27 agosto 2007

O TÉDIO

Do poeta alemão HEINRICH HEINE, traduzida por Guilherme Almeida.

Eu venho consutar-lhe uma enfermidade

Que me punge doutor e martiriza

Rouba-me a razão a mocidade

Negro cancro que nunca cicatriza.

.

É a moléstia que gera a hipocondria

Mui vulgar, porém insuportável

Rouba-me sem trégua, implacável

O sossego do espírito e a alegria.

.

Vós que sois um filósofo profundo

Conhecedor do coração humano

O médico mais sábio desse mundo

Eu creio que curareis o mal insano que me atrofia a mente e esmaga

.

Eu tenho um coração que não palpita

Cabeça que não pensa e não divaga

O tédio negro me envenenou os dias

Tédio que mata, tédio que assassina

Como os beijos vendidos na orgia de uma noite intérmina

Noite libertina.

.

O sábio, meditava em face do cliente

Tem razão, o senhor está muito doente

No entanto, a moléstia estranha que o devora

Mui vulgar e comum nesses tempos de agora,

Uma grande emoção, um grande sentimento

Às vezes valem muito e operam no momento o milagre da cura

.

O tédio é uma sombra, uma fatal loucura

É a noite indefinida do humano coração

Faz esquecer a sorte, faz esquecer a vida

Faz esquecer o eu e faz lembrar a morte

.

Diga-me: nunca amou?

Nunca em sua vida um coração bateu de encontro ao seu emocionado?

Não...


Pois é preciso mover-se

Aturdir-se meu caro,

Em busca de um prazer,

De um prazer bem raro.

.

Já foi à Grécia?

Ao Oriente, a Terra Santa?

Lá onde tudo fala

E tudo canta?

.

Num passado já morto, de mortas tradições

Que amesquinham, no entanto, as novas gerações

Gastei a mocidade. Em híbridos prazeres viajei

Viajei, como um judeu errante da lenda secular

.

E dentre as mulheres que meus lábios beijaram

Numa hora delirante de loucura infernal

Nenhuma só sequer

Deixou de ser para mim uma estranha mulher

.

Desculpe meu doutor

O mal é sem remédio

Cura-se tudo

Mas não se cura o tédio

.

Vá ao circo senhor!

Talvez as liguinadas do palhaço

Que as multidões inteiras não cessam de aplaudir

Lhe arranquem a boa gargalhada e lhe façam sorrir

.

Já sei o meu doutor, que o mal é incurável!

Quem as multidões diverte a ri no Coliseu,

O riso que ele tem é um riso aparvalhado

Que a miséria encobre, um riso desgraçado

Esse palhaço sou eu.

5 comentários:

JÚLIO ANTÔNIO PRZYBYLSKI BECKER disse...

LINDÍSSIMA

Alex Sampaio disse...

Comparada com outras traduções publicadas na net, essa tradução é a mais bela de todas.

Kics disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Kics disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Kics disse...


Este poema era recitado pelo meu saudoso pai à minha saudosa mãe.
E como não encontrei esta tradução na internet, resolvi registrá-la aqui,
Antes que se perca...

Tédio, Heinrich Heine
tradução de Machado de Assis

Venho doutor fazer-lhe uma consulta.
A doença que me punge e esteriliza a mocidade e o espírito
Resulta de uma chaga que nunca cicatriza.
Muito embora comum a toda gente
A de que sofro atroz hipocondria
Tanto me torna pensativo e doente
Que já nem sei o que é paz nem alegria.

Sendo o mais sábio clínico do mundo
Sois também um filósofo notável
Do peito humano auscultador profundo
Curareis este mal inexorável
Que me esmaga o organismo fibra a fibra
Que me enevoa o cérebro e o condensa
Eu tenho um coração que já não vibra
Suporto uma cabeça que não pensa.
Tédio mortal, tédio agoureiro
Que me envenena e escurece os dias
É como os beijos dados a dinheiro
Numa noite de orgia.

Refletindo, diz o médico ao cliente:
- O amigo tem razão! Padece realmente.
Contudo, a enfermidade, o morbuz que o devora
É um produto fatal do século de agora.
Uma emoção vibrante, um abalo violento
Pode curá-lo, creia, apenas num momento.
O tédio é uma mordaz, uma total loucura.
É a treva interior, a grande noite escura.
Onde se esquece tudo: a sorte, a vida amada,
O nosso próprio ser, e só se lembra o nada.
Diga-me: alguma vez amou?
Nunca em seu peito estrugiu das paixões o temporal desfeito
Como a vaga do mar que se agita e escapela
Ao soturno rumor do vento e da procela?

- Nunca doutor!

- Pois meu caro, procure a agitação constante.
Já viajou? Já visitou a Grécia? A Oceania?
O Oriente, a Terra Santa,
Os sítios onde tudo hoje evoca e decanta
As glórias de uma idade imorredoura e eterna
Que amesquinha e deslumbra a geração moderna?

- Doutor, percorri , como o Judas,
O mundo é a humanidade.
E entre as mulheres todas,
Cujas bocas beijei em bacanais e bodas
Mulher nenhuma eu vi sobre a Terra tamanha
Que para mim não fosse uma visão estranha
Como fui, voltei, sem achar lenitivo
Para este mal, doutor, que assim me traz cativo.

- Pois frequente o circo amigo.
A figura brejeira do famoso arlequim
Que a esta cidade inteira palmas e aclamações constantemente arranca,
Talvez sim lhe restitua a gargalhada franca.

- Vejo agora que o meu mal está perdido.
O truão de que falas, o palhaço querido
Que anda no coliseu assim tão aplaudido
Tem um riso de morte, um riso mascarado
Que encobre a dor sem fim do tédio e do cansaço.
Sou eu, doutor, sou eu este palhaço!