18 abril 2008

SIMPLESMENTE



Envelhecer não quero.
Impedir não posso.
Amanhã, tenho rugas,
Enxergo menos, amanhã.
Claudico
Caminho com mais vagar.
Canso mais. Amanhã...
Os sonhos, por onde andam?

Por onde anda a juventude glamorosa?
As conquistas, os amores, as aventuras...
Passeios, lugares inusitados.
Sol, praia, cores, luzes, sons...
Vinil de Stardust com Nat King Cole,
Fotos Kodak, fichas de ônibus e de telefone,
Cachorro quente Geneal...
Encontros na esquina depois das dez,
Os chopinhos depois do namoro.
Temos tempo...

Meus desejos...
As conquistas, os amores, as aventuras e desventuras...
Passeios, lugares repetidos.
Praia com sombrinha.Luzes poucas. Sons nem tanto...
Cd de Chico Buarque, Cotidiano,
Fotos digital. Cartão de passe livre. Celular. Internet.,
Sanduíche natural e muitos remédios.
Nas quintas, às cinco. Pro chazinho
Com torradinhas. Muito bom!
Ainda temos tempo?

Meus desejos...?
Noutras esquinas...
Mais perto do fim!
Mais longe do desejo!
Quero de volta o viço,
Quero de volta a potência,
De volta, a visão. A audição.
Ainda tenho o amor,
Ainda tenho o carinho,
A paixão e a compaixão.

Não tenho muitas tantas ilusões,
Nem medo da morte.
Como Guilgamesh,
Dois terços imortais, um terço mortal.
Já vivi dois terços.
Meu corpo desvalido,
Meu desejo jovem.
Tenho a dor como companheira,
Simplesmente, envelheci.

5 comentários:

Eliete disse...

Não sei se amo ou odeio as coisas maravilhosas que vc escreve!! Amo por serem belíssimas, sensíveis... E ao mesmo tempo, doloridas, cruéis,por me fazerem sntir que também já estou envelhecendo, que já não sou mais aquela menininha que corria para os braços do tio "Falcon". Mas, fazer o quê, né?? Precisamos é continuar nessa roda viva e procurarmos sempre "brincar" da melhor maneira possível. Continue sempre mais... Te amo.

Renato disse...

Maravilhoso. Fantástico. Parabéns por tão bela veia poética.
Um grande abraço

Pablo Cúneo disse...

Hermoso poema, muy emotivo. Las últimas 3 estrofas son de una gran sensibilidad. Me gustó la idea de trasponer los dos tercios de inmortalidad y el restante tercio de mortalidad de Guilgamesh a las etapas de vida de un hombre que no vive en vano.
Un fuerte abrazo
Pablo Cúneo

Rogério Silva disse...

Eliete

Como diria Vladmir Nabokov, a vida é um simples intervalo entre o nada do nascimento e o nada da morte. Eu aceito a idéia e diria que a vida é um simples intervalo de amor e ódio entre o nada do nascimento e o nada da morte. É por isso que eu acho que o sensível e o cruel estão sempre juntos, quer na infância, quer na juventude ou na velhice.

Não mate a menininha que corria para os braços do tio "Falcon" e brinque, brinque muito neste instante que é a vida.

Um grande beijo

Renato

Uma massagem no ego é sempre bem vinda.

Pablo

O culpado pelo poema é você. Quando você me enviou o Poema a Guilgamesh (vide postagem anterior), pensei em fazer um comentário e acabou virando uma postagem.

Muito obrigado pelas palavras carinhosas. Psicanalistas conhecem bem o que é afeto. Eu não saberia fazer diferente.

Um grande abraço a todos

rogério

Rogério Silva disse...

uma nota
na frase de Nabokov, não é intervalo, é instante.
intervalo pressupõe algo já dado a priori enquanto instante se faz autopoieticamente.