14 dezembro 2007

A ÉTICA EM QUESTÃO - Uva sem caroço ou psicanálise em penca

Por Rogério Silva

Se há uma ética da psicanálise, é na medida em que, de alguma maneira, a análise fornece algo que se coloca como medida de nossa ação.

J. Lacan

Entendemos a psicanálise como o lugar privilegiado de uma ética da criação e da liberdade, baseada nas matrizes neurótico/conflitivas da díade analista/analisando que se estabelece no espaço analítico.

Para Fédida, garantir a situação analítica ou reinstaurá-la corresponde para o analista à tarefa de manter essa posição de estranho intimo que é de certa forma, a condição temporal da essencial dissimetria: o analista escuta com a sua angústia.

Entende-se que, muitas vezes uma análise está longe de ser pura ou linear. Nela, vários processos ocorrem simultaneamente e, conseqüentemente, sem perceber, o psicanalista violenta o método com o próprio processo, que comporta uma diversidade de técnicas psicoterapêuticas, ao mesmo tempo sem poder, predeterminar os caminhos possíveis que surgem a partir do encontro de dois inconscientes, e sem que isso, seja considerado um erro técnico ou pontos cegos do analista, desde que esteja permeado pela ética.

O que seria então uma violência no setting analítico? Pode-se dizer que a violência, talvez seja se manter no padrão esperado ou ainda repetir chavões interpretativos de um modelo teórico fixo numa postura ortodoxa. Contudo, o que parece ser muitas vezes ato de violência, às vezes, o livre arbítrio do psicanalista que, usando sua contratransferência, teria o direito de criar com cada paciente uma teoria que melhor lhe cabe, dentro dos padrões éticos. Estes padrões perpassam também pela temporalidade na clínica como orientadora de um processo. Temporalidade que, capturada pelas urgências e velocidades da atualidade - a grande produção de lixo e a voracidade consumista - determinam uma psicanálise mais comercial e menos ética e estética.

Recentemente a Formação Freudiana do Rio de Janeiro realizou um encontro entre os membros da clínica de psicanálise e seus pares. O tema do encontro passou pela questão ética do tempo da análise e o tempo da seção na dimensão clínica.

A motivação e o convite aos debatedores foram frutos de uma inquietação dos participantes da clínica social da entidade sobre a temporalidade da análise nos dias de hoje. Esse tempo presente, cuja velocidade e a fome consumista, faz com que o indivíduo se veja na condição de um cardume de piranha a devorar, em segundos, o que lhe aparece pela frente. É preciso que o produto oferecido se apresente de forma a ser consumido, digerido ou apropriado rapidamente, sem que dele sobre qualquer resto.

A Formação Freudiana sempre se colocou aberta ao acolhimento tanto das demandas psíquicas, quanto dos pressupostos teóricos dos pensadores seguidores de Freud que alimentam a teoria e a técnica psicanalítica. Por isso absorver o excesso de forma voraz parece ser um risco que pode comprometer a psicanálise e a sua clínica.

A metáfora da uva sem caroço parece bastante apropriada como aquilo que não apresenta nenhuma possibilidade de mediação entre consumidor e consumido.

Os atendimentos feitos através planos de saúde e a legalização da profissão de psicanalista se colocam como banalizadores da prática analítica, juntamente com outros fatores midiáticos na França de hoje, como apontou um dos debatedores.

O tempo lógico proposto por Lacan parece ter perdido a dimensão do tempo de compreender, pois perceber e concluir quase se dão no mesmo instante. Por isso a proposta marquetereira da franchising torna-se imperativa de um certo modo de “fazer” analítico, que coloca em risco a ética.

É possível que as propostas dos franceses que acompanham essa temporalidade voraz se apresentem como esse modo novo, até de forma ética. Contudo, se não se pode mais oferecer uma análise de cinco dias por semana porque o paciente brasileiro não tem condições para arcar com essa despesa e já vem com a idéia de que pode ter uma seção por semana e o quanto pode pagar. O que nos resta, oferecer psicanálise em penca?

7 comentários:

Tiago "Huhn" disse...

fiz um ano de análise. 1 hora por semana +-. No começo do outro ano a plano de saúde diminuiu para no máximo 30 min, eu mal começava a aprofundar algo, a analista olhava para o relógio. Terminei abandonando...

cesar kiraly disse...

Olá meu amigo,

eu comecei a rascunhar algumas palavras sobre sua última postagem. Mas como o tema é por demais apaixonante, acho que me estendi demais para um comentário e acabei por transformar em uma postagem. Então, o conclamo a ler os comentários escritos, pela inspiração de suas dúvidas.

Um abraço,

Cesar

Anônimo disse...

Não entendo muito destas coisas, mas fico muito curioso quando voce fala de psicanálise em penca. Eu uma vez procurei um analista mas como não podia pagar perguntei se o meu plano cobria. Ele disse que não trabalhacva com planos de saude e eu fiquei sem atendimento nenhum.
como eu posso fazer anmalise morando no suburbio na Sulacap e ir ao consultorio em Ipanema e ainda pagar quase um salário mínimo?
tem algum lugar que me ajude?

Rogério Silva disse...

Certamente fui empurrado para pelo menos dois lugares aparentemente diferentes, um para a questão política da psicanálise e outro para o atendimento em penca que deixei pouco esclarecido na postagem.

Sobre esse último penso num anúncio assim:

“Seus problemas acabaram, sua satisfação garantida ou seu dinheiro de volta. Atendemos segundo o seu caso: perda de um ente querido, x sessões; seu grande amor foi embora? trazemos de volta em y sessões; perdeu o emprego? recupere em t sessões com pagamento adiantado ou em z vezes pagando em módicas prestações; etc.”

É claro que o anúncio ainda poderia dia dizer: atendimento personalizado; clientes exclusivos; sigilo absoluto ou qualquer outra coisa que denotasse confiança. Isto seria um tratamento em penca, um cacho de uvas sem caroço para o tamanho ideal do seu problema.

E os ensinamentos de Freud? As possibilidades de transferência e contratransferência, ingredientes básicos para uma análise? Ouvir com a angústia e outros aspectos técnicos da psicanálise?

Cesar colocou bem a questão no plano político. Vide o blog Teoria Psicanalítica no endereço http://teoriapsicanalitica.blogspot.com/2007/12/as-instituies-da-psicanlise.html. Se desejarem fazer algum comentário à sua pastagem, terão de fazê-lo aqui, pois ele não tem espaço para comentários. Contudo, quero enfatizar que a terapia profunda esta perdendo a batalha para as hordas bárbaras da diligência que estão em todos os lugares. Avançando para as novas bandeiras engomadas da assistência gerenciada dos planos de saúde, os batalhões da terapia rápida obscurecem a paisagem e, a golpes de martelo, insistem nos institutos analíticos, os últimos enclaves armados de sabedoria, verdade e razão na psicoterapia. Creio que não só no Brasil ou na França. É a modernidade...

O biofeedback e relaxamento muscular para transtornos da ansiedade; implosão ou dessensibilização para fobias; fármacos para distimia e transtornos obsessivos/compulsivos; terapia cognitiva de grupo para transtornos da alimentação; treinamento de afirmação para os tímidos; grupos de respiração diafragmática para os pacientes em pânico; treinos em aptidões sociais para os socialmente evitantes; intervenções hipnóticas de uma única sessão para o tabagismos para todo o resto! E por ai vai.

O poder econômico da assistência gerenciada tem esmagado as defesas da psicoterapia. Os terapeutas são freqüentemente subjugados e forçados, se desejarem permanecer na profissão, a se ajoelhar diante do conquistador, que lhes paga uma fração de seus honorários costumeiros e lhes encaminha (ou aceita) os pacientes para um tratamento por cinco ou, talvez, seis sessões, ou no máximo dez sessões por ano, quando, na verdade, são necessárias cinqüenta ou sessenta sessões.

Quando os terapeutas esgotam suas escassas rações distribuídas, muitas vezes, a charada começa a sério, mas eles são forçados a implorar ao seu plano por mais sessões para continuar o tratamento, ou aceitar a desistência. Também ele desiste.

Por tudo isso vejo essa postagem também como uma denúncia.

cesar kiraly disse...

Olá meu amigo,

como bem sabe, os modos de apresentação de nossos pensamentos, fazem parte de nossos pensamentos. Como bem ensinava o nosso querido Derrida. Não existe um algo que seja exterior ao arquivo, o atual e o inatual, são dimensões do arquivo. A corrosão do arquivo é o mal de arquivo. Assim, gosto de pensar longe de casa. As crises que assolam a psicanálise hoje são a própria psicánalise. Pelo menos enquanto duplo. A psicanálise é um modo transferencial a contrapelo. Ainda que enfrente temas próprios a contemporaneidade: como corpo e marcas sociais, promove enfrentamento resistente: o corpo e as marcas são investigados segundo um tempo que não é contemporâneo. O tempo da pausa e do silêncio. Se bem que a insistência da psicanálise em contrapor ao barulho contemporâneo, a pausa e o silêncio, guarda paradoxo próprio ao nosso tempo.

Um abraço,

Cesar

Very Libertarian disse...

Talvez tenhamos chegado a um impasse que desde o primeiro momento influenciou nas divergências da sociedade psicanalítica. infelizmente não podemos negar o impacto de um sistema consumista que execra tudo que tenha um valor para além da questão financeira.

Querendo ou não cabe a psicanálise (leia-se seus membros), se engajarem no que acreditam combater tais valores, e querendo ou não polemizarem a questão mercantilista que sempre restringiu a psicanálise a elite.

Um abraço.

cesar kiraly disse...

Olá amigos,

a mensagem de very libertarian recoloca a questão. É inafastável da psicanálise a sua história: uma ciência burguesa e judaica. Ao contrário das outras ciências (uso ciência no sentido bastante impróprio, quero dizer que a psicanálise é uma episteme sistemática) a psicanálise quer a sua história, deseja sua história, enfrenta a sua história e seu significado. A psicanálise é judaica porque marginal, porque é estrangeira, porque é nômade em seus preceitos e introjeta a diáspora enquanto uma dimensão conceitual. A psicanálise é judaica e por isso é universal. O que não significa que seus teóricos devam ser judeus, nem os seus partícipes, o judaísmo da psicanálise está no seu minoritarismo. Existem modos de se quebrar o judaísmo da psicanálise (insisto no significado do judaísmo, enquanto resistência em diáspora) como fizeram as instituições norte-americanas. A institucionalização rígida, a medicalização, a subsidiariedade frente a outros mecanismos de descrição (como a psicologia behaviorista) encerram a história da psicanálise. A psicanálise é burguesa. O que não significa que a psicanálise seja mercantil. Nem que não possa ter estratégias diferentes de sobrevivência. A psicanálise é burguesa porque sobrevive na capacidade de associação não estatal. Essa é uma invenção burguesa. Cabe à psicanálise praticada em países pobres desenvolver mecanismos de preservação de sua prática, de torná-la próxima de uma maior número de pessoas, mas sem perder a sua independência frente ao Estado. Assim, a psicanálise deve permanecer burguesa, mas sob estratégias de sobrevivência distintas. As clínicas sociais são um modo. A psicanálise, talvez, seja a última forma de resistência, com característica burguesa, ainda vigente, porque nada tem que ver com as estratégias do neoliberalismo e nem com o crescimento do papel do Estado no controle da saúde. A psicanálise é burguesa porque (ao mesmo tempo em que resiste, agressivamente, contra certo modo de moralidade burguesa) acredita que modos institucionais, não estatais, podem permitir que se critique os grandes estatutos de estabelecimento da normalidade. A psicanálise preserva o sentido marginal do judaísmo e da luta contra o Estado.

Espero que se sintam provocados.

Um abraço,

Cesar Kiraly