22 junho 2008

FREUD EXPLICA ENTREVISTA VIRGINIA PORTAS

Por Rogério Silva

Inquieta e persistente, Virginia Portas construiu um percurso definido pela psicanálise. Passou por questões cujo desenvolvimento cultural e intelectual eram premissas básicas. Inicialmente definiu-se pela comunicação devido ao elenco de professores extraordinários e a atividade cultural ativa do setor, na década de 70. Formou-se em Comunicação Social pela PUC - RJ, em 1974. Na época ficou em dúvida entre psicologia e comunicação. O encontro com a psicanálise veio mais tarde. M.D Magno foi seu professor de epistemologia, e foi com ele que ela começou a estudar psicanálise. Em dois anos estudando Freud e Lacan, ficou capturada definitivamente pelo universo psicanalítico.


Na época, porém o curso de comunicação social era polivalente, ou seja, não exigia especialização. O seu diploma lhe habilita ao jornalismo, relações públicas e propaganda e marketing. Sua inclinação para o jornalismo era evidente. Fez estágio no jornal O GLOBO, onde foi absorvida para a editoria de educação – mais tranqüila, assim como a editoria de economia. “Ambas ficavam num jirau em cima da “geral”, onde o jornal fervilhava realmente.”

Pianista e musicista desde os 16 anos pelo Conservatório Brasileiro de Musica, juntamente com a formação acadêmica foi trabalhar no rádio como revisora de programas de música “erudita” da Rádio MEC/ FM. Posteriormente, como produtora executiva assinou e apresentou seus próprios programas musicais. Estes programas, ela produzia com liberdade quase total. Entrevistava artistas e gravava concertos com a equipe técnica da casa.

Foi na Formação Freudiana que conheci Virginia, quando iniciávamos nossa trajetória. Desde o inicio o seu desempenho psicanalítico, se desdobrou tanto teórica, quanto institucional e clinicamente.

O blog Freud Explica teve o privilégio de publicar, em maio de 2006, Reflexões sobre a questão: "Os desafios às novas formas do modo do ser psicanalítico contemporâneo" de sua autoria. Prazer que se repete agora ao iniciar essa série de entrevistas.

Freud Explica: Qual a sua formação acadêmica e como você decidiu pela psicanálise?

Virginia Portas: Na verdade o que me fez definir por comunicação, e não psicologia foi o elenco de professores extraordinários e a atividade cultural muito ativa do setor na década de 70. Comunicação era a menina dos olhos da PUC/RJ. Como M. D. Magno foi meu professor de epistemologia e... não importa, mas na verdade tínhamos aulas de psicanálise com ele. Foram dois anos – 4 períodos estudando Freud e Lacan - de convívio com este universo que me capturou definitivamente.

Na época o curso de comunicação social era polivalente, ou seja, não exigia especialização. O selo do meu diploma me habilita ao jornalismo, relações públicas e propaganda/marketing. Como minha inclinação para o jornalismo era evidente fiz meu estágio no jornal, O GLOBO, onde fui absorvida para a editoria de educação – mais tranqüila, assim como a editoria de economia. Ambas ficavam num jirau em cima da “geral”, onde o jornal fervilhava realmente.

Mas, como “comunicóloga da PUC” - como me chamavam carinhosamente os mais experientes - era poupada das correrias e urgências da redação antes do fechamento das matérias do dia. O que era ótimo porque catava milho nas antigas e precárias máquinas de escrever antigas.

Essa foi a minha formação acadêmica.

A segunda é a de pianista e musicista formada aos 16 anos pelo Conservatório Brasileiro de Musica, portanto, alguns anos antes de entrar para a faculdade. As duas formações me levaram a trabalhar na rádio como revisora de programas de música “erudita” da Rádio MEC/ FM e, posteriormente, como produtora executiva, assinei e apresentei meus próprios programas musicais. Nesses programas, que produzia com liberdade quase total, entrevistava artistas e gravava concertos com a equipe técnica da casa.

Aqui se dá novamente meu reencontro indireto com a psicanálise iniciado na faculdade. Minhas entrevistas tendiam para um clima mais intimista. Penso que a intimidade estabelecida com os artistas que entrevistava, e que os conduzia para além da musica e da carreira profissional, reacendeu em mim o desejo de buscar uma formação psicanalítica. Posso dizer que foi um trabalho inovador, nesse sentido, no qual sentia um enorme prazer em viabilizá-lo.Talvez seja importante lembrar que na década de 80, início de 90, que foi o período em que trabalhei na Rádio MEC, não era nada habitual entrevistas na FM, sempre voltada, quase que exclusivamente à programas sobre música, apresentados com toda a pompa que a “música erudita” exigia naquela época.

Ainda trabalhando na rádio MEC iniciei minha formação no IBRAPSI (Instituto Brasileiro de Psicanálise, Grupos e Instituições). Já estava no terceiro ano quando li um anúncio no jornal informando que a Formação Freudiana iniciaria suas atividades em 1993. Apresentei um trabalho, fui entrevistada e aceita como membro adjunto.

Desde então - lá se vão 15 anos! - participo ativamente das atividades institucionais da FF (Formação Freudiana). Tenho orgulho de ter sido a primeira pessoa a me titularizar na FF e a primeira a assumir a coordenação geral substituindo o fundador convocante da instituição, Chaim S. Katz. Mas antes disso fui coordenadora de eventos e coordenadora de ensino, substituindo Daniel Kupermann. A ênfase aqui, para além de uma vaidade evidente, é considerar o respeito e envolvimento mútuo que mantenho com a instituição e com meus colegas de jornada psicanalítica.

Freud Explica: Ao longo de sua formação analítica você deparou com vários autores diretamente ligados à psicanálise e a filosofia. Bourdier, Canetti, Walter Benjamin, Santner aparecem dentre outros. Quais ou autores que mais lhe chamaram a atenção?

Virginia: Desde criança sempre fui muito curiosa e uma leitora de livros compulsiva. Como faz parte da forma como nos encontramos na FF, uma convocação permanente à curiosidade e à leitura de múltiplos autores, incluindo os acima citados, juntou a fome com a vontade de comer. Sem esquecer que, para o bem ou para o mal, Chaim Katz é uma referência de pensador sólido, instigante, inquieto e nada dogmático. Penso que esta marca ele imprimiu à Formação Freudiana, que faz com que seus membros filiados busquem expansão teórica através da singularidade dos encontros que possam estabelecer com esta multiplicidade de autores. A base comum é sempre Freud e o pensamento psicanalítico teórico e a escuta clínica psicanalítica. Quanto às releituras freudianas cada um que encontre a sua.

Freud Explica: O que na teoria ferencziana mais lhe fascina?

Virginia: Pois é. A importância de Ferenczi na história do movimento psicanalítico é inquestionável, ainda que, do meu ponto de vista, não tenha atingido o reconhecimento que sua interlocução com Freud e seus achados teórico/clínico mereçam. Uma prova é a dificuldade de se adquirir os exemplares da sua obra. Acho-o um autor absolutamente contemporâneo. O volume IV das suas obras completas é tão impressionante pela abrangência e compreensão clínicas que surpreende pela atualidade das questões formuladas por ele. Mas o que mais me fascina em Ferenczi é a coragem com que ele se expõe se implica e vai além: “quando falta uma explicação não é proibido experimentar outra”, diz ele, mas absolutamente e rigorosamente dentro dos aportes psicanalíticos. É um pensador teórico rigoroso.

Na verdade, seu conceito de introjeção - no qual o sujeito se constitui junto com seu objeto de investimento, numa mesma laçada – abre a clínica para as idéias de potencialidade, virtualidade e possibilidade de criação estética. Ninguém sai imune a um encontro clínico: nem analista, nem analisando. Nesse sentido, a contratransferência, se admitida como instrumento de trabalho, como contra-força necessária, implica também em considerar e estabelecer outras responsabilidades já que a economia libidinal do analista também está em questão no processo clínico.

Freud Explica: O que é mais importante na clinica da psicanálise?

Virginia: Da parte do analista é estar em condições de estabelecer os seus limites e possibilidades. Ter isso claro para si e para quem lhe confia parte da sua vida. Isso é o ponto de partida fundamental. Quem procura análise, de uma maneira geral, é quem sofre por não saber equilibrar, administrar seu capital afetivo e pulsional, por isso conselhos servem tão pouco. Gosto da metáfora do jogo de xadrez de Freud: entramos no jogo e sabemos das regras, mas as jogadas têm que ser jogadas para ver no que dá.

Freud Explica: Como você vê a visibilidade na psicanálise hoje?

Virginia: Como diria Milan Kundera - não sei bem onde, mas certamente seguindo Freud - o homem começa perguntando de onde vim, para onde vou e o que posso. Essas perguntas nos perseguirão permanentemente. O que ele diz - e o que acho mais interessante - é que mesmo sem essas respostas, sempre poderemos ter formas novas e fascinantes de perguntar. Neste nosso mundo agitado acredito sinceramente que a clínica psicanalítica oferece estas pausas para que possamos nos encontrar com essas nossas perguntas fundamentais, permanentemente. Ou seja, é um lugar privilegiado para isso. Como a vida vive a despeito de nós e tem uma dinâmica que não dominamos e, freqüentemente nos exclui, lidar com isso é sempre um aprendizado, mas acredito que a psicanálise tem instrumentos para acompanhar esta dinâmica. Ou seja, mudam as coordenadas e ela também modifica suas formas de abordagem. Nesse sentido a psicanálise é transdisciplinar e virtualmente atual.

Freud Explica: A psicanálise deve ser regulamentada como profissão?

Virginia: É uma questão complicada, mas que tendo a responder que não. Uma formação psicanalítica passa pelo processo individual de análise, por uma supervisão da contratransferência deste analista em questão e do estudo teórico regular. Sem nenhuma dessas três vertentes não se concebe que alguém possa atender psicanaliticamente outro alguém. Por outro lado, para além do sujeito se reconhecer analista, ele tem que ser reconhecido pelos seus pares e por uma instituição que reconheça quem reconhece. Essas são as únicas direções. Sinceramente? Não sei como regulamentar um processo desta natureza, mas quer saber? Não faz questão para mim.

Freud Explica: Parece que você tem uma espécie de “guru” para cada aspecto da psicanálise como, por exemplo: teoria, Ferenczi; clínica, Fédida; filosofia, Deleuze; ética e psicose, Chaim. Gostaria que você dissesse se é assim mesmo.

Virginia: Acho que sou muito rebelde para ter guru. Aliás, por tudo que disse acima não acredito em guru. Psicanalista deve ter mestres e bons encontros que abram caminhos para novas reflexões e novas possibilidades. Nem Freud era guru de si mesmo.

Freud Explica: Como você vê atuação de um blog como esse na psicanálise?

Virginia: É um ponto de encontro interessante!

Acho uma oportunidade relevante para trocas, e saber o que nossos colegas pensam sobre temas atuais que permeiam o nosso cotidiano. No teu blog específico o que me encanta é o teu encantamento com ele. Como te conheço há anos permito-me este comentário pessoal.

Freud Explica: Quem leu o seu artigo aqui mencionado, teve a oportunidade de deparar com o que você chama de “as novas formas do modo do ser psicanalítico”. Como você avalia esse modo de ser da psicanálise diante da velocidade do mundo atual e a utilização de medicamentos com eficácia rápida?

Virginia: Pois é. Num artigo que escrevi para a revista Pulsional faço uma tentativa de sustentar teoricamente um pensamento para estas questões. Penso que, um bom encontro entre a grandeza da virtualidade da Psicanálise e a modéstia do psicanalista, paradoxalmente, podem fazer diferença, na direção das sutilezas e pequenos detalhes clínicos: e acompanhá-los sem fórmulas mágicas e com o mínimo de preconceitos.

Freud nos seus últimos escritos alerta para a possibilidade da existência de algo no registro do corpo pulsional que não se inscreve como sujeito. Com isso ele quase que destitui a idéia de sujeito, nos instigando a pensar em devir e recriação, por conta de uma desarmonia constitutiva de um corpo pulsional vivo em eterno confronto consigo, com o outro e com o mundo.

Ora, se há uma insubordinação constitutiva, de um aquém - sujeito - para além, esta mitologia freudiana indica que, antes de um sujeito poder se constituir como tal, algo indomável e imprevisível permanece atuante, não se submetendo à "incondicionalidade" previsível dos processos de subjetivação.

Psicanaliticamente, ainda que consideremos um sujeito do inconsciente constituído pelas leis da cultura/civilização, existe algo atuante no homem que não se harmoniza com elas, o que vai colocá-lo em permanente movimento e desassossego, já que esse algo não se encontra no registro do sujeito do inconsciente, mas no registro das pulsões.

Veja a complexidade se aceitarmos como verdade que existe algo no psiquismo que resiste radicalmente à completa absorção do sujeito pela civilização/cultura: esse algo estranho, ficando à parte desse diálogo,vai se configurar como o proto-representante da radicalidade e irracionalidade do ser humano, que tanto pode conduzi-lo aos limites da loucura, do desatino e da paixão, como também, paradoxalmente, pode conduzi-lo às fronteiras da arte, da criação e da singularidade, onde se destaca das regularidades das massas para se afirmar na radicalidade da diferença da sua singularidade

Trazendo esse argumento para a clínica, escutar esses engendramentos é fundamental e a modéstia do psicanalista a que me referi estaria em minimamente oferecer possibilidade de pequenos desvios que potencialize e não que regularize. Penso que assim a clínica psicanalítica escapa de soluções totalizantes para A Violência, As drogas, A hiperatividade e...Ou seja, não existem fórmulas mágicas, temos que acompanhar errâncias ...

Olha só, falei em modéstia, mas posso estar sendo arrogante...

Posso terminar com uma citação? Estava até agora evitando cair nesta tentação, mas adoro esta de Maurice Blanchot: “Se é preciso caminhar e errar, será porque, excluídos da verdade, estamos condenados à exclusão que impede toda a morada?

Esta errância não significa mais uma nova relação com o ‘verdadeiro’?

Não seria também por que este movimento nômade (onde se inscreve a idéia da divisão e separação) se afirma não como a eterna privação de uma estada, mas como uma maneira autêntica de residir, de uma residência que não nos prende à determinação de um lugar, nem à fixação face a uma realidade desde sempre instruída, certa, permanente?” (M. Blanchot)*

*Maurice Blanchot, L´expérience-limite, in L´entretien enfini.

5 comentários:

Rachel disse...

Ai que identificação imensa com a Virgínia e que saudades de vocês lá da Formação.

Tenho que me organizar URGENTE pra voltar, quem sabe já nesse segundo semestre.

Beijos muitos e parabéns a ambos, a entrevista ficou show!

Bjs

Rogério Silva disse...

Rachel

obrigado pelo carinho que você sempre nos acolhe.

abs rogerio

Priscilla Jequitibá disse...

O tempo frio
Aumenta a dor
Meu coração
Distante
Tão distante
Do meu amor

http://prixhoje.blogspot.com/

Mônica disse...

Importante ressaltar a generosidade da Vírginia em falar de psicanálise e "ensinar" psicanálise seja no módulo de Ferenzci que coordena da Formação Freudiana ou numa entrevista maravilhosa como esta.
Parabéns!

Rogério Silva disse...

pricilla jequitibá

noite e dia se confundem,
me confundem ,
me fundem....
perturbam-me o sono e a vigília.

a solidão que não tem cor. nem cheiro,
não tem nome, nem dinheiro
tem fome. tem fome...
tem fome a solidão.

http://pontodeencontroblog.blogspot.com/2008/06/brincadeira-de-criana-ando-pra-l-e-pra.html

abs. rogerio