"Nunca tenha certeza de nada, porque a sabedoria começa com a dúvida"
02 Dezembro 2011
07 Outubro 2011
DA PRAIA PARA O FACEBOOK
Nos idos dos anos setenta e oitenta eu costumava frequentar a praia de Ipanema próxima ao posto nove. Não no posto nove em si, mas em frente à Farme de Amoedo ou a Vinicius de Moraes. Por décadas esse foi o meu point. Com a família ou sozinho, ou ainda, com amigos. De tanto freqüentar, nos fins de semana, ferias ou feriados eu já era conhecido e conhecia muita gente também. Não é que eu conversasse com qualquer pessoa, o que evidentemente também poderia acontecer, mas era porque as nossas caras se esbarravam sempre naquele pedaço. Essa convivência era, via de regra, anônima. As pessoas não sabiam o meu nome e nem eu o delas. Poderíamos nos encontrar em qualquer outro lugar que sabíamos “de onde a cara era conhecida.”
Certa vez eu estava na agencia de uma concessionária de serviços públicos da cidade numa fila e atrás de mim estava um cidadão que até hoje não sei o nome. Com certeza nos reconhecemos da praia e papeamos sobre varias coisas até que fossemos atendidos e depois nos despedimos como velhos amigos. Eu sei que você vai perguntar, mas como você pode afirmar que ele lhe reconheceu da praia? Muito simples. A partir daquele momento, sempre que nos esbarrávamos na praia ou fora dela cumprimentávamos com mais efusividade, porém mantendo o anonimato.
Mal sabia eu que estava diante de um instrumento que só viria a ser inventado muitos anos mais tarde no campo virtual. O Facebook. Claro que aquele era um Facebook bem tupiniquim com uma memória bastante reduzida. Bastava ficar uma ano sem ir à praia e a coisa começava a falhar. Os nossos arquivos não tinham pastas para armazenamento de dados.
É evidente que os conhecimentos se davam por escolhas diretas, téte a téte. Cada um com os seus preconceitos, suas crenças ou suas censuras. Mesmo assim quem me acompanhava na praia ou no calçadão ficava espantado com a quantidade de acenos a mim ou por mim distribuídos. Espanto que acontece hoje comigo quando vejo alguém com muitos amigos em suas pastas no Facebook. Como pode alguém ter 3487 amigos? Na minha pagina contam-se, no máximo, oitenta pessoas. O detalhe é que conheço quase todos pessoalmente. A metade faz parte da família e na outra estão amigos mais recentes, poucos apresentados pelos novos amigos e nenhum daquela época de “Facepraia”. Considero o meu numero de contatos razoável para alguém que já freqüenta mais da metade da casa dos sessenta anos e que já teve muitos amigos que partiram da praia, do bairro, da cidade ou mesmo da vida.
O Facepraia não deixou muita saudade até porque algumas fotos mudaram tanto ao longo dos anos, que quase não são mais reconhecidas ou temos dificuldade em reconhecer. Ou porque as pessoas ficaram mais gordas, ou mais magras. Alem de que todas envelheceram.
E o Facebook? Mark Zuckerberg por gostar de "construir coisas", conseguiu aproximar o mundo numa proeza. Como seu criador, juntou 500 milhões de pessoas num único sítio.
"Muito engraçado, mas eu não tenho Facebook." Ah! Não tem? Com certeza você conhece alguém que usa esta rede social: um irmão, filho, colega, amigo, namorado. Alguém bem próximo. Uma em cada 14 pessoas no mundo hoje acessa o site que um miúdo na altura e com 19 anos, criou em 2004 no quarto de uma residência de Harvard com a ajuda de colegas de faculdade.
Quer saber? Pegue o nome Mark Zuckerberg e coloque na linha de pesquisa do Fcebook e surpreenda-se. Se já fez isso, sabe quais são os principais interesses pessoais de Zuckerberg. Eles são visíveis a todos os utilizadores. Mesmo aos que não fazem parte da lista de amigos deste jovem multimilionário. Você deve estar a pensar: "Já tinha dito que não tenho Facebook" Tudo bem. "Minimalismo, construir coisas, partir coisas, fluxo de informação, revoluções". São estes alguns dos interesses que pode ler no perfil de "Zuck". É assim que é conhecido entre amigos o rapaz que invariavelmente usa T-shirts cinzentas, calças de ganga, é fiel aos seus chinelos Adidas e frequenta aulas de mandarim, segundo a Wikipédia.
É curioso notar como cada um faz uso dessa ferramenta que agrega em redes mais de quinhentos milhões de pessoas em todo o mundo. Só ele tem em sua pasta mais de cinco milhões de contatos. Com isso podemos imaginar que o Facebook é capaz de albergar pessoas com os interesses diversos, nos mais diversos campos da vida social que vai da religião à guerra, da culinária à química ou do tráfico de drogas à prostituição, dentre outros. É saudável, é! Mas como em todo grupamento humano encontraremos problemas. Alguns até que extrapola a esfera social indo esbarrar na esfera policial ou jurídica. Pedofilia, xenofobia, aliciamentos e outras práticas.
Nos fenômenos de massa os interesses se misturam e criam lideranças que se manifestam diante de um fato e logo se dispersam findos os eventos motivacionais. O Rock in Rio foi uma prova contundente disso. Da compra de ingressos, que logo se esgotaram, até as músicas e letras que tinham que ser decoradas além da paramentaria. Tudo tinha de estar dentro dos conformes. E como não se pode exigir grau de instrução dos freqüentadores, é comum encontrar equívocos de ordem informativa e/ou conceitual.
Nos próximos seis anos o Brasil será palco de, pelo menos, dois eventos mundiais de grande magnitude. Daí podermos imaginar quantos cruzamentos de mensagens e informações veicularão pelas nossas paginas nos obrigando a esquecer os preconceitos e a velha censura que podíamos fazer nos tempos do Facepraia. Democratizar idéias faz do Facebook um valioso instrumento de manifestação política e intelectual promovendo a inclusão social e das diferenças, para aqueles que dele utilizam, mesmo quando não concordamos com as idéias postas.
Certa vez eu estava na agencia de uma concessionária de serviços públicos da cidade numa fila e atrás de mim estava um cidadão que até hoje não sei o nome. Com certeza nos reconhecemos da praia e papeamos sobre varias coisas até que fossemos atendidos e depois nos despedimos como velhos amigos. Eu sei que você vai perguntar, mas como você pode afirmar que ele lhe reconheceu da praia? Muito simples. A partir daquele momento, sempre que nos esbarrávamos na praia ou fora dela cumprimentávamos com mais efusividade, porém mantendo o anonimato.
Mal sabia eu que estava diante de um instrumento que só viria a ser inventado muitos anos mais tarde no campo virtual. O Facebook. Claro que aquele era um Facebook bem tupiniquim com uma memória bastante reduzida. Bastava ficar uma ano sem ir à praia e a coisa começava a falhar. Os nossos arquivos não tinham pastas para armazenamento de dados.
É evidente que os conhecimentos se davam por escolhas diretas, téte a téte. Cada um com os seus preconceitos, suas crenças ou suas censuras. Mesmo assim quem me acompanhava na praia ou no calçadão ficava espantado com a quantidade de acenos a mim ou por mim distribuídos. Espanto que acontece hoje comigo quando vejo alguém com muitos amigos em suas pastas no Facebook. Como pode alguém ter 3487 amigos? Na minha pagina contam-se, no máximo, oitenta pessoas. O detalhe é que conheço quase todos pessoalmente. A metade faz parte da família e na outra estão amigos mais recentes, poucos apresentados pelos novos amigos e nenhum daquela época de “Facepraia”. Considero o meu numero de contatos razoável para alguém que já freqüenta mais da metade da casa dos sessenta anos e que já teve muitos amigos que partiram da praia, do bairro, da cidade ou mesmo da vida.
O Facepraia não deixou muita saudade até porque algumas fotos mudaram tanto ao longo dos anos, que quase não são mais reconhecidas ou temos dificuldade em reconhecer. Ou porque as pessoas ficaram mais gordas, ou mais magras. Alem de que todas envelheceram.
E o Facebook? Mark Zuckerberg por gostar de "construir coisas", conseguiu aproximar o mundo numa proeza. Como seu criador, juntou 500 milhões de pessoas num único sítio.
"Muito engraçado, mas eu não tenho Facebook." Ah! Não tem? Com certeza você conhece alguém que usa esta rede social: um irmão, filho, colega, amigo, namorado. Alguém bem próximo. Uma em cada 14 pessoas no mundo hoje acessa o site que um miúdo na altura e com 19 anos, criou em 2004 no quarto de uma residência de Harvard com a ajuda de colegas de faculdade.
Quer saber? Pegue o nome Mark Zuckerberg e coloque na linha de pesquisa do Fcebook e surpreenda-se. Se já fez isso, sabe quais são os principais interesses pessoais de Zuckerberg. Eles são visíveis a todos os utilizadores. Mesmo aos que não fazem parte da lista de amigos deste jovem multimilionário. Você deve estar a pensar: "Já tinha dito que não tenho Facebook" Tudo bem. "Minimalismo, construir coisas, partir coisas, fluxo de informação, revoluções". São estes alguns dos interesses que pode ler no perfil de "Zuck". É assim que é conhecido entre amigos o rapaz que invariavelmente usa T-shirts cinzentas, calças de ganga, é fiel aos seus chinelos Adidas e frequenta aulas de mandarim, segundo a Wikipédia.
É curioso notar como cada um faz uso dessa ferramenta que agrega em redes mais de quinhentos milhões de pessoas em todo o mundo. Só ele tem em sua pasta mais de cinco milhões de contatos. Com isso podemos imaginar que o Facebook é capaz de albergar pessoas com os interesses diversos, nos mais diversos campos da vida social que vai da religião à guerra, da culinária à química ou do tráfico de drogas à prostituição, dentre outros. É saudável, é! Mas como em todo grupamento humano encontraremos problemas. Alguns até que extrapola a esfera social indo esbarrar na esfera policial ou jurídica. Pedofilia, xenofobia, aliciamentos e outras práticas.
Nos fenômenos de massa os interesses se misturam e criam lideranças que se manifestam diante de um fato e logo se dispersam findos os eventos motivacionais. O Rock in Rio foi uma prova contundente disso. Da compra de ingressos, que logo se esgotaram, até as músicas e letras que tinham que ser decoradas além da paramentaria. Tudo tinha de estar dentro dos conformes. E como não se pode exigir grau de instrução dos freqüentadores, é comum encontrar equívocos de ordem informativa e/ou conceitual.
Nos próximos seis anos o Brasil será palco de, pelo menos, dois eventos mundiais de grande magnitude. Daí podermos imaginar quantos cruzamentos de mensagens e informações veicularão pelas nossas paginas nos obrigando a esquecer os preconceitos e a velha censura que podíamos fazer nos tempos do Facepraia. Democratizar idéias faz do Facebook um valioso instrumento de manifestação política e intelectual promovendo a inclusão social e das diferenças, para aqueles que dele utilizam, mesmo quando não concordamos com as idéias postas.
03 Outubro 2011
FRASE
“A diferença entre a vida e a morte é a mesma do excesso e da falta. Só quem está de fora pode ver.”
16 Setembro 2011
FRASE
"O caminho não é uma avenida, nem uma via e nem uma rota, mas é o único meio de se chegar a um objetivo, não importa a distancia nem o percurso. Só é preciso caminhar."
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"Se preferes a fé, procures a crença, se preferes o saber, procures a ciência, mas se preferes viver, não procures nada. Simplesmente vivas."
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"Num dia acordei formiga, no outro acordei árvore, no outro rio e depois floresta. Só então eu percebi que fazia parte da natureza e passei a lamentar aqueles que acordam gente todo o dia!"
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"O amor acorda cedo, na infancia, gasta energia na adolescencia, é comovente na fase adulta e se perde na velhice."
08 Setembro 2011
FRASE
"Quando uma mulher arruma tão bem os seus livros e você gosta, ou você contrata ela, ou você se casa com ela!"
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"Crer é o modo mais fácil de aceitar aquilo que a gente não sabe o que é e nem precisa saber, é só acreditar!"
"O conhecimento é o modo mais difícil de entender aquilo que a gente não sabe o que é, mas pode vir a saber, mas dá muito trabalho!"
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"A felicidade é como o sol. Brilhante ao amanhecer quando desponta no horizonte, quente quando esta bem no alto e sombrio quando desaparece."
03 Setembro 2011
ENTRANHAS DA ALMA
Roupas sujas, usadas, molhadas,
abandonadas
no canto do banheiro
amontoam dores, odores e favores.
As crianças aditam muita sujeira
de terra, doces e traquinas.
Os adultos, o suor da lida,
preocupações e insucessos.
Mulheres, desamores adormecidos
choros calados e frustrações.
Nos jovens, desencantos, hormônios,
desejos incestuosos ou luxuriantes.
Elas guardam muitos segredos, as vezes.
Paixões, equívocos e desapontamentos.
Sujas de uso, suor e poeira
que Rita colhe, recolhe e acolhe.
No tanque com água e sabão:
ensaboar, esfregar, lavar.
Na água suja
misturadas ao sabão.
Limpa
todas as dores enxaguadas.
Escorrem como lagrimas,
as mágoas e os ressentimentos.
Penduradas
à brisa leve do ar,
recebem bênçãos
compaixões e esperanças.
Os lençóis guardam ainda segredos de alcova.
Toalhas de mesa, manchas de gordura,
de café e leite permanecem.
De banho embebidas do corpo, a pureza.
Rita, de olhos acanhados e gestos tímidos,
parece conhecer todos os gemidos,
gritos, sussurros e risos,
contidos nas entranhas das almas!
14 Agosto 2011
A POLÍTICA DA PREGUIÇA
A política da preguiça
Em seminário, Adauto Novaes debate a falta de tempo livre para o pensamento
Luiz Zanin Oricchio - O Estado de S.Paulo
Se o nosso Macunaíma murmurou "ai, que preguiça..." ao nascer, o filósofo Albert Camus comentou que "são os ociosos que transformam o mundo, porque os outros não têm tempo". Outras milhares de citações seriam possíveis porque a indolência frequentou a imaginação humana desde tempos imemoriais - e nem sempre com a conotação negativa que hoje a acompanha.
Em torno desse tema, o filósofo Adauto Novaes organiza mais um dos seus famosos seminários, que atraem público grande nas cidades por onde passam e depois se transformam em livros de referência sobre o assunto. O ciclo de conferências Elogio à Preguiça será apresentado no Rio, Belo Horizonte, São Paulo e Brasília, de 11 de agosto a 6 de outubro. As inscrições podem ser feitas no portal www.sescsp.org.br ou nas unidades do Sesc.
O time de palestrantes reúne nomes que já participaram de seminários anteriores, como Marilena Chauí, José Miguel Wisnik, Maria Rita Kehl e Jorge Coli; traz também "estreantes", como os ensaístas Francisco Bosco e Guilherme Wisnik. "A gente mantém o núcleo inicial dos seminários, mas também trazemos os talentos mais jovens", disse Novaes em conversa com o Estado.
Continue lendo no link acima.
Em torno desse tema, o filósofo Adauto Novaes organiza mais um dos seus famosos seminários, que atraem público grande nas cidades por onde passam e depois se transformam em livros de referência sobre o assunto. O ciclo de conferências Elogio à Preguiça será apresentado no Rio, Belo Horizonte, São Paulo e Brasília, de 11 de agosto a 6 de outubro. As inscrições podem ser feitas no portal www.sescsp.org.br ou nas unidades do Sesc.
O time de palestrantes reúne nomes que já participaram de seminários anteriores, como Marilena Chauí, José Miguel Wisnik, Maria Rita Kehl e Jorge Coli; traz também "estreantes", como os ensaístas Francisco Bosco e Guilherme Wisnik. "A gente mantém o núcleo inicial dos seminários, mas também trazemos os talentos mais jovens", disse Novaes em conversa com o Estado.
Continue lendo no link acima.
21 Julho 2011
MORRE O PINTOR LUCIAN FREUD

O artista estava com 88 anos e morreu em sua casa ontem.
O pintor era ligado ao surrealismo e expressionismo. Alemão naturalizado britânico Lucian Freud morreu nesta quarta-feira (20) em Londres, aos 88 anos.
Neto do psicanalista Sigmund Freud, Lucian ficou conhecido por suas pinturas figurativas, que incluem retratos de familiares e amigos e nus. Ao longo de sua carreira, ele foi identificado com movimentos artísticos como realismo, expressionismo e surrealismo.
Como artista figurativo, ele inseria tanto em seus retratos quanto em suas paisagens um profundo olhar interior, drama e energia.
Lucian Freud nasceu em Berlim, em dezembro de 1922. Escapando do nazismo, mudou-se para a Inglaterra com a família em 1933, onde iniciou os estudos na Central School of Art, em Londres. A cidadania britânica foi conquistada em 1939.
Sua primeira exposição individual ocorreu em 1944 e incluía o quadro "The painter's room". Nesse período, Freud também passou temporadas em Paris e na Grécia. Outras obras conhecidas do artista incluem "Girl with roses" (1948), "Interior at Paddington (Walker Art Gallery, Liverpool)" (1951), "Reflection with two children (self-portrait)" (1965), entre outras.
Rainha Elizabeth
Além de amigos e familiares, Freud também foi comissionado para pintar a Rainha Elizabeth. O quadro de 2001, um retrato pouco lisonjeiro de uma monarca de olhar severo, dividiu os críticos. À época, um fotógrafo do tabloide "The Sun" chegou a declarar publicamente que a pintura "deveria ser pendurada no banheiro".
Em 2008, "Benefits supervisor sleeping", nu pintado por ele em 1995, foi vendido por US$ 33,6 milhões em um leilão da Christies, um recorde para a obra de um artista ainda vivo.
Freud se casou por diversas vezes ao longo da vida, teve muitas amantes e filhos - embora nem todos eles reconhecidos oficialmente pelo pintor.
10 Junho 2011
POR DENTRO DO CÉREBRO - Entrevista com Paulo Niemeyer Filho, neurocirurgião
O neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho conta os avanços nos tratamentos de doenças como o mal de Parkinson e como evitar aneurisma e perda de memória.
E projeta, ainda, o futuro próximo, quando boa parte do sistema neurológico estará sob controle do homem.
Chegar à casa do neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho, no alto da Gávea, no Rio de Janeiro, é uma emoção. A começar pela vista deslumbrante da cidade, passando pelos macacos que passeiam pelos galhos até avistar as orquídeas que caem em pencas das árvores, colorindo todo o jardim.
Ou seja: a competência desse médico, com 33 anos de profissão, que dedica sua vida à medicina com a paixão de um garoto, pode ser contada em flores. E são muitas.
Filho do lendário neurocirurgião Paulo Niemeyer, pioneiro da microneurocirurgia no Brasil, e sobrinho do arquiteto Oscar Niemeyer, Paulo escolheu a medicina ainda adolescente.
Aos 17 anos, entrou na Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Quinze dias depois de formado, com 23 anos, mudou-se para a Inglaterra, onde foi estudar neurologia na Universidade de Londres.
De volta ao Brasil, fez doutorado na Escola Paulista de Medicina. Ao todo, sua formação levou 20 anos de empenho absoluto.
Mas a recompensa foi à altura. Apaixonado por seu ofício, Paulo chefia hoje os serviços de neurocirurgia da Santa Casa do Rio de Janeiro e da Clínica São Vicente, onde atende e opera de segunda a sábado, quando não há uma emergência no domingo, e ainda encontra tempo para dar aulas no curso de pós-graduação em neurocirurgia na PUC-Rio.
Por suas mãos já passaram o músico Herbert Vianna - de quem cuidou em 2001, depois do acidente de ultraleve em Mangaratiba, litoral do Rio -, o ator e diretor Paulo José, a atriz Malu Mader e, mais recentemente, o diretor de televisão Estevão Ciavatta - marido da atriz Regina Casé que, depois de um tombo do cavalo, recupera-se plenamente -, além de centenas de outros pacientes, muitos deles representados pelas belas flores que enchem de vida o seu jardim.
Revista PODER: Seu pai também era neurocirurgião. Ele o influenciou?
PAULO NIEMEYER: Certamente. Acho que queria ser igual a ele, que era o meu ídolo.
PODER: Seu pai trabalhou até os 90 anos. A idade não é um complicador para um neurocirurgião? Ela não tira a destreza das mãos, numa área em que isso é crucial?
PN: A neurocirurgia é muito mais estratégia do que habilidade manual. Cada caso tem um planejamento específico e isso já é a metade do resultado. Você tem de ser um estrategista..
PODER: O que é essa inovação tecnológica que as pessoas estão chamando de marcapasso do cérebro?
PN: Tem uma área nova na neurocirurgia chamada neuromodulação, o que popularmente se chama de marcapasso, mas que nós chamamos de estimulação cerebral profunda. O estimulador fica embaixo da pele e são colocados eletrodos no cérebro, para estimular ou inibir o funcionamento de alguma área. Isso começou a ser utilizado para os pacientes de Parkinson. Quando a pessoa tem um tremor que não controla, você bota um eletrodo no ponto que o está provocando, inibe essa área e o tremor pára. Esse procedimento está sendo ampliado para outras doenças. Daqui a um ou dois anos, distúrbios alimentares como obesidade mórbida e anorexia nervosa vão ser tratados com um estimulador cerebral.Porque não são doenças do estômago, e sim da cabeça.
PODER: O que se conhece do cérebro humano?
PN: Hoje você tem os exames de ressonância magnética, em que consegue ver a ativação das áreas cerebrais, e cada vez mais o cérebro vem sendo desvendado.
Ainda há muito o que descobrir, mas com essas técnicas de estimulação você vai entendendo cada vez mais o funcionamento dessas áreas. O que ainda é um mistério é o psiquismo, que é muito mais complexo. Por que um clone jamais será igual ao original?
Geneticamente será a mesma coisa, mas o comportamento depende muito da influência do meio e de outras causas que a gente nunca vai desvendar totalmente.
PODER: Existe uma discussão entre psicanalistas e psiquiatras, na qual os primeiros apostam na melhora por meio da investigação da subjetividade, e os últimos acreditam que boa parte dos problemas psíquicos se resolve com remédios.. Qual é sua opinião?
PN: Há casos de depressão que são causados por tumores cerebrais: você opera e o doente fica bem. Há casos de depressão que são causados por deficiência química: você repõe a química que está faltando e a pessoa fica bem. Numa época em que se fazia psicocirurgia existiam doentes que ficavam trancados num quarto escuro e quando faziam a cirurgia se livravam da depressão e nunca mais tomavam remédio. E há os casos que são puramente psíquicos,emocionais, que não têm nenhuma indicação de tomar remédio.
PODER: Já existe alguma evolução na neurologia por causa das células-tronco?
PN: Muito pouco. O que acontece com as células-tronco é que você não sabe ainda como controlar. Por exemplo: o paciente tem um déficit motor, uma paralisia, então você injeta lá uma célula-tronco, mas não consegue ter certeza de que ela vai se transformar numa célula que faz o movimento. Ela pode se transformar em outra coisa, você não tem o controle, ainda.
PODER: Existe alguma coisa que se possa fazer para o cérebro funcionar melhor?
PN: Você tem de tratar do espírito. Precisa estar feliz, de bem com a vida, fazer exercício. Se está deprimido, com a autoestima baixa, a primeira coisa que acontece é a memória ir embora; 90% das queixas de falta de memória são por depressão, desencanto, desestímulo. Para o cérebro funcionar melhor, você tem de ter motivação. Acordar de manhã e ter desejo de fazer alguma coisa, ter prazer no que está fazendo e ter a autoestima no ponto.
PODER: Cabeça tem a ver com alma?
PN: Eu acho que a alma está na cabeça. Quando um doente está com morte cerebral, você tem a impressão de que ele já está sem alma... Isso não dá para explicar, o coração está batendo, mas ele não está mais vivo.
POODER: O que se pode fazer para se prevenir de doenças neurológicas?
PN: Todo adulto deve incluir no check-up uma investigação cerebral. Vou dar um exemplo: os aneurismas cerebrais têm uma mortalidade de 50% quando rompem, não importa o tratamento. Dos 50% que não morrem, 30% vão ter uma sequela grave: ficar sem falar ou ter uma paralisia. Só 20% ficam bem. Agora, se você encontra o aneurisma num checkup, antes dele sangrar, tem o risco do tratamento, que é de 2%, 3%. É uma doença muito grave, que pode ser prevenida com um check-up.
PODER: Você acha que a vida moderna atrapalha?
PN: Não, eu acho a vida moderna uma maravilha. A vida na Idade Média era um horror. As pessoas morriam de doenças que hoje são banais de ser tratadas. O sofrimento era muito maior. As pessoas morriam em casa com dor. Hoje existem remédios fortíssimos, ninguém mais tem dor.
PODER: Existe algum inimigo do bom funcionamento do cérebro?
PN: O exagero. Na bebida, nas drogas, na comida. O cérebro tem de ser bem tratado como o corpo. Uma coisa depende da outra. É muito difícil um cérebro muito bem num corpo muito maltratado, e vice-versa.
PODER: Qual a evolução que você imagina para a neurocirurgia?
PN: Até agora a gente trata das deformidades que a doença causa, mas acho que vamos entrar numa fase de reparação do funcionamento cerebral, cirurgia genética, que serão cirurgias com introdução de cateter, colocação de partículas de nanotecnologia, em que você vai entrar na célula, com partículas que carregam dentro delas um remédio que vai matar aquela célula doente. Daqui a 50 anos ninguém mais vai precisar abrir a cabeça.
PODER: Você acha que nós somos a última geração que vai envelhecer?
PN: Acho que vamos morrer igual, mas vamos envelhecer menos. As pessoas irão bem até morrer. É isso que a gente espera. Ninguém quer a decadência da velhice. Se você puder ir bem de saúde, de aspecto, até o dia da morte, será uma maravilha, não é?
PODER: Você não vê contraindicações na manipulação dos processos naturais da vida?
PN: O que é perigoso nesse progresso todo é que, assim como vai criar novas soluções, ele também trará novos problemas. Com a genética, por exemplo, você vai fazer um exame de sangue e o resultado vai dizer que você tem 70% de chance de ter um câncer de mama. Mas 70% não querem dizer que você vai ter, até porque aquilo é uma tendência. Desenvolver depende do meio em que você vive, se fuma, de muitos outros fatores que interferem. Isso vai criar um certo pânico. E, além do mais, pode criar problemas, como a companhia de seguros exigir um exame genético para saber as suas tendências. Nós vamos ter problemas daqui para frente que serão éticos, morais, comportamentais, relacionados a esse conhecimento que vem por aí, e eu acho que vai ser um período muito rico de debates.
PODER: Você acredita que na hora em que as pessoas puderem decidir geneticamente a sua hereditariedade e todo mundo tiver filhos fortes e lindos, os valores da sociedade vão se inverter e, em vez do belo, as qualidades serão se a pessoa é inteligente, se é culta, o que pensa?
PN: Mas aí você vai poder escolher isso também. Esse vai ser o problema: todo mundo vai ser inteligente. Isso vai tirar um pouco do romantismo e da graça da vida. Pelo menos diante do que a gente está acostumado. Acho que a vida vai ficar um pouco dura demais, sob certos aspectos. Mas, por outro lado, vai trazer curas e conforto.
PODER: Hoje a gente lida com o tempo de uma forma completamente diferente. Você acha que isso muda o funcionamento cerebral das pessoas?
PN: O cérebro vai se adaptando aos estímulos que recebe, e às necessidades. Você vê pais reclamando que os filhos não saem da internet, mas eles têm de fazer isso porque o cérebro hoje vai funcionar nessa rapidez. Ele tem de entrar nesse clique, porque senão vai ficar para trás. Isso faz parte do mundo em que a gente vive e o cérebro vai correndo atrás, se adaptando.
PODER: Já aconteceu de você recomendar um procedimento e a pessoa não querer fazer?
PN: A gente recomenda, mas nunca pode forçar. Uma coisa é a ciência, e outra é a medicina. A pessoa, para se sentir viva, tem de ter um mínimo de qualidade. Estar vivo não é só estar respirando. A vida é um conjunto. Há doentes que preferem abreviar a vida em função de ter uma qualidade melhor. De que adianta ficar ali, só para dizer que está vivo, se o sujeito perde todas as suas referências, suas riquezas emocionais, psíquicas. É muito difícil, a gente tem de respeitar muito.
PODER: Como é o seu dia a dia?
PN: Eu opero de segunda a sábado de manhã, e de tarde atendo no consultório. Na Santa Casa, que é o meu xodó, nós temos 50 leitos, só para pessoas pobres. Eu opero lá duas vezes por semana. E, nos outros dias, na Clínica São Vicente. O que a gente mais opera são os aneurismas cerebrais e os tumores. Então, é adrenalina todo dia. Sem ela a gente desanima e o cérebro funciona mal. (risos)
PODER: Você é workaholic?
PN: Não é que eu trabalhe muito, a minha vida é aquilo. Quando viajo, fico entediado. Depois de alguns dias, quero voltar. Você perde a sua referência, está acostumado com aquela pressão, aquele elástico esticado.
PODER: Como você lida com a impotência quando não consegue salvar um paciente?
PN: É evidente que depois de alguns anos, a gente aprende a se defender. Mas perder um doente faz mal a um cirurgião. Se acontece, eu paro com o grupo para discutir o que se passou, o que poderia ter sido melhor, onde foi a dificuldade. Não é uma coisa pela qual a gente passe batido. Se o cirurgião acha banal perder um paciente é porque alguma coisa não está bem com ele mesmo.
PODER: Como você lida com as famílias dos seus pacientes?
PN: Essa relação é muito importante. As famílias vão dar tranquilidade e confiança para fazer o que deve ser feito. Não basta o doente confiar no médico. O médico também tem de confiar no doente. E na família. Se é uma família que cria caso, que é brigada entre si, dividida, o cirurgião já não tem a mesma segurança de fazer o que deve ser feito. Muitas vezes o doente não tem como opinar, está anestesiado e no meio de uma cirurgia você encontra uma situação inesperada e tem de decidir por ele. Se tem certeza de que ele está fechado com você, a decisão é fácil. Mas se o doente é uma pessoa em quem você não confia, você fica inseguro de tomar certas decisões. É uma relação bilateral, como num casamento. Um doente que você opera é uma relação para o resto da vida.
Poder: Você acredita em Deus?
PN: Geralmente depois de dez horas de cirurgia, aquele estresse, aquela adrenalina toda, quando você acaba de operar, vai até a família e diz: "Ele está salvo". Aí, a família olha pra você e diz: "Graças a Deus!". Então, a gente acredita que não fomos apenas nós.
PODER: Como você relaxa?
PN: Estudando. A coisa que mais gosto de fazer é ler. Sábado e domingo, depois do almoço, gosto de sentar e ler, ficar sozinho em silêncio absoluto.
PODER: E o que gosta de ler?
PN: Sobre medicina ou história. Agora estou lendo um livro antigo, chamado Bandeirantes e Pioneiros, do Vianna Moog, no qual ele compara a colonização dos Estados Unidos com a do Brasil. E discute por que os Estados Unidos, com 100 anos a menos que o Brasil, tiveram um enriquecimento e um progresso tão rápidos.
Por que um país se desenvolveu em progressão geométrica e o outro em progressão aritmética.
06 Maio 2011
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