10 março 2008

MAIS FORTE DO QUE DEUS

Por Rogério Silva

Logo que Jorge entrou, eu vi que o seu olhar tinha algo de estranhamente familiar, embora fosse a primeira vez que eu via aquele rosto. Ele olhava para mim enquanto eu procurava reconhecer aquele olhar. Ficamos assim olhando um para o outro por mais alguns minutos, até que eu lhe perguntei por que me procurou. Contou-me alguns fatos recentes sem grande relevância. Disse, ao final, que algo de grave estava para acontecer. Combinamos um encontro semanal e ele terminou com uma frase que, rapidamente, escapou da minha memória. Isso perturbou-me durante algumas sessões. Um dia ele a repetiu enfaticamente:

- Lembra-se quando eu lhe falei que para me ajudar alguém teria que ser mais forte do que Deus?

É claro que eu me lembrava que algo o fazia fraco, mas o “mais forte do que Deus” foi suprimido da minha mente, e agora estava impresso como uma tatuagem na minha memória. A impregnação era tão forte que acreditei que seria o bastante para observar o seu relato e acompanhá-lo, acolhendo a sua angústia e a sua transferência.

Jorge era jovem e tinha instrução mediana. Era funcionário de um banco de grande porte e ressentia do modo como sua chefe o tratava. Cumpria suas obrigações com esmero e vez por outra era repreendido por uma negligência que não causava nenhum prejuízo. Sobre a sua infância, relatou dois episódios onde a sua vida esteve em risco. Uma quando teve meningite e embora medicado a febre não cedia e ele fora desenganado. A outra foi quando aos treze anos ele teve uma disenteria, tendo como conseqüência desidratação e outros males. Nas duas vezes, foram as preces de sua mãe que o salvaram(?). Seu pai nunca aparecia em seu relato, a não ser para dizer que quando morreu de câncer ele tinha seis anos. Ele era casado com Inês, com quem tinha uma filha de quatro anos. Inês era professora e tinha uma carga de trabalho reduzida para poder cuidar da filha. O orçamento familiar era modesto, mas o suficiente para as despesas domésticas.

Tudo correria bem, não fossem as constantes cobranças de Inês em relação ao sexo. Ele não a atendia. Acreditava que fazer sexo uma vez por semana ou duas por mês era normal. Eles não queriam mais filhos. Ela queria mais sexo. E não bastasse isso, ainda havia Cristina, uma colega de trabalho, que se tornara confidente dele e ultimamente vinha sempre com insinuações sexuais, que ele, evidentemente, as reprimia.

Afora a vida profissional Jorge exercia uma obrigação voluntária que ele entendia ser a coisa mais importante da sua vida. Era ministro de Deus na paróquia do bairro. Como ele mesmo dizia, era a pessoa mais importante na igreja depois do padre. Acreditava que isso era um dom especial que recebera do qual não poderia abrir mão. Cabia a ele fazer as pregações nas missas, as preparações para o batismo, para o casamento, para o encontro com jovens e outras tarefas de cunho dogmático. Para o cumprimento dessas tarefas voluntariosas ele fez um juramento a Deus que reputa como a coisa de maior valor em sua vida. Transmitir a fé importa numa fé incondicional e a sua conduta tem de seguir à risca a sua doutrina.

Algumas vezes sentia-se excitado diante de uma mulher bonita, ou mesmo quando pensava em Cristina. Acordava a noite intumescido ou lambuzado por uma ejaculação espontânea, o que deixava sua mulher profundamente irritada e cada vez mais queixosa.

A sua busca por ajuda veio exatamente no momento em que Inês o ameaçou com a separação. Jorge, como ministro de Deus, não poderia romper um sacramento indissolúvel. Como ela também era muito religiosa, ele acreditava que ela jamais se separaria dele.

Essa beatitude dele me irritava e era nesse momento que eu buscava em minha análise a origem da minha descrença em Deus. A minha primeira comunhão foi desastrosa, pois na confissão eu omiti, propositalmente, alguns pecados e posteriormente, quando contei ao padre este fato, ele minimizou como um fato sem importância. A comunhão é uma brincadeira, pensei. Outra ocorrência foi um livrinho que ganhávamos na primeira comunhão que contava o episódio de um menino de oito anos que tinha o hábito de ir dormir sem fazer as orações noturnas e, por isso, um belo dia, amanheceu morto. Isso foi um tormento em minha vida, até que entendi que esse presságio não me atingiria. Daí para frente os estudos de ciências, da biologia e da evolução darwinista concretizaram a minha descrença, juntamente com a psicanálise.

Foto: Igreja de N. S. do Perpétuo Socorro no Grajaú, Rio de Janeiro, onde fiz a minha primeira comunhão em 1952.

Eu ainda não havia examinado a contratransferência. Ainda não havia feito uma ligação direta entre a minha análise e a analise de Jorge, até o dia em que ele chegou arrasado, visivelmente em frangalhos e chorava copiosamente. Depois de alguns lenços para as lágrimas, ele perguntou:

- E agora, o que será de mim? Minha mulher foi embora com minha filha..., levou tudo o que pode..., pediu para que eu não a procurasse mais... e eu, agora como fico?

Eu senti que a informação, apesar de pungente, era muito pobre para uma intervenção qualquer naquele momento. Perder mulher e filha poderia ser muito doloroso para qualquer pessoa, mas talvez não para Jorge, não parecia que era disso que ele chorava e eu precisava ter cautela e me mostrar presente, então arrisquei:

- E...?

Jorge chorava mais desesperadamente ainda, e em soluços revelou:

- Como eu vou poder continuar como ministro de Deus, se se rompeu o sagrado sacramento do casamento indissolúvel? Eu tenho adiado as palestras e os cursos de noivos, mas até quando? Eu tenho pedido muito a Deus, todos esses dias, para me levar quando eu estiver dormindo, mas não tem jeito, eu acordo no dia seguinte. Se eu não fosse tão... tão covarde, eu mesmo deveria acabar com tudo isso, mas eu não tenho forças contra Deus.

Neste momento havia um pedido muito claro. Ajude-me a viver ou ajude-me a morrer. A minha contratransferência ficou bem nítida. Eu também acordava infalivelmente no dia seguinte em minha fantasia de morte. O olhar que me era familiar no nosso primeiro encontro era o meu próprio olhar de temor a Deus impresso nas fotografias da minha primeira comunhão. Agora sim eu entendia porque Jorge dizia, no início, que alguém para ajudá-lo teria de ser mais forte do que Deus e porque eu esquecera esta frase.

A ajuda que ele obtinha da igreja era de tal modo insuficiente e fraca. Os padres simplesmente lhe diziam que mesmo que estivessem separados, de fato e de direito, o sacramento permaneceria e ele continuaria em paz com Deus. Mas isso não era o suficiente.

Sua tristeza o acompanhava e nas sessões seguintes ia dando lugar, cada vez mais, ao alcoolismo e a desesperança. O emprego ficou ameaçado por faltas e descuidos. Já não falava mais do seu ministeriado na igreja. Eu mesmo me sentia angustiado e desanimado, já não avançávamos na terapia e ao final do sétimo mês ele me pagou com um cheque, como sempre o fizera. Só que desta vez o cheque era sem fundos. Quando fui buscar o cheque pensei tratar-se de algum engano, mas logo senti certo sorriso maroto no canto da boca. Um sorriso que me dizia:

Bem-vindo ao mundo dos pecadores.

Na sessão seguinte simplesmente lhe entreguei o cheque sem dizer uma só palavra e ele se desculpou com mil justificativas, prometendo ressarcir o prejuízo e a única coisa mais interessante que revelou naquele dia foi que teve um caso com Cristina e que provavelmente cederia de vez ao seu assédio.

Como ele faltou as duas sessões seguintes, resolvi telefonar e ele atendeu acenando que não voltaria mais a análise. Tentei dissuadi-lo. Tentei fazer com que viesse discutir isso no consultório. Ele reafirmou a desistência e prometeu pagar o cheque, acrescido das sessões que faltara. Coisa que nunca fez.

Nunca mais eu tive noticias de Jorge e na tive e nem tenho a menor idéia se realmente eu o ajudei de algum modo. Creio mesmo que ele esperava que eu o fortalecesse ou fizesse dele alguém tão forte que pudesse enfrentar e ganhar de Deus. Mas isso estava muito além das minhas possibilidades.

Para Nietzsche só tem o direito de se morrer, quem teve o direito de se viver. Não se trata de ganhar de Deus, mas sim de ser senhor da sua própria morada. Ter o cuidado de si. Viver para Deus é o mesmo que viver para o outro ou para a demanda do outro. E o que a psicanálise pode quando vive-se ou morre-se para a demanda do outro? O que fazer com “deixe a vida me levar”, de Zeca Pagodinho?

(Neste fragmento os nomes e alguns fatos foram trocados por uma questão de ética)

2 comentários:

Very Libertarian disse...

Muito interessante o ponto em que as análises se "cruzam". Mas devo chutar que seu paciente talvez não entendesse mais ter um "problema" a ser trabalhado. Muitos não entendem até onde os psicanalistas pretendem chegar.


Abraço.

Rogério Silva disse...

very libertarian

Quem entende de palavras que se cruzam é a revista Coquetel. Prefiro usar as palavras de Paula Heimann, num congresso em Zurique: ”Minha tese é que a resposta emocional do analista frente ao seu paciente, no âmbito da situação analítica, representa uma das mais importantes ferramentas de seu trabalho. A contratransferência do analista é um instrumento de pesquisa sobre o inconsciente do paciente.
Para ela o que distingue esta relação das outras não é a presença dos sentimentos num parceiro, o paciente, e sua ausência no outro, o analista, mas, sobretudo, que destes é feito um uso diferente e que estes dois fatores estão numa relação de interdependência. A finalidade da própria análise do analista, deste ponto de vista deve torná-lo capaz de admitir os sentimentos que nele emergem, sem descarregá-los (como faz o paciente), a fim de submetê-los ao trabalho analítico no qual funciona como reflexo em espelho do paciente. Daí não se entender como “analises” que se cruzam.
Quando eu digo “Creio mesmo que ele esperava que eu o fortalecesse ou fizesse dele alguém tão forte que pudesse enfrentar e ganhar de Deus. Mas isso estava muito alem das minhas possibilidades” eu estou falando das limitações do analista. As minhas limitações.
O que você chama de “problema” eu entendo como questão (Heidegger, isso daria um post), porque ele tem o resto da vida, ou outro analista para verificar, se quiser. O assunto mais forte aqui é a contratransferência.
abs rogerio