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19 maio 2012

REPETIÇÃO

vive incerteza, mas não aceita inconstância
dissabor permite, apenas, provar a dor do amor
o encontro solitário como um celibatário
na intimidade busca o prazer contido.


ah se não fosse possível ao pensamento,
distraído em sua forma, traído em seu amor,
repetir a dor de viver
no ato contínuo e repetitivo da impossibilidade!...


de repente o alívio prazeroso eclode!
o cansaço toma o corpo constrangido
cujo pensamento perde-se por hora
para encontrar-se mais tarde...


noutra historia, depois outra, outra e outra...
busca penosa e incessante do amor impossível
repete o gesto como um moto perpétuo
outra incerteza, outra inconstância, outra dor.

03 setembro 2011

ENTRANHAS DA ALMA

Roupas sujas, usadas, molhadas,
abandonadas
no canto do banheiro
amontoam dores, odores e favores.

As crianças aditam muita sujeira
de terra, doces e traquinas.
Os adultos, o suor da lida,
preocupações e insucessos.

Mulheres, desamores adormecidos
choros calados e frustrações.
Nos jovens, desencantos, hormônios,
desejos incestuosos ou luxuriantes.

Elas guardam muitos segredos, as vezes.
Paixões, equívocos e desapontamentos.
Sujas de uso, suor e poeira

que Rita colhe, recolhe e acolhe.

No tanque com água e sabão:
ensaboar, esfregar, lavar.
Na água suja
misturadas ao sabão.

Limpa
todas as dores enxaguadas.
Escorrem como lagrimas,
as mágoas e os ressentimentos.

Penduradas
à brisa leve do ar,
recebem bênçãos
compaixões e esperanças.

Os lençóis guardam ainda segredos de alcova.
Toalhas de mesa, manchas de gordura,
de café e leite permanecem.
De banho embebidas do corpo, a pureza.

Rita, de olhos acanhados e gestos tímidos,
parece conhecer todos os gemidos,
gritos, sussurros e risos,
contidos nas entranhas das almas!

12 novembro 2010

UM SUPOSTO PLÁGIO


Um e-mail de Marcio* dirigido a um certo amigo (eu recebi por e-mail).



Acho que você vai gostar. O Ferreira Gullar anda dizendo cada coisa! A última foi essa acusação (pouco honesta, inclusive) de plágio. Andou atacando a reforma que humanizou a psiquiatria no Brasil e deu uns apoios "esquisitos".

Há alguma beleza no que aí vai e, se achar digno, passe adiante na sua rede. Não tenho muitos amigos capazes de apreciar o que aí vai. Com um abraço e lembranças a todos, Márcio




CARTA ABERTA AO POETA F. GULLAR! (sobre uma polêmica em torno de um SUPOSTO plágio)

Quem duvida, poeta, que você é o maior poeta vivo do Brasil. Temos grandes letristas (que não deixam de ser poetas), mas o herdeiro de nossa muito rica poesia do século XX todos reconhecem em você.

Isso, entretando, não lhe confere o monopólio da inspiração poética nem o direto de acusar de plágio alguém que teve uma inspiração, digamos assim, parecida com a sua. O ataque que você tem desenvolvido contra o compositor O. Montenegro não me parece estar de acordo com a sua reconhecida generosidade. Além disso, convenhamos, as semelhanças entre seu poema e o do compositor compartilham apenas a inspiração poética:

"Uma parte de mim/é todo mundo/outra parte é ninguém:/fundo sem fundo" (Traduzir-se F. Gullar).

"Porque metade de mim é o que eu grito/Mas a outra metade é silêncio..." (O. Montenegro)

Como você sabe melhor do que ninguém, a poesia é, antes de tudo, a palavra (Mallarmée) e não o tema ou idéia em si. O ser/estar dividido é quase uma condição para a poesia, não é mesmo? Esse tema da divisão interior é muito recorrente na poesia e você não foi o primeira a tratar dele.

Fiquei pensando em como M. Bandeira reagiria à letra do samba de M. da Vila, comparando-o ao seu:

"Sonhei ter sonhado/Que tinha sonhado/Em sonho lembrei-me/De um sonho passado/O de ter sonhado/Que estava sonhando/Sonhei ter sonhado/Ter sonhado o quê?/Que tinha sonhado/Estar com você..." (TEMAS E VOLTAS, Bandeira)

"Sonhei/Que estava sonhando um sonho sonhado/O sonho de um sonho/ Magnetizado.../Sonho meu/Eu sonhava que sonhava..." (M. da Vila)

Como se pode ver, há muito mais semelhanças, e não apenas de inspiração temática.

Não resisto a imaginar como reagiria o "bardo de Recife" ao ler estes versos. Certamente, perguntaria ao sambista (também grande poeta) se conhecia o seu poema. Haveria duas possibilidades: se a resposta fosse SIM, Bandeira ficaria muito feliz em ver como o seu poema teria inspirado tanta poesia e, mais ainda, pela beleza da música. Talvez até dissesse (ele que adorava ser musicado) "AH! Se eu tivesse essa inspiração musical...!!!" Ele, que considerava a música a mais suprema dentre todas as artes certamente reverenciaria esse artista do povo.

Se a resposta fosse NÃO, talvez gostasse de ver como a inspiração pode atingir dois poetas com a sua mesma "espada de fogo", especialmente em relação ao sentimento de que esta vida é nada mais do que um sonho.

Quem sabe ainda se não lembraria dos versos de A. de Musset: "O solitude! O pauvreté! " que o inspiraram a escrever "Ó pobreza! Ó solidão!" (Cantilena).

E da criptomnesia ou plágio inconsciente, você já ouviu falar disso, poeta F. Gullar?! Esquecemos datas, nomes...mas o sentimento que algum poema nos causou pode permanecer e até nos inspirar, quer dizer aos poetas, um novo poema, sem qualquer intenção de plágio. Não foi o caso, mas essa possiblidade sempre existe e deveria ser motivo de orgulho e não de acusação. Sempre há tempo para pedir desculpas.

*Márcio Amaral, vice-diretor do Instituto de psiquiatria da UFRJ

02 maio 2010

SOBRE O TEMPO


reflexão sobre o tempo

e se perguntar ao tempo
quanto tempo que o tempo tem?
o tempo te dirá
que o tempo tem, o tempo
que o tempo tem!

isso todo mundo sabe,
mas desde quando?
há muito tempo,
diria o tempo.
buscando o tempo que ainda não havia.

mas pelo tempo que percorria
deveria ir mais depressa!
mas por que correr
com o tempo?
o tempo que espere!

ele tem mais tempo que eu!
afinal ele está aí o tempo todo.
eu é que ia seguindo devagar
no passo do meu tempo
percorrendo as minhas distancias

de ontem, de agora, ainda...
mas não saberia como percorrer o amanhã
e o tempo me dizia: calma!
amanhã a gente vê!
na minha calma esperei.

o amanhã,
a vinda,
a busca,
e nada havia.
não havia o havia!

não parei e engoli
em seco o hoje.
vou dormir.
o amanhã,
amanhã a gente vê!

03 abril 2010

MARAVILHA EM M





maravilha em m

minhas mãos mandam muito.
mandam morder o mundo
mudando o mistério
dos monstros.

mascarados miram mandatos,
maltratam maridos e mulheres,
mulatos e matutos mamelucos.

maltrapilhos maldizem
a malandragem malvada
dos muitos miseráveis metidos.

mães marias, moças marlenes e
meninas marílias mentem menos.
marcam musas musicais,
melodias e missas menores.

mas minhas mãos mandaram
mexer, misturar e molhar
moldar medidas mínimas
das maravilhas mutantes.

28 março 2010

VERGONHA

sobre a vergonha

essa vergonha guardada no peito,
corta a carne de forma letal.
se isso em si é um defeito,
exclui da vida o real.

é preciso ser livre e incógnito,
no mundo em que a massa encobre.
pois a vergonha não é um grito do cógito,
nem a máscara de uma vida nobre.

é talvez uma possibilidade imovente
de profunda tristeza calma
grudada num peito ardente!

seria covardia pois, calar a mente
escondendo no fundo da alma
o que de mais pungente se sente?

08 março 2010

ÀS MULHERES DA MINHA VIDA



o dia internacional da mulher
é uma data importante. historicamente sabemos.
mas afetivamente esquecemos
no dia a dia.
neste ano resolvi refletir
sobre todas as mulheres que, de algum modo,
me trouxeram até aqui
e prestar a minha singela e justa homenagem.
à minha mãe, minhas irmãs, tias e primas.
professoras, coleguinhas da escola
infantil, na juventude e na fase adulta.
primeiras mulheres da minha vida.
à minha esposa, minha filha, sobrinhas,
cunhadas e amigas,
Audrey Hepburn minha “bonequinha de luxo”,
de Elizete Cardoso a sua voz me encantou,
de Lou Andreas Salomé a sua imagem e ousadia,
com Marta Medeiros aos domingos na revista,
Mariá, minha primeira analista,
Nazareth que servia o cafezinho
e muitas outras mulheres povoaram
a minha vida e o meu imaginário
como minhas namoradas reais ou virtuais.
devo a vocês a minha vida afetiva,
profissional e intelectual, a minha existência,
a formação da minha subjetividade.
todas vocês merecem meu respeito e devoção,
pelos seus valores individuais e pessoais.
e exemplos de coragem e virtude.
no seu dia, meus parabéns!

28 fevereiro 2010

AQUELE



aquele

nem todos os que te amam,
te querem. nem todos que
te querem, te amam. nem todos
que te dizem sim, concordam contigo.
ou todos os que te olham, te vêem.

aqueles que te marcaram,
que te buscaram,
te maltrataram,
ou te xingaram....

ou aqueles...
ou apenas aquele...
não importa!

merece ser visto de outro modo.
talvez do modo como te vê.

16 fevereiro 2010

QUERER VIVER...


querer viver...


traído pelo seu corpo, quer.
chorar sem tem lágrimas,
correr como? se não tem pernas.
comer, sem dentes... tem?
e ler, não tem olhos para isso
(onde estão seus óculos?).
ah, aquela música!
não a ouve!

seus pensamentos!
escrever..., mas não tem palavras.
aquilo que... aconteceu...
não se lembra... como foi...?
sua memória.... onde está?
ah, aquela música!
não ouve mais!

o rosto... pelo menos isso!
seu coração não o vê mais!
já não bate mais descompassado!
o rosto é uma bolinha azul
como no perfil do MSN.
aquela música!
musica deles, nunca mais ouviu!

ali, deitado olha o teto
branco e não azul,
as vezes rostos de pessoas.
não as reconhece. ou conhece? sbe-se lá!
ao longe um ruído surdo, como se
uma gota entrasse em si.
ping-ping-pong-pong-pon...
a música!
aquela..., nunca mais....

30 dezembro 2009

A TEIA



assim como a aranha,
tece a vida.
suporte de uma odisséia
que varre o pensamento
para longe, numa quimera!
tece devagar
como quem tece
uma renda, trançada,
ou uma prenda ousada.
só espera que um coração
caia nela como um mosquito.
então o captura e o ama
até a última gota!
assim como quem tece a teia,
tece o amor!

27 junho 2009

SER POEMA

escrevo pelo prazer de romper com as palavras
prazer de gritar fonemas, silabas,
ideogramas, código Morse, talvez.
gritos feito o ferro em brasa que marca na pele.
tinge como tatuagem no livro de cabeceira
o primeiro escrito na pele. marca indelével.

olho pelo espelho e vejo símbolos,
palavras, rabiscos, meus ódios,
meus amores, meus vícios.
imerso em águas termais por sete dias
levedura, sete ervas, água-de-cheiro.
não saem de mim as malditas marcas.

ganho mais escritos, mais palavras e símbolos.
palavras-simbolos guardam dizeres.
o corpo nunca mais será a alvura singela.
e já não era antes.
era poema-papai,
poema-mamãe.

os dedos escrevem, os pelos também.
as unhas, os dentes, os olhos.
tudo escreve. tudo se inscreve,
em mim.
eu-poema escrevo pelo puro prazer.
da dor de ser p-o-e-m-a!

17 maio 2009

EFEMERIDADE

enquanto pensava
as coisas aconteciam e não via.
estava de olhos fechados e pensava...
pensava e não via,
não sentia,
pensava, mas não queria.

olhos fechados.
pálpebras pesadas.
pensamentos soltos.
uma quimera,
fantasia,
um: era uma vez!, quem sabe?

acordou e os anos se passaram.
as rugas chegaram.
os cabelos pratearam.
a vida passou. enquanto pensava
as coisas aconteceram e não via.
estava de olhos abertos e apenas olhava...

01 maio 2009

RECORDAÇÕES PLENAS

“O vento varria os meses
e varria os teus sorrisos...
o vento varria tudo!

E a minha vida ficava
cada vez mais cheia
de tudo.”

Manuel Bandeira (de
Estrela da Manhã, em Antologia Poética, org. Emmanuel de Moraes, José Olympio Editora, Rio, 1986)


Numa tarde outonal de sábado, eu sou carregado em uma maca para o quarto do hospital aonde eu deveria ficar, ainda, por dois dias. Percebia nos rostos dos meus familiares que me esperavam, a apreensão e a dúvida. Até que entrou Telly Savalas e dirigiu-se a eles que ouviam as explicações e recomendações.
Carlos Nejar e Antônio Ribas
Eu ainda estava muito atordoado, mas sabia que Telly Savalas já havia morrido há uns quinze anos e que aquele era o Dr. Ribas, o neurocirurgião que operara, até instantes atrás, a minha espinha, como ele gosta de dizer.
Fiquei pensando o que leva uma pessoa a trazer lembranças de fatos, acontecimentos ou pessoas do passado. Malgrado a parecença de Dr. Ribas com Telly Savalas, não seria apenas isso, uma vez que ambos tiveram caminhos e épocas bem distintos em suas vidas.
Telly Savalas foi um ator de televisão e cinema dos Estados Unidos filho de imigrantes gregos. Antes de ser escalado como Kojak, o ator era conhecido apenas por papéis de bandido, muitos deles rodados na Itália.
Telly Savalas - Kojak
Como Kojak, em 1973, Savalas tornou-se internacionalmente conhecido, além de ganhar um Emmy pela atuação na série. Morreu em 1994, aos 70 anos, devido a complicações de um câncer de bexiga. Foi enterrado na ala George Washington do Forest Lawn Memorial Park, em Los Angeles. Em sua lápide, foi colocada uma conhecida citação de Platão: "a hora da partida chegou, e seguimos nossos caminhos: eu para morrer, e você para viver. O que é melhor, só Deus sabe fazer."
Honras feitas ao ator, o que tudo isso tem a ver com o Dr. Ribas?
Parece um tanto estranho que um conjunto de acontecimentos insistam em se fazer presentes num momento tão delicado como o de uma pós cirurgia. Fiquei a pensar nisso até que percebi que o próprio Dr. Ribas já havia me levado ao passado em uma das minhas consultas preliminares.
Ao revelar a sua predileção por poetas e autores brasileiros, o nome de Manoel Bandeira surgiu como um traço de união entre nossas vidas. Ele tem fortemente em sua vida a vibração de Manoel Bandeira e em mim, ficou um apagamento de Bandeira a partir da morte de uma irmã.
Em meados de agosto de 1968, minha irmã foi internada no hospital dos bancários, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, com metástase de câncer mamário. Eu ia visitá-la quase todos os dias. Ela ficou alojada num quarto individual. Numa dessas visitas, eu resolvi passear pela enfermaria feminina que ficava no mesmo andar. Certo dia conheci Nereida Pichon, uma argentina que falava um ponrtunhol com sotaque gaúcho. Ela aparentava ter uns setenta anos, mas talvez tivesse uns cinco anos menos. Estava em convalescência de uma cirurgia na coluna lombar. Conversava sobre tudo, mas admirava-se com autores brasileiros, principalmente do sul do Brasil. Mário Quintana e Erico Verissimo que eram os seus preferidos, mas entre os poetas, Manoel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade eram recitados diariamente.
Lembro-me de que quando eu a conheci ela falava de dores e sofrimento quando citou a celebre frase de Drummond: “A dor é inevitável e o sofrimento é opcional.”
Recitava: E como farei ginástica / Andarei de bicicleta / Montarei em burro brabo / Subirei no pau-de-sebo / Tomarei banhos de mar! / E quando estiver cansado / Deito na beira do rio / Mando chamar a mãe-d'água / Pra me contar as histórias / Que no tempo de eu menino / Rosa vinha me contar / Vou-me embora pra Pasárgada.
Esses versos eram recitados com pompa e orgulho. Seus olhos marejavam e brilhavam como jabuticaba. Todo seu rosto se iluminava. Eu sentia-me apaixonado por aquela mulher franzina e feia. Em minha juventude sentia-me capturado e fascinado por ela.
Ir ao hospital era para um mim um martírio. Tinha uma irmã definhando pelo câncer generalizado, mas visitar Neréia, como gostava de ser chamada, era sempre uma grande compensação.
Eu estava no primeiro ano do curso de ciências biológicas e aquele foi um ano conturbado, principalmente na França em maio e em agosto aqui no Brasil. Meus autores prediletos eram: Darwim; Karl Von Frisch; Storrer e Ussinger; Oswaldo Frota-Pessoa e Paula-Couto, dentre outros, todos ligados à biologia. Eu não me permitia “perder tempo” com autores da literatura. Os assuntos da política já me tomavam mais do que o tempo necessário, embora eu não fosse nenhum ativista.
No dia 13 de outubro eu fui ao hospital para tratar de um assunto bastante delicado para mim e minha família. O desembaraço para o sepultamento de minha irmã. Pela primeira vez não visitei Neréia.
No dia seguinte, fui ao cemitério São João Batista, para o velório e sepultamento de minha irmã. Somente nessa hora eu soube do falecimento e velório de Manoel Bandeira que se daria no mesmo cemitério, no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras.
Passados alguns dias fui visitar Neréia e comunicar-lhe que não voltaria mais lá. Quando ela me viu seu rosto franziu-se e as lagrimas brotaram de seus olhos. Eu abracei-a ternamente e choramos pelos nossos queridos. Eu não tive a coragem de falar-lhe da morte de minha irmã, mas ela intuiu o que acontecera e que seria a minha ultima visita e recitou-me, baixinho, ao pé do ouvido, “O último poema” de Bandeira: Assim eu quereria meu último poema / Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais / Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas / Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume / A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos / A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
Eu não sei dizer o quanto esses episódios foram marcantes para que eu não me lembrasse de ler Bandeira, mais tarde, quando dei a vez aos autores da literatura brasileira.
A psicanálise se fez muito presente neste último quartel de minha vida, onde passei a procurar explicar muitos sonhos, devaneios, ou aquilo que a razão não explica. Muitas vezes, nem mesmo para mim, encontrava explicações, muito menos para as pessoas que me procuravam.
Ulisses Tavares, em seu livro, “Quando nem Freud explica tente a poesia”, não dedicou a Bandeira nenhuma passagem, porém retira de Academia dos mortais de Bráulio Tavares o seguinte poema: A academia que eu sonho / não tem fardões nem patronos / nem brasões verde-amarelos // tem farra das oito as oito / tem coito em vez de biscoito / e um chazinho de cogumelos!
Dr. Ribas fez brotar, de tão longe, essas lembranças encobertas de minha juventude que, obviamente ressurgiram num dia tão importante para mim. Talvez e até por isso mesmo, que seus conteúdos afetivos acabaram por preencher o meu presente, como se fosse uma inspiração com chazinho de cogumelos.

03 fevereiro 2009

O EU – O ENIGMA DA ESFINGE

Como eu me vejo, tu me vês.
Sou conhecido por nós,
uma janela aberta para o mundo.
Sabemos tudo sobre mim.

Se eu me vejo e tu não me vês.
Escondo-me em mim mesmo,
como um caramujo.
Eu sou essa metamorfose ambulante.

Mas se eu não me vejo como tu me vês.
Quem sou eu?
Sejas meu espelho,
só preciso que me digas.

Eu não me vejo, mas tu também não me vês.
Eu sou o enigma da esfinge,
cego e sem bengala.
Eu sou o elo perdido de mim mesmo.

Tendo para a amplitude.
Um corpo aberto no espaço.
Caminho no escuro.
Quão infinito é o meu percurso...

Uma janela aberta para o mundo,
essa metamorfose ambulante.
Quem sou eu?
O elo perdido de mim mesmo, o tudo e o nada!

27 janeiro 2009

FREUD EXPLICA RESPONDE

Maria maria pergunta:

Boa Tarde, Dr. Rogério

Numa das andanças pela net, encontrei o seu blog. Gosto de Freud. Aprendi-o na escola e fascinou-me (sou escorpião, será por isso?)

Sinto-me sem rumo, perdida, nem me reconheço no que era e na minha essência.

Tenho uma questão para lhe colocar:

Por que uma mulher aceita uma relação sofrida com um homem?

Falam de banalidades todos os dias e várias vezes; partilham desabafos e as dores da vida diária de cada um; apenas se encontram um dia por semana em que dão um passeio, cinema e dormem essa noite juntos; ele só a quer assim porque quer ter uma vida sem compromissos (preza muito a vida social que mantém com um grupo em que só existem mulheres) nem um carinho lhe faz em público; ela nada disto quer mas tudo aceita e sabe-o... sabe que ele apenas a usa porque precisa alguém a quem confie desabafos e com que tenha umas horas de sexo seguro.

Por que uma mulher esclarecida, madura, forte não consegue sair desta relação que lhe dá sofrimento e dor?

Explique-me...explique-me...explique-me!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Freud explica responde:

Quando eu criei o blogue Freud explica, não tinha ainda noção do que poderia aparecer como questão a ser posta. No entanto, tenho me deparado com questões inusitadas que me levam a diferentes lugares e diferentes saberes, contudo procuro sempre retribuir com o possível.

Alberto Goldin, autor do livro Freud explica, título inspirador desse blogue, tem um coluna na Revista O Globo e se depara constantemente com o que você apresenta em seu pedido. Mas vou tomar um caminho diferente do dele. Vou tomar o caminho de Ulisses Tavares em Quando nem Freud explica, tente a poesia. Freud dizia: “Seja qual for o caminho que eu escolher, um poeta já passou por ele antes de mim”.

Do seu livro retirei algumas poesias que apresento aqui.

ANGUSTIA EXISTENCIAL

O sol brilha
o dia é lindo
vejo alegria e beleza em tudo
mas não vejo sentido na vida
que não espera.

Marco encontro com a minha dor
ao meio dia vou enfrentá-la
nesse dia bonito de coisas e gentes,

Ela é tudo o que tenho
Carla Bonfim, sem título

CARÊNCIA AFETIVA

Uma vez na Alemanha
Estando só e carente
me apaixonei por um pôster
que via diariamente.

Loira mulher sorridente
de maiô, doirada e quente,
e eu ali, ao léu, no frio
passando na sua frente. [...]

Eis quando
tudo muda de repente:
me tiraram o cartaz da rua.

Querem que eu ame agora
um anuncio de detergente.

Affonso Romano de Sant’anna. “O anuncio e o amor”

FELICIDADE

Essa felicidade que supomos,
arvore milagrosa que sonhamos,
toda arreada de dourados pomos,

Existe sim; mas nós não a alcançamos,
porque esta sempre apenas aonde a pomos,
e nunca a pomos aonde estamos.

Vicente de Carvalho, “Velho tema”

CARONA

a carona deu em nada

quilômetros e
quilômetros
de pernas e curvas
viajando pela imaginação.

Nicolas Behr, sem título

TÉDIO A DOIS

Você fica sentada no sofá
e de vez em quando abre um pouco as pernas
para eu ver que você esta sem calça.

Depois eu tomo um conhaque e fumo cinco cigarros
para começar a enlouquecer. [...]

Você levanta as pernas dobrando os joelhos
e eu enfio com força
sem nenhuma palavra e nenhum suspiro.

A respiração para e eu saio de cima de você. [...]
Você liga a televisão e volta para o sofá.
Eu abro a porta e vou embora.
Na rua, tenho vontade de bater
com o carro no primeiro poste da esquina.

Álvaro Alves de Faria, “Retrato-II”

Além desses poemas quero acrescentar um, de minha autoria que já foi publicado nesse blogue:

UMA INCÓGNITA, UMA PAIXÃO

pensei conhecê-lo. mas qual das suas variantes?
perco-me em explicações que nada me explicam.
tento justificar a sua inércia.
a sua frieza. o seu desinteresse.
ou seria falta de coragem?
desconfio de tudo. de todos. fico tão confusa!
não acredito em mais nada.
dou-me conta que só arranjo justificativas vãs.

não acredito que você seja assim!
por baixo dessa máscara de meu garoto,
existe um menino,
uma criança carente, sem chão, com medo.
quer agarrar-se a qualquer coisa,
em alguém que seja forte.
mas eu nem sou tão forte assim!
sou apenas uma mulher só e apaixonada!

na minha fragilidade sinto você mais forte.
eu sinto mesmo que você me ama.
mas nem mesmo isso você me diz!
você não me dá nenhum sinal!
se pelo menos me pedisse alguma coisa,
se me quisesse de verdade,
se chutasse o balde por mim
e desse uma esperança!... umazinha!... sei lá!...

por que ainda me preocupo com isso?
por que ainda procuro explicações?
não sei! não sei o quanto você se importa,
mas sei o quanto eu me importo.
talvez você me julgue egoísta e presunçosa.
deve estar sofrendo por isso.
e também porque eu não o procuro mais.
mas eu não posso ficar esperando-o.

ainda sou jovem apesar de impetuosa.
gosto de ser mulher e dos prazeres da vida.
procuro um amor de verdade.
um verdadeiro amor só pra mim.
o espelho já me avisou!
falta pouco para mim também.
tenho urgência!
afinal, eu descobri que não sou imortal!

19 janeiro 2009

A FALTA


quando o dinheiro falta
e a carência sobra.
se a oportunidade pauta,
o temor desdobra.

o dinheiro e a carência,
a oportunidade e o medo.
na sobra, a opulência,
na falta, o degredo.

completude perdida, implica em frustração.
e na busca de sentido, sobra a interferência.
cuja ordem significante é a castração.

o desejo é a nostalgia do objeto perdido.
do sujeito, numa excitação contínua,
que implica num desvio do natural contido.

07 janeiro 2009

EU/VOCÊ - UMA QUIMERA

quisera eu/mulher acordasse.
fosse você e no corpo sentisse,
o que sentia quando amor fazia.
a dor que perdurava, horas e dia.

quisera você/homem acordasse.
sentisse o que senti e a dor ficasse.
trocássemos de lugar então.
você amaria o sexo e eu a paixão.

se eu/você acordasse.
se um do outro tivesse ciência.
e o dolorido corpo vibrasse.

de repente viria o pranto.
e imploraria clemência.
por ter amado tanto.


Comente aqui


11 novembro 2008

UMA INCÓGNITA, UMA PAIXÃO

Por Rogério Silva

é verdade! você ainda me amava! eu sei!
para mim, você era alguém encantador!
carinhoso e apaixonado!
nunca antes, nem depois, encontrei igual!
entregou-se totalmente e atirou-se.
imaginou ter asas para voar.
caiu e machucou-se.
mas quem cortou suas asas?

só não percebeu que elas nunca haviam existido.
sofreu muito com isso.
não aceitou a inconstância dos sentimentos.
rebelou-se contra eles,
talvez por ter-se iludido,
talvez por um inexplicável sentimento de repulsão,
ou de abandono, sem carinho.
não sei. uma incógnita!


pensei conhecê-lo. mas qual das suas variantes?
perco-me em explicações que nada me explicam.
tento justificar a sua inércia.
a sua frieza. o seu desinteresse.
ou seria falta de coragem?
desconfio de tudo. de todos. fico tão confusa!
não acredito em mais nada.
dou-me conta que só arranjo justificativas vãs.

não acredito que você seja assim!
por baixo dessa máscara de meu garoto,
existe um menino,
uma criança carente, sem chão, com medo.
quer agarrar-se a qualquer coisa,
em alguém que seja forte.
mas eu nem sou tão forte assim!
sou apenas uma mulher só e apaixonada!


na minha fragilidade sinto você mais forte.
eu sinto mesmo que você me ama.
mas nem mesmo isso você me diz!
você não me dá nenhum sinal!
se pelo menos me pedisse alguma coisa,
se me quisesse de verdade,
se chutasse o balde por mim
e desse uma esperança!... umazinha!... sei lá!...


por que ainda me preocupo com isso?
por que ainda procuro explicações?
não sei! não sei o quanto você se importa,
mas sei o quanto eu me importo.
talvez você me julgue egoísta e presunçosa.
deve estar sofrendo por isso.
e também porque eu não o procuro mais.
mas eu não posso ficar esperando-o.


ainda sou jovem apesar de impetuosa.
gosto de ser mulher e dos prazeres da vida.
procuro um amor de verdade.
um verdadeiro amor só pra mim.
o espelho já me avisou!
falta pouco para mim também.
tenho urgência!
afinal, eu descobri que não sou imortal!

08 setembro 2008

13 julho 2008

O ESTRANGEIRO

Por Rogério Silva

quem é esse estrangeiro?
ousa entrar em minha casa?
o que quer,
que nem mesmo anuncia?

não me diz quem é,
o que gosta.
não tira os olhos de mim.
me atormenta.

sua língua, eu não conheço,
mas arrisca me dar conselhos.
não. não quero, não ouço, não ouso.
não me venha com xurumelas.

quer fazer barganhas.
diz que gosta de mim.
que me ama.
ah! mas também me odeia!

o que quer de mim?
minha pele?
meu pensamento?
minha dor?

já usa o que é meu!
sem licença nem favor.
me gasta sem pudor.
me assusta. me causa horror.

dia desses quis matá-lo.
Juro! fazer dele picadinho
e dar pros porcos.

não posso...
o outro de que falo
está em mim. vive comigo
muitos anos, sempre juntos.

somos estranhos,
infamiliar, familiar.
gira roda de fogo!
gira! gira!

esse homem de areia*,
que no conto baqueia.

esse estrangeiro sou eu.

*”O homem de areia”, conto de E. T A. Hoffmann, no qual Freud se baseou para escrever Das Unheimlich, 1919, traduzido para a língua portuguesa como “O estranho”.