21 novembro 2006

A BELEZA APÓS OS 60 ANOS

Por Susan Guggenheim

Certa vez perguntaram à atriz francesa Jeanne Moreau porque ela, que já fora belíssima e sexy não fazia, como as outras atrizes, uma plástica para retirar as rugas de seu rosto. Na ocasião, ela deu uma resposta que serve de alerta para todos aqueles que passam dos 50 anos. Disse a atriz: “As rugas do meu rosto me custaram muitos anos de vida e sofrimentos para consegui-las. Não vou agora retirá-las”.

A percepção que temos de nós mesmos é construída ao longo dos anos e ser belo e jovem passou a ser uma imposição da sociedade moderna, que através da mídia impõe padrões e dita como deve ser a nossa imagem para sermos aceitos e amados.

Além de aparentarem serem jovens as pessoas devem ser magras, com corpos bem torneados. As mulheres devem ter seios mais fartos e braços e pernas mais musculosos do deveriam ter a alguns anos atrás. Os homens não podem ter uma barriga proeminente e apesar de magros devem exibir músculos. Sabemos que para se ter este exato modelo de perfeição estética precisamos utilizar artifícios especiais como aulas de ginástica, musculação e tudo mais que possa contribuir para termos um aspecto que esteja de acordo com o que é vendido como beleza e boa aparência.

Algumas pessoas tiveram a sorte de terem este aspecto físico ideal naturalmente. Mas eles também se atormentam. Precisam conservar a todo o custo o que a natureza lhes deu, sob pena de serem rejeitados no futuro por alguns quilos a mais e de serem acusados de negligentes ou autodestrutivos.

A vida para muitos se tornou uma obsessão pelo consumo de produtos que prometem tudo aquilo que a própria sociedade engendrou como necessário: cosméticos, aparelhos de exercícios, dietas especiais e todos os tipos de produtos milagrosos.

No entanto, com o envelhecimento a nossa aparência se transforma: o corpo muda, o rosto ganha rugas, os cabelos embranquecem.

Aquele que tem hoje mais de 60 anos sente-se obrigado a pintar os cabelos, fazer ginástica, usar roupas que o deixem com um aspecto mais jovem. Muitos recorrem às cirurgias plásticas de todo tipo para interromper a ação do tempo. É certamente uma luta que se sabe perdida. Com o passar dos anos, o envelhecimento será visível e a negação deste fato pode trazer sofrimento para aqueles que diferentemente da atriz Jeanne Moreau não aceitam as rugas como carregadas de sentido e parte da experiência de vida. Elas não estão lá apenas para denunciar a idade cronológica. Elas representam a nossa experiência de vida, os nossos feitos, as alegrias e as tristezas que sentimos. Retirá-las poderá nos trazer a ilusão da juventude, mas ao mesmo tempo, apagará as marcas de uma existência da qual muitos se orgulham e não desejam esquecer.

Por que deveria eu esperar um tratamento especial? A velhice, com suas agruras, chega para todos. Eu não me rebelo contra a ordem universal. Afinal, mais de setenta anos. Tive o bastante para comer. Apreciei muitas coisas - a companhia de minha mulher, meus filhos, o pôr-do-sol. Observei as plantas crescerem na primavera. De vez em quando tive uma mão amiga para apertar. Vez ou outra encontrei um ser humano que quase me compreendeu. Que mais posso querer?

Sigmund Freud


Susan Guggenheim é psicóloga e psicanalista da Formação Freudiana no Rio de Janeiro

4 comentários:

Cesar Louis Kiraly disse...

De alguma forma temos que estar diante de dois problemas sempre: primeiro o problema dos universais e depois o problema dos fragmentos. Por certo que nenhum dos supostos universais da beleza se encontram no rosto, nos cabelos ou nos olhos; os universais da beleza estão no encanto do rosto, no cheirar dos cabelos e no brilho dos olhos. Contudo, a beleza ainda nos permite os framentos, ah mas que beleza, então nos perdemos nas mãos, na ausência e fechar e abrir dos olhos. Existe uma crítica ao consumo e as banalizações promovidas pelo consumo, demasiadamente importante, mas eu prefiro a assunção do belo, aquele sentido, da ordem das sensações, ao mesmo tempo, universal e empirista.

Rogério Silva disse...

Oi Cesar
Que bom encontá-lo de novo aqui, penso que a questão é essa mesmo. O que é belo é belo. Está lá. Não sou eu quem tem que julgar, mas não tem jeito, é irresistível e o equívoco também é irresistível. O que isso, morrer de anorexia em nome de uma beleza universal? O platonico, está aí, é só olhar. Não vemos os nossos pelos e unhas crescerem, só constatamos depois quando comparamos com o antes. A beleza da unha grande ou da barba tem que ser criada numa nova estética, para poder surgir o belo. Um belo cavalo é um belo cavalo.
abs rogerio

Pricila Laignier disse...

Susan lida com este rude imperativo categórico da pós ou da hiper - modernidade , com a experiencia e sensibilidade próprias da feminilidade inteligente que a constitui como mulher e psicanalista .

A resposta de J .Moreau é fruto de sua ousadia .
Quem não se apaixonou por seu charme em Jules e Jim?

osmar disse...

foi bom passar aqui.texto certo,hora certa.comentarios racionais.obrigado.