07 abril 2008

A CURA DE SCHOPENHAUER DE IRVIN D. YALOM - O livro




Por Rogério Silva

Ao copiar os aforismos de Shopenhauer do livro de Irvin D. Yalon, sinto que de algum modo provoquei os leitores desse blog ou despertei em outros algumas curiosidades. Por isso resolvi escrever, não uma resenha, mas um breve comentário sobre o que li.

Depois de ler “Quando Nietzsche chorou”, “Mentiras no divã” e “Carrasco do amor”, todos do mesmo autor, a gente já se familiarizou e aprendeu que, este psiquiatra de 76 anos, sempre encontra um jeito de se colocar nos seus textos, fazendo com que tenha um quê de autobiográfico.

O mais incrível, é que mesmo sendo um romance, seus livros parecem ensaios sobre o tema apresentado, trazendo aspectos técnicos e teóricos de psicoterapia alem do conhecimento dos filósofos. Mais incrível ainda quando se trata de grupos de terapia.

Na década de 70 eu participei, como componente, de um grupo terapêutico, aqui no Rio de Janeiro, por cerca de três ou quatro anos, não me lembro bem. O que me lembro bem é de como alguns membros do grupo tiveram participação forte e outros que, apesar de sua participação ocasional, muitas vezes, mudavam o rumo do assunto.

Hoje em dia, eu escuto falar muito pouco de terapia de grupos por aqui, mas sei que existem muitas instituições que ainda mantém essa prática.

Como minha leitura de Shopenhauer é muito fraca, creio que aprendi muito com Yalon. Contudo, o que mais me chamou a atenção foi o jeito como ele arranjou um terapeuta e um paciente que coloca a situação como se fosse ele mesmo o terapeuta e Shopenhauer um dos participantes

"Viver é sofrer." É o modo como Arthur Schopenhauer filósofo do século XIX conhecido por suas idéias pessimistas em relação ao sentido da vida, encontrou para dizer que os relacionamentos e os desejos só levam à dor e ao tédio. A salvação para o sofrimento humano, causado pela existência, é renunciar ao mundo, tornando-se assim verdadeiramente livre.

Para a personagem Julius Hertzfeld, psiquiatra renomado e ferrenho defensor da terapia em grupo, a salvação só pode ser atingida quando se constrói relacionamentos sólidos, baseados no amor e na compreensão das diferenças e dos limites de cada um. A notícia de que tem um câncer incurável não é o bastante para lhe tirar a vontade de ajudar as pessoas a encontrarem esse caminho.

Ao fazer uma avaliação de sua longa carreira como psicoterapeuta, Julius decide procurar seu maior fracasso - um antigo paciente chamado Philip Slate, viciado em sexo e que diz que curou-se seguindo as doutrinas de Schopenhauer - e o convida a participar do seu grupo de terapia. A presença de Pam uma ex-conquista de Philip, que o odeia pela frieza com que foi descartada no passado, obriga-o a encarar seu atos e desencadeia conflitos entre os pacientes e acirradas discussões filosóficas com Julius.

“A Cura de Schopenhauer” é o relato comovente de personagens demasiadamente humanos, que no processo da terapia em grupo desnudam suas mentes e seus corações, tornando-se mais reais do que a própria realidade.

A nota destoante, no meu entender, é a onipotência da medicina que dá um prazo de validade infalível a Julius.

8 comentários:

bilis disse...

cara jah li Mentiras no Divã, achei legal, mas muito hollywodiano em sua forma estilistica, constituido de muitos cortes e acontecimentos irrealistas(melhor descrição do senso comum que encontro para holywood[não sei como escreve]). irrealistas pois pega aspectos possiveis mas improvaveis da realidade tornando-a fantastica, tirando o seu aspecto banal, ou imanente. Apesar disso foi um livro muito interessante e gostoso de ler, li ele muito rapido devido a seu dinamismo.
Me interessei pela cura de schopenhauer
a partír dos seus comentarios e pretendo ler, muito legais as máximas...

muito obrigado e prossiga com o blog

r a c h e l disse...

Eu só não li o 'Aprendi com minha mãe' do Yalom, acho que o título é este... um que tem uma roda gigante na capa, relativamente novo.
Adorei todos os outros, e, de certo modo concordo com Schoppenhauer. Acontece, que sem sofrer, e sem doer, a gente faz como pra lembrar que vive?
Acho qeu tudo faz parte. Na dose certa.

Bisous querido, ótimos textos, como sempre.

Rogério Silva disse...

Bílis

O jeito Hollywood de ser é típico do povo americano que, segundo imagino, eles não abrem mão. Vejo-o sempre presente. Tanto na literatura, quanto em outros setores, como a política.

Yalom (como um bom americano, mesmo de origem russa) não faz por menos. Mesmo quando cita a influência de Otto Rank e G. Jung no ”aqui e agora” da psicoterapia de grupo, ele não deixa de ser freudiano. Neste livro especificamente, ele dá nome ao título do livro “The Shopenhauer cure” e aparentemente quem obtém tal cura é Philip. Mas o que observamos é que quem cura Philip de fato é Julius que não é shopenhauerniano. E note-se que Julius o faz com a sua dor, o seu sofrimento e a sua morte (real). Shopenhauerniano mesmo foi Freud, mas isso é outro papo.

Quando Pierre Fédida diz que o analista trata com a sua angústia, o que eu entendo que ele está dizendo, em outras palavras é: trata com a sua dor, o seu sofrimento e a sua morte (não necessariamente real).

Relativizando o aspecto holiwwoodiano do texto, bem apontado no seu comentário, ainda assim acho que vale à pena ler.

R a c h e l

O livro a que você se refere é “Mamãe e o sentido da vida”, que acabei de ganhar, mas ainda não li.

Você diz “de certo modo concordo com Schoppenhauer. Acontece, que sem sofrer, e sem doer, a gente faz como pra lembrar que vive?”

VIVER DÓI.

Não sei se esta frase tem autor ou autores, mas certamente eu me incluiria entre eles.

Na psicanálise eu gostaria de citar dois artigos. Um do Juan D. Nasio intitulado “O valor da transmissão”, que trata dessa questão e outro de alguém, que é bem próximo de nós, que é Manuel Tosta Berlinck em uma entrevista com Erika Morthy, trata justamente da dor psíquica. (tenho os dois textos eletronicamente)

Mas só para fazer pensar: qual é a dose?

Gisa Leão (fez um comentário ao aforismo 23)

Gostei de você relembrar Roland Barthes com o prazer do texto, por isso gostaria de lhe presentear com um texto de Barthes:

“A morte do Pai privará a literatura de muitos ele seus prazeres. Se não há mais Pai, de que serve contar histórias? Todo relato não se reduz ao Édipo? Contar é sempre procurar a origem, dizer as disputas com a Lei, entrar na dialética do enternecimento e do ódio? Hoje, equilibra-se em um mesmo lance o Édipo e o relato: já não se ama, já não se teme, já não se conta. Como ficção, o Édipo servia ao menos para alguma coisa: para fazer bons romances, para narrar bem.”

Quanto ao significado...

Abraços de rogério

Islan disse...

Estou terminando o "Defrente para o sol -- como superar o terror da morte" e passei a entender mais ainda o quanto somos "autobiográficos" quando não escrevemos sobre nós...

é inescapável trazer parte de nós(autores)para oque oqer que se escreva... seja um comentário em um post perdido, seja numa receita de lasanha ou em um conto fantástico...

ótimo autor...

O livro mais interessante para mim não saiu no brasil ainda: "Psicologia Existencialista", mas ja existe o "Psicoterapia de Grupo - Teoria e Prática"
com Molyn Leszcs da ARTMED. Em formato de compêndio.

Irene Leal disse...

Li mentiras no divã e estou lendo Quando Ntz chorou - fantastico, impossivel não admirar, o cara é foda. Apesar de achar genial, nao consegui ler até o fim A cura de Spn, é muito cansativo.

Irene Leal disse...

Li Mentiras no divã e estou lendo Quando Ntz chorou - fantastico, impossivel não admirar, o cara é foda. Apesar de achar genial, nao consegui ler até o fim A cura de Spn, é muito cansativo.

Caio Vinícius disse...

Bem, divergindo um pouco do que é comum entre os "sábios" filósofos (filosofia é duvidosa), não acho que viver, necessariamente, deveria imputar em dores. Acontece que somos infantis e, sendo contrário ao sofrimento, um sentimento que me faz lembrar que vivo é o amor. Novamente, entendo os insensíveis, por que já fui assim. Entendo quando ficava horas escutando uma música clássica no fone de ouvido e ficava escrevendo minhas dezenas de poemas. Não deixei de fazer isso por completo, mas em pouco tempo posso tirar de mim a ideia de que entender a vida traz dores e angústias."Acontece, que sem sofrer, e sem doer, a gente faz como pra lembrar que vive?" É só lembrar!!! A vida não é feita de incertezas, é destruída por elas. Mas, se quiserem, fiquem na mesmice...

Rachel Mendes disse...

Tenho que dizer que o livro é realmente muito interessante, inclusive para pessoas leigas como eu em assunto de psicologia e afins. E esse é um ponto muito genial da obra, atrair diversos públicos, e encantá-los com um assunto que cativa, impulsiona e deixa nossa mente cheia de vontade de saber mais e mais.

Se alguém ficou com curiosidade, http://portugues.free-ebooks.net/ebook/A-cura-de-Schopenhauer

E que descubramos muitos outros livros tão bom e impolgante quanto esse!