26 julho 2009

BAR SIMPATIA

Ele era moreno, alto, magro, elegantemente vestido com calça preta, camisa branca, uma discreta gravata escura por dentro do colete, com um alfinete de madrepérola. Nos punhos as abotoaduras faziam-se notar. O Tweed era um cinza escuro para combinar com a calça e os sapatos de cromo alemão pretos regiamente engraxados. Tudo apropriado para a estação de inverno.

Seu aspecto plácido e paciente demonstrava-se pelo modo como se assentava enquanto degustava o seu conhaque e pitava um cachimbo Savinelli, ligeiramente recurvado e com fumo Bourkun Riff. Reconheci o aroma.

Embora estivesse vestido como mandava o figurino da época, não poderia passar despercebido de quem o observasse. Muito pelos seus modos e gestos elegantes sentado na cadeira de palha do Bar Simpatia.

Bar Simpatia na Av. Rio Branco - Foto Diarios Associados - início da década de 60
No momento em que eu o observava, não pude deixar de desviar o meu olhar para a direção em que ele olhava ao perceber o seu sorriso de alegria. De fato aproximava-se uma bela moça, também elegantemente vestida, num vestido leve e discreto, cabelos preparados para a ocasião e uma carteira marrom escuro combinando com os sapatos de salto fino que brilhavam.

Ele levantou-se, beijou-a na boca e puxou uma cadeira para ela sentar-se, como um cavaleiro que não se vê mais hoje em dia. Chamou o garçom e fez algum pedido.

Fiquei pensando por quantas vezes eu passei por essa cena e voltei-me ao Jerez que bebericava. Balançava levemente a taça em círculos, alternando os goles e olhando para lugar nenhum. Quando percebi que se levantaram e dirigiram-se á beira da calçada aonde um táxi, recém chegado, os aguardava.

Na verdade a cena que eu vi era a de um casal jovem que se encontrou num bar da orla de Copacabana, onde eu estava só e bebericando o Jerez.

Eu não esperava ninguém e estava ali matando o tempo, como eu sempre gostei de fazer, vez por outra, nas tardes de inverno, desde a juventude. Uma certa tristeza me abateu acompanhada de uma saudade que eu não conseguia identificar de quê. Eu não sabia se era de alguma namorada perdida no tempo, da juventude ou do glamour do Rio nos anos sessenta. Talvez fosse a soma de tudo isso!

Ah, o Simpatia! Quem passa pela calçada hoje e vê o magazine ali, não pode imaginar aquele bar elegante. Seus sanduíches feitos no pão de forma, com massa fina e aparado nas bordas, o suco de coco espumante feito na hora e um dos melhores chopes tirados da cidade. As pessoas flanando pela calçada em pedras portuguesas sem a pressa que se vê nos dias de hoje.

O que aconteceu com o mundo nesse tempo? Mais de quarenta e tantos anos de acontecimentos. Quantas experiências vivemos. Amigos, parentes, colegas de trabalho, conhecidos da vida transeunte. A perda de alguns, próximos ou não.Trabalho, passeios, viagens, veículos, teatros, cinemas e livros lidos. E perceber que tudo isso poderia ter acontecido de muitas outras formas.

Se viver cada momento e cada experiência ficam gravados em nossa lembrança, recordar é a possibilidade de experienciar a nossa memória, como Marcel Proust, o demonstrou em ”Em busca do tempo perdido” e que nos faz sensível às recordações.

Mas fico com frase lapidar: “navegar é preciso, viver não é preciso”. Não importa se a autoria é de Fernando Pessoa ou de Pompeu*.

*Recentemente, descobri outra autoria para a frase, que me parece mais legítima. A frase de Pompeu, general romano: "Navigare necesse; vivere non est necesse" no original em latim (106-48 aC.). Foi dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra. (cf. Plutarco, in Vida de Pompeu).

5 comentários:

Luiz Carlos Caldas disse...

Rogério,
Ia responder à minha maneira; com um poema titulado "Nomes de Adolescência Carioca", o qual faço questão que você leia mas, o CD que ele está salvo, não abre de jeito nenhum, sei lá eu porque. Pisca, pisca, e não abre, que nem mocinha de antigamente. Mas é isso! Li certa nostalgia no texto e lembrei do Simpatia com agrado, que é quase amor. O grande barato é esse, irmão: ir vendo, vivendo os acontecimentos, evoluções, involuções, conclusões. O passar cotidiano do tempo que não para, as mutações, o acompanhar sagaz do conviver com tudo mais; pelo menos enquanto for de ser, que nem Oscar Niemeyer, em ir além do atual, reflexivo até, mas traçando vanguarda, revolucionário, inovador.
Saudade do Simpatia. Vamos afogar essas recordações bebendo um coco batido na aguardente de antigamente e pedir ao seu garçon para trocar aquela cadeira de plástico vagabundo pela de palinha refrigerada, confortável, lógica, elegante. Pois é, Don Rogério, eu sou assim: um participante, expectador, relator rimado, metido a bardo: cigano! Vou aparecer! É que minha inconstância, ocupações profissionais e sentimentais vêm me afastando daquele barzinho do cantinho (nooosssaa!), cheio das pleonasmas repetições e vazios bons sons. Você é um prêmio! Um prêmio a mim, meu ser e simpatia; gosto, poesia . . .
Um puta abração,
LUIZ

selma disse...

Ah, Rogério! Que bom poder ler um texto como esse , e de sua autoria. Recordações que falam muito de você: observador, sensível, estudioso e, acima de tudo, um poeta. Suas palavras me levaram ao Simpatia, embora não o tenha conhecido. Cheguei a bebericar com você, a sentir todo o clima daquele momento, e me vi tão sem recordações minhas que pudessem ou valessem uma crônica. A palavra "recordações" traz em si esta conotação de voltar ao passado através do coração. O seu está repleto de VIVÊNCIAS que se transformam em belos textos. É isso amigo, você, a cada momento, torna-se um mágico: tece com suas palavras um mundo repleto de significados que vão além da nossa realidade. Parabéns pelo belo trabalho! Selma.

Jurandir Vasconcelos disse...

Meu caro amigo,

É claro que adorei a imagem que você me fez criar ao ler seu texto. Me pareceu estar admirando uma das muitas fotos, em preto e branco e, não tão nítidas, do Rio Antigo, que guardo em meus arquivos. Mas, houve em meu cenário, uma sobreposição de fotos, como transparências que podemos manipular, e, Copacabana estava se colocando, em uma visão confusa, para mím, na Av. Rio Branco!
Me perdoe se não consigo ver, com clareza, a sua tela temporal; porém, mesmo assim me sentí aquele jovem que fui (1963), quando trabalhei em meu primeiro emprêgo, próximo ao Bar Simpatia. Esquina com a Rua da Alfândega. Será que estou certo?

Rogério Silva disse...

Luiz

O seu comentário me trás muita alegria porque sinto que cumpri o que se deseja com um texto, levar o leitor aos mesmos lugares com a mesma paixão. A memória afetiva nos transporta para longínquos momentos da nossa vida, com uma intensidade que faz com que possamos revivê-los como um tempo redescoberto proustianamente falando. Ficar em pé no balcão para tomar o famoso suco de coco “frappé” tinha, lá, suas compensações.

Quero ter o prazer de ver o seu CD nessas trocas literárias que tanto nos engrandece. Também me sinto premiado nessas trocas.

Selma

Agradeço as palavras carinhosas que funcionam como combustível para que eu continue a escrever.

“Cheguei a bebericar com você, a sentir todo o clima daquele momento, e me vi tão sem recordações minhas que pudessem ou valessem uma crônica. A palavra "recordações" traz em si esta conotação de voltar ao passado através do coração.”

Creio que sempre há uma recordação, que mereça uma crônica. Uma vida vivida é uma fava contada e contada, sempre. Eu acredito.

Jurandir Vasconcelos

“Me perdoe se não consigo ver, com clareza, a sua tela temporal; porém, mesmo assim me senti aquele jovem que fui (1963), quando trabalhei em meu primeiro emprego, próximo ao Bar Simpatia. Esquina com a Rua da Alfândega. Será que estou certo?”

Acredito que tenha atingido sim, a sua “tela temporal”, uma vez que as recordações surgiram de modo bastante expressivo. Só uma coisa. Era perto da Rua da Alfândega sim, mas na esquina da Rua Buenos Aires e ficava ao lado da casa de cambio “Casa Piano”.

Um grande abraço a todos pelos comentários carinhosos.

Rogério

joão Cruz disse...

Sem querer contestar alguém, tenho por lembrança que o Bar Simpatia (nº 92) próximo à Casas Piano (nº 88), ficava na esquina R. Miguel Couto com R. do Rosário. Tenho livro que pretendo lançar - Dia "D" A Guerra ... e o Enigma - (drama) em cuja 2ª parte (romance) cito várias vezes o local por ter sido onde enigmático encontro que dá desfecho à história, aconteceu.