09 outubro 2008

FREUD EXPLICA RESPONDE: A ESQUIZOFRENIA NA PERSPECTIVA DA PSICANALISE

Alessandra do Couto Valentim pergunta:

Ola, bom dia

Descobri teu site e o achei muito interessante, acima de tudo com uma coisa inédita: essa de poder perguntar algo.

Pois é, gostaria de saber o que é a Esquizofrenia sob a perspectiva da Psicanálise.

Se possível também, a causa dela.

Muito obrigada

Freud explica responde:

O termo esquizofrenia foi criado por E. Bleuler (1911) para designar um grupo de psicoses cuja unidade tinha sido mostrada por Kraepelin reunindo-as no capítulo “demência precoce” e distinguindo nelas três formas que se tornaram clássicas: a hebefrênica, a catatônica e a paranóide.

Bleuler pretendia por em evidência o que, para ele, constitui o sintoma fundamental das psicoses: a Spaltung (dissociação). O termo impôs-se na psiquiatria e na psicanálise, apesar das divergências de autores sobre o que garante à esquizofrenia a sua especificidade e, portanto, sobre a extensão do quadro nosográfico.

Clinicamente, a esquizofrenia se apresenta de maneiras muito distintas com as seguintes características: a incoerência do pensamento, da ação e da afetividade, o afastamento da realidade com um dobrar-se sobre si mesmo e predominância de uma vida interior entregue às produções fantasmáticas (autismo), uma atividade delirante mais ou menos acentuada e sempre mal sistematizada.

O caráter crônico da doença, que evolui segundo os mais diversos ritmos no sentido de uma deteriorização intelectual e afetiva e resulta, muitas vezes, em estados demenciais. A demência constitui para o psiquiatra um traço determinante para o diagnóstico da esquizofrenia.

Embora Freud tenha fornecido muitas indicações sobre a esquizofrenia, outras indicações sobre o funcionamento do pensamento e da linguagem, pode-se dizer que a tarefa de definir a estrutura dessa afecção continua a pertencer aos seus sucessores.

A seguir apresento um trabalho onde desenvolvi a construção do aparelho de influenciar descrita por Victor Tausk finalizando com um fragmento clínico.

“Tausk já se constitui num autor clássico da psicanálise e é evidentemente importante que possamos conhecer os autores fundamentais da nossa disciplina, isto é, aqueles que foram ativamente responsáveis na constituição do saber psicanalítico. A inexistência de traduções e a falta de circulação dos ensaios de Tausk no Brasil são efeitos na superfície de um processo primordial que se articula no campo psicanalítico”.

Essa é uma introdução de Joel Birman no seu artigo no livro “A Origem do Aparelho de Influenciar na Esquizofrenia”, de Victor Tausk como uma contribuição à clínica psicanalítica.

Tausk teve um percurso na psicanálise entre 1908 e 1019, onze anos, portanto, de uma vida dedicada à psicanálise demarcada por profundas mudanças na sua vida pessoal e profissional. Os problemas que determinaram o afastamento de Adler e Jung da Sociedade Psicanalítica de Viena não foi para ele sentido como um episódio menor. Ele mesmo provará mais tarde o dissabor da rejeição de Freud. No início de 1919, procurou-o para ser analisado, sendo recusado e enviado para fazer análise com Helena Deutsch, uma discípula recém chegada ao grupo e que se analisava com Freud. É claro que Tausk poderia ter solicitado um analista mais experiente, mas só aceitou Helena porque percebeu que com ela ele próprio ficaria mais próximo de Freud. Apesar de ter sido para ele uma decisão difícil, aceitou dando início a uma análise que foi, três meses depois, interrompida drasticamente por Freud.

É importante lembrar que, entre 1912 e 1913, ele era considerado brilhante por Freud. Ele teve um caso amoroso com Lou Andreas-Salomé que mais tarde se tornaria amiga confidente de Freud, que nutriria por ela uma paixão secreta.

Em 1919, término da primeira grande guerra, Tausk começou o noivado com Hilde Loewi, publicou “Sobre a Origem do Aparelho de Influenciar na Esquizofrenia” e cometia seu ”duplo suicídio” enquanto que, neste mesmo ano, Freud mandava para publicação o artigo “Das Unheimliche”.

Esta pequena cronologia pretende ser a introdução da vida de quem se dedicou intensamente da psicanálise e de seu saber. Relevante também seria contabilizar todos dados que determinaram o rumo tomado por ele até a sua morte. De um lado encantamos um Tausk inquieto, arguto e audaz que parecia ter sempre pressa em concluir idéias, pensamentos e sentimentos enquanto de outro encontramos um Freud que matura bem devagar as suas idéias e que não gostaria de vê-las concluídas e divulgadas antes dele.

Freud escrevendo para Lou, após a morte de Tausk assinalou: ”Assim, durante toda a sua vida, até o fim ele lutou contra o fantasma de seu pai. Confesso que não sinto falta dele; há muito tempo considero-o inútil e mesmo uma ameaça para o futuro”.

Como todo e qualquer psicanalista daquela época, Tausk entrou pela porta principal de acesso a psicanálise que representa, na verdade, uma entrada legítima, ou seja, entrou com a singularidade de sua angústia e as impossibilidades colocadas pela sua própria subjetividade.

Como teórico original, ele foi polêmico, inovou na teoria e foi pioneiro na exploração de novos domínios da experiência psicanalítica. Contribuiu para o atendimento da psicose como objeto de investigação por excelência, onde retomou a problemática inaugurada por Freud, Abraham e Jung.

A “Origem do Aparelho de Influenciar no Curso da Esquizofrenia” revela, portanto, o conjunto de contribuições teóricas, para o estudo da psicose e revela também a incidência do imaginário como no romantismo alemão da época.

Tausk descreve o “Aparelho de Influenciar“ como sendo uma máquina de natureza mística que, somente por alusões, se pode dizer como ela é feita. Sabendo-se apenas que é constituída imaginariamente de caixas, manivelas, alavancas, baterias, etc. e que para se poder fazer uma boa articulação do aparelho de influenciar com os quadros clínicos, é preciso distinguir seus efeitos. Em primeiro lugar, não funcionam como uma alucinação visual típica, pelo contrário, as imagens são vistas em um só plano, como se fosse uma fita de desenho animado no cinema.

O aparelho produz e furta pensamentos e sentimentos e em geral, os doentes não sabem como ele funciona, mas acreditam que sua função é a de permitir aos perseguidores criar ou furtar pensamentos e sentimentos.

Também produz ações motoras no corpo do doente, ereções, poluções, com a finalidade de privar o doente de sua força viril e enfraquecê-lo. Produz ainda algumas sensações que não podem ser descritas pelo doente, por sua total estranheza. O aparelho também é responsável por outros fenômenos somáticos como erupções, furúnculos e outros processos mórbidos.

Ao que tudo indica, ele serve para perseguir o doente e é manipulado por inimigos. Tausk descreve estes perseguidores como inimigos exclusivamente do sexo masculino, que se utilizam do instrumento e, muito freqüentemente, entre os perseguidores, estão os médicos que cuidam do doente.

Tausk acrescenta que, por muitas vezes, alguns doentes acusam todos esses fatores sem atribuí-los à ação de um aparelho. Alguns doentes acreditam em forças telepáticas vindas de inimigos devido às sensações sentidas em seu próprio corpo e espírito.

O aparelho aparece como sintoma num estágio mais avançado da doença e tende a modificar-se ao longo da vida. A clínica explica o sintoma da mesma forma que a paranóia (perseguição que também é inventada pelo doente), para justificar o seu delírio de grandeza que a clínica chama de “paranóia somática”.

Num bom número de casos parece certo, em outros bastante provável, que a partir de sentimentos de transformações que aparecem sob o signo da estranheza. Sem por em causa algum responsável, formam-se sentimentos de perseguição em que o sentimento de transformação é atribuído à ação de uma pessoa estranha por sugestão ou influência telepática. Partindo deste pressuposto podemos admitir que o aparelho de influenciar seja o ponto final da evolução do sintoma, que teve seu início num simples sentimento de transformação.

Tausk acreditou tratar-se de um sentimento de influência por identificação com o perseguidor e lembra a tese defendida por Freud e por ele mesmo, quando diz que a identificação no mecanismo da escolha objetal precede a escolha objetal por projeção, que constitui a verdadeira posição do objeto.

No Problema Econômico do Masoquismo, Freud acrescenta que quando o indivíduo apresenta um sentimento inconsciente de culpa, o lucro que recebe da doença, no confronto das forças que lutam contra o seu restabelecimento e as que se recusam ceder o seu estado de enfermidade é transformado em satisfação. É o sofrimento que é transformado em satisfação. É o sofrimento que faz valiosa a tendência masoquista. Mesmo quando o indivíduo está envolvido na desgraça de um casamento infeliz, perde todo o seu dinheiro ou desenvolveu uma doença grave, a forma de sofrimento pode ser substituída por outra forma na impossibilidade de se manter num determinado grau de sofrimento.

Podem-se dizer que o masoquista escolhe o seu objeto como quer Freud, no caso de Tausk este objeto é construído sob a forma do Aparelho de Influenciar

A máquina habitual de influenciar é construída de forma totalmente incompreensível. Não se pode imaginar pedaços inteiros. Mesmo nos casos em que o doente tem a impressão de compreender bem a construção da máquina, é evidente, porém, tratar-se de um sentimento análogo ao do sonhador que apenas tem a sensação de uma compreensão, mas não a compreensão propriamente dita. Sabemos disso quando pedimos ao doente que descreva a máquina.

Para Tausk o psicanalista não terá qualquer dúvida de que esta máquina é um símbolo, conforme Freud explicou dizendo que, nos sonhos, as máquinas significam sempre os órgãos sexuais.

Outra questão importante é a forma como o aparelho é manipulado. Tausk acrescenta que, segundo as suas análises, as máquinas representam sempre os órgãos genitais do próprio sonhador, em sonhos de masturbação. O sonho da máquina se opõe ao desejo de ejaculação por mutações simbólicas sucessivas, ou seja, o sonho da máquina tem um mecanismo semelhante; como diferença, ele indica que novas partes que surgem são acrescentadas e não substituem as antigas. O resultado é que o símbolo se faz de forma mais complexa. Cada nova complicação chama a atenção do sonhador, desperta o seu interesse intelectual e, ao mesmo tempo, enfraquece o interesse libidinal. A nova complicação age como inibidora da pulsão.

Partindo da idéia de que o aparelho de influenciar venha a ser uma representação dos órgãos genitais do doente, a representação seria, na origem, análoga à máquina do sonho.

Os esquizofrênicos queixam-se de que o aparelho produz ereções, subtrai o esperma e enfraquece a sua virilidade, reforçando esta suposição. Dai se concluir que “assimilando o sintoma a uma produção onírica e colocando a doença em um nível psicanaliticamente acessível à interpretação do sonho, deu-se já um passo além das necessidades de racionalização e de causalidade em que se apoia a clínica tradicional para interpretar a máquina de influenciar na esquizofrenia”.

Quando na paranóia o sentimento de estranheza fracassa em sua função protetora, a pulsão libidinal orientada para o objeto homossexual é projetada nesse mesmo objeto e aparece, então, numa direção inversa como agressão contra aqueles que ama como perseguição. Os estranhos se tornam inimigos. A hostilidade é uma tentativa de autoproteção, nova e reforçada, contra a libido inconsciente recusada. O mesmo pode-se passar no que concerne à libido orgânica narcísica no decorrer da esquizofrenia, ou seja, o órgão alienado aparece como inimigo externo, como um aparelho utilizado para prejudicar o doente.

Finalmente, Tausk distingue três fases principais na história evolutiva no aparelho de influenciar:

Na primeira, o sentimento de alteração provocado pela extase libibinal no nível de um órgão (hipocondria). Ou como diria Freud, que as palavras estão sujeitas a um processo igual ao que interpreta as imagens oníricas dos pensamentos latentes. Passam por uma condensação e, por meio de deslocamento, transferem seus investimentos de umas palavras para outras. Este processo pode ir tão longe que uma única palavra, se for adequada devido a suas numerosas conexões, acaba assumindo a representação de todo um encadeamento de pensamento.

Na segunda, o sentimento de alienação provocado pela recusa que o ego opõe ao órgão do doente. O ego nega o órgão alterado ou sua função, não os considera mais, fazendo parte das relações que ainda reconhece entre órgãos e funções que permaneceram perfeitos ou relativamente sadios: o órgão é então excluído, é o que Freud chama de “fala do órgão” e que foi trabalhado brilhantemente, no próprio caso que Tausk apresentou em seu trabalho. Consiste numa moça que foi levada à sua clínica após uma discussão com seu amante e que se queixava de que seus olhos não estavam direitos, estavam tortos, e, mesmo explicando o fato em linguagem coerente, empreendeu uma série de acusações contra o amante. Ela não poderia, de forma alguma, compreendê-lo, pois a cada vez ele parecia diferente, era hipócrita, um entortador de olhos, ele tinha entortado os seus olhos, o que a obrigava ver o mundo com olhos diferentes.

E por fim, o sentimento de perseguição (paranóia somática) vem da projeção das modificações patológicas no mundo exterior.

Como exemplo clinico apresento o seguinte fragmento:

Trata-se de uma mulher, de aproximadamente 35 anos de idade, caçula de quatro irmãos, morando com a mãe já idosa, que vou chamar de Maria. Sendo a única que não concluiu o curso secundário, enquanto os seus irmãos concluíram o curso superior. Ela parece acreditar que a interrupção dos seus estudos foi o preço que teve de pagar para que seus irmãos obtivessem sucesso intelectual e profissional.

- Não sou eu quem deveria estar aqui. Quem deveria estar aqui é a minha irmã. Ela sim é que precisa. Lá em casa eu sempre fiquei para trás em tudo. Depois que a minha irmã mais velha morreu, meu pai quis me aposentar pelo INSS como louca, mas eu não deixei. Eu trabalhava como autônoma fazendo desenhos e pagava o meu INSS todo o mês. Por causa desta história do meu pai eu parei de pagar o INSS e foi ai que tudo começou.

- Eu não sei como eles souberam que eu não estava pagando e começaram a me seguir. Eu moro num apartamento de frente, no 2º andar num bairro da zona norte e, de vez em quando, eu ouvia quando eles passavam na rua e diziam: É aqui que mora aquela maluca! Ela não paga o INSS! Ou então me chamavam de piranha, de puta, de ladra ou qualquer coisa. Chegaram até a colocar uma máquina lá na minha casa para ler os meus pensamentos. É uma máquina infernal. Toda a vez que eu pensava em alguma coisa a máquina começava a funcionar e eu esquecia tudo o que estava pensando, ou então ela me dava ordens, me mandava eu fazer coisas que eu não queria e eu não fazia mesmo. A máquina mandava em todo mundo lá em casa. Todas as maldades que minha irmã fazia comigo era por ordem daquela máquina.

Perguntada como eram a máquina e as ordens que recebia, Maria disse que não sabe bem como é, o que sabe é que a máquina tem um motor possante que escuta sempre tocando lá na sala. Tem fios, braços que se movimentam como querendo pegar a gente e uma boca que dá as ordens e que suga os pensamentos. É uma caixa quadrada, fica parada, mas não tem cabeça, e continua:

- Eles estão cada vez mais atrevidos. Um dia, eu ouvi quando eles combinavam dia e hora para nos atacar.

- Eu passei a botar um pedaço de pau na janela para impedir que eles pudessem abri-las por fora. Eu falo para as pessoas lá de casa, mas eles não acreditam, dizem que eu estou ficando louca, que nada disso existe, que eu é que fico inventando coisa. Só que eu ouvi quando eles disseram que vinham pegar as minhas jóias, ai eu resolvi mudá-las de lugar, mas eles sempre sabem onde eu escondo, eles lêem o meu pensamento. Já tomei as minhas providências, liguei para a Globo e contei tudo para eles. Um dia vocês vão ver que eu tenho razão.

Se Maria indica aqueles que são seus perseguidores, ela também se identifica com eles, na medida em que ela mesma deixa, deliberadamente, de pagar o INSS. A desculpa do calote serve para evitar que seu pai a aposente como louca, mas não pagar o INSS a deixa em posição contrária, da mesma forma que seus perseguidores estão em relação a ela.

Maria relatou que seus agressores são sempre do sexo masculino e atuam por telepatia, já que adivinham os seus pensamentos, criam nela sentimentos e assim por diante. Atribuiu que as manchas e erupções que surgiram no seu corpo foram causadas pelo manejo do aparelho por seus perseguidores. São homens que a perseguem se utilizam do aparelho. Agem por vingança por que ela é devedora do INSS. Como a sugestão fracassou, eles recorreram, então, ao aparelho de influenciar. Não só ela, mas também a mãe, os médicos e os amigos, todas as pessoas estavam submetidas à diabólica máquina.

Bibliografia utilizada

Tausk, V.; Katz, C. e Birman, J. (org.) - Tausk e o Aparelho de Influenciar na Psicose - Ed. Escuta

Roazen. Paul - O Irmão Animal - Ed. Imago

Roustang, F. - Um Destino Tão Funesto - Ed. Timbre Taurus

Tausk, V. - Trabajos psicanalíticos - Ed. Gedisa

Freud, S - Standard Editions - Obras Completas - vol. XIII, Pág. 229; - vol. XIV, Pág. 225 e- vol. XVII, Pág. 339

4 comentários:

Soraya disse...

Oi Rogério.
Que texto maravilhoso!
tAnto pelo Tausk, um que me é muito caro, como pelo caso clínico.
Persigamo-nos então.
Parabéns!!!

Anônimo disse...

Pois é, estamos há 100 anos nos baseando em descobertas de Freud e seus seguidores... Os psicanalistas cobram muito caro para tratar os doentes e, o tratamento é longo... E, muitos dos psicanalistas, não tem competência para atuar...
Mas, a psicanálise cura e, os medicamentos, apenas estabilizam o quadro, às custas dos efeitos colaterais que provocam sequelas muitas vezes, irreverssíveis... Espero estar colaborando e, estas afirmações são decorrentes de minha experiência de uma mãe de um portador de esquizofrenia.

Anônimo disse...

A esquizofrenia precisa ser compreendida e é exatamente nesse percurso metodológico-teórico que a psicanálise faz sua contribuição. Os moralismos, as crenças e as convenções sociais obscurecem essa compreensão dos transtornos metais em geral, ao passo quanto mais dedicarmos nossa atenção para a causa do que para o abrandamento dos sintomas psicóticos, mais poderemos pensar psicanaliticamente.
Att. Luis X. Faria

memórias de um esquizofrênico disse...

Olá
Gostaria de saber quais as causas da esquizofrenia na visão da psicanálise,me desculpe por não ler o texto completamente.