11 maio 2008

RETÓRICA

Por Rogério Silva

Na verdade, este deveria ser apenas um comentário à postagem de Cesar Kiraly, Partidos Políticos e Sociabilidade, onde ele afirma que no Brasil a política sempre acontece de um modo conservador e os movimentos que investem contra a ordem conservadora, conseguem fazer o que não é espontâneo, fazem com que poder proteja a sua capacidade de concentração. A política no Brasil só é mobilizada contra os movimentos de invenção social. Por que os partidos políticos são formas sem conteúdo, formas necessárias, mas sem conteúdo, e por isso de conteúdo é retórico.

Quem já foi criança e se lembra das brigas entre os garotos. Lembrará também, que nem sempre era o mais forte que ganhava a briga. Logo após a primeira tapa chegava a turma do “deixa disso” que apartava a briga e o que levou a tapa era o perdedor.

Desde cedo aprendemos que a história só é contada pelos vencedores. O garoto que levava a tapa, desmoralizado se encolhe com vergonha, enquanto o outro se vangloria e muita vez aumenta a historia. Esse aumento, embora muitas vezes ingênuo, é a forma da retórica que será utilizada mais tarde, seja na vida pública quanto na vida privada.

Quando Manoel de Barros diz: "Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira", ele esta fazendo uma retórica. Uma retórica que procura fazer com que o outro se convença de que ele está correto através do seu próprio raciocínio. A invenção, não é necessariamente uma verdade, mas pode ser. Quem pode contestar?

Quando ele era criança não gostava de estudar até descobrir os livros do padre Antônio Vieira. Chegou a dizer que a frase era mais importante que a verdade, mais importante que a sua própria fé. O que importava era a estética, o alcance plástico. Foi quando ele percebeu que o poeta não tem compromisso com a verdade, mas com a verossimilhança. Um bom exemplo disso está num verso de Manoel que afirma que "a quinze metros do arco-íris o sol é cheiroso." E quem pode garantir que não é?

A retórica não visa distinguir o que é verdadeiro ou certo, mas sim fazer com que o próprio receptor da mensagem chegue sozinho à conclusão de que a idéia implícita no discurso representa o verdadeiro ou o certo.

Desse ponto de vista, eu acredito que a retórica pode servir a vários propósitos, desde que quem dá a primeira tapa possa convencer.

Acabamos de assistir o embate entre a Ministra Dilma Rousseff e o Senador José Agripino Maia. Sem dar ênfase ao conteúdo, podemos perceber como ambos lançaram mão da retórica para convencer o plenário.

Talvez possamos dizer que a Ministra tenha dado a melhor tapa, por que o conteúdo de sua fala continha aquilo que há de mais revolucionário e democrático, que foi a sua participação na vida política do Brasil, no período da ditadura. Um ruído surdo que ainda tentará se fazer ouvir por muito tempo. Esse passado histórico constituí uma mancha no processo democrático, que demonstra quão conservadora é forma de se fazer política por aqui.

Diferentemente da Ministra os partidos políticos não possuem, a meu ver, um compromisso com o discurso verdadeiramente democrático. Não possuem uma retórica única e verdadeira. Ela oscila ao sabor dos interesses partidários, não cabendo por fim uma transformação social.

Como afirma Cesar Kiraly, no Brasil os partidos ainda são formas cujo conteúdo, retórico por excelência, muito pouco mobiliza valores, e, pela admissibilidade social de que vale tudo no jogo do poder, os partidos são formas retóricas vazias. As formas de governo de esquerda são absolutamente conservadoras, em alguns aspectos.

Um comentário:

cesarkiraly disse...

Prezado Rogério,

para continuar o papo, julgo que a política seja maior do que suas instâncias burocráticas, muito embora essas sejam fundamentais, como nos lembra a carta de Hanna Arendt ao jovem teólogo. Para isso, achei relevante comentárias imagens de Chaplin, maiores do que a dimensão burocrática da política. Porque a política se define por sua potência inventiva e não pelos seus medos. Muito embora os medos sejam fundamentais, como nos diz Arendt.
Minha resposta: http://cesarkiraly.wordpress.com/2008/05/12/as-politicas-de-chaplin/
Carta de Hanna:
http://cesarkiraly.wordpress.com/2008/05/12/a-arte-do-possivel/

Um abraço do amigo,

Cesar