16 outubro 2006

OPINIÃO DE CHICO BUARQUE.

A oportunidade me impele a postar sobre política, sobretudo neste momento que beira o segundo turno das eleições presidenciais.

Pretendia tratar neste blog somente de psicanálise, filosofia, ou outra coisa que dissesse respeito diretamente à psicanálise, mas não se pode ficar em silêncio num momento como este. Nunca alguém foi tão bem aceito num momento, deixando de ser analfabeto para ser inteligente, perspicaz e possuir outras qualidades, para depois ser reduzido ao mais profundo grau de ignorância.

Apedeuta, foi o termo que mais ouvi nestes tempos e me pergunto: será que sabem o significado dessa palavra? Ignorante, ou sem instrução, nos informa o Aurélio. Não ter ido à escola tão somente não faz de ninguém um apedeuta. O matuto que nunca foi à escola não sabe nada do mundo civilizado, no entanto nos dá aulas quando se trata de suas criações. Para que serve o conhecimento do mundo instruído, num lugar onde isso não será necessário? Eu mesmo me sinto um apedeuta quando se trata de física quântica, de mecanismo de atuação de um fármaco qualquer, etc... Como se produz uma TV digital, você sabe? Mas o que mais me causa estranheza é quando comparamos os dois últimos mandatários desta capitania que se pretende partilhar. FHC fez coisas boas? Claro que sim! Mas, e o Lula não fez nada? Apenas bagunça? Não seriam apedeutas estes que teimam em ignorar o que o Brasil (com s) fez nestes últimos quatro anos?

Nos últimos dois posts coloquei textos atribuidos a nada mais nada menos, do que Chico Buarque e Augusto Boal, dois “apedeutas” de muitos assuntos que a vida contemporânea produziu, mas que, quando se trata da questão política do país, isso não se pode dizer.

Tenho opiniões de pessoas reconhecidamente sábias que opinam nos dois sentidos, mas eu considero um excesso para este tipo de blog. Não quero fazer um Fla x Flu eleitoral, quando quero consulto o Noblat que é bem farto neste quesito.

Freud já dizia que o professor, o psicanalista e o político, são profissões impossíveis. Sou professor e psicanalista, mas daí ser político é "over" demais para mim. Me basta apenas, ser político, no exercício da cidadania, como faço agora.

Rogério Silva


"Chico Buarque: lucidez e coerência"


A cada uma de suas entrevistas, o compositor e cantor Chico Buarque de Holanda sempre surpreende por sua lucidez e enorme coerência. Agora, no lançamento do seu novo CD, Carioca, ele novamente brilhou ao falar sobre a situação política brasileira. A direita deve ter ficado furiosa, com saudades dos tempos da ditadura militar que o perseguiu e censurou; a esquerda "rancorosa" deve ter ficado ressentida com seus irônicos comentários; já os setores da sociedade que, mesmo críticos das limitações do governo Lula, não perderam a perspectiva, ganharam novo impulso criativo para a sua atuação. Mas é melhor deixar o poeta falar, pinçando trechos das suas entrevistas na revista Carta Capital e no jornal Folha de S.Paulo:

Sobre a crise política: É claro que esse escândalo abalou o governo, abalou quem votou no Lula, abalou sobretudo o PT. Para o partido, esse escândalo é desastroso. O outro lado da moeda é que disso tudo pode surgir um partido mais correto, menos arrogante. No fundo, sempre existiu no PT a idéia de que você ou é petista ou é um calhorda. Um pouco como o PSDB acha que você ou é tucano ou é burro (risos). Agora, a crítica que se faz ao PT erra a mão. Não só ao PT, mas principalmente ao Lula. Quando a oposição vem dizer que se trata do governo mais corrupto da história do Brasil é preciso dizer 'espera aí'. Quando aquele senador tucano canastrão diz que vai bater no Lula, dar porrada, quando chamam o Lula de vagabundo, de ignorante - aí estão errando muito a mão. Governo mais corrupto da história? Onde está o corruptômetro? É preciso investigar as coisas, sim. Tem que punir, sim. Mas vamos entender melhor as coisas. A gente sabe que a corrupção no Brasil está em toda parte. E vem agora esse pessoal do PFL, justamente ele, fazer cara de ofendido, de indignado. Não vão me comover...

Preconceito de classe.

O preconceito de classe contra o Lula continua existindo - e em graus até mais elevados. A maneira como ele é insultado eu nunca vi igual. Acaba inclusive sendo contraproducente para quem agride, porque o sujeito mais humilde ouve e pensa: 'Que história é essa de burro!? De ignorante!? De imbecil!?'. Não me lembro de ninguém falar coisas assim antes, nem com o Collor. Vagabundo! Ladrão! Assassino! - até assassino eu já ouvi. Fizeram o diabo para impedir que o Lula fosse presidente. Inventaram plebiscito, mudaram a duração do mandato, criaram a reeleição. Finalmente, como se fosse uma concessão, deixaram Lula assumir. 'Agora sai já daí, vagabundo!'.

É como se estivessem despachando um empregado a quem se permitiu o luxo de ocupar a Casa Grande. 'Agora volta pra senzala!'. Eu não gostaria que fosse assim.

Eu voto no Lula!

A economia não vai mudar se o presidente for um tucano. A coisa está tão atada que honestamente não vejo muita diferença entre um próximo governo Lula e um governo da oposição. Mas o país deu um passo importante elegendo Lula. Considero deseducativo o discurso em voga: 'Tão cedo esses caras não voltam, eles não sabem fazer, não são preparados, não são poliglotas'. Acho tudo isso muito grave. Hoje eu voto no Lula. Vou votar no Alckmin? Não vou.

Acredito que, apesar de a economia estar atada como está, ainda há uma margem para investir no social que o Lula tem mais condições de atender.

Vai ficar devendo, claro. Já está devendo. Precisa ser cobrado. Ele dizia isso: 'Quero ser cobrado, vocês precisam me cobrar, não quero ficar lácercado de puxa-sacos'. Ouvi isso dele na última vez que o vi, antes dele tomar posse, num encontro aqui no Rio.

Sobre o PSOL

Percebo nesses grupos um rancor que é próprio dos ex: ex-petista, ex-comunista, ex-tudo. Não gosto disso, dessa gente que está muito próxima do fanatismo, que parece pertencer a uma tribo e que quando rompe sai cuspindo fogo. Eleitoralmente, se eles crescerem, vão crescer para cima do PT e eventualmente ajudar o adversário do Lula.

Papel da mídia.

Não acho que a mídia tenha inventado a crise. Mas a mídia ecoa muito mais o mensalão do que fazia com aquelas histórias do Fernando Henrique, a compra de votos, as privatizações. O Fernando Henrique sempre teve uma defesa sólida na mídia, colunistas chapa-branca dispostos a defendê-lo a todo custo. O Lula não tem. Pelo contrário, é concurso de porrada para ver quem bate mais.

3 comentários:

Camila Mendes disse...

entao,sendo assim, desejo que faça um excelente proveito de seu país com esse espetacular governo.Podes ate achar que não mudaria com os "tucanos",porém pior do que está não ficaria.Não entendo como pessoas bem instruidas podem ser tão cegas como você está sendo.

Camila Mendes de novo disse...

Oh sim, e quanto ao elo do Lula com os traficantes, e o Foro de Sao Paulo?
Nao me venha dizer que a midia so escondeu as coisas do FHC...ou vai me dizer que a midia divulga isso que eu citei?
E o povo...ah, o povo nao sabe de nada, apenas os que tem interesse e buscam na internet, o unico meio pelo qual voce pode buscar informaçoes melhores sobre politica

Rogério Silva disse...

Oi Camila
Como eu disse no blog, não desejo fazer "flaxflu" eleitoral por razões óbvias. Não se trata de alguma coisa que se decidirmos mal agora o próximo campeonato é logo ali, pode ser que a coisa vire. Não, trata-se de decidir o futuro de uma nação. Eu considero o processo eleitoral atual muito ruim e essa eleição foi exemplar. Não tivemos de escolher entre um candidato qualquer e um menos ruim. Na minha visão tinhamos um ruim (Lula) e um mais ruim (Alckmin). Ganhou o ruim. Lamento, mas a regra do jogo era essa. Espero que nós, ataves desse meio que possuimos, possamos mudar isso no futuro.