15 junho 2007

COMO NASCE UM PARADIGMA

Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula, em cujo centro puseram uma escada e, sobre ela, um cacho de bananas. Quando um macaco subia a escada para apanhar as bananas, os cientistas lançavam um jato de água fria nos que estavam no chão.

Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros enchiam-no de porradas.

Passado mais algum tempo, nenhum macaco subia mais a escada, apesar da tentação das bananas. Então, os cientistas substituíram um dos cinco macacos. A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, dela sendo rapidamente retirado pelos outros, que o encheram de porradas.

Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo não mais subia a escada. Um segundo foi substituído, e o mesmo ocorreu, tendo o primeiro substituto participado, com entusiasmo, da surra ao novato.

Um terceiro foi trocado, e repetiu-se o fato. Um quarto e, finalmente, o último dos veteranos foi substituído.

Os cientistas ficaram, então, com um grupo de cinco macacos que, mesmo nunca tendo tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse chegar às bananas.

Se fosse possível perguntar a algum deles porque batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza a resposta seria: "Não sei, as coisas sempre foram assim por aqui..."

Autor desconhecido

5 comentários:

Cesar Louis Kiraly disse...

Com essa engraçada história ficamos diante de um problema: de uma certa forma seguimos hábitos e regras para conduzir nossas opções. Essa relação, em última análise, está fundada no fato de que acreditamos que conduzir o futuro conforme o passado seja melhor. Mas melhor por quê? Porque se o futuro for conforme o passado pelo menos saberemos o que esperar. Ao mesmo tempo em que algumas doses de incerteza nos assusta, parece que doses muito altas de certeza também nos incomoda. Seria o caso de pensarmos: se não tivéssemos macacos novos para surrar? Como faríamos? Um velho amigo de Montaigne, o genial Étienne de la Boétie escreveu o Discurso Sobre a Servidão Voluntária, defendendo que para além dos mecanismos que nos condicionam, queremos a servidão. Cabe perguntar: a interpretação da necessidade de hábito é sempre uma servidão? Se a resposta for titubeante, precisaremos saber, quais as doses de certeza que são próprias ao servilismo, quais são próprias à criatividade?

Rogério Silva disse...

Oi Cesar

Eu não esperava encontrar Étienne de la Boétie por aqui, já que esse texto se apresenta quase sempre como uma piada, mas você tem razão, sempre queremos a servidão. Essa coisa de que é o hábito do cachimbo faz a boca torta nos leva a pensar: sempre quando há boca torta, há cachimbo, o que sabemos que não é verdade.

Seria o caso de criar um “servilismômetro” para medir essas certezas. O que deparamos no cenário mundial é uma sociedade que muda ao sabor, nem sempre agradável, de poucos, mas que se abstém da mudança no interesse das massas nas votações, por exemplo. Isso certamente compromete a criatividade.

Talvez fosse interessante pensar numa contribuição da filosofia com Hegel e a Fenomenologia do Espírito que apresenta três significações fundamentais, dentro das quais irá situar-se a famosa dialética do Senhor e Escravo. Primeiro, uma significação filosófica, a resposta a Kant, o caminho da consciência para a ciência: o que significa para o homem ser consciente e elevar-se a essa forma de saber que chamamos de ciência ? Segundo, ela apresenta, também, uma significação cultural, enquanto pergunta pelo itinerário da cultura do Ocidente: o que significa para a nossa cultura, desde seus inícios, na Grécia, até a Europa pós-napoleônica, ter percorrido um caminho em que foi acompanhada por esse fenômeno que reconhecemos como a consciência em busca do saber, em busca da ciência, e modelando a sua praxis por essa ciência, por esse saber? A terceira é a significação histórica propriamente hegeliana: como é possível a interpretação do mundo pós-revolucionário, a partir do passado da cultura Ocidental que descobrimos nas figuras que a Fenomenologia do Espírito vai enumerando, nas figuras da consciência e nos momentos lógicos que são também outros tantos momentos do desenvolvimento da própria Filosofia Ocidental?

A dialética do Senhor e do Escravo situa-se no começo da segunda parte da Fenomenologia. É uma dialética inaugural porque a partir dela terá início, para Hegel, a série das figuras do que ele chama Espírito, ou seja, do mundo humano, histórico.

Mas isso bem poderia ser o assunto de uma outra postagem. Você não acha?

Abs rogerio

Cesar Louis Kiraly disse...

Acho que pode ser assunto para uma outra postagem. Acho que seria uma boa postagem. Acho que Hegel possui uma filosofia que posiciona de modo interessante a questão da servidão. Tornar-se servo, de alguma forma, constitui o caminho da consciência quando olvida a autonomia sobre si, optar pela vida, em detrimento da consciência que ao se produzir, produz a história, e ao produzir a história, realiza a realidade pela razão. Mas a opção pela consciência em Hegel, ainda que seja um romper com o "arrastado da vida" pela composição racional como os rumos da história, consiste em aliança com o fazer teleológico do mundo, com a composição entre razão e história e sobretudo com os mecanismos próprios às grandes narrativas. O sobreviver pela consciência é uma sobrevivência racional, mas não é propriamente criativa. Lacan gostava desse conto hegeliano e se percebermos bem, as conseqüências são bem parecidas. A bolsa ou a vida? O desejo sempre. Ainda que o desejo seja da ordem das realizações da libido, não habita criatividade no desejo, a não ser no desejo do perverso. Mundo de perversos? Suponho que a criatividade tenha algo da perversão. Mas ao contrário do que dizem, não existe mais o desvio, mas o mesmo, sempre o mesmo. Em La Boetie existe uma resignação decorrente de se constatar que para além da produção da servidão por mecanismos sociais, a servidão torna-se de tal maneira intrínseca aos homens, que passamos a desejar a servidão. Como os nossos macacos que anseiam por um novo macaquinho para que possam surrar. Existe um ceticismo político radical em La Boetie. Ceticismo esse que não se enganaria com a possibilidade de vivermos como senhores. Pois a vida como senhor, também como a vida no desejo, não passa de um estado de coisas, ao qual estamos vinculados, sem muito fazer. Ter consciência da história, ou revelar os rumos da história, porque aos termos consciência do racional, somos a história, não faz com que a história se altere. Talvez a história tenha um regime racional para ser visto pelos senhores. La Boetie não concordaria com isso. A perversidade dá-se na história, muda pequenos rumos, criam-se pequenas liberdades, mostra-se a desnecessidade da história para a vida, mas para o cético a política tem que ver com certo regime de servidão, ou de obediência se preferirmos. Não sei como encerrar o comentário. Talvez ele não possa ser encerrado. Porque vivemos a esperar novos macacos, ao mesmo tempo em que não precisamos de macaco nenhum, o hábito fala de nós, como a boca torta fala do cachimbo. Encontrar elementos de desvio na política? Macacos políticos? Talvez precisemos de pequenas perversões. Mas não de maldade.

Rogério Silva disse...

Tá, caímos na mesmice de nossos hábitos e nos surraremos alternadamente quando tentarmos apanhar as bananas, já que pelo visto isso só interessa a nós dois (não há outro comentário e talvez nem macacos).
Gostaria de ter uma contribuição sua neste blog, pelo que oferece como idéia.
As perversões são sempre bem vindas como per version ou versão do pai.

Cesar Louis Kiraly disse...

Aceito o convite e pensarei em escrever sobre minha visão sobre o tema da perversão. Agora, preciso dizer que me divirto muito com o seu "nos surraremos alternadamente quando tentarmos apanhar as bananas" - achei genial a tirada. Garantiu-me boas risadas hoje. Mas o que penso mesmo é que a não ser que seja produzida, constantemente, modos institucionais relativamente criativos, que re-inaugurem a necessidade constante de se pensar a instituição, então nos surraremos alternadamente. Não penso que existam duas estradas: a) a da autonomia sobre si, que permite a razão e a percepção de que estamos nos rumos da história. b) a da ausência da autonomia e constante supressão frente aos rumos da história. Penso que existe uma estrada só. Nessa, ou somos dominados pelos hábitos e pelo medo, ou estabelecemos polaridades com o hábito, por meio da inventidade, da criatividade e dessas coisas que impedem, um pouco, que o amanhã seja como o hoje.