somente o seu sucesso, ou a sua perspectiva de sucesso, mas também, o que ele tem de sal, de gosto, de sabor.

A felicidade é o acervo dessas experiências da busca do alegrar-se com a diferença, pois o alegrar-se com a diferença implica em aceitar e transformar o que não se tem num caminho e num movimento de conquista de novas realizações e novos projetos. E assim, felicidade representa uma experiência de conquista da diferenciação, que continuamente a nossa alegria nos trás e nos assegura no elan de, mesmo no fracasso, mesmo no cansaço, mesmo na desistência, nos animar com novos projetos de realização e nova busca de conquista do que ainda não somos, mas já temos.

Muito obrigado.

DEBATE

Hélcio Aranha: Procurando no Lalande (Vocabulário de Filosofia) o conceito de felicidade, descobri que a palavra em alemão era a mesma que o conceito de beatitude de Espinosa. A palavra é GIückseligkeit.

Emmanuel Carneiro Leão: A experiência das palavras das línguas é uma experiência ao mesmo tempo banal, para os sujeitos membros daquela co­munidade lingüística e uma entrega de uma tarefa de transformação, de diferenciação. Por isso, acompanhar as nuanças, acompanhar como que as integrações das várias dimensões que, no uso da palavra, no uso da língua, se escondem, é uma maneira de recuperar o que é entregue por uma tradição.

A palavra glück, é uma palavra indo-européia, que quer dizer a opulência, mas a opulência que se conquista que se tem que se recebe através da aceitação dos limites. Significa que as possibilidades são dadas, no sentido de todo mundo pertencer e se integrar nela, mas é o limite dessas possibilidades que faz com que entremos na opulência desses recursos e dessas condições. Por isso, a palavra glück significa aquela opulência doada pelos limites. Quais são os limites? Limite dos outros, limites de sua própria existência, você começou num dado momento, você não pode tudo, você imagina mais do que consegue realizar.

Então, isso, esse limite que dá que doa as possibilidades que cada um se sente destinado para si, é isso o que faz a pessoa ser feliz.

Quando se diz Glücklichsein, esse Sein é a felicidade doada pelas possibilidades que o limite nos confere. Quando alguém, numa dada situação, fez uma experiência trabalhosa, uma experiência dolorosa de conquista, então uma antiga popular expressão do alemão é que a felicidade - a Sein - lhe seja Seinglücklich - isto é: a felicidade lhe seja o limite da opulência, da doação, da riqueza, da conquista. Por que Espinosa? Por que Espinosa tem uma capacidade de reduzir as negações dos limites para a própria natureza, quer dizer, a natureza é que decide se temos ou quais são os limites que nós temos que transformações nos são dadas. Por isso, ele vê uma natureza criadora, uma natureza geradora de possibilidades, a verdadeira felicidade, a verdadeira congratulação, a verdadeira beatitude. Espinosa escreve em latim a palavra que ele usa é beatitudo e não é felicitas. Esse bea é uma antiga palavra indo-européia, que o latim tem, e que significa "o bem dado". Mas ele é dado como? Não é dado graciosamente. Ele é dado na conquista do trabalho, do esforço, isto significa que você se mede no esforço. Se mede com o que? Com o obstáculo, com o limite, com a retirada da possibilidade. Isso é que marca a diferença entre beatitudo e felicitas.

O grego tinha um par de palavras, como todo indo-europeu tem esse par, para dizer felicidade e alegria. No grego tinha duas palavras. Uma é macari, como um antigo arcebispo de Chipre, Macários, que significa feliz. A palavra macarios é o adjetivo de macarós. Macaréus, no clássico, só era usada para os deuses; por que? Para os homens se dizia eudaimon, o homem que tinha bom (?) espírito (?), bom protetor, bom anjo. E por que essa diferença? É porque para os deuses, a demanda da necessidade são eles mesmos. Eles são sua própria satisfação, o próprio objeto de satisfação da demanda. Isto é o macaréus. Aqueles que não tem a experiência do limite na sua demanda, a sua natureza só demanda, só requer e estabelece exigências para o que ela pode satisfazer. Ela não precisa do objeto externo de satisfação. Isso é a experiência grega do que é deus, do que é que é os felizes, os sortudos, os beatos.

Em que no latim, a palavra felicidade diz também opulência. É o mesmo radical que diz filho, filhos. É o mesmo desse felicitas, é o mesmo radical. Por que? O que é o filho? Filho é aquele que mama, por isso, filhos e felatio, é o mesmo, felare. Felare quer dizer mamar, chupar.

Então daí, o filho e felare têm o mesmo radical, quer dizer, é a experiência de receber o objeto de satisfação, o alimento da satisfação, de fora. Por isso é feliz. É aquele que tem o objeto de satisfação.

Tem uma frase de Virgílio que diz: quem é o feliz? Feliz é aquele que fez a experiência do que é a condição, a causa, o determinante de sua satisfação, sua satisfação quanto às coisas. Por isso, a passagem da geórgica do Virgílio é: "félix qui potuite", "feliz é aquele que pode ou que pôde", "res", das coisas, "cognoscere rationes", conhecer causas.

Aquele que conseguiu que pôde fazer a experiência do que é a causa das coisas. Toda a questão aí é essa causa, causa das coisa.

Glaucia Corbineau: Eu queria saber o que o senhor acha se é possível pensar em angústia de alegria no trágico, na tragédia. Seria justamente o lugar em que seria exposta a questão do trágico em Sófocles, essa diferenciação, essa cisura, essa separação dos limites entre o divino e o humano.

ECL: É, a experiência da tragédia; e por que chamou-se isso de tragédia? Porque na experiência grega, os animais são animais totem e o animal totem de Dioniso é o bode. Por isso a tragédia é o "canto do bode". O canto do bode não se refere ao animal bode que nós conhecemos; é o totem da experiência de que o fracasso, a desdita, a destruição, a derrota podem ser transformados em diferenciação. E toda a experiência da tragédia é levar o fracasso, o destino, até o máximo de destrutividade, para daí se recuperarem novas formas de diferença, novos caminhos de diferenciação.

Donde a experiência da tragédia como sendo o lugar e a alavanca de se conseguir recuperar novos níveis, novas estruturas de diferenciação. É este um dos sentidos da auto cegueira de Édipo, pois o nível em que ele está até então, já não lhe serve mais. Édipo começa a descobrir diferenças por relação aos outros. O outro é quem? O outro é o pai, o outro é a mãe e o outro são os filhos que ele teve com Jocasta.

Essa dinâmica da tragédia é a tragédia da diferenciação. Nós temos um intérprete de Édipo rei, que diz que sua tragédia não é a tragédia da ignorância, do desconhecimento, mas a tragédia da diferenciação, a tragédia que caminha para produzir o novo. Ele a compara com Fênix, que se levanta das cinzas, que se recupera das cinzas, que é um dos sentidos do que constitui o conto de Dioniso. Existem vários Dioniso, um deles é o chamado Dioniso Zagreu, aquele que foi espedaçado, que foi cortado, fragmentado. E quando chega o máximo de fragmentação, é que ele começa a se recuperar, começa a se recompor com novas possibilidades de realização. É o chamado Dioniso Zagreu. É nesse sentido, que essa interpretação do Édipo rei procura entender a tragédia, essa tragédia na sua versão clássica do Sófocles.

Chaim Katz: Emmanuel dava aula numa época em que a antipsiquiatria era dominante aqui, entre os psiquiatras mais libertários. Num sentido político importante e positivo, se postulava que a loucura não deveria ser curada, mas acompanhada, que a tarefa do psicoterapeuta era ir junto com aquele que sofre a loucura, ao ápice da sua viagem. Eu queria lembrar o diário de Mary Barnes que foi muito importante, para alguns de nós há trinta anos. Mary Barnes, louca inglesa, que se tornou depois pintora de renome, teve ajuda de seu psiquiatra para ir aos limites de sua dilaceração. Mas, como se aprende aqui, não é uma destruição de aniquilamento, mas de possibilidade de refazer. Ou seja, não transformar a loucura em psicose e acompanhar a viagem do louco: Ou seja, não se trata de reprogramar alguém, mas de seguí-Io no seu projeto, diriam os antipsiquiatras. Acompanhar alguém nessa viagem é seguir seu projeto, andar junto com o que não insiste bem e nem se autoriza, para produzir diferenças no que os psicanalistas chamamos de processo transferencial. Fica apenas um aponte clínico, porque o Emanuel fala numa linguagem à qual nem todos têm acesso aqui, mas que determina outras direções técnicas não reprodutivas, possibilidades criativas de diferença.

Maria Helena Junqueira: Quando você fala na trama de experienciação ao longo da sua fala, eu escutava muito as ressonâncias dessa palavra. Não me parece que essa palavra seja um conceito, mas algo que também entra na própria trama, constitui essa trama. E quando você falou que, não somos, mas já temos, eu fiquei pensando essa diferenciação e alguma coisa que me parece que é temporal, quer dizer, o projeto posto em cima de algo que já se tem, mas não é. Queria entender melhor isto.

ECL: É porque essa nossa possibilidade de ter se faz tem dois níveis. Num nível você tem o livro na mão, caderno na mão, então, o caderno é seu. Mas esse ser seu do caderno marca sempre uma distância entre você e o caderno. Então esse nível de ter, nem sempre chega a transformar o sujeito que tem o dono do caderno não se transforma em caderno, no que significa o caderno, na função que exerce o caderno. Então significa; os nossos níveis de ter, eles são como que o arranque, os condutores dos processos de diferenciação que temos de conquistar. Tudo o que já temos, mas na medida em que ainda não conseguimos que aquilo que temos nos diferencie, significa que o ser daquilo que temos está caminhando atrás da busca de ter cada vez mais. Na nossa sociedade ocidental contemporânea, se inverter a situação que significa, se eu tiver tudo ou tiver o maior número, maior quantidade de coisas, posso dispensar ser aquilo que eu tenho. O que marca a busca da felicidade é não separar numa subordinação nem o ser ao ter, nem o ter ao ser. Significa que eu tenho de sempre sofrer a diferença e a integração de ter e ser. Isto faz parte de nossa conquista de felicidade e quando o aceitamos isso nos estimula nos abre novas possibilidades, possibilidades que antes não pensaríamos que estivessem à nossa disposição. Não estavam à nossa disposição antes, nós criamos essas possibilidades e as colocamos à nossa disposição. Por isso, essa maneira de se colocar as relações entre ter e ser, que nem tudo que nós somos nós temos, significa que temos sob nosso controle, sob nossa decisão, sob nossa determinação. E nem tudo que nós temos somos, porque só a integração dos dois que nos abrem possibilidades não de sermos mais poderosos ou mais opulentos do que antes, mas de nos empenharmos em novas diferenciações, em descobrir novas áreas, novas regiões de diferenças.

Acho que essa questão da pluralidade como cultural é a questão da diferenciação, pois há uma indiscutível hegemonia da cultura ocidental.

No entanto, a própria cultura ocidental começa a fazer a experiência de que essa hegemonia é o seu calcanhar de Aquiles, é a maneira de parar a diferenciação, de ter um limite que não dá conta de outras possibilidades. Outras possibilidades de realização do humano, e o embate e o contato com outras culturas é que vai abrindo um espaço, uma região de conquista de novas diferenças. Daí os conflitos, a violência que faz parte dos embates culturais. Não precisa ser usada uma violência física, mesmo que tenha sempre a violência física. Mas, a máxima violência é aquela que obstrui a passagem das diferenciações.

Daniel Kupermann: O senhor poderia fazer uma referência ao riso, como uma das mais principais e corriqueiras facetas da questão da alegria, porque na referência da Gláucia à tragédia o senhor fez uma associação com Dioniso. Parece-me que a comédia também esta­ria referida ao culto a Dioniso. Então, como é que se colocariam as manifestações corriqueiras de alegria e felicidade destacando nelas o riso?

ECL: Tanto a comédia quanto a tragédia são cultos de Dioniso. São como expressões do culto a Dioniso, digamos do Dioniso fragmentado, que se recompõe de seus próprios fragmentos. Não é para recompor no sentido que ele era antes, mas de novas formas de possibilidades de ser Dioniso.

Mas isso implica fazer a experiência de que, quando Dioniso está como que integrado, está composto, ele tem sempre acompanhando o seu sucesso da sua integração, da sua composição, a empáfia de achar que aquela composição exaure todas as possibilidades. Quando ele se fragmenta e se restaura de novo, então o riso é apenas a celebração, a comemoração de que nenhuma composição, nenhuma integração exaure as possibilidades integradas. O riso celebra isso, por isso há como que uma modalidade de se procurar apontar novas formas de integração e o aparecimento de outras possibilidades através da expansão do riso, porque o riso é essencialmente expansivo de si mesmo, para acolher novas condições que antes não tinham hora nem vez.

Para que haja novas possibilidades de integração, de realização, de relacionamento, é preciso uma expansão, por isso sempre as comemorações, as grandes dionisíacas, as grandes comemorações de Dioniso eram ao mesmo tempo, acompanhadas por uma tragédia e por uma comédia. Por que? Há um comentarista de Sófocles que diz o seguinte: a comédia serve para abrir as tragédias do outro ano, da outra Dionisíaca. Isto é, para dar como que indicações, aberturas, en­dereçamentos para novas tragédias.

E tem uma passagem das Leis de Platão que diz o seguinte: as festas de Dioniso foram dadas aos homens para eles não sucumbi­rem nos fracassos de seus empenhos de conquista e realização de seus projetos, de seus propósitos. Por isso, as festas de Dioniso servem de revigoramento para novo esforço, dado os fracassos que sempre acontecem no desempenho de buscar realização.

Ai vem o que se falou das Musas, porque sempre são companheiras de Dioniso. Essas musas são as musas da alegria, as musas da comédia. Elas dançam para que os imortais não se esqueçam dos mortais. Elas podem dizer tanto a verdade quanto a mentira, pois a sua dança equilibra-se entre esses dois extremos. A Musa pode dizer a verdade, o real, em forma de mitos que são eminentemente falsos, evidentemente mentirosos. Elas dizem: nós temos a condição de dizer a verdade em forma de mito, em forma de mentira, portanto.

Atalia Fontes: Professor! a sua fala agora, remetida à mortalidade e imortalidade, me fez lembrar a questão da morte para o homem. E ouvindo a sua fala, entendo que a questão da busca da felicidade me pareceu especialmente a entrada da vida, das possibilidades de criar, de renovar. Mas o homem deseja morrer também, além de desejar ser feliz. O que o senhor diria, dessa busca também da morte, da entrada da morte?

ECL: A palavra morte, ela diz o que? Ela diz a falta. Mas essa falta, a palavra ambrosiana diz que os deuses eles são imortais porque bebiam ambrosiana, que é esse brosiana, esse a, esse? privativo e bros (?), morte. Quer dizer, a imortalidade é um dom de uma porção, de uma energia, de um filtro que elimina sempre a morte. Por que? Porque pertence à vida sempre a morte. A morte não é um fracasso da vida, mas o seu sucesso. E aquela que aciona o processo de superar novas limitações. Significa que morremos e temos a alegria de viver porque morremos. Não é que a morte seja a tristeza, a negação da vida. A morte é também o fazer parte da realização da vida. Então significa a celebração, aliás, Rilke tem uma famosa passagem que diz o seguinte: quem foi destinado para celebrar, vive e morre como o minério que nasce e que volta para a pedra. Então essa, digamos essa não exclusão, não separação entre vida e morte não vai marcar a experiência humana de sobrevivência. Estar sempre sobrevivendo significa estar sempre trabalhado pela limitação da morte, pela impossibilidade e pela possibilidade.

Significa que o que me é impossível é o que me restitui a positividade do possível, o que me dá a possibilidade do possível. Essas forças são as cargas originárias da vida, são as forças que fazem morrer, são as forças da própria morte, quer dizer, nós não morremos numa determinada doença, numa determinada condição, aquela condição constitui uma conquista de nossa própria vida.

Daí a alegria de viver já ser a alegria de celebração da morte. Se não houvesse essa possibilidade de alegrar-se com a morte, não nos alegraríamos com a vida. A aceitação da morte pertence à alegria de viver. Bergson diz que se não nos relacionamos com a morte de alguma maneira, nunca iríamos ter condições de superar os limites e as ameaças de destruição da vida.

Claro que para nós como indivíduos, a morte representa em determinada etapa ou nível de vitalidade, não o que nos contradiz, não o que nos provoca à destruição e por isso colocamos os seres mortos fora do convívio. Os cemitérios são fora da cidade, fora do convívio, como os doentes incuráveis, os doentes contagiosos que também são colocados fora do convívio. São como os que estão em quarentena. A morte é de tal maneira inerente à condição de vida que ela está sem­pre em quarentena, sempre colocada fora da convivência. No entanto, essa modalidade de colocar fora da convivência é a maneira de não sucumbirmos à experiência de que pertence à vida a celebração da morte.

Rogério Silva: O desamparo colocado como fatalidade, seria então alguma coisa fora do projeto de diferenciação?

ECL: Ou seja, o que inviabiliza o processo da diferenciação. O desamparo como fatalidade é a negação da morte, é não aceitar a morte. Tem como conseqüência diminuir a busca da felicidade de viver, da alegria de viver. O que significa o desamparo? A experiência de que não existe nada que tenha a possibilidade de nos satisfazer. No Evangelho, conta-se que o Cristo foi tomar água e tinha uma mulher, uma samaritana que foi buscar água no poço. Cristo lhe pediu um pouco de água e ela disse: você é judeu, como está pedindo água a uma samaritana? Disse-lhe Cristo, é porque eu tenho uma outra água, água diferente dessa. Porque essa você bebe e depois tem sede. Eu tenho uma outra água, eu conheço uma outra água que quem bebe dela não tem mais sede. Isso significa essa diferença que quer marcar entre e água lustral, eterna, da vida eterna, significa excluir a morte, é a maneira do desamparo fatal. É a maneira de dar o desamparo fatal. Essa água lustrai é como se fosse a parada de qualquer diferenciação.

Leonardo de Castro: Professor hesitei um pouco em fazer essa pergunta, mas me parece que o conceito de felicidade que o senhor está propondo é um tanto quanto filosófico e talvez um pouco espiritualizado. Eu queria perguntar como fica ou qual é o espaço dado à felicidade mais mundana, como ao futebol, ao carnaval, a dança. Por outro lado, em relação ao que o senhor falou sobre a felicidade não poder ser um dom. Mas ela não pode, talvez, parecer como um dom, quer dizer, não há uma operação de desconhecimento implícito no processo de produção da felicidade?

Particularmente nessa felicidade que eu chamaria de mundana? Como é que isso ficaria?

ECL: A diferença entre felicidade mundana ou espiritual, não mundana, essa diferença é como se fosse um obstáculo de conquista da felicidade, de busca da felicidade. A ·felicidade é tanto mundana quanto não mundana; significa que a felicidade mundana não é toda a felicidade, a felicidade não mundana, espiritual ou o que fosse não é toda a felicidade. Daí a necessidade de que o processo de conquista de novas diferenças, de novas realizações, um processo que seja mundano ou não. O mundano é uma determinação de conteúdo da felicidade. O que se apresentou aqui era tirar a questão da felicidade e da alegria de conteúdo, seja desse mundo ou de outro mundo, seja do mundano leigo ou do espiritual idealizado. Isto é, qualquer que seja o conteúdo, ele é atropelado pelo processo de diferenciação que aciona a busca da alegria e da felicidade. Então, se alguém tem na própria mundanidade, quer dizer, no ser mundano a busca de sua diferenciação, não é por isso que ele não está qualificado para ser feliz. Feliz­mente quer dizer felicidade.

Chaim Katz: Quero agradecer ao professor Carneiro Leão, que, com o brilho habitual, me recordou do tempo em que era seu aluno: passei o tempo todo anotando e intensificando meu pensamento. Queria também agradecer às vossas perguntas estimulantes e vos convidar agora para o nosso festim permanente-descontínuo. Temos entre nós uma psicanalista muito especial, a Vívian, que a cada seis meses nos propicia um banquete árabe. O que prova, entre outras coisas e no mínimo, a possibilidade da busca da felicidade comum enquanto investimento entre judeus e árabes, cristãos e ateus.

Transcrição de Atalia Fontes