15 Dezembro 2009

CARTA DO ZÉ AGRICULTOR PARA LUIZ DA CIDADE



Luis, quanto tempo!

Eu sou o Zé, teu colega de ginásio noturno, que chegava atrasado, porque o transporte escolar do sítio sempre atrasava, lembra né? O Zé do sapato sujo? Tinha professor e colega que nunca entenderam que eu tinha de andar a pé mais de meia légua para pegar o caminhão por isso o sapato sujava.

Se não lembrou ainda eu te ajudo. Lembra do Zé Cochilo... hehehe, era eu. Quando eu descia do caminhão de volta pra casa, já eram onze e meia da noite, e com a caminhada até em casa, quando eu ia dormir já era mais de meia-noite. De madrugada o pai precisava de ajuda pra tirar leite das vacas. Por isso eu só vivia com sono. Do Zé Cochilo você lembra né Luis?

Pois é. Estou pensando em mudar para viver aí na cidade que nem vocês Não que seja ruim o sítio, aqui é bom. Muito mato, passarinho, ar puro... Só que acho que estou estragando muito a tua vida e a de teus amigos aí da cidade.

Tô vendo todo mundo falar que nós da agricultura familiar estamos destruindo o meio ambiente.
Veja só. O sítio do pai, que agora é meu (não te contei, ele morreu e tive que parar de estudar) fica só a uma hora de distância da cidade. Todos os matutos daqui já têm luz em casa, mas eu continuo sem ter porque não se pode

fincar os postes por dentro uma tal de APPA que criaram aqui na vizinhança.

Minha água é de um poço que meu avô cavou há muitos anos, uma maravilha, mas um homem do governo veio aqui e falou que tenho que fazer uma outorga da água e pagar uma taxa de uso, porque a água vai se acabar. Se ele falou deve ser verdade, né Luis?

Pra ajudar com as vacas de leite (o pai se foi, né ...) contratei Juca, filho de um vizinho muito pobre aqui do lado. Carteira assinada, salário mínimo, tudo direitinho como o contador mandou. Ele morava aqui com nós num quarto nos fundos da casa. Comia com a gente, que nem da família. Mas vieram umas pessoas aqui, do sindicato e da Delegacia do Trabalho, elas falaram que se o Juca fosse tirar leite das vacas às 5 horas tinha que receber hora extra noturna, e que não podia trabalhar nem sábado nem domingo, mas as vacas daqui não sabem os dias da semana, aí não param de fazer leite. Os bichos aí da cidade sabem se guiar pelo calendário?

Essas pessoas ainda foram ver o quarto de Juca, e disseram que o beliche tava 2 cm menor do que devia. Nossa! Eu não sei como encumpridar uma cama, só comprando outra né Luis? O candeeiro eles disseram que não podia acender no quarto, que tem que ser luz elétrica, que eu tenho que ter um gerador pra ter luz boa no quarto do Juca.

Disseram ainda que a comida que a gente fazia e comia juntos tinha que fazer parte do salário dele. Bom Luis, tive que pedir ao Juca pra voltar pra casa, desempregado, mas muito bem protegido pelos sindicatos, pelo fiscais e pelas leis. Mas eu acho que não deu muito certo. Semana passada me disseram que ele foi preso na cidade porque botou um chocolate no bolso no supermercado. Levaram ele pra delegacia, bateram nele e não apareceu nem sindicato nem fiscal do trabalho para acudi-lo.

Depois que o Juca saiu eu e Marina (lembra dela, né? casei) tiramos o leite às 5 e meia, ai eu levo o leite de carroça até a beira da estrada onde o carro da cooperativa pega todo dia,isso se não chover. Se chover, perco o leite e dou aos porcos, ou melhor, eu dava, hoje eu jogo fora.

Os porcos eu não tenho mais, pois veio outro homem e disse que a distância do chiqueiro para o riacho não podia ser só 20 metros. Disse que eu tinha que derrubar tudo e só fazer chiqueiro depois dos 30 metros de distância do rio, e ainda tinha que fazer umas coisas pra proteger o rio, um tal de digestor. Achei que ele tava certo e disse que ia fazer, mas só que eu sozinho ia demorar uns trinta dias pra fazer, mesmo assim ele ainda me multou, e pra poder pagar eu tive que vender os porcos as madeiras e as telhas do chiqueiro, fiquei só com as vacas. O promotor disse que desta vez, por esse crime, ele não ia mandar me prender, mas me obrigou a dar 6 cestas básicas pro orfanato da cidade. Ô Luis, aí quando vocês sujam o rio também pagam multa grande né?

Agora pela água do meu poço eu até posso pagar, mas tô preocupado com a água do rio. Aqui agora o rio todo deve ser como o rio da capital, todo protegido, com mata ciliar dos dois lados. As vacas agora não podem chegar no rio pra não sujar, nem fazer erosão. Tudo vai ficar limpinho como os rios aí da cidade. A pocilga já acabou, as vacas não podem chegar perto. Só que alguma coisa tá errada, quando vou na capital nem vejo mata ciliar, nem rio limpo. Só vejo água fedida e lixo boiando pra todo lado.

Mas não é o povo da cidade que suja o rio, né Luis? Quem será? Aqui no mato agora quem sujar tem multa grande, e dá até prisão. Cortar árvore então, Nossa Senhora!. Tinha uma árvore grande ao lado de casa que murchou e tava morrendo, então resolvi derrubá-la para aproveitar a madeira antes dela cair por cima da casa.

Fui no escritório daqui pedir autorização, como não tinha ninguém, fui no Ibama da capital, preenchi uns papéis e voltei para esperar o fiscal vir fazer um laudo, para ver se depois podia autorizar. Passaram 8 meses e ninguém apareceu pra fazer o tal laudo aí eu vi que o pau ia cair em cima da casa e derrubei. Pronto! No outro dia chegou o fiscal e me multou. Já recebi uma intimação do Promotor porque virei criminoso reincidente. Primeiro foram os porcos, e agora foi o pau. Acho que desta vez vou ficar preso.

Tô preocupado Luis, pois no rádio deu que a nova lei vai dar multa de 500 a 20 mil reais por hectare e por dia. Calculei que se eu for multado eu perco o sítio numa semana. Então é melhor vender, e ir morar onde todo mundo cuida da ecologia... Vou para a cidade, ai tem luz, carro, comida, rio limpo. Olha, não quero fazer nada errado, só falei dessas coisas porque tenho certeza que a lei é pra todos.

Eu vou morar ai com vocês, Luis. Mais fique tranqüilo, vou usar o dinheiro da venda do sítio primeiro pra comprar essa tal de geladeira. Aqui no sitio eu tenho que pegar tudo na roça. Primeiro a gente planta, cultiva, limpa e só depois colhe pra levar pra casa. Ai é bom, que vocês abrem a geladeira e tem tudo. Nem dá trabalho, nem planta, nem cuida de galinha, nem porco, nem vaca é só abrir a geladeira que a comida tá lá, prontinha, fresquinha, sem precisar de nós, os criminosos aqui da roça.

Até mais Luis.

Ah, desculpe Luis, não pude mandar a carta em papel reciclado pois não existe por aqui, mas aguarde até eu vender o sítio.



*(Todos os fatos e situações de multas e exigências são baseados em dados verdadeiros. A sátira não visa atenuar responsabilidades, mas alertar o quanto o tratamento ambiental é desigual e discricionário entre o meio rural e o meio urbano.) *
"Na prática, a teoria é outra."

04 Dezembro 2009

JOAQUÍN SOROLLA



Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Joaquín Sorolla y Bastida (27 de Fevereiro de 1863, Valência - 10 de Agosto de 1923, Cercedilla), na fase inicial da sua carreira, foi dos mais tradicionais. Ele cumpriu toda a trajetória considerada necessária na época para o pintor que se valorizasse como acadêmico. Entretanto, a partir de 1900, seu estilo se revelou de forma espetacular, manifestando-se em pinceladas rápidas e carregadas de tinta, que em poucos traços plasmavam a rica e vibrante gama de cores das praias e transeuntes que ocupavam suas telas.

Em poucos anos sua técnica notável o tornaria mundialmente famoso, chegando a pintar um enorme friso para a Hispanic Society de Nova Iorque, recriando diferentes regiões da Espanha, embora com um resultado irregular. Conhecido como o Pintor da Luz, foi o mais prolífico dos pintores espanhóis, com mais de 2 200 obras em seu poder, além de ser um retratista notável. Entre essas deve-se ressaltar seu retrato de Juan Ramón Jiménez.


03 Novembro 2009

MORRE CLAUDE LÉVI-STRAUSS

03/11/2009 - 14h40
Morre aos 100 anos o antropólogo Claude Lévi-Strauss


da Efe, em Paris
da Folha Online

O antropólogo Claude Lévi-Strauss, um dos intelectuais mais importantes do século 20, morreu no sábado passado aos 100 anos, informou hoje a editora Plon. Ele sofria de Mal de Parkinson.

Lévi-Strauss influenciou de maneira decisiva a filosofia, a sociologia, a história e a teoria da literatura.



O intelectual nasceu em Bruxelas em 28 de novembro de 1908, de pais judeus e franceses. Estudou direito e filosofia na Universidade de Sorbonne, na França. Nos últimos anos, Lévi-Strauss viveu recolhido no apartamento que morou nos últimos 50 anos em Paris e recebia poucos amigos.

Lévi-Strauss iniciou seu grande projeto intelectual em 1934, quando foi convidado pela recém-fundada USP (Universidade de São Paulo) para lecionar sociologia.

O antropólogo viveu durante três anos no Brasil e fez várias excursões para o Centro-Oeste e o Norte do país e, em contato com índios cadiuéus, bororos e nambiquaras, começou a esboçar as bases do estruturalismo, corrente que revolucionaria a antropologia em meados do século 20

28 Setembro 2009

KANDINSKY


Composition VII, Wassily Kandinsky, 1913 << Scan by Mark Harden
This work is from Kandinsky's "Blue Rider" period. Read more about Wassily Kandinsky at Wikipedia.

This image is presented for personal non-profit educational use only.

10 Setembro 2009

FREUD EXPLICA RESPONDE – O amigo e a onça

Marcondes Carlos pergunta

Sou estudante de Psicologia e gostaria de saber o que Fred faria nesse caso.

Você está com um amigo e só os mesmos estão em uma ilha deserta, além de vocês dois existe uma onça. Com isso fizemos um buraco para que a onça pudesse cair só que ao invés da mesma cair, quem caiu foi o meu amigo. O que irei fazer para capturar a onça e salvar meu amigo?

Gostaria muito de sua opinião.

Obrigado desde já.

Freud explica responde

Corrija-me se eu estiver errado. Você gostaria de saber o que Fre(u)d(?) explicaria?

Você misturou vários pronomes, mas quero crer que se trata da hipótese de alguém ter o seu amigo caído num buraco escavado para capturar uma onça. Você se indaga sobre o que você vai fazer para salvar o amigo e capturar a onça, mas não nos dá a menor ideia do que pode ser pensado, nem dos sentimentos que perpassam essa situação. Portanto não sei se cabe uma explicação freudiana, mas vamos lá.

Ao escrever O mal-estar na civilização (1930), Freud apontou três grandes males que afetam o homem. As forças da natureza e as doenças (que não vamos tratar aqui) e ainda a sua relação com o outro. Essa terceira foi apontada por ele como a mais terrível força capaz de aniquilar a humanidade.

Desde os primórdios da civilização o homem quis ter ou ser o que o outro tem ou é, seja no campo afetivo quanto material. Estabeleceu relações de poder, daí as formações das guerras, das traições e outras manifestações que põem em risco a estabilidade possível entre as pessoas. As relações de amizade sugerem uma posição contrária a esse pressuposto. Daí o direito e a moral religiosa criarem normas para as condutas dos homens.

Chaim Samuel Katz pensa a amizade como uma possibilidade de diferenciação que se oferece a si e ao outro. Ele se baseia em Freud para explicar como as mais fortes relações familiares existentes, são as que se fazem em torno da autoridade e da função paterna. O grupo familiar estabelece como cada indivíduo conhece seu lugar na estrutura de parentesco. Antes mesmo de nascer, já existem posições e escolhas determinadas, ao menos de filho. Amor e ódio ocupam lugares com figuras e objetos determinados.

Para ele, o que se conhece como família se funda nas relações de aliança, filiação e consanguinidade. Funciona como uma rede. Rede essa que obrigaria os afetos e as suas ligações. Ela não depende do nascimento imediato e fisiológico. Contudo é permanente, organizando-se em torno das relações familiares. Para a psicanálise, os afetos provêem destas relações, que se organizam em torno de um evento não-sensível.

Para nós humanos, de família burguesa, humilde ou asilar, não importa, já nascemos também com uma crença em Deus; uma religião; uma profissão, um sexo – que não irá corresponder necessariamente com o biológico; um time para torcer; uma circuncisão e/ou um bar mitzvah; uma primeira comunhão. Em algumas regiões da Índia, as meninas já nascem com marido indicado. Uma escolha ulterior muitas vezes se torna difícil, graças aos reforços como uma foto da criança com a camisa do time do pai, uma foto do batismo com seus padrinhos, ou do bar mitzvah, etc. O pior reforço talvez seja uma reprovação como: “não faça isso que papai-do-céu-castiga”. Obriga a criança a uma crença feita pelo medo. Talvez essa forma de “não-escolha” também influencie na relação de amizade.

Estão na linguagem e no dito popular, as formas mais diferenciadas de se organizar e sentir. Os apelidos mudam, de acordo com as relações afetivas, de poder e de interesse. Formam-se novas configurações familiares, novas configurações de amizade. Enquanto os irmãos e tias familiares serão sempre os mesmos na estrutura de parentesco, por mais que os abandonemos e recusemos. É preciso considerar novas ordens de famílias, onde um segundo casamento impõe novos manos e tias, por exemplo. Os casamentos entre homossexuais impõem dois pais masculinos ou duas mães femininas, mas também "exigem" uma hierarquia de relações e afetos que tende a se perpetuar.

Não se pode perder de vista que qualquer laço libidinal, por mais distanciado e respeitoso que possa ser, quer possuir e anexar o próximo e anular seu estatuto atual. Contudo, o amigo pretende criar e transformar a si próprio. A amizade precisa suportar diferenças extremas, o inusitado que se apresenta como adversidade. Não espera que só venham formas de um único amor para unir os amigos. As amizades são feitas de um material mais duro, de diferenças e de dissensões.

Num poema eu coloquei: Os ingredientes principais são: / pessoas, diferenças, paixão e humor. / Paciência, tolerância, bom senso. / Tempo, carinho e dinheiro entram também. // O modo de preparar é muito simples. / Só exige atenção e generosidade. / Dispensa preconceito e racismo, / mas deve ser praticada desde a infância. São, na verdade, apenas alguns dos “ingredientes” necessários para se fazer uma amizade, que eu destacaria aqui.

Contudo a sua questão propõe uma situação na qual os dois amigos estão isolados e em perigo frente à ameaça da onça e, portanto da morte. Numa aliança cavam um buraco a fim de aprisionar a onça. Com a queda do amigo nesse buraco nova configuração se faz necessária. Novos agenciamentos se impõem. Quem está fora do buraco ficou mais vulnerável, pois ficou sozinho. Quem caiu no buraco está em situação ainda pior. Por ser um limite, o buraco impõe privações de toda ordem e pior ainda se a onça também cai ali. O que é de se esperar.

Ao pensar numa solução ideal, o amigo iria procurar retirar o amigo, até porque fortaleceria a sua própria defesa. Mas há também a pulsão de sobrevivência que é instintual e forçará ao que está fora do buraco a criar outra solução que pode não incluir o amigo perdido.

Situações como essa nos acontecem muitas vezes no cotidiano. O buraco surge como metáfora de uma situação de solução, digamos, “impossível”. Ao mudar os planos de ação muitas vezes as amizades são esquecidas ou quebradas para atender a um novo “plano de sobrevivência”.

Saint-Exupéry em “Terre des homme” (Terra dos homens), inverteu essa questão justo quando se encontrou só e perdido no deserto em Dacar, após um desastre de avião. Ele criou um meio de sobrevivência quando estabeleceu: “tenho que sobreviver, porque sei que meus amigos esperam isso de mim”.

O pernambucano Péricles Andrade Maranhão ficou conhecido com o personagem “o amigo da onça” criado a partir da anedota em que dois caçadores conversavam sobre um modo de sobreviver diante da ameaça de uma onça. Sempre que um oferecia uma solução, o outro apresentava uma nova ameaça. Finalmente ele diz: - Mas, afinal, você é meu amigo ou amigo da onça?

Péricles Maranhão viveu com todas as possibilidades do seu tempo e o que o sucesso lhe ofereceu, além de estar longe da família e numa cidade como o Rio de Janeiro. Logo desenvolveu uma personalidade instável, irritadiça e se tornou um boêmio inveterado. Vivia próximo da embriagues. O seu personagem tornou-se maior do que ele. Então escolheu morrer de forma trágica. Na noite de 31 de dezembro de 1961. Vestido como o seu personagem escreveu dois bilhetes. Fechou todas as portas do seu apartamento, ligou o gás e foi deitar-se no sofá. Num ele reclamava da solidão. E como um último toque de humor, foi colocar o outro na porta, pelo lado de fora, escrito à mão: "Não risquem fósforos".

01 Setembro 2009

IDENTIDADE PERDIDA

José Américo Rodrigues Palhares, aprendeu a dirigir caminhão quando ainda era muito pequeno. Seu tio tinha um caminhão de entregas e vez por outra o levava a passear colocando-o no colo. A paixão pelo volante e principalmente por caminhões vem desta época e influenciou na escolha da sua profissão.

Palhares mora numa pacata cidade do interior vive em errância, rodando por todo o país, levando e trazendo mercadorias pequenas ou grandes. Cada viagem dura cerca de um mês, entre ida e volta. Tudo é sempre programado. Toda vez que sai para uma destas viagens, Anunciata de Jesus, sua mulher, lhe prepara um farnel que dá para uns dois dias. Mas acostumado como está com a estrada, não se intimida se dorme, ou se come mal. Não é de beber pinga em serviço, mas gosta mesmo é de tomar uma “rasteirinha” com torresmo e farofa antes do almoço.

- É a “abrideira”! É para abrir o apetite - ele sempre fala assim.


Uma vez, entre o intervalo de uma viagem e outra, ele saiu com os amigos para festejar a vitória do seu time de futebol - É vascaíno doente. Era tanta cerveja e churrasco que a farra foi até tarde da noite.

Quando chegou em casa notou que perdeu todos os documentos. Não soube explicar depois, como eles foram achados espalhados em lugares diferentes e distantes uns dos outros. Todos os documentos foram recuperados, até mesmo um "santinho" de São Cristóvão que, às vezes ele usava preso no guarda sol do seu caminhão com elástico. Só não achou a sua carteira de identidade. Ele ainda esperou um mês para ver se ela aparecia, como não apareceu, tirou outra. Vaidoso, ele aproveitou um dia de festa da padroeira na igreja, para tirar uma foto colorida para a sua nova carteira.

Durante uma pequena viagem, sentindo muito calor, Palhares resolveu parar em um bar de beira de estrada e pediu uma garrafa de água mineral, enquanto era servido, puxou o lenço para enxugar a testa de suor. Percebeu uma carteira de identidade pendurada no vidro do caixa que parecia com a sua perdida. Perguntou:

- Moço, posso ver este documento?

- Claro, aqui está. É sua? - perguntou sem verificar.

- É sim, eu perdi faz muito tempo num lugar bem longe. Não sei como ela veio parar aqui.

- Alguém entregou. Se for sua, pode levar - respondeu o caixa.

A partir deste momento, uma coisa muito estranha invadiu-lhe a alma. Podia-se dizer que ficou muito feliz por ter encontrado a sua carteira, um pouco mais estragada, é verdade, mas era mesmo sua. Agora possuía duas carteiras de identidade. Estava perplexo. Comparou seu retrato nas duas carteiras. Eram bem diferentes. Agora ele tinha uma cara mais séria do que quando era mais jovem.

Quando chegou em casa, a primeira coisa que fez foi mostrar para Anunciata o seu achado.

- Vamos guardar esta carteira nova, já que não vou mais precisar dela - colocou-a numa gaveta da cômoda do seu quarto.

- É, quem sabe você ainda vai precisar dela um dia? - acrescentou Anunciata.

“E o pior é que agora eu sou dois”, pensou Palhares sem ter coragem de dizer.

Sua vida transcorria normalmente, até que um dia, fez uma vigem junto com outros companheiros em comboio e já passava uma semana, quando de repente, ele parou o seu caminhão no meio da estrada. Seus companheiros de viagem, preocupados com aquela parada brusca e sem motivo, correram em seu socorro. Encontraram-no parado com o olhar fixo, perdido em um ponto distante.

- O que aconteceu, homem? Responda! - insistiam os colegas, sem obter qualquer resposta.

Preocupados, levaram-no a um hospital na cidade mais próxima. Os médicos que o examinaram não encontraram nada que justificasse aquele silêncio em que Palhares se encontrava imerso, sem responder a qualquer pergunta nem sequer dizer o seu próprio nome.

Foi levado de volta para sua casa e lá continuou mudo; não falou com Anunciata nem com seus três filhos, ainda pequenos. Os médicos e os amigos ficaram atônitos, sem entender o que estava lhe acontecendo.

Colocado em sua cama, dormiu profundamente. No dia seguinte quando acordou, viu o seu rosto projetado no espelho que ficava estrategicamente posto em frente à sua cama, deu um grito alucinante, pondo-se de pé imediatamente parando-se diante da cômoda. Olhou para a gaveta da cômoda e rapidamente saiu do quarto. Durante um bom tempo não voltou lá nem saiu de casa.

A partir daquele dia, Palhares passou a dormir na sala e quando precisava de alguma coisa que estivesse no quarto, pedia, com gestos, para alguém ir lá buscar. Para ele, havia “um outro” ali. Mandou até tirar o espelho do banheiro e passava o dia inteiro perambulando pela casa, em silêncio. Abria os armários e gavetas como se estivesse procurando alguma coisa. Anunciata ficava irritada com ele, pois não estava acostumada com a sua presença em casa por muito tempo, nem com aquela situação. Ainda por cima, ele desarrumava tudo na casa. Vivia sempre com a mesma roupa, barba por fazer e aquele olhar perdido. Mal comia e não tomava banho. Todos já estavam à beira de um ataque dos nervos.

À noite, na hora de dormir, quando via sua mulher ir para o quarto, ele era tentado a imaginar que ela iria dormir com outro homem. Vez por outra ele balbuciava algumas palavras desconexas. Vivia na janela olhando um ponto perdido no espaço. Um gesto mais brusco ou agressivo que ele tivesse, parecia que o tiraria daquele estado. Nada acontecia. Não chegava perto da janela ao anoitecer. Desviava o olhar de qualquer superfície que pudesse refletir a sua imagem ou mesmo uma sombra. Não falava com ninguém, nem com os familiares, nem com os médicos que o atendiam em sua casa.

Todos os dias, pela manhã, quando sua mulher saía do quarto, ele já estava lá, plantado à soleira da porta. O seu olhar era de dar medo. Seguia-a durante todo tempo e sempre em silêncio.

Esta situação insuportável já durava pouco mais de um ano que viviam da ajuda dos seus colegas. Anunciata desconfiava que ele tivesse ficado assim porque encontrou a carteira de identidade. Possuía agora duas carteiras. Ela não conseguia falar sobre isso com ninguém, ou porque ele a impedia com um “psssiiitt”, ou porque ela mesma não tinha muita convicção dessa idéia, aquilo era muito estranho para ela também.

Ultimamente, porém, ele já se asseava mais. Tomava banho, mas não fazia a barba e saía para pequenos passeios perto de casa. Sempre que cruzava com alguém que lhe dirigisse a palavra ou o olhar, tirava a sua velha carteira de identidade do bolso e mostrava, como um árbitro de futebol exibindo um cartão de advertência.

Um belo dia, ele passeava acompanhado da esposa quando, sem se dar conta, foi em direção a uma vitrine vendo a imagem de alguém que lhe era muito familiar se aproximando dele. Quando ele já estava bem perto da vitrine, olhou fixamente aqueles olhos que também o olhava. Ficou ali por alguns instantes, parado, com olhar perdido para aquela figura, quando, de repente, deu um passo para trás e com um grito de horror caiu desmaiado ali mesmo na rua, sendo acudido por sua mulher. Foi levado para casa e logo chamaram o médico que o atendeu no primeiro episódio. Este acalmou os familiares, pois não havia necessidade de ser internado.

Anunciata deu-lhe um banho, fez a sua barba e colocou-o na sua cama onde logo adormeceu. Pondo-se à sua cabeceira rezou o terço até a noitinha. Sem saber porque, pegou as duas carteiras de identidade. Alguma coisa esquisita lhe dizia que ela deveria destruir uma delas. Olhava as carteiras e se perguntava: “qual?”. A mais nova talvez, pensava. Não, essa não, afinal de contas ele não a vê desde que a colocou na gaveta. A velha talvez seja melhor, já está toda quebrada mesmo. Sem perceber já estava com a tesoura na mão picotando essa carteira.

Foi tomada por um susto enorme diante daquela atitude e entrou em pânico. “E agora, o que é que eu vou fazer com estes pedacinhos?”. Pensou: "se jogar fora, talvez seja pior, ele não iria (irá) saber o que aconteceu com ela", achou melhor guardar na gaveta junto com a outra. Foi o que ela fez.

A noite transcorreu sem novidades. No dia seguinte, bem cedo, Anunciata já havia se levantado quando viu Palhares abrindo os olhos. Sua aparência era de calma e serenidade, já não tinha mais aquele olhar desconfiado e assustador de antes. Vendo a sua imagem no espelho a frente da cama, sem dizer nada, levantou-se indo até a gaveta da cômoda, abriu-a e deparou-se com as duas carteiras juntas, uma inteira e a outra picotada, pegando-as sem entender o que havia acontecido.

Olhou o retrato da carteira nova. Olhou-se de novo no espelho, deixou os pedaços picotados na gaveta. Calmamente foi ao armário, pegou uma mala, arrumou nela um punhado de roupas, sob o olhar assustado de Anunciata, que apenas observava.

Pegou a sua carteira de identidade, colocou junto com os outros documentos no bolso, dizendo:
- Acabou. Agora tudo vai ficar bem!

Neste mesmo dia, ele convenceu a mulher a preparar um lanche e saíram juntos com os filhos, num passeio de caminhão. No meio da viagem pegou o filho mais velho e levou-o ao colo.

-Está na hora de você começar a aprender a dirigir, um dia você terá que fazer isto.

Na volta, deixou a mulher e os filhos em casa. Sem dizer uma só palavra saiu.

15 Agosto 2009

JOÃO GUIMARÃES ROSA

10 Agosto 2009

JOÃO GUIMARÃES ROSA


"Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo
vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser
um crocodilo porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranqüilos e escuros
como o sofrimento dos homens."

02 Agosto 2009

CONSELHO PUNE PSICÓLOGA QUE OFERECIA TERAPIA PARA CURAR GAYS E LÉSBICAS


De acordo com a entidade, homossexualidade não constitui doença, distúrbio ou perversão
O Conselho Federal de Psicologia (CFP) decidiu nesta sexta-feira aplicar uma censura pública à psicóloga carioca Rosângela Alves Justino, que oferecia terapia para curar o homossexualidade masculina e feminina. Ela infringiu resolução do CFP, de 22 de março de 1999, na qual a entidade afirma que a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão.

A punição aplicada pelo CFP a Rosângela foi menor do que poderia ter sido. A psicóloga estava sujeita à suspensão do exercício profissional por 30 dias ou, até mesmo, à cassação do registro. Entretanto, os conselheiros decidiram, por unanimidade, que a censura pública era a medida mais adequada no caso.

26 Julho 2009

BAR SIMPATIA

Ele era moreno, alto, magro, elegantemente vestido com calça preta, camisa branca, uma discreta gravata escura por dentro do colete, com um alfinete de madrepérola. Nos punhos as abotoaduras faziam-se notar. O Tweed era um cinza escuro para combinar com a calça e os sapatos de cromo alemão pretos regiamente engraxados. Tudo apropriado para a estação de inverno.

Seu aspecto plácido e paciente demonstrava-se pelo modo como se assentava enquanto degustava o seu conhaque e pitava um cachimbo Savinelli, ligeiramente recurvado e com fumo Bourkun Riff. Reconheci o aroma.

Embora estivesse vestido como mandava o figurino da época, não poderia passar despercebido de quem o observasse. Muito pelos seus modos e gestos elegantes sentado na cadeira de palha do Bar Simpatia.

Bar Simpatia na Av. Rio Branco - Foto Diarios Associados - início da década de 60
No momento em que eu o observava, não pude deixar de desviar o meu olhar para a direção em que ele olhava ao perceber o seu sorriso de alegria. De fato aproximava-se uma bela moça, também elegantemente vestida, num vestido leve e discreto, cabelos preparados para a ocasião e uma carteira marrom escuro combinando com os sapatos de salto fino que brilhavam.

Ele levantou-se, beijou-a na boca e puxou uma cadeira para ela sentar-se, como um cavaleiro que não se vê mais hoje em dia. Chamou o garçom e fez algum pedido.

Fiquei pensando por quantas vezes eu passei por essa cena e voltei-me ao Jerez que bebericava. Balançava levemente a taça em círculos, alternando os goles e olhando para lugar nenhum. Quando percebi que se levantaram e dirigiram-se á beira da calçada aonde um táxi, recém chegado, os aguardava.

Na verdade a cena que eu vi era a de um casal jovem que se encontrou num bar da orla de Copacabana, onde eu estava só e bebericando o Jerez.

Eu não esperava ninguém e estava ali matando o tempo, como eu sempre gostei de fazer, vez por outra, nas tardes de inverno, desde a juventude. Uma certa tristeza me abateu acompanhada de uma saudade que eu não conseguia identificar de quê. Eu não sabia se era de alguma namorada perdida no tempo, da juventude ou do glamour do Rio nos anos sessenta. Talvez fosse a soma de tudo isso!

Ah, o Simpatia! Quem passa pela calçada hoje e vê o magazine ali, não pode imaginar aquele bar elegante. Seus sanduíches feitos no pão de forma, com massa fina e aparado nas bordas, o suco de coco espumante feito na hora e um dos melhores chopes tirados da cidade. As pessoas flanando pela calçada em pedras portuguesas sem a pressa que se vê nos dias de hoje.

O que aconteceu com o mundo nesse tempo? Mais de quarenta e tantos anos de acontecimentos. Quantas experiências vivemos. Amigos, parentes, colegas de trabalho, conhecidos da vida transeunte. A perda de alguns, próximos ou não.Trabalho, passeios, viagens, veículos, teatros, cinemas e livros lidos. E perceber que tudo isso poderia ter acontecido de muitas outras formas.

Se viver cada momento e cada experiência ficam gravados em nossa lembrança, recordar é a possibilidade de experienciar a nossa memória, como Marcel Proust, o demonstrou em ”Em busca do tempo perdido” e que nos faz sensível às recordações.

Mas fico com frase lapidar: “navegar é preciso, viver não é preciso”. Não importa se a autoria é de Fernando Pessoa ou de Pompeu*.

*Recentemente, descobri outra autoria para a frase, que me parece mais legítima. A frase de Pompeu, general romano: "Navigare necesse; vivere non est necesse" no original em latim (106-48 aC.). Foi dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra. (cf. Plutarco, in Vida de Pompeu).