08 setembro 2006

PAÍS DE PERVERSOS E VOTO NULO


Por Rogério Silva

Para o psicanalista Tales Ab’Sáber, 41, o Brasil é um país de perversos. Uma afirmação que faz a partir de Machado de Assis e Freud.

Leitor dos “clássicos” da interpretação social no Brasil, procura descobrir formas de subjetividade e suas relações com a sociedade. As obras "Casa Grande & Senzala", de Gilberto Freyre, "Formação do Brasil Contemporâneo", de Caio Prado Jr., e "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Holanda, são emergências de talentos individuais, relativamente jovens, de uma potência intelectual de caráter acadêmico, praticamente sem contexto. Isso aproxima esses trabalhos a um fenômeno como o do Machado de Assis.

Para Ab’Sáber, Machado de Assis falava de um tipo de sujeito, próprio do Brasil, que não coaduna com o padrão descrito por Freud. Se o neurótico sofre ao se sujeitar à "lei", aos limites que a civilização lhe impõe, o sujeito machadiano diz que a lei vale, mas não para ele, pelo menos, de forma decisiva. Esse tipo de sujeito, diz o autor de "O Sonhar Restaurado", ganhador do 48º Premio Jabuti (ed. 34, 320 págs.), a psicanálise descreve, de forma genérica, como perverso.

Ao colocar a situação brasileira no lugar do perverso, chega-se a outras conseqüências mais propriamente brasileiras: oscilação entre não-ser e ser outro, oscilação constante, fragilidade de uma integridade do eu.

Todos esses padrões já estavam em Machado, na forma da narrativa de Brás Cubas. A importância de sua formulação para o pensamento brasileiro pode ser medida por alguns dos companheiros de Ab'Sáber na empreitada do livro seu em preparação: o tucano-mor Fernando Henrique Cardoso e o pós-petista Francisco de Oliveira (sociólogos), o secretário de governo petista Paul Singer (economista) e o pensador pró-PSDB José Arthur Giannotti (filósofo).

Em Freud, a inscrição da lei numa vivência emocional primitiva, sexual e infantil, que é o barramento do incesto, seria a lei que nos convocaria. A verdade é que a lei posiciona o sujeito. Não há sujeito sem lei. Ele se funda na lei, ele é lei.

É preciso saber que a situação brasileira é diferente. Pensar se a lei vai pegar ou não é o que importa, e está aberto aí um outro sujeito, aquele em que a lei é um jogo, ela existe, mas não existe. Não tendo a lei uma eficácia simbólica forte, o produto é um mundo que em parte se anuncia como lei, em parte como astúcia, como para-além da lei.

É com esse pensamento que Ab’Sáber vê no voto nulo uma política radical. A tentativa de setores desiludidos com o PT de pensar e atuar politicamente fora da esfera dos partidos. Lula percebeu a falência do PT e passou a falar diretamente aos pobres, que perderam toda a confiança nas elites. Há algo novo para além da apatia do cenário político brasileiro. A "suspensão das paixões" nesse campo criou demanda por uma política fora dos partidos, da qual o voto nulo seria uma expressão, diz Ab'Sáber. "Os cidadãos que votam nulo estão radicalizando a política num momento que ela tende a desaparecer", disse durante a entrevista à Folha.

Ao discordar de "tudo" que o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Marco Aurélio de Mello, tem dito para estimular o voto. "Voto nulo não é o voto desinformado, incapaz de avaliar, desinteressado. Pelo contrário, é o voto hiperinformado”.

Leia aqui a entrevista a Rafael Cariello da Folha de São Paulo de 22/03/2006. Para assinantes ou da UOL

Folha - O que Machado de Assis tem a ensinar à psicanálise?

Tales Ab'Sáber - O Machado está descobrindo uma outra subjetividade [diferente da do Freud]. Outra equação. Isso é espantoso, dada a rarefação teórica, conceitual, institucional do país no século 19. É um esforço monumental de autonomia, que permite que a gente pegue esse mulato que escrevia nos jornais locais e possa colocá-lo na mesma frase que Freud. E isso não é um disparate. Ambos estão falando, de posições diferentes, de um mesmo momento do espírito --em que uma certa integridade do indivíduo está em xeque. Mas de formas diferentes. Esse é o problema brasileiro.

Leia a seguir trechos da conversa com Ab'Saber, que tratou também da blindagem do presidente Lula da Silva (PT) e do fracasso, até aqui, da oposição.
Entrevista a Fabiane Leite, Folha de São Paulo, 03/09/2006. Para assinantes ou da UOL

FOLHA - Votam nulo pessoas com boa educação, bom nível social, que vivem nos grande centros, não é uma contradição?

AB'SABER - Elas estão fazendo diagnóstico de que não há alternativa pelo interior da trama positiva e oficial da política. Elas têm condição de fazer esse diagnóstico e estão acreditando nele. Elas estão identificadas com o choque negativo. Vamos acertar o espaço da política por fora dele. Essa é a política que pode ser interessante agora, deslegitimar, isso é uma posição radical que começa a ganhar forma e prática. Voto nulo não é o voto desinformado, incapaz de avaliar, desinteressado, pelo contrário, é o voto hiperinformado.

PERGUNTA DO DIA

O que é Democracia e o que significa a frase de Lincoln: "governo do povo, para o povo e pelo povo"?

Um comentário:

Rogério Silva disse...

É bom lembrar que o voto nulo a que Ab'Sáber se refere não são aqueles previstos no Código Eleitoral (Lei 4.737 de 15/07/1965, artigos 220 e seguintes.
Ele se refere a uma atitude e não um ato.
Nas urnas eletrônicas não existe a tecla nulo e portanto o eleitor não tem como anular o seu voto. A Lei presume que sempre existem bons candidatos e isso não é verdade. No presente pleito isso chega a ser um drama. Na verdade para que o voto seja nulo é preciso que o eleitor erre, ou seja coloque números invalidos. A meu ver isso não é voto nulo (do eleitor), é voto anulado (pelo tribunal). Contudo ainda é o unico instrumento de protesto.
SE O PAÍS FOSSE REALMENTE DEMOCRÁTICO EXISTIRIA UM BOTÃO NULO, JÁ QUE EXISTE UM BOTÃO BRANCO.