16 maio 2008

O CASO DA CANETA DOURADA

Por Rogério Silva

A cena se repetia toda a vez que Márcio ia ao Shopping. Entrava na Quadrilátero, um misto de livraria, papelaria e café. Passeava entre as alas de livros folheando um ou outro, até achar um que lhe interessasse. Pegava o livro. Ia até a sessão de papelaria. Pegava duas ou três canetas que tivessem tampa. Colocava-as no bolso da camisa e se dirigia ao café.

Já acomodado, pedia um refrigerante ou um capuchino e passava os olhos no livro. Para ter certeza de que iria lê-lo. Ele lia a orelha, corria o índice e o prefácio e a apresentação e a introdução. Só então decidia comprar. Ele gostava muito de ler. Lia tudo o que podia. Principalmente literatura nacional, música e filosofia. Mas a ida ao café tinha outra finalidade. Lá ele pegava alguns pedaços de papel. Experimentava as canetas, uma a uma. Sentia um fascínio em retirar e colocar a tampa várias vezes. Depois as colocava no bolso novamente, pagava apenas o livro e ia embora.


Jonas, seu pai, um dia abriu a sua gaveta e percebeu a enorme quantidade de canetas novinhas e perguntou-lhe o que significava aquilo. Ele simplesmente respondeu que gostava das canetas. Jonas pareceu aceitar a desculpa. Ficou ressabiado. Percebeu que, cada vez mais, aumentava a quantidade de canetas.

Certo dia, ao entrar no quarto de Márcio, Jonas pegou-o distraído em frente ao computador, com uma caneta na mão. O rapaz enfiava e retirava a caneta da tampa. Vez por outra passava o bico da caneta na tampa l-e-n-t-a-m-e-n-t-e. Depois enfiava e retirava a caneta freneticamente. Largava uma, pegava outra. Repetia novamente. Depois outra, e outra, e outra.

Jonas ficou chocado com aquela cena. Não compreendia o que acontecia com o seu filho. Achava tudo aquilo muito estranho. Pensou que o filho estivesse enlouquecendo. Conversou com alguns amigos que o aconselharam a levar a um psiquiatra. Ele achava que essa interferência poderia despertar uma animosidade com o filho e rejeitou-a de principio. Alguém até lhe indicou o Dr. Moisés Bick que além de médico também era psicanalista.

Aproveitando uma ocasião em que o rapaz adoeceu com febre e dor de cabeça, procurou o Dr. Moisés. Telefonou para ele e pediu que o atendesse e explicou o quadro febril, foi informado de que ele não era clínico geral. Jonas, então, falou sobre os estranhos episódios com as canetas que o fazia procurá-lo. Dr. Moisés se interessou e marcou um horário no ambulatório do hospital. Atendeu ao pedido do pai, para não levantar implicações.

No final da consulta Moisés, como preferia ser chamado, pegou propositalmente uma caneta do tipo apropriado, porém com acabamento fino em ouro baixo e preencheu a terapêutica antifebril, enquanto observava. Márcio estava de olhar fixo na caneta. Acabou de escrever e deixou-a na sua frente. Enquanto conversava ele pegou a caneta e fascinado começou o seu ritual.

Moisés, depois de observá-lo, marcou outra consulta para três dias depois, no mesmo lugar. Não queria misturar o quadro clínico com outras questões ainda. Márcio não foi e ele sentiu que poderia perder a ocasião de tratar aquele quadro que já se anunciava muito interessante, mas preferiu aguardar.

Algum tempo depois Márcio apareceu com uma infecção intestinal. Jonas aproveitou a oportunidade para marcar outra consulta com Moisés. Novo atendimento e todo o ritual se repetiu. Desta vez ele aproveitou e marcou uma próxima sessão no seu consultório de psicoterapia, alegando que estava de mudança de consultório. No final da sessão pediu a Márcio que levasse a caneta para casa e trazê-la quando viesse à consulta.

No horário marcado compareceu trouxe a caneta. Agradeceu muito ter sido ajudado por aquelas duas vezes e acrescentou que estava gostando de ir ali naquele dia, embora não soubesse bem o por quê. Moisés não lhe acrescentou nada. Apostava no vinculo libidinal que aquela caneta pudesse proporcionar. Ainda assim preferiu tratar apenas das questões relativas ao seu bem-estar físico e marcar nova sessão.

Na sessão seguinte Márcio chegou ligeiramente atrasado. Trouxe não só aquela caneta como um pequeno presente para Moisés que, surpreso e sem saber o que dizer, abriu-o. Era uma caneta muito bonita com tampa em ouro branco num estojo muito alinhado. Moisés disse:

- Obrigado. Colocou-a na mesinha ao lado e ficou olhando para Márcio que começou a falar.

- Quando eu vinha para cá, vi uma menina no ônibus que me lembrou de Letícia, minha prima, quando tinha onze anos. Nós temos a mesma idade. Era como se fosse ela. Incrível! Aquele corpinho de menina moça, já apontava os peitinhos e o jeito muito sapeca. Também me veio à lembrança de Lucas, outro primo nosso mais velho que nós sete anos. Um dia eu os peguei fazendo sexo anal num quartinho abandonado que tinha no quintal da casa da minha tia. Eu ainda era muito inocente e aquela cena da penetração nunca me saiu da cabeça. Eu já estava aqui em frente. De repente atravessei e quando percebi já havia comprado essa caneta. Fiz bem?

Moisés não respondeu a essa pergunta e disse.

- Pelo que você está contando me parece que esse gesto tem algo a ver com a lembrança do ônibus. Como você vê isso?

- Eu não sei dizer... Uma lembrança antiga... Um presente. O que gostaria era de saber se você gostou? Insistiu, sem conseguir fazer nenhuma associação.

- Eu gostei, respondeu Moisés. Mas não sei se você se dá conta. Hoje nós estamos inaugurando uma etapa que, acredito, é muito nova pra você. Você me entende?

- Acho que sim, meu pai vem conversando muito comigo sobre o que você faz e me incentivou muito vir aqui.

- Ah, é...! E o que ele fala? Perguntou Moisés, meio embaraçado com a surpresa.

- Ele me contou que você é médico e que também faz análise e ainda falou que ele está muito preocupado comigo. Por causa dessa minha mania com as canetas. Respondeu com tranqüilidade. Ele acha que estou ficando maluco.

- E o que você acha?

- Eu acho que é uma bobagem dele. Pra que se preocupar? Isso é coisa de pai. De um modo geral eu me sinto bem. Mas tem uma coisa que ele não sabe. Tem vezes que me distraio tanto com as canetas que fico muito excitado. Acabo molhando as calças e ao mesmo tempo sinto contrações prazerosas no meu ânus. Quando isso acontece em casa eu não me importo tanto, dou um jeito. Ninguém percebe. Mas quando estou com outras pessoas, amigos, colegas... Sinto muita vergonha... Tento me esconder... Sabe como é? Você pode me ajudar? Concluiu.

Com esse pedido explicito, Moisés aproveitou o símbolo da caneta como o seu objeto de fetiche e também de transferência. Trabalhou essa questão. No final da sessão, pediu que ele ficasse com a caneta e só a devolvesse quando ele se sentisse tão firme, que não precisaria mais dela e iniciou um atendimento duas vezes por semana, que perdurou sete anos e meio. O tempo foi passando e a caneta foi perdendo o sentido, até sumir completamente. Ao mesmo tempo, outras coisas foram surgindo e igualmente foram trabalhadas. Márcio não lhe devolveu aquela caneta e nem Moisés a cobrou, pois entendeu que durante todo aquele percurso ela já havia vindo tantas vezes simbolicamente, que perdeu o vínculo libinal.

2 comentários:

cesarkiraly disse...

querido rogério,

se eu pudesse escrever como vc eu escreveria romances. o que acho que vc deve fazer. mas a mim ficaram guardadas as poesias e as filosofias.

um abraço,

cesarkiraly

Rogério Silva disse...

querido cesar, é sempre bom ter por perto alguém que nos estimula, que nos impulsiona. na verdade este é um projeto, mas fazemos a mesma coisa. como escrever poesia e filosofia sem fazer romance? O que fazia Sartre?
um grande abraço,
rogerio