20 março 2009

MADAME FREUD, UMA MULHER SEM ESCOLHA

Madame Freud: um retrato íntimo e revelador do pai da psicanálise pelo olhar de sua esposa

Esposa fiel, calada, submissa, mas principalmente uma esposa. A história de uma das principais personagens na vida de Sigmund Freud. Vivida no final do século atrasado e quase a metade do século passado. A história de Martha, a viúva de Freud, que a revela como uma testemunha privilegiada da vida de Sigmund. De quem ela traça um retrato sem piedade. Uma historia da invenção e do desenvolvimento da psicanálise e de um tempo que viu mudar a face do mundo.

Madame Freud, foi escrito pela psicanalista francesa Nicolle Rosen. Foi um lançamento da Verus Editora em 2008. Trata-se de uma biografia romanceada
que proporciona ao leitor um retrato íntimo e revelador de Sigmund Freud, de seus amigos mais próximos, seus desafetos e de toda a sua família, pelo olhar de sua esposa. Sobretudo trata-se do retrato de Martha Freud. Uma mulher forte que nunca demonstrou ares de covardia ou fragilidade. Precisou esconder seus sentimentos mais íntimos. Após viver um noivado apaixonante. Teve uma vida conjugal silenciosa e conformada. Ficou esquecida por sua família e foi relegada ao segundo plano. Neta de um rabino influente e esposa de um judeu ateu. Abriu mão de sua religiosidade e da busca do saber.

Sigmund dava início ao nascimento da psicanálise, enquanto Martha cuidava da casa e dos seis filhos. Missão que executou com esmero, sem deixar se abater. Após a morte do marido, ela começou a refletir sobre toda a sua vida. Ela se dá conta de que seu verdadeiro talento e inteligência lhe foram negados.

Sete anos se passaram desde o falecimento de Freud, quando a escritora e jornalista norte-americana Mary Huntington-Smith escreve para Martha propondo-lhe uma biografia. Foi, talvez, um momento de rebeldia que Martha encontrou para revelar-se e mostrar ao mundo os mistérios de seu universo enclausurado.


Assim, Nicolle Rosen cria uma surpreendente escrita de intimidade intensa entre o leitor, Mary Huntington-Smith e Martha. O leitor penetra nas mais profundas angústias de Martha, em seus ciúmes, em sua abstinência sexual a partir dos 35 anos, no relacionamento com seus filhos, na intromissão de sua irmã Minna e na maneira como rejeitou a própria filha, Anna Freud.

Curiosa a passagem que Nicolle descreve uma das fotos da família Freud como “uma espécie de ceia, na qual Sigmund ocupava o centro”. A santa ceia. A presença goy que ronda a família na figura de governantas e outros serviçais.

Esta ficção contou com anos de pesquisa meticulosa de Nicolle Rosen e tem o poder excepcional, de fazer com que o leitor desvende o lado obscuro de Sigmund Freud e sua esposa que sempre se conformou com o silêncio.

2 comentários:

sebastiao mauricio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
sebastiao mauricio disse...

É sem dúvida edificante o romance M. Freud. A ideia de fazer-se de vetríloqua de uma pessoa que não disse absolutamente nada por 50 anos é realmente tentadora. Assim, dando vez ao melhor do seu sintoma a autora dá a sua voz à grande muda e a transforma numa pequena burguesa ressentida que no decorrer de sua vida dedicou-se a silenciosas apreciações malévolas sobre todos que transitavam junto a seu marido, dando ênfase aqueles que os ajudaram.
A primeira a ser atingida é a psicanalista Marie Bonaparte que estava extremamente elegante nos funerais de Freud. Afinal, Marie era também princesa da Grécia e Dinamarca e muito benquista junto a realeza europeia. Conseguiu com seu pretígio ( e dinheiro) salvar Freud,a família e agregados dos nazistas, bem como outros 200 intelectuais judeus, dentro da maior discrição. Foi analisanda de Freud e posteriormente interlocutora em virtude de sua dedicação à psicanálise. Sua obra é vasta e nela se depara com aspectos espantosos sobre a mulher, tendo em vista a época. Entretanto, embora cuidasse da família Freud não se travestiu de criada para o funeral , motivo que irritou a viúva.
E por aí segue o "romance" não escapando Jones, a filha Ana Freud, a irmã etc. Parei nas páginas iniciais( haja estômago) mas parece que não escapou ninguém...
De minha leitura acredito que esta obra inscreve-se perfeitamente em um discurso não matemizado por Lacan, mas que volta e meia comparecia no seu ensinamento. O discurso do canalha(aquele que sabe e discorre sobre o desejo do outro). O que diria sobre aquele que transfere ao outro o peso de seu sintoma?