27 janeiro 2009

FREUD EXPLICA RESPONDE

Maria maria pergunta:

Boa Tarde, Dr. Rogério

Numa das andanças pela net, encontrei o seu blog. Gosto de Freud. Aprendi-o na escola e fascinou-me (sou escorpião, será por isso?)

Sinto-me sem rumo, perdida, nem me reconheço no que era e na minha essência.

Tenho uma questão para lhe colocar:

Por que uma mulher aceita uma relação sofrida com um homem?

Falam de banalidades todos os dias e várias vezes; partilham desabafos e as dores da vida diária de cada um; apenas se encontram um dia por semana em que dão um passeio, cinema e dormem essa noite juntos; ele só a quer assim porque quer ter uma vida sem compromissos (preza muito a vida social que mantém com um grupo em que só existem mulheres) nem um carinho lhe faz em público; ela nada disto quer mas tudo aceita e sabe-o... sabe que ele apenas a usa porque precisa alguém a quem confie desabafos e com que tenha umas horas de sexo seguro.

Por que uma mulher esclarecida, madura, forte não consegue sair desta relação que lhe dá sofrimento e dor?

Explique-me...explique-me...explique-me!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Freud explica responde:

Quando eu criei o blogue Freud explica, não tinha ainda noção do que poderia aparecer como questão a ser posta. No entanto, tenho me deparado com questões inusitadas que me levam a diferentes lugares e diferentes saberes, contudo procuro sempre retribuir com o possível.

Alberto Goldin, autor do livro Freud explica, título inspirador desse blogue, tem um coluna na Revista O Globo e se depara constantemente com o que você apresenta em seu pedido. Mas vou tomar um caminho diferente do dele. Vou tomar o caminho de Ulisses Tavares em Quando nem Freud explica, tente a poesia. Freud dizia: “Seja qual for o caminho que eu escolher, um poeta já passou por ele antes de mim”.

Do seu livro retirei algumas poesias que apresento aqui.

ANGUSTIA EXISTENCIAL

O sol brilha
o dia é lindo
vejo alegria e beleza em tudo
mas não vejo sentido na vida
que não espera.

Marco encontro com a minha dor
ao meio dia vou enfrentá-la
nesse dia bonito de coisas e gentes,

Ela é tudo o que tenho
Carla Bonfim, sem título

CARÊNCIA AFETIVA

Uma vez na Alemanha
Estando só e carente
me apaixonei por um pôster
que via diariamente.

Loira mulher sorridente
de maiô, doirada e quente,
e eu ali, ao léu, no frio
passando na sua frente. [...]

Eis quando
tudo muda de repente:
me tiraram o cartaz da rua.

Querem que eu ame agora
um anuncio de detergente.

Affonso Romano de Sant’anna. “O anuncio e o amor”

FELICIDADE

Essa felicidade que supomos,
arvore milagrosa que sonhamos,
toda arreada de dourados pomos,

Existe sim; mas nós não a alcançamos,
porque esta sempre apenas aonde a pomos,
e nunca a pomos aonde estamos.

Vicente de Carvalho, “Velho tema”

CARONA

a carona deu em nada

quilômetros e
quilômetros
de pernas e curvas
viajando pela imaginação.

Nicolas Behr, sem título

TÉDIO A DOIS

Você fica sentada no sofá
e de vez em quando abre um pouco as pernas
para eu ver que você esta sem calça.

Depois eu tomo um conhaque e fumo cinco cigarros
para começar a enlouquecer. [...]

Você levanta as pernas dobrando os joelhos
e eu enfio com força
sem nenhuma palavra e nenhum suspiro.

A respiração para e eu saio de cima de você. [...]
Você liga a televisão e volta para o sofá.
Eu abro a porta e vou embora.
Na rua, tenho vontade de bater
com o carro no primeiro poste da esquina.

Álvaro Alves de Faria, “Retrato-II”

Além desses poemas quero acrescentar um, de minha autoria que já foi publicado nesse blogue:

UMA INCÓGNITA, UMA PAIXÃO

pensei conhecê-lo. mas qual das suas variantes?
perco-me em explicações que nada me explicam.
tento justificar a sua inércia.
a sua frieza. o seu desinteresse.
ou seria falta de coragem?
desconfio de tudo. de todos. fico tão confusa!
não acredito em mais nada.
dou-me conta que só arranjo justificativas vãs.

não acredito que você seja assim!
por baixo dessa máscara de meu garoto,
existe um menino,
uma criança carente, sem chão, com medo.
quer agarrar-se a qualquer coisa,
em alguém que seja forte.
mas eu nem sou tão forte assim!
sou apenas uma mulher só e apaixonada!

na minha fragilidade sinto você mais forte.
eu sinto mesmo que você me ama.
mas nem mesmo isso você me diz!
você não me dá nenhum sinal!
se pelo menos me pedisse alguma coisa,
se me quisesse de verdade,
se chutasse o balde por mim
e desse uma esperança!... umazinha!... sei lá!...

por que ainda me preocupo com isso?
por que ainda procuro explicações?
não sei! não sei o quanto você se importa,
mas sei o quanto eu me importo.
talvez você me julgue egoísta e presunçosa.
deve estar sofrendo por isso.
e também porque eu não o procuro mais.
mas eu não posso ficar esperando-o.

ainda sou jovem apesar de impetuosa.
gosto de ser mulher e dos prazeres da vida.
procuro um amor de verdade.
um verdadeiro amor só pra mim.
o espelho já me avisou!
falta pouco para mim também.
tenho urgência!
afinal, eu descobri que não sou imortal!

7 comentários:

Ana Flávia Godoi disse...

Porque o amor custa tão caro a nossa existência? Porque somos fruto e consciência de como fomos criados?

Anônimo disse...

Ana

Quero me aliar a sua primeira pergunta, mas gostaria de dizer que ainda bem que somos fruto e consciência de como fomos criados.

A poesia do Rogério me ajuda a pensar no valor do amor, já que entre as expostas ela toca diretamente nesse custo da escolha amorosa.

tem também a angustia existencial que fala assim:
Marco encontro com a minha dor
ao meio dia vou enfrentá-la
nesse dia bonito de coisas e gentes,
Ela é tudo o que tenho

fico muito agradecida ao Rogério por escrever essas coisas lindas e profundas que tocam o meu coração.

gostei muito desse blog.

beijos carinhosos de
ana flavia

Anônimo disse...

Rô, tudo bem mano querido?
Incrível esse e-mail!!!. Já havia lido outros mas nenhum me tocou profundamente como esse.
Muito legal a maneira como vc cientificamente aborda as questões levantadas.
É... com isso vc segue sua caminhada fazendo mto bem às pessoas...usando suas coerências, suas verdades... Parabéns!!!
Gostaria de ver vcs, ainda nesse verão!!!
Mtos carinhosos beijos a todos!!!
Helô

Anônimo disse...

oops! ana

desculpem o ato falho. assinei como ana flávia.

meu nome é Maria Aparecida Condé

Rogério Silva disse...

Ana Flávia, Maria Aparecida e Heloisa

Obrigado pelos comentários carinhosos.

Maria Aparecida, não é atoa, que esse blog chama-se Freud Explica! rs rs rs

abs rogerio

Eu® disse...

Tb gostei da maneira coerente que respondeu.
No meu caso, sinto-me o suficiente demais para viver uma situação assim... sim, decerto Freud pode explicar, mas enqto ele nao explica, vou sendo feliz...

Pensadora disse...

Puxa gostei do blog! Vou acompanhar! Me faça uma visita!


http://www.vitaperfectaest.blogspot.com/
http://muito-bem-obrigada.blogspot.com/